Canadá e a derrubada de Kwame Nkrumah

Escrito por Owen Schalk.

Originalmente disponível no site Canada Dimension.

Tradução por Gustavo F. Costa e Silva.


Em 27 de abril de 1972, o ex-presidente de Gana, Kwame Nkrumah, morreu em Bucareste, Romênia, aos 62 anos. Apenas cinco anos antes, elementos das Forças Armadas de Gana lançaram um golpe contra ele⁠ – o primeiro presidente de seu país, líder da independência, ícone reconhecido dos movimentos globais do pan-africanismo, socialismo africano e do movimento dos não-alinhados da Guerra Fria. As forças que removeram Nkrumah foram apoiadas e treinadas pelas potências ocidentais, incluindo o Canadá.

O golpe de Estado foi uma reação em grande parte arquitetada pela CIA contra o aprofundamento das alianças de Nkrumah com a União Soviética e a China maoísta, bem como o compromisso de seu Estado de fazer a transição de uma África de dependência neocolonial voltada para o exterior para uma nação voltada para dentro, e, finalmente, para um plano de desenvolvimento continental.

Nkrumah ameaçava estimular outros Estados africanos a seguir o modelo de desenvolvimento de Gana, como Salvador Allende e Fidel Castro fizeram na América Latina. Do ponto de vista ocidental, o projeto socialista de Gana tinha que ser cortado pela raiz, e os autores do golpe não tinham dúvidas quanto a de onde o apoio deveria vir. Como aponta William Blum, “os ganenses que realizaram o golpe não tiveram dúvidas de que um movimento contra Nkrumah seria apoiado pelas potências ocidentais”. O ex-oficial da CIA, John Stockwell, admitiu mais tarde que a base da agência em Acra “recebeu um orçamento generoso e manteve contato íntimo com os conspiradores enquanto o golpe era tramado”.

Como um dos principais teóricos do pan-africanismo, Nkrumah declarou que ele e seus aliados “não estavam lutando apenas pela libertação africana, estamos lutando também pela unificação política da África, pois sem unidade não pode haver futuro para o povo africano”. O líder marxista de Zanzibar, Abdulrahman Mohamed Babu, descreve as origens emancipatórias e os objetivos do pan-africanismo em seu discurso de 1990 na Conferência Internacional sobre Malcolm X:

A ideia de “Unidade Africana” foi concebida como um meio de combater dois flagelos infligidos à África pelo colonialismo. Uma foi a fragmentação do continente, que resultou em Estados fracos e inviáveis; a segunda era a pobreza, consequência da fragmentação, da extensa exploração colonial e de uma estrutura econômica colonial ilógica e primitiva que obstruía o desenvolvimento. Esses dois flagelos estavam interligados, destinados a facilitar a dominação e a exploração colonial.

Babu, Nkrumah e outros pan-africanistas acreditavam que somente através da unidade continental esses “dois flagelos” poderiam ser eliminados e corrigidos.

Nos próprios escritos de Nkrumah, mais notavelmente Neo-colonialism, de 1965 (o qual dedicou aos “combatentes da liberdade da África, vivos e mortos”), o presidente pesquisou os mecanismos pelos quais funciona a exploração ocidental da riqueza material de África. Walter Rodney, outro estudioso indispensável do colonialismo europeu em África, tomou emprestado da obra de Nkrumah enquanto escrevia Como a Europa subdesenvolveu a África. Ele escreveu que “a pesquisa do Dr. Kwame Nkrumah revelou que o investimento privado direto de investidores americanos em África aumentou, entre 1945 e 1958, de 110 milhões para 789 milhões de dólares, a maior parte proveniente de lucros”. Enquanto isso, “estimativas oficiais de lucros obtidos por empresas dos Estados Unidos” no mesmo período chegaram a aproximadamente 1,2 bilhão de dólares.

Rodney usa essas estatísticas para estudar a taxa de crescimento dos investimentos americanos, britânicos e franceses nas décadas finais do colonialismo formal, argumentando que eles demonstram uma taxa de crescimento desproporcional para os EUA em relação às potências europeias⁠ – em outras palavras, enquanto os investimentos britânicos e franceses em África diminuíram, os investimentos dos EUA no continente aumentaram. Esse aumento do interesse dos EUA na África explica por que a CIA assumiu um papel de liderança na organização do golpe de 1966 contra Nkrumah.

Na política externa, Nkrumah foi um dos principais defensores do não-alinhamento, ao lado de Gamal Abdel Nasser do Egito, Jawaharlal Nehru da Índia, Ahmed Sukarno da Indonésia e Josip Broz Tito da Iugoslávia. Participou de muitas conferências importantes do “Terceiro Mundo” na África e no exterior, incluindo a Conferência de Bandung de 1955, descrito pelo presidente indonésio Sukarno como “a primeira conferência intercontinental de povos de cor”.

A CIA certamente estava ciente dos escritos de Nkrumah e suas aspirações políticas para a África. Como explica o editor da Liberated Texts, Louis Allday, a Historical Intelligence Collection da CIA leu e revisou Neo-colonialism para o vice-diretor da agência e identificou o capítulo Mechanisms of Neo-Colonialism,que nomeia os EUA como o pior dos exploradores de África no período neocolonial, como sendo “de maior interesse para a CIA”. Vários departamentos da CIA estudaram o livro, incluindo a African Division of the Deputy Directorate for Plans (DDP). A revisão interna conclui dizendo que, após ter investigado o conteúdo do livro, a agência deve tomar “quaisquer ações que esses componentes considerem convenientes”.

Três meses depois, o golpe apoiado pela CIA aconteceu. Blum relata que, além da remoção de Nkrumah, a base da CIA em Acra também propôs que “membros do Grupo de Operações Especiais da agência… estivessem a postos, com os rostos cobertos [para] invadir a embaixada chinesa, matar todos lá dentro, roubar arquivos secretos e explodir o prédio para encobrir o fato”.

Os oficiais militares que depuseram Nkrumah receberam treinamento de conselheiros canadenses. Os oficiais juniores do Estado-maior do Canadá realizaram um programa de treinamento no Ghanaian Defense College, e o alto comissário do Canadá em Acra, C.E. McGaughey, observou que “todos os principais participantes do golpe eram graduados nesse curso”. McGaughey elogiou esse fato, escrevendo em um memorando interno para o setor de Assuntos Externos após o golpe que “uma coisa maravilhosa aconteceu para o Ocidente em Gana e o Canadá desempenhou papel valioso”. Não obstante, aplaudiu o novo governo militar por ter “expulso os patifes russos e chineses”.

Depois que Gana garantiu sua independência da Grã-Bretanha, as potências ocidentais perceberam o papel crucial que os militares poderiam desempenhar na projeção do poder ocidental no país. Além do curso de treinamento, vários canadenses ocuparam altos cargos no conservador Ministério da Defesa de Gana. O coronel Desmond Deane-Freeman, adido militar do Canadá em Gana, observou que o propósito de ter canadenses nessas posições era transmitir “nossa maneira de pensar” aos oficiais africanos autóctones. Em 1965, McGaughey observou que, no período pós-colonial, as Forças Armadas de Gana haviam mudado “menos do que qualquer outra instituição. Ainda continua equipada com armas do Ocidente e… orientação do Ocidente”.

Por meio de telegramas, McGaughey observa que, entre alguns setores da sociedade ganense, a influência do Canadá sobre os militares e sua implantação estratégica de políticas de assistência se alinhavam com os objetivos políticos dos EUA e Grã-Bretanha. De fato, é difícil não notar que a assistência canadense à Gana aumentou consideravelmente após o golpe. Yves Engler explica: “Durante os três anos entre 1966 e 1969, o [governo militar] recebeu tanta assistência canadense quanto durante os dez anos de Nkrumah no cargo… Ottawa foi o quarto [maior] doador depois dos EUA, Reino Unido e a ONU”.

No entanto, McGaughey lamentou que “para alguns diplomatas africanos e asiáticos estacionados em Acra, percebo que há uma tendência de identificar nossas políticas de assistência especialmente quando a assistência militar está relacionada aos objetivos das políticas americana e britânica”. Estranhamente, ele expressou sua incapacidade de entender por que as agendas políticas dos EUA e da Grã-Bretanha não estavam “acima de críticas ou suspeitas” em África e Ásia.

Enquanto o governo militar pós-Nkrumah destruiu o projeto socialista do presidente e liberalizou massivamente a economia do país, os governos posteriores foram além, aceitando programas de ajuste estrutural do FMI e fazendo a transição para uma orientação exportadora ainda maior. Cynthia Kwakyewah e Uwafiokun Idemudia descrevem o impacto imediato dessas políticas na economia de Gana:

Gana foi forçada a desvalorizar sua moeda, adotar uma taxa de câmbio flexível, diminuir a inflação, reduzir os serviços públicos e os gastos do governo (especialmente em educação, saúde e bem-estar), eliminar barreiras comerciais, privatizar empresas públicas e estimular o crescimento econômico por meio da exportação.

Os investimentos canadenses em Gana cresceram em combinação com a liberalização do país, especialmente no setor de mineração. O ouro é a exportação mais lucrativa do país e, em 2005, 11 grandes mineradoras canadenses operavam lá: Birim Goldfields, Nevsun Resources, Moydow Mines International, St. Jude Resources, PMI Ventures, AMI Resources, AXMIN, Alcan, IAMGOLD, Golden Star Resources, and Akrokeri-Ashanti Gold Mines. Essa enorme riqueza de recursos não se traduz em lucros para o povo de Gana. Na verdade, o Estado moderno de Gana é um modelo de liberalização apoiado pelo Ocidente na África Ocidental, permitindo que empresas estrangeiras repatriem até 95% de seus lucros da indústria de mineração.

O apoio material do Canadá a elementos conservadores anti-Nkrumah nas Forças Armadas de Gana está bem documentado. Deve-se também situar o papel do país na remoção de Nkrumah dentro de uma história mais ampla de aversão canadense à integração pan-africanista, evidenciada por sua postura anti-Lumumba na República Democrática do Congo, sua aceitação do golpe de 1987 contra Thomas Sankara e seu prolongado e extenso apoio ao apartheid na África do Sul, que só diminuiu quando a opinião mundial começou a se voltar contra os regimes fascistas. A remoção de Nkrumah foi “uma coisa maravilhosa para o Ocidente” na medida em que derrubou um dos pilares mais significativos do pan-africanismo no continente, abrindo caminho para o desmantelamento mais amplo da eficácia política do projeto.

Em 2012, a governadora-geral do Canadá, Michaëlle Jean, visitou Gana e colocou uma coroa de flores no túmulo de Kwame Nkrumah. Tal gesto comemorativo é totalmente falso, dado o papel do Canadá na remoção do líder pan-africanista do cargo e a relutância dos líderes canadenses em reconhecer esse fato, que tampouco assumem algum grau de responsabilidade por suas consequências históricas.

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