Publicado originalmente em:
John Stoltenberg. How Can I Be Closer to People – in Friendship and in Love?. em The end of manhood: parables on sex and selfhood. 2005.
Tradução e revisão por Carla Miranda.
Fotografia da capa por Luiz Braga.
A testagem insistente à nossa lealdade à masculinidade pode eventualmente se tornar uma praga nas nossas relações mais íntimas. O padrão de “homem de verdade” nos persegue e assombra ao ponto de acabarmos acreditando que ninguém gostaria de ser nosso amigo, e ninguém poderia nos amar, se não medirmos esforços para correspondê-lo.
Ninguém parece saber de certeza o que é esse padrão de “homem de verdade”, e alguns homens em sua defesa exageram tanto que se tornam caricaturas de hipermasculinidade. Mas tais pistas de informação oferecem pouco consolo. A certa altura, quase todo humano criado para ser homem é acometido pela sensação de que, se ao menos alcançasse o nível de homem suficientemente real, não se sentiria tão sozinho.
A vergonha aprendida no instável ato de masculinidade se torna o ímpeto e o incubo que trazemos para todos os relacionamentos pessoais, para que assim a gente vá buscar amizades e amantes que vão realmente, verdadeiramente nos apreciar – como um homem real, de verdade. Esperamos sua percepção congratulatória de nossa hombridade para curar a dor impactante disso. Mas sempre tem aí um problema ignorado – o próprio ato de masculinidade que abraçamos é inimigo da intimidade e da confiança. E enquanto sustentarmos o ato de masculinidade, perderemos o sentido de ser humano:
⫸ Lealdade ao ato de masculinidade significa viver com o medo constante de revelar a sua própria verdade pessoal. O ato de masculinidade é uma máscara que você veste para se manter a salvo de outros homens mascarados, para se manter a salvo do julgamento deles sobre quão bem você sustenta seu ato de masculinidade, e para se manter a salvo de ser ofendido por eles. Isso significa comparar os atos de masculinidade o tempo todo – buscando saber e se vigiando, calculando quando você pode superar o ato de outra pessoa e quando o seu pode ser superado. Significa ter as suas decisões emocionais e relacionais mais importantes controladas pelo medo de outros homens.
⫸ Se conectar realmente com alguém não é possível pelo ato de masculinidade. O sentido da lealdade à masculinidade é apresentar o seu ato de masculinidade como se isso fosse você. Então se nas suas relações mais íntimas, você segue acreditando no poder de outros homens mascarados de julgar você e lhe ofender se você larga o ato, você vai vestir o seu medo do julgamento dos outros homens como uma armadura. E as chances de você se conectar com outra pessoa através da sua verdade pessoal – com a verdade pessoal de outra pessoa – são zero.
Volta e meia, vivenciamos a dicotomia entre masculinidade e personalidade no nosso cotidiano – mas sem saber exatamente como ou por quê. Sem ter palavras para compreender a contradição, de repente tropeçamos nisso quando nos sentimos impedidos de nos mostrar de verdade numa relação íntima, por exemplo, ou quando nos afastamos emocionalmente da intimidade sem qualquer razão aparente.
Lidando com o danoso dilema do julgamento de outros homens em seu ato de masculinidade, muitos humanos criados para ser homem carecem de uma solução interpessoal na forma de uma relação amorosa, carinhosa. Mas inevitavelmente – se a relação é motivada pela necessidade de vangloriar o seu ato de masculinidade no privado, em relativa segurança, aparentemente longe do julgamento de outros homens – as coisas começam a dar errado:
⫸ Se você espera que uma amizade ou um amante valide seu ato de masculinidade, você não pode esperar perder seu medo de revelar quem você é. Se você precisa que a relação confirme o seu ato de masculinidade – se isso é o sentido que você dá para a relação emocional – então a outra pessoa da relação vai ser verdadeira com você apenas na medida em que ela sofrer por causa da sua máscara. Isso significa que para você, a outra pessoa não é real. Isso significa que você ainda veste o seu medo. Isso significa que você não largou sua lealdade à máscara. Isso significa que você também não é verdadeiro.
⫸ Provavelmente tem várias pessoas em sua vida que preferem reconhecer quem você realmente é, para variar – inclusive você. Nem todo mundo que você encontra é um homem mascarado, afinal. Nem todo mundo desafia você a manter sua verdade pessoal escondida ou coisa assim. Só porque revelar seu eu real pode surtar um monte de homens mascarados, não significa que isso surtaria todo mundo que importa para você. Ou os homens mascarados sempre importam mais? O poder de julgamento deles sempre substitui o seu?
A decisão de desistir da lealdade ao ato de masculinidade não é fácil de sustentar. Mas não é difícil de tomar – para o bem das pessoas na sua vida que preferem conhecê-lo como você realmente é, e para o bem da pessoa que você prefere ser. A deslealdade ao julgamento dos homens mascarados não parece tão impossível, se vista como uma lealdade às pessoas que realmente se importam com você e que também são importantes para você.
Cada pessoa só vive uma vida na terra. A disputa pela credibilidade entre dois ou mais atos de masculinidade tem, ao longo da história, significado conquista, traição e violência sobre bilhões de seres humanos – seja por terceiros em uma trégua temporária ou perdedores em uma guerra permanente. Essa insanidade só pode cessar quando um por um de nós aprendermos o compromisso e as habilidades para desempoderar o ato de masculinidade ao largar nossa subserviência a isso. Assim, incrivelmente, um potencial interpessoal extraordinário se torna possível:
⫸ Você nunca se sente mais real do que quando outra pessoa é completamente verdadeira com você. Esse reconhecimento tende a vir como uma completa surpresa para aqueles de nós que foram enganados e subornados para vestir a máscara da masculinidade. Crescemos aprendendo pela rotina e pelo rito que somos menos que ninguém se não agir como homens. Ser real é ser um “homem de verdade” – e a punição e humilhação se você falhar são uma memória familiar para todos nós. Mas o que conta como “sucesso”? O que significa se sentir real se sua credibilidade perante os outros sempre depende de usar a máscara da masculinidade da maneira certa? Você não veste a máscara da masculinidade para se sentir real – senão apenas para ser julgado como se fosse um homem de verdade. Você nunca realmente chega a se sentir real, exceto quando outros homens mascarados lhe dão o aval de aprovação ao seu ato de masculinidade. É uma corrida, é uma lombra, e você pode facilmente confundir isso com autoconfiança e autoestima – a certeza transitória de que você é um homem real entre homens reais. O problema é que, se você depende de outros homens mascarados para criar a sua noção de si mesmo, você nunca pode saber quem você realmente é sem o aval deles, o que é muito limitante. Se você estragar isso, você não é qualificado, eles podem fazer você se sentir menos que ninguém.
⫸ Quando você age com os outros como se eles fossem tão reais quanto você, você chega a se sentir real como um ser humano pode ser. Em vez de pensar sobre a sua noção de si mesmo como qualquer coisa que aconteça quando os homens mascarados lhe julgam, pense sobre sua noção de si mesmo como algo que resulta quando você respeita completamente a outra pessoa na própria realidade dela. Isso é exatamente oposto a como alguém se sente real fazendo o ato de masculinidade. Isso é olhar a sua realidade de outra forma. É olhar sua realidade como o que acontece quando alguém é real com você – não uma função do que acontece quando você é julgado homem de verdade por outros mascarados. Ser um homem consciente significa aprender a viver por essa outra perspectiva – pelo ponto de vista de outra pessoa – a nossa mais inteira e profunda realidade ao respeitar a completa realidade das pessoas. Isso dá uma sensação tão diferente que você pode até pensar que é magia. Mas não é. É simplesmente decidir viver como um homem consciente.
A maneira de experimentar esse potencial interpessoal não é espiritual ou poética ou mitológica. Viver sendo você mesmo nas relações não é nem uma “jornada” ou “caminho” alegórico – é só a atenção prática e diária à questão da justiça nas relações interpessoais. Um homem consciente é alguém que presta essa atenção – um humano criado para ser homem que decidiu amar mais a justiça do que a masculinidade.
Mas a justiça prática diária não é sempre cristalina e autoevidente. E porque ela sempre acontece (quando acontece) entre pessoas, há sempre alguém cuja realidade conta mais do que a própria. Portanto nenhum homem consciente pode se considerar uma ilha de consciência elevada, esclarecida e insular, hipocritamente em posse “da verdade”. Ao contrário – entender que a individualidade é vivenciada, por definição, na relação com a completa realidade de outras pessoas – ele tenta manter em mente o significado de ser apenas humano:
⫸ Você não pode presumir que você vai agir como homem consciente o tempo todo mesmo que decida por isso. Certamente, ninguém que realmente lhe conhece bem pode presumir isso. Então você não tem chão para presumir isso também. Viver como homem consciente é sempre um dia depois do outro, um momento depois do outro – cada encontro por vez, cada decisão por vez.
⫸ Mesmo que você decida viver como homem consciente, você provavelmente vai vacilar. É um fato.
⫸ Tendo decidido viver como homem consciente, você pode perceber como você vacilou antes que qualquer outra pessoa perceba. A pessoa na sua vida cuja individualidade você desrespeitou – e quem importa para você – pode ou não ser a primeira a saber o que você acabou de fazer.
⫸ Então novamente, você pode não ser o primeiro a saber quando você fez algo que desrespeitou a individualidade de outra pessoa. Portanto, talvez seja necessário chamar a sua atenção para o seu erro – talvez pela pessoa cuja individualidade você desconsiderou, talvez por outra pessoa que estava prestando mais atenção que você.
⫸ Decidir viver como um homem consciente não é um evento de-uma-vez-por-todas. Isso se decide em cada decisão que a pessoa toma; a pessoa escolhe lealdade à justiça amorosa em toda e cada escolha.
O que um homem consciente deve fazer quando vacila?
Em geral, há duas maneiras de desconsiderar a individualidade de outra pessoa, particularmente de alguém que você tem proximidade:
- Você pode fazer algo que desconsidera a individualidade de outra pessoa embora você não tenha tido a intenção (porque você pretendia viver como um homem consciente mas você vacilou).
Ou…
- Você pode fazer algo que desconsidera a individualidade de outra pessoa porque você teve intenção (talvez porque você de alguma forma tinha de cancelar a individualidade de alguém para garantir a credibilidade do seu ato de macheza).
Em geral, essas duas maneiras de vacilar não fazem grande diferença para a pessoa cuja individualidade foi desconsiderada. Para essa outra pessoa, a questão não é se você pretendeu machucá-la; a questão é que você negou a humanidade dela. Seja pouco ou muito, ela foi humilhada por você de alguma forma – e o problema dela é lidar com o que você fez a ela, não ajudar você a se sentir melhor com o que você fez. Então se você está tentando viver como um homem consciente, e está tentando prestar atenção à realidade das outras pessoas, aqui vai o que você faz em seguida:
⫸ Entenda exatamente o que você fez. (Não pule para o “por quê”; primeiro se certifique sobre “o quê” e “para quem”.) Escute o que você fez, pela pessoa a quem você fez. Ou entenda por si mesmo, baseado na melhor informação disponível ao redor. Então…
⫸ Reconheça que você sabe o que você fez. Especificamente; não em termos gerais. Certifique-se diretamente que a pessoa que você machucou sabe que você entendeu o que você fez o mais exatamente possível. (Isso ajuda a pessoa a não se sentir maluca nem totalmente desapegada de você. Isso ajuda você a buscar restaurar uma conexão humana com outro ser humano real.) Então…
⫸ Peça desculpa. Sem defesa. Sem racionalizar. Com todo o seu eu entregue em suas palavras. Como se você estivesse conversando com alguém que importa para você – não importa o quão bem você conheça a pessoa, mas especialmente se você a conhece bem. Então…
⫸ Faça as pazes. De toda forma que você puder. Para compensar o que você tirou da outra pessoa, para reconhecer novamente o direito humano dela de ser ela mesma, para restaurá-la a si mesma – e para restaurar você a si mesmo.
Se, por outro lado, você está prestando a maior atenção para manter seu ato de masculinidade intacto, aqui vão algumas coisas que você provavelmente faz em seguida:
⫸ Despreze ou desvalorize a dor causada. Tente ignorar o que quer que a pessoa esteja tentando lhe dizer que a machucou. Tente fazê-la pensar que ela é louca de se sentir abalada por nada.
⫸ Tenha uma amnésia completamente repentina. Tente convencê-la de que você não se lembra de nada que se refira a qualquer coisa que ela esteja falando sobre o seu suposto comportamento.
⫸ Reverta “quem fez o quê a quem”. Troque quem foi machucado. Afirme que foi você a verdadeira parte injuriada, e que foi a outra pessoa quem gerou o dano.
⫸ Mine ainda mais a outra pessoa. Tente fazê-la pensar que tem algo realmente errado com ela, e sempre teve, e você tem mantido um registro, e agora é hora de fazê-la saber.
⫸ Invente uma desculpa que você não sente – uma amenidade rasa e mentirosa com conteúdo suficiente apenas para manter a pessoa quieta por enquanto.
⫸ Faça uma promessa sem intenção de mantê-la – uma promessa de não fazer o que quer que seja de novo, uma promessa de nunca mais machucar a pessoa daquela maneira de novo – uma amenidade rasa e mentirosa com conteúdo suficiente apenas para manter a outra pessoa quieta por enquanto.
A contradição entre individualidade e masculinidade frequentemente se revela na vida cotidiana em interações bem contrárias. No primeiro exemplo, o problema é visto como sendo um de justiça prática e interpessoal – entre dois seres humanos particulares – e a reação é para restaurar a individualidade de quem o homem ofendeu, ao garantir que o erro é corrigido. No segundo exemplo – onde a pessoa que foi ofendida é apagada da história – a reação pode ser caracterizada como unilateral, uma defesa de beco sem saída.
A masculinidade de uma pessoa parece real quando se trata outra pessoa como menos real.
A individualidade de uma pessoa se torna real quando ela honra a realidade das outras.
Você não é o seu ato de masculinidade. Você é quem escolhe o que você faz. Você se torna cada escolha que você faz.
Viver como um homem consciente significa reconhecer que as conexões de alguém com a inteira individualidade totalmente real de outros seres humanos ficam desconectadas quando você machuca outra pessoa, quando você desconsidera a individualidade de outra pessoa. O que você deve fazer em seguida sempre deve começar com o reconhecimento da realidade da outra pessoa. Começar de qualquer outra posição é se comprometer com a desconexão.
A FORMA DE SE APROXIMAR DE ALGUÉM,
INDIVIDUALIDADE COM INDIVIDUALIDADE,
COMEÇA COM UM COMPROMISSO
PELA JUSTIÇA AMOROSA.
