Ensaio presente no livro “Nothing Personal” de James Baldwin, publicado originalmente em 1964 e relançado pela Beacon Press, Boston em 2021.
Tradução por Andrey Santiago.
Quatro da manhã pode ser uma hora devastadora. O dia, não importa que tipo de dia seja, está sem sombra de dúvidas no fim; quase instantaneamente, um novo dia começa: e como alguém vai aguentar o novo dia? Provavelmente não muito melhor do que essa pessoa aguentou o dia que está acabando, possivelmente não tão bem. Além disso, está chegando um dia do qual não nos lembraremos, o último dia da nossa vida, e nesse dia a pessoa se tornará tão irrecuperável quanto todos os dias que passaram.
É uma especulação amedrontadora – ou, quem sabe, um conhecimento amedrontador – de que, um dia, os nossos olhos não vão mais poder ver o mundo. Não vamos mais estar presentes no despertar da manhã universal. A luz vai acender para os outros, mas não para você. Às vezes, às quatro da manhã, esse conhecimento é quase o suficiente para forçar uma reconciliação entre nós e todas nossas dores e erros. Já que, de qualquer modo, tudo vai acabar um dia, porque não tentar – a vida – mais uma vez? “É uma longa estrada“, como Bessie Smith coloca, “mas ela precisa encontrar um fim“. E então, ela nos informa, cansada e obstinada, “peguei minha bolsa, querido, e tentei de novo“. Sua música termina com uma nota muito amarga e reveladora: “você não pode confiar em ninguém, você pode muito bem ficar sozinho / encontrei meu amigo há muito perdido, e eu poderia muito bem ficar em casa.”
Ainda assim, ela foi levada a encontrar aquele amigo há muito perdido, a agarrar novamente, com uma esperança terrível, a mão humana relutante e indiferente. Eu acredito que todas as nossas viagens nos levam até esse lugar; já que eu sempre acreditei que o ser humano só pode ser salvo por outro ser humano. Eu tenho consciência de que nós não nos salvamos muitas vezes. Mas eu também tenho consciência de que nós nos salvamos de tempos em tempos. E tudo que Deus pode fazer, e tudo que eu espero que Ele faça, é reservar coragem para alguém continuar a sua jornada e encarar o seu fim, quando ele chegar, de frente.
Pois, talvez – talvez – entre agora e o último dia, algo maravilhoso aconteça, um milagre, um milagre de coerência e libertação. E o milagre no qual se concentra a atenção instável de alguém é sempre o mesmo, independentemente de como possa ser declarado ou de como possa permanecer não declarado. É o milagre do amor, amor forte o suficiente para guiar e levar a pessoa para um estado de maturidade, ou, para colocar de outro modo, de compreensão e aceitação da identidade da sua própria identidade. Pois algum instinto profundo e imutável – creio eu – nos faz saber que é apenas esta conquista apaixonada que pode sobreviver à morte, que pode fazer com que a vida brote da morte.
No entanto, às vezes, às quatro da manhã, quando sentimos que provavelmente nos tornamos simplesmente incapazes de suportar este milagre, com todas as nossas feridas abertas e pulsantes, e toda a nossa horrível inadequação olhando e gritando das paredes e do chão – o universo inteiro tendo encolhido na prisão do eu – a morte brilha como a única luz em uma estrada alta e escura na montanha, onde alguém se perdeu para todo o sempre. E muitos de nós perecemos então.
Mas se alguém puder voltar atrás, ir até dentro de si mesmo, dentro de sua própria vida – e encontrar ali algum testemunho, por mais inesperado ou ambivalente que seja, da sua realidade, estará capacitado, embora talvez não com muito espírito, para enfrentar outro dia. (Costumávamos cantar na igreja, “é mais um dia de viagem, e estou tão feliz, o mundo não pode me fazer mal!“) O que devemos ser capazes de reconhecer, às quatro horas da manhã, é que ninguém tem o direito, pelo menos não por motivos de angústia privada, de tirar a própria vida. Todas as vidas estão ligadas a outras vidas e quando um homem se vai, muito mais do que o homem vai com ele. É preciso considerar-se o guardião de uma quantidade e de uma qualidade – de si mesmo – que é absolutamente única no mundo porque nunca esteve aqui antes e nunca estará aqui novamente. Mas é extremamente difícil, neste lugar e nesta época, olhar para nós mesmos desta forma. Onde todas as conexões humanas são de desconfiança, o ser humano se perde muito rapidamente.
Quatro da manhã passa, a curva perigosa manobrada mais uma vez; e aí vem o sol ou a chuva e a luz e os sons duros, metálicos e pouco reveladores da vida lá fora e do movimento nas ruas. Cautelosamente, espia-se pelas persianas, adivinhando o tempo. E, logo, do limbo do vapor e da neblina do banheiro, o rosto volta a flutuar, de profundezas inimagináveis. Aí vem, ilegível como sempre, os ossos pacientes firmes sob a pele, os olhos velando a perplexidade da mente e a perda do coração, apenas os lábios sugerindo enigmaticamente que nem tudo está bem com o espírito que vive dentro deste barro. Em seguida, seleciona-se o uniforme que será usado. Este uniforme foi projetado para telegrafar aos outros o que ver, para que não se sintam desconfortáveis e provavelmente hostis ao serem forçados a olhar para outro ser humano. Esse uniforme deve sugerir uma certa configuração e deve ditar um certo ar e também deve fornecer, mesmo sutilmente, uma agressividade dormente, como o poder de um leão dormindo. É necessário fazer qualquer pessoa na rua pensar duas vezes antes de tentar despejar seu desespero em você. Tão armado, você chega nas ruas mal amadas. As ruas mal amadas. Eu muitas vezes andei pelas ruas de Nova Iorque pensando em mim como um tipo de explorador sem precedentes, preso entre selvagens, procurando por um tesouro escondido; com o truque sendo descobrir o tesouro antes que os selvagens me descobrissem; assim, meu uniforme enganador. Afinal, vivi em cidades onde não eram impensáveis urnas de pedra nos parapeitos dos parques, cidades onde era perfeitamente possível, e não se tratava de pôr a vida nas mãos, caminhar pelo parque. Quanto tempo duraria uma urna de pedra no Central Park? E olhe para os edifícios de Nova York, erguendo-se como águias tirânicas, vidro, aço e alumínio golpeando o ar, desorganizados, ineptos, desdenhosos; quem pode funcionar nestes edifícios e para cujo lucro foram construídos? Realmente mal amadas: olhem para as nossas crianças. Elas vagam pelas ruas, tão arrogantes e irreverentes como os homens de negócios e tão perigosas como aqueles bandos de crianças que vagavam pelas ruas das cidades europeias bombardeadas após a última Guerra Mundial. Só que estas crianças não têm soldados estranhos e sorridentes para lhes dar chocolate ou chicletes, e ninguém lhes dará um lar. Ninguém tem nada para dar, a própria palavra já não tem qualquer significado e, de qualquer forma, nada é mais vívido na vida americana do que o fato de não termos respeito pelas nossas crianças, nem de as nossas crianças terem qualquer respeito por nós. Ao sermos o que nos tornamos, ao colocar as coisas acima das pessoas, quebramos seus corações desde cedo e as afastamos.
Nós temos, me parece, um curioso senso de realidade – ou, talvez, quem sabe, eu deva dizer, um vício marcante pela irrealidade. Como é possível, não podemos deixar de perguntar, criar um filho sem amá-lo? Como é possível amar um filho se não se sabe quem ele é? Como é possível que uma criança cresça se não é amada? As crianças podem sobreviver sem dinheiro, segurança, proteção ou coisas: mas estarão perdidas se não conseguirem encontrar um exemplo amoroso, pois só este exemplo pode lhes dar uma pedra de toque para as suas vidas. Até aqui e já deu: é isso que o pai deve dizer ao filho. Se não for dito à criança onde estão os limites, ela passará o resto da vida tentando descobrí-los. Pois a criança a quem não é dito onde estão os limites sabe, embora possa não saber que sabe disso, que ninguém se importa o suficiente com ela para prepará-la para a sua jornada.
Penso que isto tem algo a ver com o fenômeno, sem precedentes no mundo, do garoto americano sem idade; tem algo a ver com a nossa adulação desesperada pela simplicidade e pela juventude – quão amargamente traído alguém deve ter sido na juventude para supor que é uma virtude permanecer simples ou permanecer jovem! – pelo menos, isso me ajuda a explicar alguns dos propósitos surpreendentes aos quais os americanos atribuíram a ciência imprecisa da psiquiatria. Conheci pessoas com problemas genuínos, que de alguma forma conseguiram conviver com seus problemas; e não posso deixar de comparar essas pessoas – ex-viciados e presidiários, filhos de nazistas alemães, filhos de generais espanhóis, filhos de racistas do sul, cantores de blues e matronas negras – com essa horda fluida, em meus contatos profissionais e quase profissionais, cujo único problema real é a inércia, que trabalham nos empregos mais vergonhosos para pagar, pelo luxo da atenção de outra pessoa, vinte e cinco dólares por hora. Para minha consciência negra e endurecida, puritana, parece um escândalo absoluto; e, mais uma vez, esta peculiar autoindulgência certamente tem um efeito terrível sobre os seus filhos, que eles são totalmente incapazes de criar. E não podem criá-los porque optaram por um bem que está absolutamente fora do alcance humano: a segurança.
Essa é uma das razões, que parece para mim, o porquê somos tão mal-educados, pois se tornar educado (como todos os tiranos sabem) é se tornar inacessivelmente independente, é alcançar uma formar perigosa de avaliar o perigo, e é segurar nas suas próprias mãos como um meio de mudar a realidade. Isso não é a mesma coisa que “se ajustar” a realidade: o esforço de “se ajustar” a realidade simplesmente tem o efeito paradoxal de destruir a realidade, já que isso substitui nossa própria fala e nossa própria voz por uma interiorizada cacofonia pública de citações.
Pessoas são derrotadas ou ficam loucas ou morrem de muitas, muitas maneiras, algumas no silêncio do vale, “onde eu não conseguia ouvir ninguém orar”, e muitas em público, soando horrorizadas onde nenhum grito, lamento, canção ou esperança pode se desvencilhar do rugido. E assim afundamos, vítimas daquela crueldade universal que vive no coração e no mundo, vítimas da indiferença universal perante o destino do outro, vítimas do medo universal do amor, prova da absoluta impossibilidade de alcançar uma vida sem amor. Um dia, talvez, daqui a gerações inimagináveis, evoluiremos para o conhecimento de que os seres humanos são mais importantes do que propriedades e permitiremos que esse conhecimento se torne o princípio governante das nossas vidas. Pois não duvido nem por um instante, e irei para o túmulo acreditando, que podemos construir Jerusalém, se quisermos.
