Originalmente disponível no site Marxists.
Transcrição por Andrey Santiago.
“As massas populares são portadoras de cultura, elas são a fonte de cultura e, ao mesmo tempo, a única entidade verdadeiramente capaz de preservar e de criar a cultura, de fazer história.”
O fato dos movimentos de independência serem, em geral, marcados, mesmo na sua fase inicial, por um surto de manifestações de caráter cultural, fez admitir que esses movimentos são precedidos de um “renascimento cultural” do povo dominado. Vai-se mesmo mais longe, admitindo que a cultura é um método de mobilização de grupo, portanto uma arma na luta pela independência.
A partir da experiência da nossa própria luta e, pode dizer-se, de toda a África, achamos que se trata de um conceito muito limitado, senão errado, do papel primordial da cultura no desenvolvimento do movimento de libertação. Ele decorre, pensamos, da generalização incorreta de um fenômeno real, mas restrito, que se situa a um certo nível da estrutura vertical das sociedades colonizadas ao nível das elites ou das diásporas coloniais. Generalização que ignora ou despreza este dado essencial do problema: o caráter indestrutível da resistência cultural dos populares face à dominação estrangeira.
Reprimida, perseguida, humilhada, traída por um certo número de categorias sociais comprometida com o estrangeiro, refugiada nas aldeias, nas florestas, no espírito das vítimas de dominação, a cultura sobrevive a todas as tempestades, para retomar, graças às lutas de libertação, toda a sua faculdade de desenvolvimento. É por isso que o problema do “regresso às fontes” ou do “renascimento cultural” não se põe, nem teria razão de se por, para as massas populares: porque elas são portadoras de cultura, elas são a fonte de cultura e, ao mesmo tempo, a única entidade verdadeiramente capaz de preservar e de criar a cultura, de fazer história.
Quanto, por iniciativa e uma minoria da pequena burguesia autóctone aliada às massas populares indígenas, se inicia o movimento da pré-independência, as massas não tem nenhuma necessidade de afirmar ou de reafirmar a sua identidade, que elas nunca confundiram nem saberiam confundir com a do poder colonial. No entanto a reafirmação duma identidade distinta do poder colonial, necessidade apenas sentida pela pequena burguesia autóctone, diz apenas respeito a uma minoria, enquanto uma outra minoria afirma, muitas vezes sem êxito, a identidade da classe estrangeira dominante, enquanto a maioria silenciosa se debate na indecisão.
Uma parte da minoria burguesa empenhada no movimento de pré-independência utiliza os dados culturais estrangeiros para exprimir, fazendo apelo principalmente à literatura e às artes, mais a descoberta da sua identidade do que os sofrimentos das massas populares que lhe servem de tema. E como ela emprega precisamente a linguagem e a língua do poder colonial só excepcionalmente consegue influenciar as massas populares, geralmente iletradas e familiarizadas com outras formas de expressão artística. Este fato não diminui, no entanto, o valor da contribuição desta pequena minoria burguesa para o desenvolvimento da luta, pois ela consegue influenciar quer uma parte dos indecisos ou dos retardatários da sua própria categoria social, quer uma seção importante da opinião pública da metrópole colonial, principalmente o grupo de intelectuais.
A outra parte da pequena burguesia que se empenha no movimento de pré-independência, encontra na sua participação imediata nas lutas de libertação e na sua integração nas massas o melhor meio de exprimir uma identidade distinta do poder colonial.
E por isso que a identificação com as massas populares e a reafirmação da identidade podem ser temporários ou definitivas, aparentes ou reais, face aos esforços e aos sacrifícios cotidianos exigidos pela luta. Luta essa que, sendo uma expressão política organizada de uma cultura, é também necessariamente uma prova não somente de identidade, mas também de dignidade.
“A luta pela libertação, é acima de tudo, um ato de cultura.”
Acontece que a cultura é o próprio fundamento do movimento de libertação e que apenas podem mobilizar-se, organizar-se e lutar as sociedades que preservam a sua cultura. Esta, quaisquer que sejam as características ideológicas ou idealistas da sua expressão, é um elemento essencial do processo histórico. É nela que reside a capacidade de elaborar ou de fecundar os elementos que asseguram a continuidade da história e determina, ao mesmo tempo, as possibilidades de progresso ou de regressão de uma sociedade. Compreende-se assim que, sendo a dominação imperialista a negação do processo histórico da sociedade dominada, ela seja necessariamente a negação do seu processo cultural. Também – e porque uma sociedade que se liberta verdadeiramente do jugo estrangeiro retoma os caminhos ascendentes da sua própria cultura, a qual se alimenta da realidade viva do meio e nega tanto as influencias nocivas como toda a espécie de sujeição às culturas estrangeiras – a luta de libertação é, acima de tudo, um ato de cultura.
A cultura, fundamento e fonte de inspiração da luta, começa a ser influencia por esta e essa influência reflete-se, de modo mais ou menos evidente, na evolução do comportamento das categorias sociais e dos indivíduos e no desenrolar da própria luta.
Tanto os dirigentes do movimento, na maioria originários dos centros urbanos (pequena burguesia e trabalhadores assalariados), como as massas populares (cuja esmagadora maioria é constituída por camponeses) melhoram o seu nível cultural: adquirem um maior conhecimento das realidades do país, libertam-se dos complexos e dos preconceitos de classe, ultrapassam os limites do seu universo, destroem as barreiras étnicas, consolidam sua consciência política, integram-se mais profundamente no seu país e no mundo, etc.
“Para que a cultura desempenhe o papel que lhe cabe no movimento de libertação, este deve estabelecer com precisão os objetivos a atingir para que o povo que representa e dirige reconquiste o direito a ter a sua própria história e a dispor livremente das suas forças de produção, com vista ao desenvolvimento ulterior, de uma cultura mais rica, profunda, nacional, científica e universal.”
Qualquer que seja a sua forma, sabe-se que a luta exige a mobilização e a organização de uma maioria importante da população, a unidade política e moral das diversas categorias sociais, a liquidação progressiva de vestígios da mentalidade tribal e feudal, a recusa das regras e dos tabus sociais e religiosos incompatíveis com o caráter racional e nacional do movimento libertador, operando muitas modificações profundas na vida das populações.
Isto é mais verdadeiro quando a dinâmica da luta exige ainda a prática da democracia, da crítica e da autocrítica, a participação crescente da população na gestão da sua vida, alfabetização, a criação de escolas e de serviços sanitários, a formação de quadros saídos dos meios rurais e operários, e muitas outras realizações que implicam uma verdadeira marcha força da sociedade no caminho do progresso cultural. Isto mostra que a luta de libertação não é só um fator cultural, é também um fator de cultura.
Para que a cultura desempenhe o papel que lhe cabe no movimento de libertação, este deve estabelecer com precisão os objetivos a atingir para que o povo que representa e dirige reconquiste o direito a ter a sua própria história e a dispor livremente das suas forças de produção, com vista ao desenvolvimento ulterior, de uma cultura mais rica, profunda, nacional, científica e universal. O que é importante para um movimento de libertação, não é provar a especificidade ou a não-especificidade da cultura do povo, mas proceder à análise crítica desta cultura, em função das exigências da luta do progresso, e situa-la, sem complexo de superioridade ou inferioridade, como uma parcela do patrimônio comum da humanidade, com vista a uma integração harmoniosa no mundo atual.
