A Liga Contra o Imperialismo (1927-37): Uma Primeira Tentativa de Unidade Anticolonial Global

Originalmente publicado em John Riddell Blog.

Tradução por Guilherme Henrique.

A seguinte palestra, proferida em 20 de maio de 2018, foi um dos cem painéis da conferência de Montreal “A Grande Transição: Preparando um Mundo Além do Capitalismo”. A conferência atraiu mais de 1.500 participantes. A palestra foi dada em francês; o que se segue é uma tradução. Ela fez parte de um painel, “The Dawn of Our Liberation”, que também incluiu palestras de Aziz Fall, Ameth Lô e Daria Dyakonova.


A Liga Contra o Imperialismo foi lançada em Bruxelas em 1927 com o objetivo de forjar a unidade entre os povos colonizados e os trabalhadores dos países colonizadores. Iniciado por uma ala da Internacional Comunista, foi a primeira tentativa de estruturar a unidade anticolonial internacional. Esta breve apresentação se concentrará em suas origens e as causas de seu declínio.

Uma onda inicial de revoltas anti-imperialistas ocorreu nos primeiros anos do século XX (China, Irã, México), mas esses eventos não evocaram expressões significativas de solidariedade na Europa. A situação foi alterada, no entanto, pelo impacto da 1ª Guerra Mundial e da revolução russa de 1917. Em particular, o novo governo russo soviético defendia a libertação dos povos submetidos à opressão colonial direta ou indireta, que então afligia quase toda a Ásia e África. De fato, o levante russo foi em parte uma revolta dos povos asiáticos oprimidos pelo czarismo.

A proclamação do governo soviético em 1917 do direito dos povos à autodeterminação teve imenso impacto global. A autodeterminação também foi um princípio orientador da Internacional Comunista (Comintern) desde sua fundação em 1919. No ano seguinte, a Comintern convocou o primeiro encontro transnacional de povos colonizados: o Primeiro Congresso dos Povos do Leste em Baku, Azerbaijão. O Congresso de Baku em 1920, com a presença de quase dois mil delegados da Ásia Central e do Oriente Médio, adotou resoluções para orientar a luta anticolonial. Em 1922, uma conferência semelhante foi realizada para delegados do Extremo Oriente.

Em 1925, um levante revolucionário na China encontrou expressão tanto em greves de massa quanto em uma ampla mobilização estudantil. Quando essas duas forças se uniram em ação conjunta em Xangai, sofreram um ataque letal do exército britânico, que causou 52 mortes chinesas. A International Red Aid, estabelecida pela Comintern em 1922, lançou um vigoroso protesto. A campanha foi liderada por um talentoso comunista alemão, Willi Münzenberg, que insistiu na necessidade de um trabalho educacional eficaz entre as massas de trabalhadores que ainda não eram comunistas e não tinham consciência política.

Mas os trabalhadores da Alemanha, que sofreram tanto nas mãos do Tratado de Versalhes, poderiam ser persuadidos a se interessar pelo destino das massas empobrecidas e desprezadas da China?

“Tire as mãos da China!”

Com o objetivo de transformar essa esperança em realidade, a International Red Aid fundou a Liga contra o Colonialismo, com sede em Berlim, para arrecadar ajuda material para os trabalhadores da China. A Liga arrecadou doações, explicando que uma quantia igual ao preço de seis cigarros poderia cobrir as necessidades de um trabalhador chinês em greve por um dia. Uma conferência em Berlim reuniu mais de 1.000 participantes para exigir “Tire as mãos da China!”.

“Queremos formar uma santa aliança, nós, os oprimidos brancos, amarelos, negros e de várias cores… para a libertação de todos aqueles que sofrem”, declarou Münzenberg. (1)

Socialistas chineses discursaram em reuniões de trabalhadores na Alemanha, enquanto em Pequim um comício de 100.000 trabalhadores chineses saudou um orador socialista europeu com entusiasmo apaixonado. Graças ao trabalho da International Red Aid, os trabalhadores da Europa e do Terceiro Mundo deram as mãos pela primeira vez em oposição ao colonialismo.

A Red Aid também fez campanha nesta época para ajudar os rebeldes árabes na Síria e Marrocos que estavam em guerra com as potências coloniais, França e Espanha. A Red Aid montou uma ampla campanha para denunciar os massacres franceses na Síria, onde 10.000 árabes foram mortos durante o bombardeio francês de Damasco. Um comitê amplo e independente foi formado para organizar a solidariedade com a Síria.

Ajuda material

A solidariedade encontrou expressão não apenas em palavras, mas em termos práticos. Os partidos comunistas na França e na Espanha fizeram campanha pela independência das colônias desses países. Os comunistas encorajaram os soldados dos exércitos coloniais de seus países a confraternizar com os rebeldes, e tais incidentes ocorreram. Um desertor da Legião Estrangeira Francesa, por exemplo, tornou-se oficial e estrategista do exército rebelde marroquino. Houve motins na marinha francesa e 1.500 marinheiros enfrentaram cortes marciais. Enquanto isso, 165 comunistas franceses foram presos por atividade antiguerra. Durante este tempo, a Segunda Internacional, composta por socialistas reformistas, ainda se absteve principalmente da solidariedade anticolonial. As iniciativas da Red Aid, ao contrário, tornaram-se uma força genuína na vida política das potências coloniais.

Mas essas campanhas ainda eram separadas e temporárias. Como elas poderiam ser reunidas em um esforço unificado e contínuo? Alcançar esse objetivo foi o propósito do Congresso contra a Opressão Colonial e o Imperialismo que se reuniu em Bruxelas, após longos atrasos tanto do governo belga quanto do Executivo da Comintern, em 10 de fevereiro de 1927. Os 174 delegados representavam 134 organizações em 34 países. O célebre físico Albert Einstein, presidente honorário, expressou a esperança de que “através de seu congresso, os esforços dos oprimidos para conquistar a independência tomarão forma tangível”(2).

Entre os delegados, além de líderes socialistas revolucionários de vários continentes, havia uma série de proeminentes sindicalistas da Europa, líderes conhecidos da ala esquerda da Segunda Internacional e representantes de partidos burgueses influentes nas colônias, como o Kuomintang na China, o Sarekat Islam nas Índias Orientais Holandesas (agora Indonésia), Jawaharlal Nehru do Congresso Nacional Indiano; e APRA de Raul Haya de la Torre no Peru.

Durante seis dias de debate foram ouvidos 16 relatórios sobre tarefas em diferentes regiões geográficas e aspectos estratégicos da luta anti-imperialista. A segunda sessão propôs a fundação da Liga Contra o Imperialismo e a Opressão Nacional, que deveria ser uma aliança independente com filiais autônomas em países ao redor do mundo.

O historiador alemão Kasper Braskén resumiu a mensagem do Congresso nestes termos:

“Onde quer que no planeta houvesse proletários vivendo na miséria, este seria um assunto para a solidariedade internacional dos trabalhadores, forjando a crença na comunidade operária transnacional em escala global.” (3)

A criação da Liga inspirou entusiasmo além das expectativas mais loucas de seu fundador. O historiador Frederick Petersson nos diz que o Congresso transmitiu “o sentimento de um vínculo espiritual e as expressões de alegria coletiva” – um clima de “auto sacrifício e euforia” que mais tarde, no entanto, degenerou em “resignação e desânimo”.

Causas de declínio

Apesar do ímpeto inicial da Liga, as esperanças de seus fundadores não se tornaram realidade. Três anos depois, a Liga havia perdido seu vigor dinâmico e incluía apenas grupos de comunistas e seus simpatizantes. Em vez de narrar esse infeliz declínio, vou me concentrar em suas causas, e aqui vejo três fatores básicos:

1. A Liga não era uma frente única do tipo proposto pela Comintern desde 1921. É verdade que se dizia autônoma e independente. As instruções confidenciais do Comitê Executivo da Comintern falavam em criar “um intermediário neutro entre os movimentos anticoloniais e a Comintern”. Essa contradição foi percebida pelos líderes da Segunda Internacional, que a utilizaram para forçar todos os seus adeptos da Liga a renunciar.

2. A frente única que a Comintern propôs no tempo de Lênin previa uma aliança com as forças revolucionárias nacionais. Deixe-me dar um exemplo mais recente: o movimento insurrecional em Cuba liderado por Fidel Castro na década de 1950, que cresceu ao longo do tempo em uma fusão de forças nacional-revolucionárias e socialistas. Em contraste, porém, os movimentos ligados à Liga que mencionei anteriormente: o Kuomintang, o Congresso Indiano e o Sarekat Islam, eram o que os comunistas da época chamavam de movimentos burgueses reformistas. (6) Seus representantes rapidamente se retiraram da Liga, e o Kuomintang lançou uma contrarrevolução assassina contra os trabalhadores chineses. Pelo princípio da Comintern, formar uma aliança temporária com essas forças nacionalistas burguesas era certamente permissível, mas estruturá-las em uma organização de luta como a Liga era questionável, para dizer o mínimo.

3. Um ano após a fundação da Liga, as políticas da Comintern sofreram uma reversão ligada ao início do que os comunistas chamaram de Terceiro Período. Apesar de todas as evidências em contrário, o Sexto Congresso da Comintern em 1928 proclamou que o mundo havia entrado em um período de revoltas e reviravoltas revolucionárias globais onde era errado formar frentes unidas com organizações não revolucionárias. A Comintern chegou ao ponto de rotular os sociais-democratas como representantes de uma nova forma de fascismo. O historiador francês Pierre Broué comentou que essa política era “uma garantia absoluta de derrota”, referindo-se ao triunfo de Hitler na Alemanha em 1933. Willi Münzenberg se opôs a essa virada ultra esquerdista, mas não conseguiu bloqueá-la. Diante dessa nova política, diz Broué, as políticas da Liga foram “condenadas à derrota” e, além disso, que “todas as suas conquistas foram abaladas pela brusquidão da reviravolta e pelo uso abusivo de ultimatos”. Todos os grupos não comunistas de alguma importância dentro da Liga renunciaram ou foram expulsos. (7)

Depois de chegar ao poder em 1933, os nazistas fecharam a sede da Liga em Berlim e interromperam suas operações. Munzenberg retirou-se da Liga no mesmo ano. A Comintern realizou outra reversão política acentuada em 1935, e a Liga foi formalmente dissolvida dois anos depois. Posteriormente, a Internacional trabalhou por uma aliança com forças burguesas supostamente progressistas nos países imperialistas – objetivo que ficou conhecido como “frente popular”. Esta orientação entrou em conflito com os esforços da Comintern para a libertação colonial. A própria Comintern foi dissolvida em 1943.

O legado da Liga

Colocando na balança, o legado da Liga é, portanto, misto. Em seu início, representou uma expressão influente do espírito anti-imperialista e anticolonial da revolução russa. As dificuldades encontradas, por sua vez, refletiam as distorções das dificuldades da política comunista soviética ao entrar na era stalinista, quando a política da Comintern passou a refletir as exigências mutáveis ​​do estado soviético burocratizado e stalinizado.

Mas esse não é o fim da nossa história. Durante e após a Segunda Guerra Mundial, vários países da Ásia se libertaram da dominação colonial. Essa reviravolta ocorreu ao longo de dois caminhos diferentes. Em vários países, como Índia e Indonésia, o movimento de independência foi liderado por forças burguesas, e o estado independente era de caráter capitalista. Na China, Vietnã e Coréia, em contraste, a luta pela independência foi liderada por partidos comunistas que faziam parte da Comintern, e a revolução terminou com a abolição do domínio capitalista.

As conquistas dessa luta anticolonial encontraram expressão em 1955 em uma conferência histórica em Bandung, na Indonésia, na qual participaram delegações de 29 países descolonizados da Ásia e da África, cujos povos constituíam a maioria absoluta da humanidade. As resoluções adotadas em Bandung propunham neutralidade na Guerra Fria e a rápida eliminação de todas as colônias ainda existentes. Em suas considerações finais na conferência, o presidente Sukarno da Indonésia referiu-se ao congresso de Bruxelas de 1926. Foram a inspiração e os sacrifícios da aliança formada naquela época, afirmou, que tornaram possível “que agora sejamos livres, soberanos e independentes…. Não precisamos ir a outros continentes para conferir.” (8)

A conferência de Bandung deu origem a um agrupamento de países do Sul Global, o Movimento dos Não Alinhados, que desempenhou um papel modesto, mas positivo em vários contextos e que ainda existe. Mas para ver um reflexo autêntico da Liga Contra o Imperialismo, devemos nos voltar, como sugeriu meu co-painel Ameth Lô, às iniciativas da Cuba revolucionária, como sua participação na luta antiapartheid na África ou sua participação mais recente na ALBA, a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América.

Quase cem anos após a fundação da Liga Contra o Imperialismo, seu espírito libertador continua a encontrar expressão em novos contextos e novas formas.

Uma nota sobre as fontes

As principais fontes para esta palestra incluem:

  •  Adi, Hakim, Pan-Africanism and Commuism: The Communist International, Africa and the Diaspora, 1919-1939, Trenton: Africa World Press, 2013.
  •  Braskén, Kasper, The International Workers’ Relief, Communism, and Transnational Solidarity: Willi Münzenberg in Weimar Germany, Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2015.
  •  Broué, Pierre, Histoire de l’Internationale communiste 1919-1943.
  •  Gross, Babette, Willi Münzenberg: A Political Biography, Lansing, Mich.: Michigan State University Press, 1974.
  •  Communist International, The First Congress of the Peoples of the Far East 1922, London: Hammersmith, 1970 (1922).
  •  Petersson, Frederick, We Are Neither Visionaries Nor Utopian Dreamers: Willi Münzenberg, the League against Imperialism, and the Comintern 1925-33, unpublished dissertation.
  •  John Riddell, ed., Workers of the World and Oppressed Peoples, Unite! Proceedings and Documents of the Second Congress, New York: Pathfinder, 1991.
  •  John Riddell, ed., To See the Dawn: Baku 1920, First Congress of the Peoples of the East, New York: Pathfinder, 1993.

Notas de rodapé

(1) Braskén, p. 160.

(2) Gross, p. 189.

(3) Braskén, p. 161.

(4) Petersson, p. 540.

(5) Petersson, p. 246

(6) A distinção entre movimentos “nacionais-revolucionários” e “reformistas burgueses” no mundo colonial foi explicada por Lenin ao Segundo Congresso da Comintern em 1920 e moldou o pensamento comunista nos anos seguintes. Houve desacordo entre os comunistas, no entanto, sobre se o Kuomintang era um movimento “nacional-revolucionário” no sentido pretendido por Lenin.

O ataque contrarrevolucionário do Kuomintang aos trabalhadores chineses alguns meses depois da conferência de Bruxelas provou que não era “nacional-revolucionário” nesse sentido. Para saber mais sobre a evolução da política do Comintern na China neste site, veja “Should Communists Ally with Revolutionary Nationalism” e “Fruits and Perils of the ‘Bloc Within’”. Para o debate do Segundo Congresso, veja Riddell, ed., “Workers of the World and Oppressed Peoples, Unite”, vol. 1, pág. 211-.

(7) Broué, pp. 493-514.

(8) Petersson, p. 546, fn. 1272.

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