Originalmente publicado no site The Guest House.
Tradução por Andrey Santiago.
No último final de semana, li as palavras de Carl Sagan em seu livro “Pálido Ponto Azul: Uma Visão do Futuro da Humanidade no Espaço” pelo Pinterest, e chorei um pouquinho por dentro.

“Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superastros”, “líderes supremos”, todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali — num grão de poeira suspenso num raio de sol.”
Você entende o que eu quero dizer, certo? Feito para você chorar imediatamente.
A vida é muito frágil e o mundo é muito ocupado para que possamos nos conectar profundamente com “todos os seres humanos que já existiram”. Às vezes, sinto que somos frequentemente forçados a criar relacionamentos com as pessoas porque isso é o que definimos como “ser humano”. Sempre buscar companhia, futuros íntimos e a permanência em cada lindo e efêmero laço.
Questiono se essa noção atual de “ser humano” nos obriga a conectar-nos com outros apenas se isso nos garantir tempo e espaço indefinidamente para estar com eles. Tempo e espaço para nutrir, investir ou controlar. Onde isso deixa os outros? As conexões perdidas, as trocas delicadas e o acaso acidental?
Uma conexão é uma conexão. Como a medimos é relativo ao quanto valorizamos o desconhecido. Se valorizamos o tempo que conhecemos alguém, então nos sentiremos mais seguros para nos revelar lentamente ao longo do tempo, sabendo que temos o suficiente desse tempo. Se valorizamos conhecer um estranho onde ele está, naquele momento, sem qualquer preconceito ou expectativa, então estaremos mais abertos a receber uma pequena (mas às vezes amarga) coisa chamada surpresa.
Não é engraçado? Como cada pequena surpresa que encontramos mesmo em alguém que conhecemos há muito tempo pode nos fazer sentir brevemente como estranhos novamente? Sentir-se surpreendido e estranhado ao mesmo tempo por alguém que pensávamos conhecer, que espetáculo é esse.
De qualquer forma, para surpresa de ninguém, há um espaço infinito dentro do meu coração para todos que amo. É porque aprendi que valorizar momentos com estranhos torna o ato de realmente conhecer alguém ainda mais mágico, mais generoso.
No entanto, passei a ter um lugar especial para os relacionamentos que entraram e saíram da minha vida.
No fundo do meu coração, há uma sala cheia de estranhos. Um lugar animado, secreto cheio de ex-melhores amigos, antigos colegas de quarto, amores temporários ou amigos de amigos de amigos. Qualquer um com quem me conectei, mesmo que por um minuto, está lá, brilhando como poeira estelar, flutuando ao redor de uma mesa de jantar como uma constelação no céu. E nessa sala, gosto de acreditar que estamos todos dançando, comendo, compartilhando fofocas quentes, brindando e lamentando as experiências humanas que compartilhamos em algum momento, durante aquele dia ou noite, em algum lugar longe daqui.
Gosto de imaginar que um dia, quando eu estiver o mais velho possível, essa sala estará lotada de canto a canto. Eu a visitarei ocasionalmente com pessoas do meu passado para relembrar e compartilhar algumas risadas. Ao fazer isso, esquecerei que algum dia conheci a sensação de solidão.
Um brinde a isso.

Que lindo!!!