Epílogo do livro “A Burst of Light and Other Essays”, lançado em 2017 pela Ixia Press.
O texto a seguir é o epílogo do capítulo “A Burst of Light: Living with Cancer”, escrito em agosto de 1987.
Tradução por Andrey Santiago.
Às vezes, sinto como se estivesse vivendo em uma estrela diferente daquela que costumo chamar de lar. Não foi uma progressão constante. Tive que examinar, tanto em meus sonhos quanto nos testes de imunidade, os efeitos devastadores do excesso. Ir além dos meus limites não é o mesmo que me expandir. Tive que aceitar o quanto é difícil distinguir entre os dois. É tão necessário para mim quanto cortar o açúcar. Crucial. Fisicamente. Psiquicamente. Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação — e isso é um ato de guerra política.
O tempo neste lugar é acelerado, denso e duro. Meus dias são uma mistura árida e dissonante do mundano com o apocalíptico. Se misturam sem muita suavidade. Transito sem pausa entre um relatório sobre metástases peritubárias (isso significa que escapou para a cavidade abdominal?) e orçamentos para construir meu espaço de trabalho em St. Croix. Mudanças drásticas entrelaçadas ao cotidiano eterno.
Meu objetivo é transitar com mais leveza entre esses dois mundos, tornar as transições menos custosas, me aproximar do manuscrito finalizado de uma aluna, dos laudos médicos e dos orçamentos da casa de forma aberta, com senso de proporção. Peço um perfume de Granada chamado “Jump Up and Kiss Me” (Levante-se e me beije).
Tento entrelaçar meus tratamentos prolongadores de vida dentro de um contexto vivo — resistir à entrega como oferenda sacrificial à fúria de uma concentração única na cura, que não deixa espaço para refletir sobre o que significa viver e lutar num plano físico. O que viver com câncer pode me ensinar. Vou à Alemanha neste outono para mais um tratamento com visco. Estou animada para trabalhar novamente com o Grupo de Mulheres Afro-Alemãs.
Acredito que uma das formas pelas quais as células cancerígenas garantem sua própria sobrevivência e deprimem o sistema imunológico é criando um desespero fisiológico. Aprender a combater esse desespero em todas as suas manifestações não é apenas terapêutico. É vital. Ressaltar o que é alegre e afirma a vida em meu cotidiano se torna essencial.
O que tive que deixar para trás? Hábitos antigos, mecanismos de defesas superados, colocados de lado para que não drenem energias sem propósito útil?
Uma das coisas mais difíceis de aceitar é aprender a viver na incerteza — sem negá-la nem me esconder atrás dela. Acima de tudo, escutar as mensagens da incerteza sem permitir que elas me paralisem ou me afastem das verdades em que acredito. Me afasto de qualquer necessidade de justificar o futuro — de viver no que ainda não é. Acredito e trabalho pelo que ainda não chegou, enquanto vivo plenamente o agora.
Esta é a minha vida. Cada hora é uma possibilidade que não deve ser poupada. Estes dias não são uma preparação para a vida, nem um desvio necessário mas essencialmente estranho ao curso principal da minha existência. Eles são a minha vida. A sensação do lençol contra os meus calcanhares ao acordar com o som de grilos e bananaquits em Judith’s Fancy. Estou vivendo a minha vida em cada dia específico, não importa onde estou, nem em qual atividade. É a consciência disso que dá uma amplitude maravilhosa a tudo o que faço com atenção. Minhas convicções mais profundas podem se expressar tanto em como encaro a quimioterapia quanto na forma como leio um poema. É sobre tentar saber quem eu sou onde quer que eu esteja. Não é como se eu estivesse lutando aqui enquanto a vida de verdade está me esperando em outro lugar.
Visualizo diariamente a vitória nas batalhas que ocorrem dentro do meu corpo — isso é uma parte importante da luta pela minha vida. Nessas visualizações, o câncer às vezes assume o rosto e a forma dos meus inimigos mais implacáveis, aqueles contra os quais luto e resisto com mais força. Às vezes, as células rebeldes do meu fígado se transformam em Bull Connor e seus cães policiais, completamente sufocados e impotentes em Birmingham, Alabama, por uma poderosa avalanche de jovens marchando rumo ao futuro. O rosto inchado de P.W. Botha, símbolo do apartheid, esmagado sob o avanço lento e rítmico da fúria negra. Mulheres negras sul-africanas se movendo pelo meu sangue e destruindo os passaportes raciais. Fireburn Mary* varrendo o interior de St. Croix, com machado e tocha nas mãos. Imagens de um cantor de calipso:
A grande bota preta da liberdade
Está esmagando sua porta.
Me preparo para a vitória sabendo que ela é minha, aconteça o que acontecer. De fato, estou cercada, em minha vida exterior, por inúmeros exemplos da mesma luta pela vida que ocorre dentro de mim. Visualizar o processo da doença em imagens políticas não é um sonho quixotesco. Quando falo contra a intervenção cínica dos EUA na América Central, estou lutando pela minha vida em todos os sentidos. Em 1986, o orçamento de pesquisas do Instituto Nacional do Câncer foi cortado exatamente no valor que foi ilegalmente repassado aos contras da Nicarágua. Cento e cinco milhões de dólares. Isso dá ainda outro significado à máxima de que o pessoal é político.
O câncer em si tem um rosto anônimo. Quando estamos morrendo visivelmente de câncer, às vezes é mais fácil desviar o olhar da experiência específica para a tristeza da perda; e quando estamos sobrevivendo, às vezes é mais fácil negar essa experiência. Mas aquelas de nós que vivem suas batalhas na carne precisam se reconhecer como sua arma mais forte na mais valente luta de suas vidas.
Viver com câncer me obrigou a abandonar conscientemente o mito da onipotência, de acreditar — ou declarar levianamente — que posso tudo, junto com a perigosa ilusão da imortalidade. Nenhuma dessas defesas não examinadas serve como base sólida para o ativismo político ou para a luta pessoal. Mas, em seu lugar, outro tipo de poder está crescendo — um poder durável, temperado, enraizado nas realidades do que estou de fato fazendo. Uma avaliação lúcida e aberta do que posso e faço, usando quem sou e quem desejo ser. Estender-me o máximo possível e valorizar o que é satisfatório, em vez do que é triste. Construindo um caminho forte e elegante rumo à transição.
Eu trabalho, eu amo, eu descanso, eu vejo e aprendo. E eu relato. Esses são meus fundamentos. Não certezas, mas uma fé firme de que, mesmo que viver isso com alegria não prolongue minha vida, com certeza me permite perseguir os objetivos dela com uma clareza mais profunda e eficaz.
