Título original: “De acordo com os arquivos de quem?”: O Massacre de Tantura e a Revisionista Historiografia Israelita. Originalmente publicado no site Institute for Palestine Studies.
30 de janeiro de 2022.
Texto de Hashem Abushama.
Tradução por Guilherme Henrique.
Tantura foi uma aldeia palestina no sul de Haifa. Antes da Nakba, tinha uma população de cerca de 1.500 palestinos. Em 1948, seus moradores palestinos foram desapropriados e massacrados pelo 33º Batalhão da Brigada Sionista Alexandroni.
A aldeia foi destruída em sua maior parte, embora um santuário, uma fortaleza e algumas casas tenham restado, ociosas no que é agora uma área recreativa israelense. Também permanece uma vala comum. Suas dimensões são de 35 metros de comprimento e quatro metros de largura. Ela supostamente contém entre algumas dezenas a mais de 200 cadáveres enterrados de homens palestinos que foram massacrados entre 22 e 23 de maio de 1948. Este massacre, há muito documentado e narrado por suas testemunhas e sobreviventes palestinos, está sob crescente escrutínio dentro da academia e da mídia israelense nas últimas três décadas. Os debates em torno disso nos dizem mais sobre a historiografia israelense do que sobre os palestinos massacrados. Eles refletem as relações de poder colonial mais amplas dos colonos que determinam quem se lembra, como se lembram e de acordo com os arquivos de quem.
Em 22 de janeiro, o jornal israelense Haaretz publicou um artigo com depoimentos de veteranos israelenses que admitiram o massacre de Tantura. O artigo renovou os debates em torno da historiografia do massacre. O artigo faz referência ao novo documentário de Alon Shwarz, Tantura, que foi exibido duas vezes durante o Festival de Cinema de Sundance deste ano. No filme, aprendemos sobre um “selvagem [soldado] usando uma metralhadora na conclusão da batalha”. Outro soldado usa sua pistola para matar “um árabe atrás do outro”, e outro soldado coloca palestinos dentro de um barril e atira neles. Esses palestinos, todos homens, foram enterrados às pressas em uma vala comum, sob o que hoje é o estacionamento da popular praia israelense Dor.
Há uma ligação notável entre as artes e recreação israelenses e a expropriação dos palestinos. Aldeias palestinas despovoadas à força, como as aldeias de Tantura, Al-Zeeb e ‘Ayn Hawd, são frequentemente transformadas em áreas recreativas israelenses e colônias de artistas. O que os palestinos abordam, lembram e revivem como “cenas de desapropriação”*, os israelenses simplesmente vivenciam como lazer.
O artigo do Haaretz corroborou a ‘descoberta’ da vala comum por um estudante israelense de pós-graduação documentada em sua dissertação de mestrado de 1998. Veteranos israelenses envolvidos no massacre entraram com uma ação contra o estudante, levando à eventual desqualificação de sua dissertação. A dissertação provocou um debate público na historiografia israelense sobre o massacre. Enquanto Ilan Pappé, um dos novos historiadores de Israel, determinou que um massacre realmente ocorreu em Tantura, outros historiadores israelenses negaram de todo o coração ou argumentaram que “por falta de mais evidências, isso deve permanecer sob especulação”.
A história do Haaretz e as discussões que ela provocou nos dizem mais sobre quem tem autoridade para narrar do que sobre os palestinos massacrados. Embora haja valor em escavar tantos detalhes sobre essas atrocidades, o fato de que esses debates são quase exclusivamente baseados em novas descobertas de materiais de arquivo colonial (como os arquivos das Forças de Ocupação Israelenses) ou testemunhos dos perpetradores, em vez de arquivos palestinos e depoimentos de testemunhas e sobreviventes, é por si só um reflexo do poder colonial. Isso mostra que os arquivos coloniais, os perpetradores coloniais e os acadêmicos coloniais são automaticamente investidos da autoridade para narrar.
Durante décadas, os palestinos contaram repetidamente essas histórias. No entanto, como nos lembra a socióloga feminista palestina Anaheed al-Hardan, foram necessários os “novos historiadores israelenses”, cuja única novidade era o acesso aos arquivos coloniais, para aceitar parcial e seletivamente alguns dos eventos da Nakba de 1948. A “surpresa” da academia e da mídia israelenses com a “descoberta” desses eventos são tentativas de isolar e excepcionalizar tais descobertas. Não é por acaso, então, que o autor do artigo do Haaretz conclui com: “O caso Tantura exemplifica a dificuldade que os soldados da guerra de 1948 tiveram em reconhecer o mau comportamento que estava em exibição naquela guerra: atos de assassinato, violência contra residentes árabes, expulsão e saques”. O massacre é transformado em ‘caso’ e é então excepcionalizado como ‘mau comportamento’. O leitor é quase compelido a simpatizar com os perpetradores, que enfrentam a dificuldade de reconhecer o que cometeram. A expropriação e assassinato sistemáticos de palestinos, e o consequente apagamento das geografias palestinas, são reduzidos a eventos excepcionais que aguardam confirmação dos perpetradores israelenses, avaliação de acadêmicos israelenses e reconhecimento da mídia israelense.
A história e o presente da Palestina nos mostram muitas Tanturas. O predomínio colonial israelense continua a apagar a geografia palestina e a exigir a expulsão e o assassinato de palestinos – o objetivo da limpeza étnica nunca mudou. Testemunhos de palestinos documentando o massacre em Tantura existem desde o início dos anos 1950. O clérigo muçulmano palestino Haj Muhammad Nimr al-Khatib, que era um membro ativo do Comitê Nacional Árabe de Haifa, publicou o livro ‘Min Athar al-Nakba’ (Consequências da Catástrofe). Seu trabalho, que inclui depoimentos de refugiados, faz referência ao massacre em Tantura e relata casos de estupro de mulheres palestinas por soldados israelenses.
Na esteira da ‘controvérsia’ em torno da dissertação do estudante israelense de pós-graduação, o pesquisador palestino baseado em Damasco, Mustafa al-Wali, coletou testemunhos horríveis e comoventes de sobreviventes do massacre, muitos dos quais foram deslocados para campos de refugiados na Síria. Os depoimentos complementaram a evidência já existente de que um massacre havia de fato sido cometido. Um dos sobreviventes, Farid Taha Salam, lembra como “grupos de homens foram levados um a um, e não sabíamos o que aconteceu com eles”. Ele acrescenta: “Taha Mahmud al-Qasim foi um dos que voltou vivo. Ele nos disse que um judeu perguntou ao seu grupo: ‘Quem aqui fala hebraico?’ Quando Taha disse que falava, o judeu disse: ‘Olhe como esses homens morrem e depois vá contar aos outros.’ Então, eles alinharam os outros homens contra uma parede e atiraram neles.” Outra sobrevivente, Sabira Abu Hanna, acrescenta que “o que aconteceu com nossa aldeia não é menos horrível do que o massacre de Dayr Yasin”.
Além desses depoimentos, há documentários produzidos por cineastas árabes e palestinos que focam nas atrocidades de Tantura. Em seu documentário ‘Lost Paradise ‘, a cineasta palestina Ibtisam Mara’na explora a política da lembrança em seu vilarejo de Furaydis, para onde muitas das mulheres e crianças de Tantura fugiram após o massacre. A preocupação de Mara’na é com o silêncio ensurdecedor da geração de seus pais sobre o que aconteceu durante a Nakba, incluindo o massacre. Ela diz: “Meu pai, então um menino de 10 anos, foi enviado para cavar as sepulturas para os moradores de Tantura”. Outro documentário do cineasta libanês Arab Loutfi, intitulado ‘Over their Dead Bodies: Tantura, the Forgotten Massacre’ (2008), explora testemunhos de sobreviventes de al-Tantura.
Esses testemunhos não suscitam discussões na academia israelense ou na mídia israelense. Se aparecem, eles são abordados como ‘fragmentados’, ‘insuficientes’ e ‘tendenciosos’, como o relato de Benny Morris sugere claramente. São os depoimentos dos perpetradores que são tidos como autoritários e de ruptura – como capazes de suscitar um debate que possivelmente pode estabelecer o massacre como um fato histórico contestado, ainda que excepcional. Isso não é surpreendente. Como nos lembra o historiador haitiano Michel-Rolph Trouillout, os silêncios permeiam a produção de narrativas históricas, primeiro na construção das fontes, depois dos arquivos, depois das narrativas, depois da história em última instância. Todos esses silêncios estão presentes na história do Haaretz. As fontes foram os depoimentos dos próprios perpetradores; os arquivos coloniais das Forças de Ocupação israelenses foram mantidos limpos desse registro; as narrativas em torno do evento negadas com veemência; e agora sua produção como um ‘fato histórico’ está sendo contestada e tornada excepcional. Escrever a luta palestina contra o pano de fundo desses silêncios torna-se uma necessidade histórica.
*Nota do escritor: “cenas de desapropriação” é um conceito usado por Latty et al. conota como um estado colonial ocupante não é meramente o Estado e suas instituições; conta também com cenas cotidianas de desapropriação, como israelenses nadando e criando arte nas ruínas de nossas aldeias, a fim de reproduzir o Estado colonial ocupante e a mentalidade do colonizador.
Sobre o Autor:
Hashem Abushama é doutorando em geografia humana na Escola de Geografia e Meio Ambiente da Universidade de Oxford. Seus interesses de pesquisa estão na interseção entre geografias urbanas, estudos culturais e estudos dos colonizadores. Publicou artigos no Jerusalem Quarterly, no Refuge e no Jadaliyya.

Onde se pode assistir esse documentário? Não encontrei em nenhum serviço de streaming ou no you tube. Obrigado.
Tem no Youtube, eu assisti semana passada, com legenda em inglês. https://www.youtube.com/watch?v=bDacrozhhKQ