Por que falar em “Masculinidade Saudável” é como falar em “Câncer Saudável”

Texto de John Stoltenberg.

Originalmente publicado no site Feminist Current em 2013.

Você pode acessar o texto completo em inglês clicando aqui.

Tradução por Andrey Santiago.


Eu entendo — de verdade — por que muitas pessoas que foram educadas para serem homens estão buscando um senso de identidade de gênero que seja separado e distinto de tudo aquilo que tem sido recentemente denunciado como masculinidade tóxica. Hoje em dia, uma pessoa com pênis* teria que ser muito alienada para não perceber todos os comportamentos de afirmação da masculinidade que vêm sendo criticados como prejudiciais ao bem-estar (próprio e alheio). Por mais que essa pessoa com pênis aceite as crescentes críticas à masculinidade padrão, ela pode, com razão, estar se perguntando quais comportamentos de validação da masculinidade estão isentos dessas críticas: quais são as formas de “agir como um homem” que definitivamente impedem que ela seja confundida com “homens se comportando mal”? Ou, de forma mais pessoal: o que exatamente se faz hoje em dia para habitar uma identidade de gênero masculina positiva que seja — e pareça ser — digna de respeito (por si mesmo e pelos outros)?

Ao mesmo tempo — como se em um universo alternativo — há legiões de pessoas que foram educadas para serem homens e que foram expostas às críticas à masculinidade, mas que as rejeitam e resistem a elas com todas as forças, quase em nível celular, como o sistema imunológico de um corpo que gera anticorpos para combater uma infecção invasora. Para essas pessoas com pênis, qualquer crítica à masculinidade é vivida como um ataque a toda a masculinidade. Ressentimento latente, raiva explosiva e reações intensas são apenas alguns dos sintomas dessa resposta. O que está acontecendo por dentro — onde sentem seu autêntico “É isso que eu sou” — é uma luta de vida ou morte contra aquilo que percebem como uma ameaça de aniquilação pessoal.

Para clareza, vou nomear essas duas caracterizações como Reformadores e Conservadores. Claro, esses não são os únicos segmentos da população com pênis. Mas vou partir do pressuposto de que ambos são proeminentes o suficiente para que a maioria dos leitores os reconheça em linhas gerais. E vou supor ainda que a maioria dos leitores atribui algum tipo de valor a essas duas personas. Um é melhor do que o outro, provavelmente a maioria está pensando. Um é o Cara Bom e o outro é o Cara Mau. E não importa se você acredita que os Reformadores são os verdadeiros caras bons ou se os Conservadores são os verdadeiros caras bons — o que provavelmente estará em sua mente é que um faz um trabalho superior em “performar masculinidade”, enquanto o outro faz um trabalho inferior.

Perceba como essa categorização de melhor/pior entra em jogo mentalmente? Ela se ativa como um hábito sempre que o córtex superior condicionado pela cultura é confrontado com qualquer questão relacionada à masculinidade. O cérebro foi condicionado desde a infância a perceber a identidade de gênero social “masculinidade” por meio de uma lente de superioridade/inferioridade. Foi assim que todos nós aprendemos a experienciar essa identidade, e é assim que reconhecemos “quem é o homem ali”. Também é assim que alguns de nós incorporam uma masculinidade crível — se e quando conseguimos — e é aquilo do qual todos tentamos nos proteger — se e quando não conseguimos. Como esse modelo interior de superior/inferior está intrinsecamente ligado à cognição interacional da identidade masculina, não é de se surpreender que nem Reformadores nem Conservadores costumem refletir criticamente sobre esse molde.

Mas precisamos fazer isso. De fato, precisamos mesmo. Nossas vidas dependem disso.

Por razões implícitas no meu parágrafo inicial sobre os Reformadores, a noção de “masculinidade saudável” ganhou força em muitos círculos nos últimos anos. Pessoas se reúnem para discutir, organizar e fazer oficinas sobre isso, publicam em blogs e redes sociais, e em geral trabalham conscientemente para dar ao conceito um significado viável e valioso — algo que preencha um vazio nas vidas dos Reformadores: o abismo deixado quando, a partir de algumas décadas atrás, “Ele age como um homem” começou a passar de elogio a crítica.

Os Conservadores, claro, não acham que há algo de errado com a masculinidade. E definitivamente acreditam que ela não deveria ser difamada — como, na verdade, é — pela expressão “masculinidade saudável”. Imagine como se sentiria um paciente em um hospital oncológico se seu novo colega de quarto, recém-esclarecido, começasse a comemorar por ter um “câncer saudável”. Provavelmente se sentiria ofendido. Talvez irritado. Da mesma forma, um Conservador nunca será convencido de que a masculinidade à qual aspira e que encarna é doentia, ou algum tipo de aflição. Em vez disso, o Conservador verá a insinuação de “masculinidade saudável” como uma forma de ataque mortal.

Agora, podem me chamar de louco, mas não vejo muito futuro em falar apenas com Reformadores ou apenas com Conservadores. E certamente não vejo vantagem alguma em enviar uma mensagem — “masculinidade saudável” — que inevitavelmente vai piorar a ansiedade de gênero de quem não acredita que adotar uma masculinidade tradicional analógica seja algum tipo de doença. Fechar a comunicação com os Conservadores logo de cara ao falar em “masculinidade saudável e masculinidade tóxica” é, no mínimo, vaidoso e contraproducente — e, no máximo, inflamável. Numericamente, os Conservadores representam uma grande parte das pessoas com pênis; provavelmente representam mais do que os Reformadores, que ainda são minoria em uma cultura dominada pelos Conservadores. Mas, além de ser um gatilho de rejeição para os Conservadores, há um problema ainda maior em falar de “masculinidade saudável”: essa ideia se baseia em uma premissa bem-intencionada, mas no fim das contas falha. Não é a solução certa para o problema. É, na verdade, uma “cura” que reacende a “doença”.

Muitas pessoas de boa vontade querem que tudo o que está errado com a identidade social de gênero da masculinidade seja corrigido de forma abrangente. Elas esperam que essa correção evite todos aqueles surtos de identidade masculina que, como se sabe, causam danos colaterais. Querem viver em um mundo onde não seja necessário ter medo de alguém simplesmente porque essa pessoa nasceu com pênis e foi socializada para ser homem. Em resumo, querem mais harmonia entre os seres humanos do que a que estamos acostumados a viver neste planeta.

Mas aqui está o problema: qualquer movimento ou campanha para remediar a masculinidade não pode, por si só, replicar a lógica de superioridade/inferioridade sobre a qual — dentro da cabeça de todos — a masculinidade está definida. Toda vez que nossos cérebros aculturados tentam identificar certas pessoas com pênis que “performam a masculinidade” de maneira superior, estamos reativando os mesmos roteiros mentais que nos foram impressos quando assistimos — ou participamos — de nossas primeiras lutas mano a mano. Alguém saía vencedor. Alguém saía derrotado. Foi assim que aprendemos o significado de “masculinidade”. E esse modelo de definição baseado em vencedor/derrotado, dominante/submisso não simplesmente desaparece no ar.

Em vez disso, precisamos encontrar uma forma de reeducar os cérebros e reformular o que exatamente é o problema. Para explicar o que quero dizer, vou fazer uma digressão e falar sobre o que se conhece como treinamento de intervenção de espectadores.

Basicamente, o treinamento de intervenção de espectadores é um programa que capacita pessoas com pênis com habilidades de comunicação, empatia, inteligência emocional, estratégias relacionais e senso de agência pessoal para intervir quando veem outra pessoa com pênis prestes a cometer uma agressão sexual. Esse treinamento é amplamente considerado um dos meios mais eficazes de prevenção primária de agressão sexual em situações sociais como bares e festas, onde provavelmente há observadores presentes.

Uma parte importante do programa é ensinar os participantes (que tendem a ser Reformadores) como abordar uma ou mais outras pessoas com pênis (frequentemente, mas nem sempre, Conservadores) de uma forma que efetivamente interrompa uma agressão em andamento, crie uma opção de saída para uma vítima em potencial e — aqui está a parte complicada — não precipite uma “briga de galos” com o provável agressor.

Há muitos aspectos valiosos nesse treinamento, mas quero destacar este: trata-se de praticar o agir a partir de sua agência moral sem tentar provar sua masculinidade. Essa é uma disciplina que pode ser aprendida, replicada e lembrada. Um dos motivos pelos quais o participante aprende que essa disciplina é importante é que ele sabe muito bem o que pode acontecer se tentar provar sua masculinidade numa situação dessas: o conflito vira combate, de um tipo ou de outro, porque o simples ato de tentar demonstrar sua própria masculinidade em relação a outra pessoa com pênis vai alimentar as respostas de demonstração de masculinidade do outro (que já estão acesas, como se evidencia pela tentativa de agressão sexual em andamento).

E quando um participante supera o medo antecipado do que pode acontecer com ele se intervir — quando, na vida real, ele de fato intervém e diz ou faz algo que interrompe o que poderia ter terminado em dano — ele aprende outra lição poderosa: “Fui eu quem fez isso. Fui eu quem disse isso. Fui eu quem impediu aquilo.” Em outras palavras: “Agir com base na minha própria consciência moral me permite assumir responsabilidade pessoal pelas consequências da minha ação.”

Claro que essas palavras não são exatamente o que passa pela mente do ex-espectador naquele momento. Mas existe uma experiência distinta capturada ali. É a experiência de agir com base na própria consciência e ser quem se é.

Acredito que, ao conectarmos os pontos de momentos como esse — instâncias reais de ética incorporada e responsabilidade — surgirá uma nova imagem do problema, ao lado de um novo reconhecimento da solução.

Aprender a agir consistentemente a partir da própria consciência moral — acessar a própria capacidade de tomar decisões éticas de maneira que as outras pessoas passem a esperar isso de você — não é um comportamento de gênero (não vem com nenhuma anatomia específica), nem é um comportamento que define gênero (não torna alguém mais algo, exceto mais humano).

Mais uma digressão.

Você já reparou como é frequente a frase “Homens de verdade não…” em campanhas de prevenção da violência de padrão masculino? “Homens de verdade não compram meninas.” “Homens de verdade não batem em mulheres.” “Homens de verdade não estupram.” A lista continua. “Homens de verdade não…” virou um mantra dos Reformadores. (Sem trocadilhos.)

Mas há três problemas com o “Homens de verdade não…”. O primeiro é que esse clichê esconde e torna nebulosa a dinâmica real entre a necessidade de provar a masculinidade e a violência de padrão masculino. Homens estupram para se sentirem “homens de verdade”. Homens batem em mulheres para mostrar que são “o homem da casa”. Homens compram mulheres e crianças prostituídas para gozarem como um “homem de verdade” — a promessa promovida pela pornografia. (E é exatamente essa a função da chamada “cena do gozo” [money shot]: mostrar uma pessoa com pênis ejaculando em circunstâncias que o autenticam como “homem de verdade”.)

O segundo problema com o “Homens de verdade não…” decorre do primeiro: a mensagem é vazia para o público a que se destina. Dizer que “homens de verdade” não cometem violência de padrão masculino não convence em nada alguém para quem essa violência é exatamente o que o faz sentir-se um “homem de verdade”.

E o terceiro problema com o “Homens de verdade não…” é que, embora pregue para o coro dos Reformadores, envia uma mensagem contraproducente. Mantém a tomada de decisões morais presa à identidade de gênero, em vez de permitir que ela expresse uma identidade moral. Mantém o “quem eu sou aqui e agora” aprisionado na camisa de força do “não sou nada se não for homem”. Além disso, ao evocar a construção de uma masculinidade real, “Homens de verdade não…” reacende e reforça a ansiedade que permeou toda a criação de qualquer pessoa com pênis: “Sou homem o bastante?” “Sou masculino o bastante?” “Como posso convencer a mim mesmo e aos outros?”

Esse último problema com o “Homens de verdade não…” aponta para o problema fundamental com a ideia de “masculinidade saudável”. Falar em “masculinidade saudável” soa bem — ao menos para os ouvidos dos Reformadores e das pessoas que os amam. Oferece um alívio individual diante das manchetes incessantes sobre crimes cometidos por homens contra mulheres e outros homens; funciona como um alívio moral, uma isenção de culpa. Ajuda a pertencer a uma tribo de outros devotos da “masculinidade saudável” — uma camaradagem confortável onde se pode sentir seguro diante dos desafios perigosos à masculinidade que existem por aí.

E, no entanto, a ideia de “masculinidade saudável” não liberta a consciência do gênero. “Masculinidade saudável” mantém a consciência como algo de gênero. E ela não é.

Consciência é humana. Apenas humana. E nada além disso.

Notas de Rodapé

* Comecei a usar o termo “pessoa com pênis” em The End of Manhood para deixar claro que o chamado sexo anatômico é apenas uma característica (como a cor dos olhos ou dos cabelos), não uma base ontológica.

** E uso o termo “violência de padrão masculino” em vez do mais comum (mas menos preciso) “violência de gênero”.

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