O dia em que Machado de Assis citou Karl Marx

Durante os anos de 1885 e 1888, Machado de Assis utilizou o pseudônimo Lélio para assinar a coluna “Balas de Estalo” do jornal Gazeta de Notícias. Em texto publicado no dia 13/01/1885, Machado de Assis menciona o nome de Karl Marx em uma crônica sobre assuntos da época.

O arquivo original pode ser encontrado na Biblioteca Nacional Digital, clicando aqui.

A presente transcrição é de Luís Antônio de Souza e Sousa.


BALAS DE ESTALO – 13/01/1885

Publicado na Gazeta de Notícias por Lélio (Machado de Assis)

A polícia acaba de apreender a seguinte carta de um socialista Russo. Petroff, que se acha entre nós; é dirigida no Centro do Socialismo Universal, em Genebra:

“Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1885.

“Logo que cheguei a esta cidade, tratei de cumprir as ordens que me deu o Centro, no sentido de espalhar aqui os germens de uma revolução. Pareceu-me que o melhor era fundar uma sociedade secreta, mas, com espanto, soube que já havia um Club dos Socialistas, e que a tolerância do governo é tal, que ele trabalha às claras. Pedi imediatamente um convite para assistir à primeira reunião; deram-n’o e fui.

O pouco português que aprendi em Genebra, e mais tarde em Lisboa, facilitou-me muito a entrada no Club. Fui um pouco antes da hora marcada. A diretoria, a quem disseram que eu era um ilustre estrangeiro (neste país todos são mais ou menos ilustres), recebeu-me com as mais vivas demonstrações de apreço e consideração. Notei desde logo a presença de senhoras e declarei que estimava ver que a mulher aqui já ocupava o lugar que lhe compete, ao lado do homem. Em seguida perguntei a que horas começava a cousa.

– Não tarda, disseram-me todos.

Eu levava um discurso preparado, verdadeiramente incendiário; copiei também algumas receitas de bombas explosivas, segundo me recomendam as instruções do Centro, e levei-as comigo.

Às nove horas comecei a ouvir afinar instrumentos, e (veja como os costumes mudam de um país para outro) rompeu uma quadrilha. Compreendi logo que era um meio de agitar o sangue, até polo no grau de movimento e temperatura apropriado a nossa santa obra. E essa inovação pareceu-me útil

A diretoria apresentou-me a uma senhora, que me aceitou para seu par. O fui dançar com ela. Vi que era uma pessoa de fisionomia enérgica e resoluta; teria vinte oito a trinta anos. Dançando, disse-lhe que estava entusiasmado com o Rio de Janeiro, onde não imaginaria achar o que achei. Ela sorriu lisonjeada, e declarou-me que sentia grande satisfação em ouvir tais palavras.

A nossa conversa foi interessantíssima, conquanto muita cousa me escapasse, pela presteza com que ela falava, e que, em geral, é a de todos que falam a própria língua. O estrangeiro, quando não está familiarizado, precisa de que se lhe articulem as palavras vagarosamente. Não obstante, pudemos trocar algumas ideias, e até recolhi muitas notícias, que comunicarei no meu relatório. Uma dessas é que há outras sociedades análogas ao Club, e com o mesmo fim.

– A principal e a mais brilhante, disse-me ela, é o Cassino Fluminense.

Ainda não foi no Cassino?

– Não, senhora.

– Pois vá, que vale a pena.

– Boa gente, não? Os verdadeiros princípios?

– Ah! O melhor que se pode desejar.

Acabada a quadrilha, seguiu-se uma polca, e logo depois outra quadrilha. Pareceu-me demais; eu já tinha o sangue em fogo; mas não houve remedeio, e fui fazendo como os outros. As senhoras dançavam com um ardor, que, se nesse momento descemos uma bomba explosiva a qualquer delas, iria dali, logo e logo, deitá-la onde fosse conveniente a boa causa.

Eram onze horas, e nada de começarem os trabalhos. Eu, impaciente, fui a um dos membros da diretoria, e perguntei de novo a que horas era a cousa.

– Não tarda, é a meia-noite em ponto. Vamos agora a uma valsa.

Pedi-lhe dispensa da valsa, e fui fumar um charuto, em companhia de um sócio, que me pedia notícias da Rússia, e se lá havia algum club de socialistas. Respondi-lhe que havia muitos, mas todos secretos, porque o governo não consentia nenhum público, e quando descobria algum, pegava dos sócios e mandava-os para a Sibéria. Não imagina o assombro do meu interlocutor.

– Ah! É bem duro viver em um tal país! Exclamou ele.

– Se é! Disse-lhe eu.

– Agora compreendo os atentados que por lá tem praticado. Realmente, mandar para a Sibéria homens que apenas usam de um direito sagrado…

Expliquei-lhe bem o que era a Rússia, e conclui que, em geral, toda a Europa é um velho edifício que precisa cair. Nisto bateu meia-noite e passamos todos a uma sala interior, onde vi uma mesa cheia de comidas e bebidas, e nenhuma tribuna para os oradores. Foi engano meu, como vai ver.

Homens e senhoras sentaram-se e comeram. No fim de 15 a 20 minutos, levantou-se o presidente, e declarou que saudava, em nome do Club dos Socialistas, ao ilustre estrangeiro que ali se achava: era eu. Levantei-me e respondi com o discurso que levava de cor. Não posso dar-lhe ideia dos aplausos que recebi. Todas as teorias de Bebel, de Cabet, de Proudhon, e do nosso incomparável Karl Marx, foram perfeitamente entendidas e aclamadas. Fizeram-se outros discursos, em que entendi pouco, por causa da língua, mas que me pareceram animados dos bons princípios. Cada um deles era fechado por toda reunião com o grito: Uê, uê, Catu!

Suponho que é a fórmula nacional do nosso brado revolucionário: Morte aos tiranos!

“Um dos mais entusiastas era um militar, a quem fuim cumprimentar, dizendo que estimava ver o exército conosco.

“– O militar precisa de algum descanso. Respondeu ele sorrindo.

Era uma alusão delicada à supressão dos exércitos permanentes, e eu apertei-lhe a mão de um modo significativo.

“Mandarei mais pormenores por outro vapor. Ao fechar a carta, recebo o diploma de sócio honorário do Club. País excelente; está todo nas boas ideias. “

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