Os Pomares De Saida: Uma História de Tragédia E Resistência

Título Original: Os Pomares De Saida: Uma História De Tragédia E Resistência, 40 Anos Após A Invasão Israelense Do Líbano. Originalmente publicado no site Institute for Palestine Studies.

20 de julho de 2022.

Texto de Zakaria Elkawa.

Tradução por Guilherme Henrique.


Meu pai aproveitando um almoço de família com a minha avó e meu avô em Jezzine, um ano antes da guerra. Meu avô fazia economia para poder conseguir um almoço em Jezzine: algumas vezes por ano, era seguro ir de Saida até lá.

Em 6 de junho de 1982, o exército israelense iniciou uma invasão terrestre em três frentes no sul do Líbano. Isso se seguiu a dois dias de bombardeio, o que fez minha avó estremecer – meu avô havia colocado os colchões nos corredores para evitar estilhaços.

A intenção era expulsar a Organização de Libertação da Palestina (OLP) do Líbano, confrontando-os diretamente em Beirute. Fazer isso significava avançar pela estrada do litoral libanês. Em 7 de junho, havia apenas uma grande cidade bloqueando o caminho para a capital: Saida.

Minha família não era uma família tradicional Saidawi*. Eles só se mudaram para lá em 1978, depois de a realidade em Beirute ter se tornado insustentável três anos após a guerra civil. Eles se estabeleceram muito bem, no entanto. Meu avô recuperou o que pôde de sua loja de tecidos saqueada para abrir uma nova loja perto dos mercados (souks) de Saida, enquanto meu pai e duas tias estavam matriculados na Escola Islâmica Makassed.

Meu pai tinha dezesseis anos, era um estudante ambicioso que, como muitos garotos de sua idade, estava preparado para carregar uma arma para o dia em que uma invasão israelense ocorresse, como quase aconteceu em 1978. A maioria de seus amigos em Saida eram palestinos, e os mercados, onde passava grande parte do tempo fazendo pequenos trabalhos para comerciantes, eram, como ainda são hoje, um centro para a vida palestina no Líbano. Ele não se curvaria a nenhuma noção de que Israel representasse outra coisa senão o inimigo para libaneses e palestinos.

O mesmo aconteceu com a maioria dos moradores libaneses de Saida, pois a resistência aos avanços israelenses veio primeiro através de Ain El-Helwe, o maior campo de refugiados palestinos no Líbano. Enquanto os F-16 atacavam o acampamento, os combates se espalharam rapidamente para o centro de Saida, a Praça Nejmeh. Minha avó se lembra do barulho dos aviões, acreditando que estavam nos telhados porque voavam muito baixo. Uma de minhas tias estava particularmente petrificada, constantemente se escondendo debaixo da cama.

Apesar da diferença em armamento e equipamento, os combatentes da OLP e da Organização Nasserista Popular usaram a natureza de Saida a seu favor. A cidade, particularmente em 1982, era bastante pequena, com apenas uma estrada principal entre os mercados e o porto de um lado e grandes pomares de citrinos e limoeiros estendendo-se para as montanhas do outro. Havia muitas oportunidades para lançar ataques furtivos da quantidade significativa de cobertura de árvores, o que impediu um avanço israelense inicial do sul para o norte. No entanto, depois que Israel cercou a cidade, eles conseguiram abrir caminho após seis dias de luta, levando a uma ocupação da cidade pelos próximos três anos, enquanto o resto do exército israelense seguia em direção a Beirute.

Os primeiros dias da ocupação foram particularmente degradantes. As bombas continuariam a cair, assim como os constantes panfletos solicitando o cumprimento das ordens de evacuação ou agrupamento. Minha tia uma vez mencionou congelar ao ver um atirador israelense apontando sua arma para ela depois de ser vista após o toque de recolher. Meu pai me contou sobre duas ocasiões diferentes em que foi detido por soldados israelenses, uma em uma apreensão de “crianças suspeitas” em sua escola e a outra diretamente em seu prédio por três dias depois que minha família foi acusada de esconder armas. Sua segunda detenção aterrorizou meu avô, que mal pôde apreciar o retorno de meu pai depois de ver as novas queimaduras de cigarro em suas costas. Atos de humilhação, porém, não impediriam a resistência à ocupação. Israel achou muito difícil mantê-la, particularmente com o uso contínuo dos pomares para ataques secretos, acelerando a política israelense de queimar terras agrícolas.

Os pomares não continham apenas produtos locais para venda; eram virtualmente propriedade comum. Os limões, frutas cítricas e nêsperas (إسكدنيا) eram numerosos. Minha avó ainda anseia pelos dias em que meu pai e minha tia os colhiam diretamente do grande número de árvores no caminho da escola para casa. Às vezes, a fruta caía na varanda de uma árvore crescida. A destruição dos pomares não foi apenas mais um chute nos dentes: foi vista como uma tentativa do exército israelense de remodelar a identidade de Saida e destruir a capacidade da cidade de se sustentar. Isso enfureceu os Saidawis e só tornou mais comuns as represálias contra os soldados israelenses. Também fizeram a maior alegria durante a evacuação israelense de Saida, em fevereiro de 1985, enquanto velhas mulheres jogavam arroz das varandas e crianças dançavam na rua.

Meu pai não olha para a queima dos pomares em luto. Embora ele ainda anseie por sua presença toda vez que passamos por Saida, sua crença de que foi um fator motivador para Saidawis continuarem sua resistência bem-sucedida contra Israel permanece forte.

Minha avó lembra que as tropas israelenses estavam constantemente tentando convencer a população de que estavam sendo libertadas de uma presença palestina debilitante. Mas, na realidade, foram os palestinos ao lado dos fazendeiros libaneses que cresceram e cuidaram das árvores, então ninguém acreditou na propaganda dos invasores.

O ataque israelense não foi apenas para expulsar a OLP do Líbano, mas também para provar que a coexistência palestino-libanesa era intragável. Saida provou que essa noção era falsa. Apesar do vazio deixado pela destruição dos pomares em muitas partes de Saida, ainda é uma cidade cheia de vida dos refugiados palestinos e dos Saidawis que ali vivem lado a lado.

*Saidawi é árabe para ‘Libanês da cidade de Saida’.

Nota do autor: Quero agradecer à minha família por narrar seus traumas da invasão israelense e compartilhar a fotografia. Dedico também a todas as pessoas que vivem sob ocupação, que resistem em saber que um dia serão livres.

Sobre o Autor:

Zakaria Elkawa é estudante de graduação em Relações Internacionais e Antropologia na Universidade de Boston. Ele é um aspirante a estudante de direito interessado em migração e movimento de refugiados, com interesse em incorporar estudos urbanos em seu trabalho acadêmico e profissional. Ele já trabalhou com a Iniciativa da Universidade de Boston sobre Deslocamento Forçado antes e foi publicado na edição de outono de 2021 da Boston University Pre-Law Review.

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