James Baldwin – A Luz e a Escuridão

Ensaio presente no livro “Nothing Personal” de James Baldwin, publicado originalmente em 1964.

Relançado em 2021 pela Beacon Press, Boston.

Tradução por Andrey Santiago.


A luz que está em seu olhar, me lembra do céu, da luz que brilha acima de nós todos os dias – então escreveu um apaixonado contemporâneo, sabe Deus de que agonia, de que esperança, de que desespero. Mas ele viu a luz naquele olhar, que é a única luz que existe no mundo, e honrou ela e confiou nela; e ele sempre vai conseguir encontrá-la; dado que ela sempre esteve ali, esperando ser encontrada. Você descobre a luz na escuridão, é para isso que serve a escuridão; mas tudo na nossa vida depende de como carregamos a luz. É necessário, enquanto se está na escuridão, saber que existe a luz em algum lugar, que em si mesmo, esperando ser encontrada, existe uma luz. O que essa luz revela é perigo, o que ela demanda é fé. Imagine, por exemplo, que você nasceu em Chicago e nunca teve o mais remoto desejo de ir para Hong Kong, que é apenas um nome no mapa para você; imagine que alguma convulsão, algumas vezes chamada de acidente, lhe faz se conectar com um homem ou uma mulher que vive em Hong Kong; e você se apaixona. Hong Kong imediatamente vai deixar de ser um nome e vai se tornar o centro da sua vida. E você talvez nunca vai saber quantas pessoas vivem em Hong Kong. Mas você vai saber que aquele homem ou aquela mulher vive naquela cidade, alguém que você não pode viver sem. E assim nossas vidas são transformadas, e assim nós nos redimimos.

Que jornada é essa vida! Dependente, em sua completude, em coisas não vistas. Se o seu amor vive em Hong Kong e não pode ir até Chicago, vai ser necessário que você vá para Hong Kong. Talvez você irá gastar a sua vida inteira naquela cidade, e nunca mais ver Chicago. E você vai, eu te garanto, enquanto o tempo e o espaço dividir você de quem você ama, descobrir um monte de rotas de navios, aviões, terremotos, carestia, doenças e guerras. E você sempre vai saber qual é o horário em Hong Kong, pois você ama alguém que mora ali. E o amor simplesmente não tem alternativa a não ser batalhar contra o tempo e o espaço, e além disso, vencer.

Eu sei que muitas vezes perdemos, e que a morte ou a destruição de outra pessoa é infinitamente mais real e insuportável que a nossa. Eu acredito que sei quantas vezes uma pessoa precisa recomeçar, e como muitas vezes sentimos que não podemos mais recomeçar. E mesmo assim, sob a dor da morte, ninguém consegue ficar onde está. A luz. A luz. Você irá perecer sem a luz.

Eu dormi em terraços, em sótãos e em metrôs, estive com frio e com fome durante toda a minha vida; senti que nenhum fogo iria me esquentar, e que nenhum braço iria me abraçar. Eu estive, como a música diz, “maltratado e desprezado” e sei que sempre vou estar. Mas, meu Deus, naquela escuridão, que era muita de meus ancestrais e meu estado, que poderoso fogo queimava! Naquela escuridão de violação e degradação, aquela fina espuma e névoa de sangue, entre todo o terror e toda a falta de esperança, havia uma alma viva se movendo se recusando a morrer. Nós realmente esvaziamos o oceano com nossas colheres feitas em casa e derrubamos montanhas com nossas mãos. E se o amor estava em Hong Kong, nós aprendíamos a nadar.

É um poderoso legado, é o legado humano, e é tudo que se tem para confiar. E eu aprendi isso olhando, como era, nos olhos de meu pai e minha mãe. Eu me perguntava, quando era pequeno, o quanto eles aguentaram – porque eu sabia que eles tinham muito o que aguentar. Não tinha me ocorrido que eu também tinha muito o que aguentar; mas eles sabiam, e os inimagináveis rigores de sua jornada me ajudaram a se preparar para a minha jornada. Por isso é que você deve dizer Sim para a vida e se envolver com tudo que for encontrado – ela é encontrada em lugares terríveis; de todo modo, ela está ali; e se o pai pode dizer, “Sim, Senhor”, a criança pode aprender a dizer a mais difícil das palavras, “Amém”.

Pois nada é fixo, pra sempre e sempre e sempre, nada é fixo; a terra está sempre mudando, a luz está sempre mudando, o mar não para de bater com as rochas. Gerações não param de nascer, e nós somos responsáveis por elas, pois somos as únicas testemunhas que elas tem.

O mar sobe, a luz falha, os apaixonados agarram-se uns aos outros, e as crianças agarram-se a nós. No momento em que paramos de nos abraçar, no momento em que quebramos a fé em um ao outro, o mar nos envolve e a luz se apaga.

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