Samora Machel – O Papel da Saúde na Revolução

Samora Machel descreve um hospital revolucionário onde qualquer pessoa pode receber tratamento adequado, e todos – dos médicos à equipe de limpeza – são tratados da mesma forma.

Samora Machel, um revolucionário marxista, foi o primeiro presidente de Moçambique, a partir da independência do país, em 1975. Esse é o trecho de um discurso que ele fez na abertura de um curso para quadros de saúde, em novembro de 1971, que pode ser encontrado em Moçambique: Plantando as Sementes da Revolução (Frente de Libertação de Moçambique – FRELIMO, 1975), no site Marxists.

Também disponível no site New Frame.

Tradução por Thárin Radin.


Camaradas,

Hoje estamos iniciando um novo curso para treinamento de enfermeiros. Em 1968, fomos forçados a suspender tais cursos e eles foram paralisados por três anos. Por três anos nossa luta e nosso povo foram privados de novos quadros de saúde. Nos últimos três anos combatentes morreram por falta de cuidados médicos, civis morreram, crianças morreram, porque não estávamos em condição de prover mesmo a mínima ajuda médica. Em muitas das áreas libertadas, e para a maioria das pessoas, os últimos três anos não foram de luta contra doenças. Nosso povo foi esquecido, como no período colonial, durante esses três anos.

Três anos atrás nos engajamos na batalha para treinar quadros de saúde. Perdemos a batalha naquela época. Não há guerra em que haja apenas vitórias para nós e derrota para o inimigo.

Perdemos a batalha porque a consciência política de nossos estudantes de enfermagem não permitia uma verdadeira compreensão do significado e importância da batalha que estava sendo travada, e eles permitiram que o inimigo penetrasse no meio deles.

Em 1968, nossa luta armada fez grandes avanços. Estávamos bombardeando bases inimigas e as tomando de assalto. Estávamos tomando prisioneiros de guerra portugueses e capturando toneladas de armas. Reabrimos a frente de batalha em Tete.

A luta essencial pelo esclarecimento de nossa linha política e pelo desenvolvimento de nossa ideologia tornou bem claros para todos nós os objetivos populares das forças revolucionárias.

Essa luta envolveu os trabalhadores da saúde. Era também uma luta entre duas linhas no campo da saúde. Era uma luta em defesa dos interesses da população nesse campo.

O que é um hospital da FRELIMO e quais são suas funções?

A princípio, pode parecer absurdo falar sobre uma linha política, uma luta entre duas linhas no campo da saúde. A princípio pode-se pensar que a FRELIMO deseja politizar algo aparentemente tão neutro como a saúde. Em última análise, aqueles que acreditam em saúde apolítica poderiam dizer que penicilina e cloroquina têm o mesmo efeito, quer sejam administrados por um revolucionário ou não, quer sejam ofertados em um hospital da FRELIMO ou em um hospital colonial.

Porém, todas as nossas ações, toda nossa vida, é total e radicalmente diferente das ações e vida nas zonas inimigas.

Na zona inimiga, na zona colonialista, na zona capitalista, tudo é destinado a manter a dominação sobre o povo, a manter a exploração do povo e a prover lucro para os capitalistas.

Na zona capitalista, na zona colonialista, as estradas servem ao transporte rápido do exército e policiais que te prendem e te levam para trabalhos forçados. Estradas são rotas mais rápidas para vir coletar impostos. Estradas são usadas para transportar o algodão que você produziu mas que pertence à companhia. Elas são usadas pelo comerciante que vem vendê-lo de volta a você, a preços fantásticos, bens que você e seus companheiros de classe produziram, e pelos quais os colonos pagam preços miseráveis.

Na zona inimiga, escolas são para os filhos dos ricos, apesar de serem nossos impostos que as financiam. Se, por um milagre, o filho de um homem pobre às vezes vai à escola, não é para aprender a servir seu povo. Ele sofrerá lavagem cerebral na escola até se envergonhar de suas origens, e ser transformado em um instrumento dos ricos para futura exploração dos trabalhadores.

Tudo tem um conteúdo determinado pela zona onde está, pelo tipo de poder que prevalece nessa zona. Na zona capitalista e colonialista, escolas, campos, estradas, tribunais, lojas, tecnologia, leis e educação – tudo serve para nos oprimir e explorar.

Em nossa zona, porque nós temos o poder, porque são os camponeses, os trabalhadores, as massas que planejam e dirigem, tudo está orientado a libertar o homem, a servir o povo. Isso é o que acontece com os hospitais, os serviços de saúde.

Na zona capitalista e colonialista, os hospitais estão entre os centros de exploração. Porque o que está em jogo é a vida de uma pessoa, as vidas dos mais próximos e queridos, é aqui onde a ganância do mundo capitalista se mostra mais clara e desavergonhadamente.

Não se pode entrar em um hospital capitalista e ser tratado de acordo com suas necessidades. Se alguém é pobre e sem poder de influência, é difícil conseguir um leito de hospital, mesmo se o câncer estiver devorando sua carne, a tuberculose corroendo seus pulmões ou a febre queimando seu corpo. O homem rico, cavalheiro, o patrão, não tem a menor dificuldade em conseguir um quarto, em encontrar um lugar para si e aqueles que o acompanham.

Médicos eminentes e professores universitários são trazidos para tratar a gripe do capitalista, para curar a constipação do juiz, enquanto as crianças próximas estão morrendo, pessoas estão morrendo, porque não tinham dinheiro para chamar um médico.

Em um hospital capitalista eles não examinam pacientes, examinam riqueza. A medicina é vendida por seu peso em ouro. Apenas aqueles que conseguem pagar são tratados. Comida, dieta especial, frutas, leite, salada, carne e peixe fino restauram a força do convalescente. Mas são dados apenas àqueles que podem pagar, não àqueles que necessitam. Até a ambulância enviada em uma emergência para buscar alguém que está morrendo, muitas vezes volta vazia porque a família do moribundo não pode garantir o pagamento da conta.

Na zona inimiga, o cachorro do homem rico recebe mais vacinas, remédios e cuidados médicos que os trabalhadores em cima de quem a riqueza desse homem é construída.

Não é surpreendente, portanto, que na zona inimiga ser um médico signifique ser rico, e ser enfermeiro signifique um salário muito alto. Ser um médio é gozar de uma posição social de destaque como explorador, ser um enfermeiro significa gozar de muitos privilégios.

No Moçambique dos colonialistas e capitalistas há hospitais onde há colonos. Somente há médicos e enfermeiros que as pessoas possam pagar em dinheiro vivo. Em Lourenço Marques há mais leitos hospitalares, mais médicos, mais enfermeiros e mais laboratórios que em todo o resto de Moçambique. Isso significa que Lourenço Marques é o único lugar em que as pessoas adoecem?

Nas minas onde trabalhamos, nas plantações da empresa que cultivamos, nas estradas que construímos, nas fábricas, nos campos, nas vilas, há milhões de moçambicanos que nunca viram um médico, que nunca viram um enfermeiro, que nunca tiveram nenhum tipo de cuidado médico quando estão doentes.

Nosso hospital é diferente. Não são instrumentos cirúrgicos, ou remédios que fazem um hospital. Claro que são importantes, mas o principal, o fator decisivo, é o fator humano. É por isso que hoje, pela primeira vez, as populações de Cabo Delgado, Niassa e Tete estão recebendo cuidados médicos, vacinas e ensino de higiene nas vilas. Porém, ainda temos muito poucos remédios, muito poucos instrumentos cirúrgicos, e nossos prédios são tão modestos que por fora mal podemos distingui-los das cabanas de capim comuns.

Nossos hospitais pertencem ao povo. Eles são fruto da revolução. Nossos hospitais são muito mais que centros de dispensação de medicamentos e curas. Um hospital da FRELIMO é um centro onde nossa linha política – aquela de servir às massas – é colocada em prática. É um centro onde nosso princípio de que a revolução liberta o povo se torna uma realidade.

Nossos hospitais são destinados a libertar as pessoas da doença, para tornar nossos combatentes, militantes e trabalhadores fisicamente aptos a cumprir as tarefas revolucionárias em que estão engajados. Curamos pessoas pela confiança que inspiramos, pelo moral elevado que incutimos nelas. Trabalhadores da saúde, pacientes e medicamentos se combinam para libertar as pessoas das doenças.

Nossos hospitais são centros da revolução, eles existem por causa da revolução e estão intimamente associados à revolução.

Enquanto os hospitais capitalistas têm vínculos com os exploradores, os colonos, porque são a eles que servem, nossos hospitais têm vínculos com o povo, porque estão lá para servi-los. Assim, nosso hospital é um centro de unidade nacional, um centro de união de classe, um centro de esclarecimento de ideias, um centro de propaganda revolucionária e organizacional, uma unidade de combate, equipe médica, estudantes, enfermeiros, pacientes e a sociedade como um todo intimamente unidos.

Em um hospital da FRELIMO não há tribos, regiões, raças, crenças religiosas – não há nada a nos dividir. O hospital está cumprindo uma tarefa revolucionária. A equipe médica, estudantes, enfermeiros, estão carregando as tarefas essenciais confiadas a eles pelo povo. Todo o povo, de Rovuma a Maputo, por meio de seus sacrifícios e sangue derramados, construiu esse hospital para servi-lo, para libertá-lo da doença. Ninguém é enviado para trabalhar em um hospital por qualquer tribo ou região.

À medida que os pacientes sentem a união daqueles que trabalham no hospital, de médicos a zeladores, eles irão se unir à equipe médica e não-médica, e eles irão somar esforços para eliminar a doença. Se houver desunião, haverá desconfiança; o paciente irá recusar medicação por medo de que o tratamento que está recebendo vá piorar sua condição.

Todos nós estamos unidos no cumprimento de nossas tarefas. Não há tarefas servis ou irrelevantes, porque eu posso ser um zelador e outra pessoa ser um enfermeiro ou médico. Todas as nossas tarefas são essenciais, mesmo que nossas responsabilidades possam ser diferentes. Sentir qualquer complexo de inferioridade no cumprimento de nossas tarefas e se preocupar se estamos recebendo trabalhos grandes ou pequenos significa uma falta de consciência de classe. Todos nós viemos do povo trabalhador e estamos servindo o povo trabalhador. Nossa tarefa, portanto, é enorme. Qualquer outra atitude reflete apenas o elitismo, a busca de privilégios, a perda da consciência de classe e adoção de ideias burguesas.

Assim como nos desinfetamos na entrada de um centro cirúrgico, devemos nos limpar de ideias incorretas e complexos que podem contaminar nosso hospital. Assim como colocamos máscaras e aventais, devemos sempre estar armados com união e consciência de classe, para servir o povo de forma revolucionária. Desse modo, nosso hospital realmente será um centro de propaganda revolucionária e organizacional, um exemplo concreto da correção de nossa linha política – uma verdadeira zona da FRELIMO. Assim, um hospital cumpre nossas tarefas combatendo doenças, moldando pessoas e produzindo.

A produção não pode ser separada de nosso trabalho de saúde. Um hospital precisa de comida. Muitas vezes a população local e a FRELIMO são incapazes de suprir o hospital porque estamos em guerra, porque o inimigo está nos atacando, porque nossa produção é um dos alvos do inimigo. Um hospital deve, portanto, tentar contar com seus próprios recursos, para ser tão auto suficiente em alimentação quanto possível.

Por outro lado, não devemos esquecer a importância de uma dieta adequada no correto tratamento de uma doença. Os pacientes precisam comer corretamente para se recuperarem. Frutas, saladas, vegetais, carne, ovos, peixe e leite são os alimentos que contêm vitaminas, sais minerais e proteínas que fortalecem o corpo para combater a doença.

Sendo um hospital um centro de produção, também é um centro para educação de pacientes. Não devemos negligenciar qualquer oportunidade de elevar a consciência e o conhecimento político de nosso povo. Em nossos hospitais não deve haver inatividade nem preguiça. Além disso, a experiência tem demonstrado que envolver pacientes, especialmente os convalescentes, em atividades eleva seu moral e é uma importante contribuição em sua recuperação.

Dito isso, gostaríamos de sugerir que nossos hospitais se esforcem constantemente para ampliar seu leque de atividades em cooperação com o Comissariado Político e o Departamento de Educação e Cultura. Devemos ensinar aos pacientes e convalescentes a ler e escrever, ensinar português e fazer com que conheçam, compreendam e considerem como sua a riqueza cultural de todo o nosso país.

Devemos organizar cursos de curta duração de higiene para pacientes, para que eles adquiram bons hábitos de higiene, que previnem muitas doenças.

Queremos que todos que venham aos nossos hospitais para tratamento se tornem ativos disseminadores de métodos de higiene quando saírem. Também devemos lembrar que, em muitas regiões do nosso país, o povo tem hábitos alimentares muito ruins. É importante que as pessoas adquiram novos hábitos alimentares; portanto, devemos fazer cursos de curta duração para os pacientes nos hospitais, especialmente para as mães, explicando a elas o valor nutricional de diversos alimentos, e até como prepará-los.

Nunca podemos negligenciar o trabalho político, pois essa tarefa tem sempre a primeira prioridade. A permanência de um paciente no hospital deve servir para elevar sua consciência da unidade nacional, sua determinação para lutar e seu ódio ao inimigo explorador.

Agora será visto porque definimos um hospital da FRELIMO como um de nossos destacamentos de combate, uma linha de frente.

Nossos enfermeiros, nossa equipe médica, além de possuir tarefas específicas, também são instrutores, professores e comissários políticos. A atividade de nossa equipe médica cura não só o corpo como também liberta e forma a mente. O inimigo entende isso muito bem – tão bem que tornaram nossos hospitais um dos principais alvos de seus bombardeios e de suas tropas criminosas.

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