Originalmente publicado no livro “A Encruzilhada dos Orixás”, lançado em 2003 pela Editora da UFAL.
Transcrição por Andrey Santiago.
O episódio da revolta dos marinheiros da Esquadra Brasileira, em 1910, ainda é, até o momento, um assunto polêmico e proibido. Considerado uma simples manifestação de rebeldia de alguns marujos negros que, vindo da Europa, procuravam através, da rebeldia, obter vantagens e privilégios individuais. O aparelho ideológico dominante fez questão de apresentá-los (como faz até hoje) como simples ato de insubordinação que, violando as normas disciplinares, desejavam obter através da violência, reivindicações que somente poderiam ser conseguidas por vias pacíficas. Com isto, absolve-se a estrutura de poder dominante e repressora do movimento e lança-se sobre o grupo oprimido reivindicante, que se rebelou contra a injustiça da sua condição as consequências negativas do fato.
Através de mecanismos conciliadores tudo poderia ter sido resolvido, segundo eles, sem necessidade de mortes e violência. Se elas existiram, portanto, a culpa coube aos marinheiros amotinados, que não respeitaram as regras e a disciplina de um comportamento militar. Em outras palavras: procura-se ver a revolta dos marinheiros da Armada contra o uso infamante da chibata como simples ato de rebeldia, como comportamento de insubordinados, muitos deles cheios de um ódio injustificável contra os seus superiores por motivos pessoais.
Partindo-se de um a análise objetiva, sem contaminação ideológica produzida pelos valores das classes dominantes e, especialmente da oficialidade, isto corresponderia à verdade? É procurando dar resposta científica a esta questão que o professor Mário Maestri Filho publicou um livro no qual analisa o significado histórico, social e político da revolta liderada por João Cândido.'(1)
Livro escrito em uma linguagem clara e objetiva, mas nem por isto menos científica, baseado em fatos e documentos, reencontra o filão histórico capaz de restaurar a verdade sobre mais este movimento da plebe. Antes dele, apenas o escritor Edmar Morei havia escrito um livro corajoso e pioneiro sobre o fato, no qual procura resgatar a memória de João Cândido e dos seus demais companheiros que lutaram e morreram para que os Direitos Humanos fossem defendidos e respeitados na sua integridade, trinta e oito anos antes da ONU haver votado a nova Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Este relevante e substantivo significado social foi muito bem captado pelo autor, que não fica na mera contemplação dos fatos, mas, à medida que narra vai destacando o valor e a importância subjacentes de cada um, o seu nível de importância política, isto é, o seu significado, o seu conteúdo mais profundo no processo do encaminhamento da solução dos grandes conflitos existentes no contexto social da época dos quais a revolta de João Cândido foi uma das manifestações mais visíveis e transparentes.
O autor inicia o livro abordando o Brasil de 1910, mostrando de uma forma didática, mas, ao mesmo tempo profunda, a situação do ‘país no começo do século, inventariando fatores econômicos, demográficos, sociais e políticos para emoldurar o fato.
Mostra, também, a situação no campo, a marginalização de grandes contingentes populacionais concentrados em vastas propriedades latifundiárias, para afirmar corretamente, depois de retratar esta situação conflitante: “É difícil compreender a revolta dos marinheiros isolada do momento político que vivia o país”.
Tudo isto serve como combustível para o drama. O incidente do marinheiro Marcelino, o qual é chibateado por simples rusga com um superior, demonstra a situação de verdadeiro terrorismo existente na Armada Brasileira que, depois de 22 anos da Abolição ainda permitia (não apenas permitia, mas tinha como norma de castigo normal) o uso do açoite como medida disciplinar. A conspiração toma corpo a partir daí. Eles desejam apenas uma coisa: a extinção do uso da chibata corno castigo. Os marinheiros, no entanto, continuavam submetidos à chibata, sujeitos a uma disciplina semi-escravista, dirigidos por urna oficialidade elitista que era mais sádica na aplicação dos castigos dos que os antigos feitores e capitães do mato.
Contra tal situação, os marinheiros se revoltam. Somente a violência poderia superar aquela situação na qual os dominadores tinham todos os elementos para manter um sistema repressivo desumano e os dominados não possuíam nenhum mecanismo legal para exigir direitos. A sequência natural desses acontecimentos é narrada pelo autor com pormenores preciosos e análises penetrantes. Vencidos pelos marinheiros, os oficiais se rendem à marinhagem. Surpreendidos, os políticos manobram. E depois de uma série de discussões, sai a anistia para os marujos e a promessa de que não haveria mais a chibata infamante como instrumento de tortura na Marinha.
Os mecanismos de dominação e o bloco de poder político, diluídos em propostas e promessas aos marinheiros, a anistia (depois não cumprida) as mil formas de se escamotear a realidade e violar os acordos com os marujos são contados no livro de forma límpida e simples.
Mas, o que nos parece importante na obra é o valor político que o autor dá ao movimento liderado por João Cândido. Os marinheiros levantaram uma bandeira de reivindicação democrática e tinham naquele momento uma posição de vanguarda que o autor acena com propriedade. Por estas razões é que o professor Mário Maestri, na parte final do seu livro, mostra como, embora derrotados, massacrados e duramente reprimidos, esses marujos, por simbolizarem os oprimidos que adquiriram consciência política no Brasil, num processo de luta de classes que iria se agudizando à medida que a nossa sociedade se diversificava e criava novas categorias de opressores e Oprimidos (em função de uma mais diversificada divisão do trabalho) saíram politicamente vitoriosos.
A “Revolta da Chibata”, como é conhecido o movimento, pode por isto levar com o autor a dizer que ele é cada vez mais incorporado a um processo de luta de classes. Lentamente, como a resgatar o lugar que lhe pertence no nosso espaço histórico e de lutas sociais, os seus estudiosos estão mostrando corno, apesar de batida e derrotada a revolta terminou politicamente vitoriosa. “E isto o sentiram, mesmo nos momentos mais tristes, os marinheiros rebeldes”.
O livro, por isto mesmo, é uma contribuição das mais importantes à formação de uma nova História que reabilite os oprimidos e silenciosos os quais, no processo de luta de classes, mesmo derrotados, dinamizaram a sociedade brasileira.
(1) Mário Maestri Filho: “1910: A revolta dos marinheiros”, Global Editora, São Paulo, 1982.
