Texto de Hannah Flint.
Originalmente disponível no site The Take.
Tradução por Andrey Santiago.
Este artigo contém spoilers sobre o enredo de Pecadores (afinal, como a gente poderia escrever sobre ele de outra forma?)
Para uma criatura sem reflexo, vampiros tem feito um bom trabalho em lançar sua sombras sobre as telas de cinema.
Há apenas alguns meses, Nosferatu escureceu os cinemas graças ao remake de Robert Eggers do clássico alemão de 1922, inspirado no romance Drácula, de Bram Stoker. Renfield (2023) e A Última Viagem de Demeter também beberam da fonte de Stoker para manter a presença imortal do conde da Transilvânia nas telas. Agora, Pecadores, ambientado nos anos 30 e dirigido por Ryan Coogler, oferece uma nova abordagem ao gênero, centrando-se em uma comunidade multirracial no Deep South dos EUA durante a era das Leis Jim Crow (N.T. leis de segregação racial), onde um vampiro irlandês invade um bar de música ao vivo de propriedade de pessoas negras.
Coogler se junta à infelizmente curta lista de cineastas negros que abordaram temas sobrenaturais, como William Crain em Blacula (1972), Eddie Murphy em Vampiro no Brooklyn (1995) e Spike Lee em Da Sweet Blood of Jesus (2014, remake de Ganja & Hess, de Bill Gunn). Ao assumir esse bastão, o diretor-roteirista nascido em Oakland, Califórnia — também responsável por Pantera Negra — revitaliza o arquétipo do vampiro, desafiando o colonialismo, o cristianismo e a sedutora lógica do capitalismo.
“Fazendo a pesquisa desse [filme], sendo de onde eu sou, isso me fez questionar tudo,” Coogler disse à revista THE FACE. “Sou da rua onde os Panteras Negras começaram. Venho de um lugar muito consciente sobre os efeitos do capitalismo. Então isso estaria no meu trabalho, quer eu pense de forma consciente sobre isso ou não — estou me colocando ali.”
A ficção sobre vampiros é conhecida por, digamos, cravar os dentes nos males do capitalismo: “Se pensarmos no sangue como símbolo de dinheiro, economia ou capital, Drácula representa uma crítica ao capitalismo no sentido de que ele toma, mas não devolve”, observa Jerry Rafiki Jenkins, autor de The Paradox of Blackness in African American Vampire Fiction e diretor assistente do Instituto de Estudos Afro-Americanos. Suas palavras ecoam Karl Marx, que escreveu: “O capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive apenas sugando trabalho vivo — e vive mais quanto mais trabalho suga.”
É apropriado, então, que Pecadores permita uma leitura anticapitalista num momento em que o desconforto com o capitalismo cresce tanto à esquerda quanto à direita. Como afirma o ator Delroy Lindo, que interpreta o músico Delta Slim: “Qualquer entidade que suga de outra para seu próprio uso — ou qualquer uma que diga: ‘Eu te vejo, mas não posso te valorizar, tenho que te explorar’ — está te destruindo.”
Enquanto personagens vampíricos frequentemente acumulam riqueza tanto quanto sangue — pense na segurança financeira de Louis em Entrevista com o Vampiro, Deacon Frost em Blade, e os Cullen em Crepúsculo (eles tem uma bela casa!) — Coogler subverte essa lógica.
Seu vampiro principal, Remmick (Jack O’Connell), tem apenas algumas moedas de ouro e carrega o peso da opressão britânica nas costas, como um irlandês cuja terra foi roubada. É por conta dessa subjugação que Remmick, apesar de seus impulsos assassinos, demonstra profunda empatia pela comunidade que passa a habitar — formada por pessoas negras, chinesas e mestiças, todas marcadas pela dor do imperialismo e da colonização ocidental: “Eu queria um vampiro que tivesse sido afetado por essa merda,” diz Coogler. “Ninguém é mais esperto do que alguém que já foi fodido.”
Diferente de mestres vampiros solitários que buscam escravizar humanos, Remmick defende uma visão inclusiva em que os oprimidos se unem como uma comunidade vampírica baseada na igualdade. Mas, como Lindo aponta, o manifesto dele tem falhas: “Vamos criar essa utopia, mas tem um pequeno detalhe — precisamos matar vocês,” diz ele. “E não apenas destruir, mas destruir com violência.”
Ainda assim, a abordagem de Pecadores sobre comunidade dá continuidade à tradição estabelecida por escritores negros no gênero vampírico. Em The Gilda Stories (1991), o primeiro romance sobre uma vampira lésbica negra, a autora Jewelle Gomez imagina uma rede multicultural de vampiros que não matam para se alimentar — mas trocam dons telepáticos em troca de sangue: “Para extrair capital da economia, eventualmente alguém precisa morrer”, comenta Jenkins. “Mas Gomez sugere que talvez não precise ser assim.”
O conceito de comunidade de Remmick pode não ser ético, é verdade, mas o que ele e o filme têm em comum com a protagonista de Gomez é o ceticismo em relação ao cristianismo e à sua moralidade: “Gilda diz: ‘Essa não é a religião da minha mãe,’” continua Jenkins. “Isso cria uma dinâmica interessante sobre a tendência dos afro-americanos ao cristianismo. Vejo os vampiros — especialmente os vampiros negros — levando o público a refletir sobre o papel da religião na vida cotidiana.”
Pecadores faz questão de posicionar o paganismo africano sob uma luz positiva através de Annie, uma curandeira Hoodoo interpretada por Wunmi Mosaku, ao mesmo tempo que estabelece a tensão entre a igreja, seus fiéis e a música que encontram como forma de consolo. Essa história é contada principalmente por Preacher Boy Sam (Miles Caton), um jovem músico cujo desejo de tocar blues o coloca na mira tanto da igreja — que condena sua música — quanto dos vampiros que querem explorar seu dom.
“Viemos de um lugar onde a música não era para ser comprada ou vendida — era um modo de vida,” explica Coogler. “Então, no momento em que você tenta vendê-la, está introduzindo o conceito de propriedade, transformando um sistema de cura em mercadoria, para um povo que já foi transformado em mercadoria em uma terra que era de outros e também foi transformada em mercadoria.”
O blues é o alicerce emocional de Pecadores, e mergulhar em seu legado afro-americano — moldado por “chineses-americanos, irlandeses-americanos e o povo Choctaw” — ajudou Coogler a reforçar sua mensagem de culturas se unindo para enfrentar os poderes opressores do capitalismo.
“O conceito de comunidade é o que alimenta tudo,” diz Coogler. “Os personagens mais poderosos do filme são movidos por esse conceito. Para mim, o vampiro tinha que estar buscando isso.”
