Adaptação de trechos da crônica “A Morte Devagar” de Martha Medeiros, declamada por Antonio Abujamra no programa Provocações.
Morre lentamente quem é escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos itinerários, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor e não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, os sorrisos dos bocejos, os corações aos tropeços e os sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo duvidoso para ir atrás de um sonho, quem não se permite fugir dos conselhos sensatos pelo menos uma vez na vida.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua falta de sorte, da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, quem não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe pergunta sobre algo que ele sabe.
Evitemos a morte em pequenas doses, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples ato de respirar. Somente a paciência ardente fará com que conquistemos uma felicidade plena.
