Walter Benjamin – A Tarefa do Tradutor

Texto originalmente publicado em 1924, enquanto prefácio para a tradução realizada por Walter Benjamin da obra “Tableaux parisiens” de Charles Baudelaire.

Tradução realizada pelo grupo de seminário do Mestrado em Literatura Brasileira da Universidade Estadual do Rio de Janeiro em 1994, sob a coordenação do professor Karlheinz Barck. Retirada do livro “A tarefa do tradutor, de Walter Benjamin: quatro traduções para o português” organizada por Lucia Castello Branco.


Diante de uma obra de arte ou de uma forma de arte, levar em conta o receptor de modo algum se revela fecundo para o seu conhecimento. Qualquer relação com um público determinado ou com seus representantes desorienta e até mesmo o conceito de um receptor “ideal” desfavorece qualquer reflexão teórica sobre a arte, pois esta pressupõe somente a existência e a essência do homem em geral. Assim, a própria arte também pressupõe a essência corporal e espiritual do homem – mas em nenhuma de suas obras, pressupõe a sua escuta (Aufmerksamkeit). Pois nenhum poema é feito para o leitor; nenhum quadro, para o espectador; nenhuma sinfonia, para audiência.

Uma tradução é feita para os leitores que não compreendem o original? Esta pergunta parece bastante para explicar, no âmbito da arte, a diferença de nível entre uma tradução e o original. Além disso, tal parece ser a única razão que se poderia ter para repetir o “mesmo”. Pois que “diz” uma obra literária (Dichtung)? Que comunica ela? Muito pouco para quem a compreende. O que lhe é essencial não é nem comunicação, nem enunciado (Aussage). No entanto, aquela tradução que quisesse comunicar, nada comunicaria senão a comunicação – logo, algo de inessencial. Este é, pois, um indício da má tradução. Mas aquilo que em uma obra (Dichtung) excede a comunicação – e mesmo o mau tradutor o admitirá como essencial – não é geralmente tido por inapreensível, misterioso, “poético”? Aquilo que o tradutor só pode reproduzir também poetizando? De fato, toca-se assim em um segundo traço característico da má tradução, definível, portanto, como uma transmissão inexata de um conteúdo inessencial. Isso ocorre sempre que a tradução pretende servir ao leitor. Fosse ela, entretanto, dirigida ao leitor, o original também deveria sê-lo. Se esse não é o fito do original, como se poderia compreender a tradução a partir de tal meta?

A tradução é uma forma. Para apreendê-la assim deve- se retornar ao original. Pois nele está encerrada a lei de sua traduzibilidade. A questão da traduzibilidade de uma obra tem um duplo sentido. Pode significar: dentre a totalidade de seus leitores, tal obra encontrará, em algum momento, tradutor adequado? Ou, e mais precisamente: por sua própria essência, a obra permite e, em consequência – conforme o significado dessa forma –, também exige tradução? Por princípio, a resposta à primeira pergunta é apenas problemática; já a resposta à segunda, apodíctica. Só o pensamento superficial, negando o sentido autônomo da segunda, julgará ambas equivalentes. Ao contrário, convém indicar que certos conceitos de relação mantêm seu bom – talvez mesmo seu melhor – sentido, se não se referem, de início, exclusivamente ao homem. É assim que se poderia falar de uma vida ou de um instante inesquecíveis, ainda se todos os homens o tivessem esquecido. Com efeito, se a essência dessa vida ou desse instante impõe não ser esquecida, tal predicado não terá nada de falso; conterá apenas uma exigência a que não corresponderiam os homens e, ao mesmo tempo, a remissão a um domínio, a que essa exigência corresponderia: a uma rememoração do divino (auf ein Gedenken Gottes). Da mesma forma, restaria avaliar a traduzibilidade das produções verbais, mesmo que intraduzíveis para os homens. E, tomando o conceito de tradução com rigor, não o seriam elas, em certa medida, de fato? Estabelecida tal dissociação, a questão é saber se se impõe a tradução de certas obras (Sprachgebilde). Pois pode-se estabelecer o seguinte princípio: se a tradução é uma forma, a traduzibilidade de certas obras é essencial.

Dizê-las em essência traduzíveis não quer dizer que sua tradução lhes seja essencial, mas sim que um certo significado, inerente ao original, se manifesta em sua traduzibilidade. É evidente que uma tradução, por melhor que seja, nada significa para o original. No entanto, por sua traduzibilidade, a tradução mantém um vínculo estreito com o original. Esse vínculo é tanto mais íntimo quanto nada mais significa para o próprio original. Pode-se chamá-lo natural e, mais propriamente, vínculo de vida. Assim como as manifestações da vida estão no mais íntimo vínculo com o que vive, sem que nada signifique para ele, assim também a tradução procede do original. Por certo menos de sua vida do que de sua sobrevivência (Überleben). Pois a tradução sucede ao original e, no que concerne às obras importantes, que nunca encontram no tempo de seu nascimento o tradutor predestinado, assinala a sua pervivência (Fortleben). As idéias de vida e de pervivência das obras de arte hão de ser compreendidas de maneira bastante objetiva e não metafórica. Mesmo nos tempos do pensamento mais preconceituoso não se tem o direito de atribuir vida apenas à corporalidade orgânica. Mas não se trata, como Fechner o tentou, de estender o domínio da vida sob o cetro débil da alma, tampouco de querer definir a vida a partir de momentos da animalidade, momentos como a sensação ainda menos suscetíveis de fornecer parâmetros capazes de caracterizá-la senão de modo ocasional. Faz-se plena justiça a esse conceito de vida quando se lhe reconhece onde há história e não apenas seu cenário (Schauplatz). Pois é a partir da história, não da natureza, muito menos de uma natureza tão instável quanto a sensação e a alma, que é preciso circunscrever o domínio da vida. Surge, assim, para o filósofo, a tarefa de compreender toda vida natural a partir desta vida mais extensa: a da história. E, de qualquer modo, a pervivência das obras não é muito mais fácil de ser conhecida do que a das criaturas? A história das grandes obras de arte conhece sua descendência a partir de suas fontes, sua estruturação na época do artista e o período, em princípio eterno, de sua pervivência nas gerações seguintes. Esta última, quando ocorre, chama-se glória. As traduções que são mais do que meras mediações nascem quando, em sua pervivência, uma obra alcança a época de sua glória. Elas antes devem sua existência a esta glória do que a promovem, como supõem os maus tradutores. Nelas, a vida do original, em renovação constante, alcança um outro e mais extenso desdobramento.

Tal desdobramento é, como o de uma vida originária e de nível elevado, determinado por uma finalidade também originária e superior. Vida e finalidade, cuja correlação, em aparência evidente, contudo quase escape ao conhecimento, só se revela quando aquele alvo, em prol de que agem todas as metas particulares, é buscado não no domínio próprio desta vida, mas em âmbito mais elevado. Todas as manifestações da vida, bem como sua própria meta, têm por fim não a vida, mas sim a expressão de sua essência, a apresentação (Darstellung) de seu significado. Assim, a tradução tem por fim (Zweckmässig) exprimir a relação mais íntima entre as línguas. A tradução não pode, por si só, manifestar e restituir esta relação oculta; pode, contudo, apresentá-la, atualizando-a seminal ou intensivamente. Na verdade, é esta apresentação de um significado, pela busca de restituir sua semente singular, que não encontra equivalente no campo da vida não verbal. Pois a vida não verbal conhece como analogias e signos, outros tipos de referência que não a atualização intensiva, i. e., antecipadora e anunciadora. Mas a relação em que pensamos, extremamente íntima entre as línguas, é de uma convergência singular. Consiste em que as línguas não são estranhas umas às outras, mas, a priori e abstração feita de todas as relações históricas, são entre si aparentadas quanto ao que querem dizer.

Com esta tentativa de explicação, nossa consideração parece, com efeito, desembocar, uma outra vez, através de desvios inúteis, na teoria tradicional da tradução. Se nas traduções a afinidade entre as línguas é de se comprovar, como evidenciá-la a não ser pela transmissão a mais exata possível da forma e do sentido original? Sem dúvida, pelo conceito dessa exatidão, a teoria em pauta não saberia exprimir-se e, por conseguinte, não poderia, afinal, dar conta do que é essencial na tradução. Em verdade, contudo, a afinidade das línguas se prova em uma tradução de maneira mais exata e determinada do que na semelhança superficial e indefinível de duas obras literárias (Dichtungen). Para apreender a relação autêntica entre o original e a tradução é necessário proceder a um exame, cujo raciocínio é análogo ao curso do pensamento, pelo qual a crítica do conhecimento há de mostrar a impossibilidade de uma teoria da imitação. Por esta crítica se comprova que não há objetividade no conhecimento, nem sequer a pretensão de alcançá-la, se esta consistisse em cópias do real; deste modo pode-se provar que não seria possível tradução alguma se ela pretendesse, em sua essência última, assemelhar-se ao original. Pois em sua pervivência que não mereceria tal nome se não fosse metamorfose e renovação do que vive, o original se modifica. Mesmo as palavras fixadas continuam a pós-madurar (Nachreife). O que na época de um autor pôde ser uma tendência da sua linguagem poética, pode mais tarde tornar-se obsoleta e tendências imanentes se renovam a partir do pré-formado. O então jovem pode mais tarde soar desgastado, o então corrente soar arcaico. Buscar a essência dessas mudanças, assim como daquelas, não menos constantes, do sentido, na subjetividade dos pósteros, em vez de fazê-lo na vida mais íntima da língua e de suas obras – mesmo assumindo o mais cru psicologismo – seria confundir o fundamento de uma coisa com sua essência, ou mais exatamente, seria negar por impotência do pensamento um dos processos históricos mais poderosos e fecundos. E, se tomássemos o ponto final do autor como o golpe de misericórdia dado à obra, ainda assim não se salvaria aquela teoria morta da tradução. Pois como a tonalidade e o significado das grandes obras literárias mudam por completo com os séculos, assim também muda a língua materna do tradutor. Precisando: enquanto a palavra do poeta permanece na própria língua, mesmo a melhor tradução está destinada a integrar-se no crescimento da sua, está destinada a perecer na sua renovação. A tradução é tão distante de ser a equação estéril de duas línguas mortas que, precisamente, entre todas as formas, lhe cabe como especificidade atentar àquela pós-maturação da palavra estrangeira, às dores do parto da própria palavra.

A afinidade das línguas anunciada na tradução nada tem a ver com a vaga semelhança entre imitação e original. Do mesmo modo, em geral está claro que semelhança não implica necessariamente afinidade. Além disso, neste contexto, sendo o conceito de afinidade tomado em seu uso mais rigoroso, não se pode defini-lo pela identidade de origem nos dois casos, mesmo que para a determinação deste uso mais rigoroso o conceito de origem seja certamente indispensável. Onde se pode buscar a afinidade entre duas línguas, se seu parentesco histórico é abstraído? Nem na semelhança das obras nem, muito menos, na de suas palavras. Toda afinidade meta-histórica repousa muito mais no fato de que, em cada uma delas, tomada como um todo, algo é significado, que sendo o mesmo não pode, entretanto, ser alcançado por nenhuma delas isoladamente, mas apenas pelo todo de suas intenções reciprocamente complementares: a língua pura. Com efeito, enquanto todos os elementos singulares, as palavras, as frases, as correlações de línguas estrangeiras se excluem, essas línguas se complementam em suas próprias intenções. Para apreender exatamente esta lei, uma das fundamentais da filosofia da linguagem, é necessário distinguir, na intenção, o-que-se-significa (das Gemeine) do modo de significá-lo (die Art des Meinens). Em Brot e pain, o significado sendo seguramente o mesmo, não o é a maneira de significar. Em virtude deste modo de significar, as duas palavras dizem algo de diferente para o alemão e para o francês, não sendo intercambiáveis e mesmo, por fim, tendem a excluir-se uma à outra, ao passo que, no que concerne ao significado, tomado absolutamente, as palavras dizem o mesmo. Enquanto o modo de significar nas duas palavras se opõe, completa-se ele nas duas línguas de onde provém. Nelas, o modo de significar se acrescenta ao significado. Nas línguas particulares, incompletas portanto, o que significam nunca se encontra em relativa independência, como nas palavras ou frases consideradas isoladamente, senão que em constante mudança, na expectativa de emergir como a língua pura da harmonia de todos estes modos de significar. Até esse momento isso permanece oculto nas línguas. Mas, se estas se desenvolvem até o fim messiânico de sua história, é a tradução, por extrair sua chama da eterna pervivência das obras e do renascimento infinito das línguas, que sempre e de novo põe à prova este sagrado crescimento das línguas: para saber até que ponto o mistério que encobrem está distante da revelação e como poder-se-ia fazer presente no saber desta distância.

Com isso, verifica-se que toda tradução é um modo, por assim dizer, provisório de se medir a estranheza das línguas entre si. Uma solução para essa estranheza, que seja mais do que temporária e provisória, que seja instantânea e definitiva, eis aí o que é interdito aos homens, ou ao menos, algo que não é buscável diretamente. Porém, de maneira mediata, é o crescimento das religiões que faz amadurecer nas línguas a semente latente de uma linguagem superior. Assim, a tradução, ainda que não possa pretender a durabilidade de suas obras, e nisto se diferencia da arte, não abandona por isso sua orientação rumo a um estágio último, definitivo, decisivo de toda composição verbal. Nela, o original transpassa, por assim dizer, para uma zona mais alta e mais pura da linguagem, na qual não pode viver por longo tempo como, de resto, está distante de alcançá-la em todas as partes de sua forma, mas a que assinala de modo extraordinariamente penetrante como ao âmbito prometido e interdito de reconciliação e cumprimento das línguas. Este âmbito não é alcançado em bloco, mas nele se encontra aquilo que faz da tradução algo mais do que mera comunicação. Mais precisamente pode-se definir esse núcleo essencial como que na tradução não é retraduzível. Pois, do que se pode extrair do comunicável para o mediável, permanece sempre o intocável, para o qual se orienta o trabalho do verdadeiro tradutor. Ele não é transmissível, ao contrário da palavra criadora (Dichterwort) do original, pois a relação do conteúdo com a linguagem difere completamente no original e na tradução. No original, conteúdo e linguagem formam uma unidade determinada, como a do fruto e da casca, a linguagem da tradução envolve seu conteúdo, como um manto real, com dobras sucessivas. Pois ela significa uma linguagem superior a si mesma e permanece, por isso, em relação ao próprio conteúdo, inadequada, violenta e estranha. Essa fratura impede cada transposição (Übertragung) e a torna vã. Pois toda tradução de uma obra, de um determinado ponto temporal da história da língua, representa, com respeito a um determinado aspecto de seu conteúdo, esse aspecto e aquele momento em todas as outras línguas. A tradução transplanta, assim, o original a um terreno ironicamente mais definitivo da língua, ao menos enquanto o original não pode mais ser deslocado por nenhuma transposição, mas só elevado, sobre esse terreno, sempre de novo e noutras partes. Não é ocasional que a palavra irônico aqui lembre cursos de ideias românticas; antes de outros os românticos penetraram na vida das obras, da qual a tradução é um testemunho superior. Por certo não reconheceram esse papel da tradução e dedicaram toda sua atenção à crítica, que representa também um momento, embora menor, na sobrevivência das obras. Entretanto, ainda que sua teoria não se tenha concentrado na tradução, suas grandes traduções se cumpriram com o sentimento da essência e dignidade dessa forma. Esse sentimento, tudo o indica, não tem necessidade de ser o mais forte no escritor (Dichter); talvez nele ocupe um espaço menor. A história sequer justifica o preconceito tradicional, que reza que os tradutores significativos seriam escritores e os escritores sem importância, tradutores menores. Uma série dos maiores, como Lutero, Voss, Schlegel, são, como, tradutores, incomparavelmente mais importantes do que como escritores; outros, entre os maiores, como Hölderlin e Stefan George, ao considerar-se o conjunto de suas criações, não podem ser tomados somente como escritores (Dichter). Muito menos como tradutores. Assim, como a tradução é uma forma própria, assim também se pode compreender a tarefa do tradutor como autônoma e diferenciada da do escritor.

Esta consiste em encontrar, na língua para a qual se traduz, aquela intenção da qual é nela despertado o eco do original. Aparece aqui o traço que distingue completamente a tradução da obra de criação literária (Dichtwerk), pois sua intenção jamais concerne à língua enquanto tal, à sua totalidade, mas só, de modo imediato, a certas correlações de conteúdo verbal. A tradução não se acha, como a obra literária, por assim dizer, na floresta interna da língua; mantém-se fora desta, frente a ela e, sem a penetrar, faz com que nela ressoe o original; e isso apenas ali onde o eco em sua própria língua pode dar a ouvir a obra escrita em língua estrangeira. Sua intenção se dirige a outro objeto que não só o da criação literária, i.e., a uma língua em seu todo, a partir de uma única obra de arte escrita em língua estrangeira, mas é em si mesma diversa: a intenção do escritor é ingênua, primeira, intuitiva; a do tradutor, derivada, derradeira, ideal. Pois o que realiza seu trabalho é a possibilidade de integração das muitas línguas na língua verdadeira. Neste trabalho as proposições, obras, juízos singulares, nunca se comunicam – pois permanecem dependentes de tradução – mas as próprias línguas concordam entre si, completam-se e se reconciliam na maneira de significar. Mas se há, por outro lado, uma língua da verdade – língua em que os segredos últimos, a que todo pensamento converge, se conservam distensos e em silêncio – esta língua da verdade é a verdadeira linguagem. E, mesmo esta – em cujo pressentir e descrever está a única perfeição a que o filósofo pode aspirar – se mostra intensamente oculta nas traduções. Não há Musa da filosofia, tampouco Musa da tradução. Mas filosofia e tradução, ao invés do que pensam os artistas sentimentais, não são trivialidades. Pois há um engenho filosófico, cujo íntimo característico é a aspiração àquela linguagem que na tradução se anuncia:

Les langues imparfaites en cela que plusieurs, manque la supréme: penser étant écrire sans accessoires ni chuchotement, mais tacite encore l’immortelle parole, la diversité, sur terre, des idiomes empêche personne de proférer les mots qui, sinon se trouveraient, par une frappe unique, elle-même matériellement la vérité. [1]

Se o que se pensa nestas palavras de Mallarmé é aplicável, com todo rigor, ao filósofo, a tradução, com os germes de tal língua, situa-se a meio caminho entre a criação literária e a teoria. Sua obra é menos caracterizada por uma e por outra mas não se cunha menos profundamente na história.

Se a tarefa do tradutor aparece sob este prisma, os caminhos de sua realização arriscam a se obscurecer de modo impenetrável. A tarefa de provocar o amadurecimento, na tradução, das sementes da pura linguagem, parece inalcançável. Pois qualquer solução não torna impossível se a reprodução do sentido (die Wiedergabe des Sinnes) deixa de ser determinante? Dito pela negativa, este é o significado de tudo que precede. Fidelidade e liberdade – liberdade da reprodução do sentido e, para seu alcance, fidelidade à palavra – são os velhos conceitos empregados nas discussões sobre as traduções. Uma teoria que busca na tradução só a reprodução do sentido, não mais parece ser de valia. É verdade que seu emprego tradicional sempre toma esses conceitos como uma antinomia insolúvel. Pois a que pode propriamente conduzir a fidelidade à repetição do sentido? Fidelidade, na tradução, de cada palavra, não assegura que se reproduza o pleno sentido que ela tem no original. Pois este não se esgota em sua significação poética conforme o original, mas a adquire pela forma como o significado se une ao modo de significar a palavra em questão. Costuma-se exprimi-lo pela forma segundo a qual as palavras trazem consigo uma tonalidade afetiva. A literalidade sintática pode reverter inteiramente a restituição do sentido e conduzi-la diretamente ao nonsense. As traduções de Sófocles por Hölderlin apresentaram, no século XIX, exemplos monstruosos de tal literalidade. Não é difícil perceber-se, afinal, como a fidelidade na restituição da forma torna difícil a restituição do sentido. Em consequência, a exigência de literalidade é indedutível do interesse na conservação do sentido. Esta é beneficiada – mas não a criação literária, nem a língua – pela indisciplinada liberdade dos maus tradutores. Em consequência, tal exigência, cujo direito é evidente mas cuja justificação permanece misteriosa, há de ser entendida a partir de correlações mais pertinentes. Como os cacos de uma ânfora, para que, nos mínimos detalhes, se possam recompor, mas nem por isso se assemelhar, assim também a tradução, ao invés de se fazer semelhante ao sentido do original, deve, em um movimento amoroso que chega ao nível do detalhe, fazer passar em sua própria língua o modo de significar do original. Do mesmo modo que os cacos tornam-se reconhecíveis como fragmentos de uma mesma ânfora, assim também original e traduções tornam-se reconhecíveis como fragmentos de uma linguagem maior. Mesmo por isso a tradução deve, em alta medida, renunciar ao intento de comunicar algo; o original lhe é essencial só na medida em que liberou o tradutor e a sua obra do esforço e da ordem da comunicação. Também no domínio da tradução é de regra: εν αρχη ην ο λογος, no princípio era o verbo. Diante do sentido, a língua do tradutor deve agir livremente, não para que faça ressoar a sua intentio como reprodução, mas sim como harmonia, como suplemento à língua em que se comunica de seu próprio modo a intentio. É por isso que, sobretudo na época em que a tradução aparece, o maior elogio que se lhe pode fazer não é que ela se leia como uma obra original de sua própria língua. Ao invés, o valor da fidelidade, garantida pela literalidade, consiste em que na obra se exprima a grande aspiração à suplementação da língua. A verdadeira tradução é transparente, não esconde o original, não o ofusca, mas faz com que caia tanto mais plenamente sobre o original, como se forçada por seu próprio meio, a língua pura.

Isso se obtém sobretudo pela literalidade na transposição (Übertragung) da sintaxe, o que mostra com precisão que é a palavra, e não a frase, o elemento originário do tradutor. Pois a frase é o muro diante da língua do original, a literalidade a arcada.

Se até o presente, fidelidade e liberdade na tradução têm sido tomadas por tendências opostas, parece que esta exegese mais profunda da primeira, longe de reconciliá-las, priva, ao contrário, a segunda de qualquer direito. Pois a que de fato se refere a liberdade senão à reprodução do sentido que, segundo esta interpretação, deve deixar de ser normativa? Mas, se é preciso tomar como idênticos o sentido de uma obra de linguagem e sua comunicação, continua existindo, próximo dele e, entretanto, infinitamente distante, escondido sob ele ou mais exposto, fraturado por ele ou se impondo com mais força ainda, para além de toda comunicação, um elemento último e decisivo. Em todas as línguas e suas obras permanece, fora do comunicável, um incomunicável, segundo a relação em que se encontra algo de simbolizante ou simbolizado. Simbolizante apenas nas obras acabadas das línguas; mas simbolizado na transformação destas. E o que se busca representar ou mesmo se instaurar no devir das línguas é este núcleo da língua pura. Mas se, escondido ou fragmentário, ele está, no entanto, presente na vida como o próprio simbolizado, só aparece nas obras como simbolizante. Se esta essência última, que é a própria língua pura, está vinculada nas línguas apenas ao material verbal e às suas transformações, nas obras é ela afetada por um sentido denso e estranho. Desvinculá-la desse sentido, fazer do simbolizante o simbolizado, mesmo recuperar a língua pura configurada no movimento verbal, é o violento e único poder da tradução. Nesta língua pura, que não significa nem exprime mais nada senão a palavra privada de expressão e criatividade, que é o buscado em todas as línguas, toda comunicação, todo significado e toda intenção atingem uma esfera em que se destinam a se extinguir. E tal patamar, precisamente, assegura à liberdade da tradução um direito novo e mais alto. Esta liberdade não deve sua existência ao sentido da comunicação, do qual a tarefa da fidelidade é exatamente fazê-la escapar. Pelo contrário, a liberdade em favor da língua pura verifica-se primeiro em sua própria língua. Resgatar em sua própria língua essa língua pura, ligada à língua estrangeira, liberar pela transcriação essa língua pura cativa na obra, é a tarefa do tradutor. Em favor dela, o tradutor rompe as molduras carcomidas da própria língua: Lutero, Voss, Hölderlin e George ampliaram as fronteiras do alemão. Pode-se captar por uma comparação o valor que permanece ligado ao sentido na relação entre tradução e original. Assim como a tangente toca o círculo de passagem e num só ponto, sendo esse contato e não o ponto que prescreve a lei segundo a qual ela prossegue até o infinito em linha reta, assim também a tradução toca o original de passagem e no ponto infinitamente pequeno do sentido, para prosseguir, de acordo com a lei da fidelidade, a sua própria rota na liberdade do movimento da linguagem. Sem nomeá-lo, nem fundamentá-lo, foi Rudolf Pannwitz quem caracterizou o verdadeiro significado dessa liberdade, em sua Crise da Cultura Européia (Die Krisis der europäischen Kultur), em explicação que, ao lado de Goethe em suas anotações para o Divan, será provavelmente o que de melhor se publicou na Alemanha sobre a teoria da tradução. Eis o que escreveu Pannwitz:

Nossas traduções (Übertragungen), mesmo as melhores, partem de um falso princípio. Elas querem germanizar o sânscrito, o grego, o inglês, em vez de sanscritizar, helenizar, anglicanizar o alemão. Elas têm muito respeito (Ehrfurcht) pelos usos de sua própria língua do que pelo espírito da obra estrangeira.[…] O erro fundamental do tradutor (Übertragenden) é conservar o estado contingente de sua própria língua em vez de deixá-la mover-se violentamente através da língua estrangeira. Sobretudo quando se traduz de uma língua muito distanciada, é preciso remontar até os últimos elementos da própria linguagem, até esse fundo onde palavra, imagem e som se interpenetram. É preciso ampliar e aprofundar sua própria língua graças à língua estrangeira. Ninguém sabe até que ponto isso é possível, até que ponto uma língua pode transformar-se, considerando que uma língua se distingue de outra quase como um dialeto se distingue de outro. Essa distinção, contudo, se perde quando se toma a língua de maneira leviana, e não quando se lhe toma com a devida seriedade.

A traduzibilidade do original determinará objetivamente em que medida uma tradução pode corresponder à essência dessa forma. Quanto menos valor e dignidade tem a sua língua, tanto mais ela é comunicação, e menos interesse pode nela encontrar a tradução. A predominância total desse sentido, longe de ser alavanca de uma tradução formalmente acabada, a torna um fracasso. Quanto mais alta é a qualidade de uma obra, tanto mais ela se torna, mesmo no mais fugidio contato com o sentido, suscetível de tradução. Bem entendido: isso vale apenas para textos originais. Em contrapartida, traduções se revelam intraduzíveis, não porque o sentido pese demais sobre elas, antes porque as toca de maneira extremamente fugidia. Sob esse aspecto, as transposições de Hölderlin, sobretudo, das duas tragédias de Sófocles, representam a confirmação de nossa tese. Aí a harmonia entre as línguas é tão profunda que o sentido da linguagem é tocado à maneira de uma harpa eólia tocada pelo vento. As transposições de Hölderlin são arquétipos de sua forma; mesmo quanto às transposições mais acabadas de seus textos, elas são como o arquétipo para o modelo, a exemplo do que mostra a comparação das transposições de Hölderlin e Borchardt da terceira ode de Píndaro. Mesmo por isso, nelas se verifica mais do que noutras o risco terrível e originário a toda tradução: que as portas de uma língua tão extensa e tão dominada se fechem e aprisionem o tradutor no silêncio. As traduções de Sófocles foram as últimas obras de Hölderlin. Nelas o sentido se precipita, de abismo em abismo até o risco de se perder num abismo verbal sem fundo. Mas há um ponto de parada. Este, porém, não garante nenhum texto, excetuado o texto sagrado, onde o sentido deixou de ser a linha de partilha entre o fluxo da linguaqem e o fluxo da revelação. Onde o texto, diretamente, sem a mediação de um sentido em sua literalidade, pertence à verdadeira linguagem, à verdade ou à doutrina, é por definição traduzível. Com efeito, não mais por si só, mas tão só pelas línguas. Face a isso, requer-se, por parte da tradução, uma confiança tão ilimitada que, abolida toda tensão, como ocorre no texto sagrado com a linguagem e com a revelação, em tal tradução literalidade e liberdade se unifiquem sob a forma de uma versão interlinear. Pois todos os grandes escritos, em qualquer grau, e a Sagrada Escritura em grau mais elevado, contêm nas entrelinhas a sua tradução virtual. A versão interlinear do texto sagrado é o arquétipo ou o ideal de toda tradução.

Nota de Rodapé

[1] As línguas imperfeitas, por serem várias, falta-lhes a suprema: pensar sendo escrever sem acessórios nem murmúrio, mas ainda tácita a imortal palavra; a diversidade, na terra, dos idiomas impede que se profiram as palavras que, do contrário, se encontrariam por um caminho único, ele próprio materialmente a verdade.

Um comentário em “Walter Benjamin – A Tarefa do Tradutor

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