Shireen Abu Akleh – A mídia foi o ator mais poderoso durante a Rebelião Popular

Originalmente publicado no site Palestine Studies.

Tradução por Gustavo F. Costa e Silva.

Este texto foi escrito por Shireen Abu Akleh em 2016 para o Majallat al-Dirasat al-Filastiniyyah. Nele, ela discute o papel da cobertura da mídia nas revoltas palestinas, especificamente a “Rebelião Popular” do final de 2015 e início de 2016, que começou como uma resposta aos ataques israelenses ao complexo da Mesquita de al-Aqsa, em Jerusalém. O artigo discute as formas complexas nas quais a mídia e as redes sociais interagem com a resistência e a oposição palestina à ocupação. O Instituto de Estudos da Palestina está traduzindo e republicando-o para celebrar o trabalho de uma valente e crítica jornalista que foi baleada a sangue frio por militares israelenses durante a reportagem sobre o último ataque israelense aos palestinos sob ocupação. O texto é ainda mais pungente ao discutir os ataques israelenses à mídia, a prontidão dos militares israelenses em usar força letal contra civis desarmados e as maneiras pelas quais Israel tenta negar a culpa por crimes cometidos contra palestinos sob a ocupação. Também reflete sobre o fato de que os mártires palestinos mortos pelos militares israelenses são frequentemente retratados como heróis e modelos pela mídia local palestina, quer queiram ou não ser vistos como tal.


Embora alguns meses já tenham se passado desde a recente rebelião, ainda são necessárias muitas pesquisas e análises para determinar as causas que levaram ao seu início, sem mencionar o curso particular que ela tomou e suas consequências. Há inclusive um debate considerável sobre como rotulá-lo. Enquanto alguns a chamavam de “Revolta de Al-Aqsa”, outros preferiram chamá-la de “Revolta dos Indivíduos”, uma vez que se caracterizava principalmente por ações individuais. Ainda outros chamaram de “Revolta de Jerusalém”. Mas a expressão mais comum entre os palestinos foi “Rebelião Popular” (al-habba al-sha’biyyah), sob a alegação de que não chegou ao nível de uma insurreição (intifada). No entanto, a “rebelião” (habbah) perdeu seu caráter popular poucas semanas depois de seu início, fato que alguns atribuíram à ausência de vontade política de transformá-la em um terceiro levante, seja por parte da liderança palestina ou das facções políticas.

A rebelião não se distinguiu apenas por seu individualismo, mas também por sua jovialidade. De acordo com um relatório publicado pelos serviços de segurança interna israelenses Shin Bet, em fevereiro de 2016, cerca de metade dos que participaram das operações iniciadas em outubro de 2015 eram jovens com menos de vinte anos. Um grande número também veio de origens familiares estáveis. Esses dados merecem uma análise mais aprofundada.

Os meios de comunicação, incluindo as redes sociais, desempenharam papel ativo na divulgação dos sucessivos acontecimentos da rebelião. A evidência mais clara desse papel é o fato de que muitos dos que participaram de operações militantes postaram declarações em suas contas pessoais nas redes sociais antes de concretizá-las. Eles foram clara e fortemente influenciados pelas imagens que viram e eventos sobre os quais leram a respeito da Cisjordânia, incluindo Jerusalém.

O mártir Muhannad Halabi postou uma série de mensagens em sua conta no Facebook que demonstram claramente que a situação no complexo da mesquita de al-Aqsa, que precedeu diretamente a rebelião, teve impacto direto sobre ele. Ele ficou especialmente comovido com a repressão das mulheres que estavam em vigília no complexo (al-murabitat), que foi amplamente coberto pela mídia.

Outros mártires também foram influenciados pelas imagens das operações realizadas por jovens palestinos. O mártir Ra’id Jaradat foi claramente afetado com o martírio de Dania Rashid, uma jovem morta perto da mesquita Ibrahimi em al-Khalil (Hebron) e cuja fotografia foi publicada na mídia. A última coisa que ele postou em sua página no Facebook foi a imagem dela manchada de sangue com o comentário: “Imagine se essa fosse sua irmã”.

Isso me traz à mente uma cena que ouvi falar em primeira mão. A mãe do mártir Sa’d al-Atrash me disse que ela e seu filho estavam comendo juntos enquanto assistiam ao noticiário quando ele de repente parou de comer. Ela lhe perguntou: “Por que você parou?” Ele respondeu: “Como posso comer quando há essas imagens nos noticiários?” Então ele foi para seu quarto para orar, deixou seu telefone para trás e saiu. Logo depois, ela ouviu a notícia de seu martírio na televisão.

O mártir Amjad al-Sukkari, que era sargento das forças de segurança palestinas, também ficou comovido com a cobertura do assassinato israelense na mídia e escreveu em sua página no Facebook: “Sobre esta terra está o que merece a vida” (um verso do poeta Mahmud Darwish), acrescentando: “Mas, infelizmente, não vejo nada digno de vida enquanto a ocupação estiver sufocando nossa respiração e matando nossos irmãos e irmãs”. Ele concluiu, dirigindo-se diretamente aos mártires: “Vocês nos precederam e nós os seguiremos”.

A última vontade do mártir Baha’ ‘Alyan foi amplamente divulgada nas redes sociais, especialmente no Facebook e Twitter. Ele lança luz sobre as ideias e processos de pensamento dos jovens que iniciaram a rebelião, tendo ainda enorme impacto em outras pessoas de sua geração. Dizia, em parte: “Peço às facções políticas que não abracem meu martírio. Minha morte foi para a nação, não para eles. Não quero minha foto em pôsteres ou camisetas. Minha memória não será reduzida a um mero pôster pendurado na parede. Convido você a não sobrecarregar minha mãe com suas perguntas, que são apenas projetadas para tocar as emoções de seu público. Não plante ódio no coração de meu filho, deixe-o descobrir sua pátria, e deixe-o morrer pelo bem de sua nação, não para vingar a morte de seu pai”.

Como a mídia contribuiu para a rebelião?

A mídia palestina, sem dúvida, desempenhou papel vital ao relatar os eventos na Cisjordânia e transmitir as notícias à opinião pública local e global. A ampla presença de meios modernos de comunicação, smartphones, redes sociais e estações via satélite locais contribuíram para a rápida disseminação de notícias, mesmo quando os eventos ocorriam em áreas remotas e distantes dos centros urbanos.

Mas, além de reportar as notícias, a mídia conseguiu garantir algumas conquistas limitadas para os palestinos, principalmente no apoio ao movimento popular que defende a devolução dos corpos dos mártires, que foram mantidos por Israel durante os primeiros três meses da rebelião. Em 27 de outubro de 2015, cerca de 20.000 palestinos em al-Khalil (Hebron) participaram de um protesto que pedia a recuperação dos corpos dos mártires, especialmente das duas mulheres, Bayan ‘Asayla e Dania Rashid. Vários dias depois, Israel iniciou o processo de devolução de todos os corpos.

Como um claro sinal de influência da mídia, Israel colocou uma série de condições para devolver os corpos dos mártires, especialmente na área de Jerusalém, que está sob total controle israelense. Entre as condições estava a limitação do número de participantes do funeral e a proibição de presença midiática. Isso foi justificado pelas forças de ocupação como forma de evitar a divulgação de cenas de despedida de mártires como heróis, imagens que antes já eram veiculadas pela mídia.

A mídia era às vezes até mesmo fonte de informação para as famílias dos mártires. Em várias ocasiões, quando cobria eventos para a Al-Jazeera, perguntava à família de um mártir: “Como você soube do martírio de seu filho?” E a resposta muitas vezes era: “Da mídia”.

Alguns podem dizer que a mídia foi inadequadamente rápida em relatar os nomes das vítimas, e há alguma verdade nisso. Mas é também um reflexo da ausência de qualquer órgão oficial palestino cuja responsabilidade seja informar as famílias dos mártires, como é o caso em muitos países, incluindo Israel, onde os nomes das vítimas não podem ser publicados até que a família seja informada.

Não é de surpreender que Israel considere a mídia como um agitador contra a ocupação e tome medidas extremas contra os meios de comunicação, como fechar três estações de rádio em al-Khalil (Hebron) e confiscar todos os seus equipamentos. Essas estações eram Manbar al-Hurriya (Fórum da Liberdade), Idha’at al-Khalil (Al-Khalil Broadcasting), Idha’at Dream (Dream Broadcasting). Também ameaçou fechar a Radio Nas (Rádio do Povo) em Jenin e a Radio One FM em al-Khalil. Dezenas de jornalistas foram feridos por Israel com munição real e balas revestidas de borracha durante suas reportagens. E pelo menos 19 foram presos no ataque mais recente, incluindo: Muhammad Qaddumi, ‘Ali al-‘Awaywi, Usama Shahin, Mujahid al-Sa’di. O mais proeminente entre os encarcerados é Muhammad al-Qayq, que se recusou a ser mantido em detenção administrativa e empreendeu uma greve de fome que durou 94 dias, que terminou com a suspensão de sua detenção administrativa, mas somente depois que sua saúde se deteriorou e sua vida estava ameaçada.

A guerra de imagens

Na rebelião mais recente, a mídia foi então capaz de minar a narrativa israelense – senão a refutar inteiramente – quando se tratou do martírio de muitos jovens homens e mulheres, principalmente nos casos em que não houve vítimas israelenses. Ficou claro durante a recente rebelião que os soldados israelenses não hesitariam em puxar o gatilho contra palestinos sob a menor suspeita de sua intenção de realizarem alguma operação. A mídia também conseguiu levantar questões sobre o assassinato de suspeitos por Israel, muitos dos quais menores, quando não havia nenhuma necessidade. As imagens nitidamente mostraram diversos casos em que palestinos foram executados, embora não representassem ameaça à vida dos soldados. Uma delas foi a execução da jovem mártir Hadil ‘Awwad, que tinha apenas 14 anos, na cidade de Jerusalém, por um oficial de segurança israelense, mesmo depois de ela já ter sido ferida e caído ao chão.

Em 14 de outubro de 2015, soldados israelenses abriram fogo contra um jovem, Basil Sidr, em Bab al-‘Amud (Portão de Damasco), na Jerusalém ocupada, sob o pretexto de que ele havia tentado esfaquear soldados israelenses. Fontes da mídia analisaram as imagens do mártir, uma das quais o mostrava segurando uma faca na mão. Alguns alegaram que a imagem havia sido adulterada por Israel, já que outra fotografia dele circulada pela mídia não mostrava uma faca. Se nada mais, isso levantou dúvidas sobre a narrativa israelense.

Israel também tentou usar os meios de comunicação para propagar sua própria narrativa, uma vez que muitas operações ocorreram perto de postos militares equipados com câmeras. A mídia divulgou fotos dos dois primos, Hasan Manasra (15 anos) e Ahmad Manasra (13 anos), acusados ​​de uma ação de esfaqueamento no assentamento de Pisgat Ze’ev, perto de Jerusalém. Israel tentou provar que um deles carregava uma faca, depois que vídeos feitos por testemunhas oculares circularam mostrando um deles, Ahmad, no chão, sendo atropelado no local por um carro. Seu corpo estava deitado no chão e ao fundo se ouvia xingamentos em hebraico e gritos para que ele morresse. Enquanto isso, forças de segurança israelenses podiam ser vistas impedindo que paramédicos se aproximassem dele. Essas imagens geraram indignação generalizada entre os palestinos e afetaram a opinião pública mais ampla. Dias depois, as autoridades israelenses publicaram imagens do menino sendo alimentado em um hospital israelense, na tentativa de amenizar os danos causados ​​à imagem internacional de Israel após a circulação de sua imagem quando estava ferido. Mais tarde, descobriu-se que a pessoa que o alimentava no hospital era seu advogado.

As facções e as lideranças

É difícil discutir a recente rebelião sem ao menos mencionar o papel das lideranças e das facções políticas palestinas. Ou talvez fosse mais correto dizer: sem mencionar sua ausência. Após anos de impasse político e da divisão em curso entre as duas partes da nação, e à luz da incapacidade das facções políticas de efetuar qualquer mudança no cenário político, surgiu um sentimento geral de alienação entre a geração mais jovem e as lideranças políticas.

No que diz respeito ao papel da geração mais jovem, iniciativa particularmente memorável foi a levada a cabo por ativistas da Resistência Popular em dezembro de 2012 e janeiro de 2013, que consistiu na criação da aldeia “Bab al-Shams” (Porta do Sol) numa extensão de terra ameaçada de expropriação em benefício de se tornar assentamento israelense. A aldeia era uma encarnação do célebre romance Bab al-Shams, do escritor libanês Elias Khoury. Foi um testemunho da criatividade da geração mais jovem e seu ímpeto em resistir à ocupação, sendo adotado mais tarde pelas facções e lideranças. Bab al-Shams foi um modelo do que poderia ser realizado pelos jovens e gerou grande interesse entre o público em geral e nos meios de comunicação. Dias depois após ter sido estabelecida, Israel destruiu a aldeia e impediu violentamente tentativas semelhantes, e os jovens homens e mulheres não foram capazes de dar continuidade a esse experimento pioneiro.

Desde então, a alienação entre as lideranças políticas e os jovens palestinos cresceu. Enquanto isso, o nível de opressão praticado diariamente pelas autoridades de ocupação também aumentou. A imagem do mártir como herói e modelo preenchia o vácuo vivido pela juventude. E a mídia certamente desempenhou um papel no reforço dessa imagem e na sua divulgação.

A imagem do mártir na mídia

A mídia local geralmente propaga a imagem do mártir como um modelo e um herói. As famílias dos mártires são por muitas vezes convocadas a glorificar o martírio, independentemente de seus reais sentimentos. Em 27 de outubro de 2015, eu estava cobrindo o funeral de Iyad Jaradat, martirizado na cidade de Sa’ir, a nordeste de al-Khalil (Hebron), onde foi alvejado na cabeça durante confrontos contra as forças de ocupação israelense. Aproximando-me de sua mãe antes da chegada do corpo, refleti a respeito do que poderia perguntá-la. Assim que pedi permissão para entrevistá-la, parentes que estavam ao seu lado começaram a repetir frases usadas após um martírio. “Diga a eles que ele morreu por causa de al-Aqsa, a nação, a Palestina; e Jerusalém”. Então reformulei minha pergunta: “É algum consolo para você que seu filho tenha morrido por causa de al-Aqsa?”. Ela levantou um dedo para indicar negação e disse: “Não, nada pode ser um consolo”.

Apesar do papel crucial que a mídia desempenhou ao enfatizar o lado humano dos mártires e suas histórias pessoais, garantindo que muitos deles não fossem apenas nomes a serem adicionados à lista de mártires, a imagem estereotipada ainda é presente.

Erros na cobertura

Alguns canais de televisão via satélite palestinos transmitiram cobertura contínua dos eventos recentes. Apesar de terem desempenhado um papel vital na cobertura dos eventos, foram também vítimas de muitos erros, notadamente o interesse em divulgar notícias mesmo às custas da precisão. A concorrência com as redes sociais pode ter pressionado algumas fontes de notícias a transmitir informações antes de confirmada a precisão.

Um dos exemplos mais destacados de tais equívocos por parte dos meios de comunicação, bem como dos canais em redes sociais, foi a publicação prematura do nome da pessoa que executou a operação Naqab em meados de outubro de 2015. Antes de confirmar a precisão da informação, foi alegado que Sam al-A’raj, um jovem de Jerusalém, havia realizado a operação. Porém, mais tarde se descobriu que o homem que realmente realizou a operação era de Naqab (Negev) e havia morrido como mártir. Antes que isso se tornasse amplamente conhecido, Sam se entregou às autoridades de ocupação para demonstrar que não havia participado da operação. As autoridades israelenses, no entanto, o submeteram a um duro interrogatório e fizeram acusações contra ele, incluindo uma por atirar pedras.

Finalmente, é impossível ignorar os fatores políticos que levaram algumas fontes da mídia local a cair na armadilha de exagerar certos eventos, elevando-os à propaganda, refletindo as linhas editoriais de seus meios de comunicação. Por outro lado, a mídia oficial palestina se concentrou na cobertura de notícias de rotina e nunca transmitiu cobertura ao vivo 24 horas por dia.

Conclusão

A mídia frequentemente vai além da mera transmissão de notícias e tenta influenciar a opinião pública. Mas é importante ter em mente que esta é uma arma que seu oponente também possui, e que qualquer erro cometido nesse sentido pode sair pela culatra. Há um debate em andamento sobre algumas das imagens perturbadoras de mártires palestinos que são regularmente exibidas na mídia. Por outro lado, não me lembro de ter visto fotos semelhantes de israelenses mortos. A mídia árabe, em particular, não deu atenção suficiente às considerações de privacidade ao publicar as fotos de mártires, mesmo crianças, e isso é algo pelo qual eles podem ser criticados. Há quem possa afirmar que é dever da mídia expor as práticas selvagens da ocupação, mas permanece a preocupação de que os espectadores se habituem a tais imagens e que percam seu impacto, o que já está acontecendo.

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