Sobre a Ideologia do Partido dos Panteras Negras

[NOTA DO BLOG: Não há total concordância com as ideias do texto disponibilizado abaixo, entretanto, compreende-se que é um artigo importante para entender os avanços e limites que a ideologia do Partido dos Panteras Negras atingiu.]

Texto escrito por Eldridge Cleaver. Traduzido por Henrique Marques Samyn.

The Black Panther, v. 4, n. 27. 6 de junho de 1970

Este texto foi publicado também em um panfleto, datado da mesma época. A versão publicada em The Black Panther apresentava um parágrafo introdutório no qual se lia, em negrito: “O artigo seguinte introduz uma nova série de artigos sobre a ideologia do Partido Pantera Negra, por nosso Ministro da Informação, Eldridge Cleaver”. O artigo foi apresentado como “Parte 1”, mas nenhuma sequência foi publicada em The Black Panther. A hipótese de que isso se deva à crescente tensão entre Huey Newton e Eldridge Cleaver não se sustenta, uma vez que Cleaver publicou diversos textos no periódico antes de ser excluído definitivamente do Partido, em abril de 1971. Parece-­me plausível, entretanto, a hipótese de que uma possível segunda parte tenha sido transformada no artigo “On Lumpen Ideology”, publicado no quarto volume de The Black Scholar, em 1972.


Nós temos dito: a ideologia do Partido Pantera Negra é a experiência histórica do povo preto e a sabedoria obtida pelo povo preto em sua luta de 400 anos contra o sistema de opressão racista e de exploração econômica na Babilônia [215], interpretada pelo prisma da análise marxista-­leninista pelo nosso Ministro da Defesa, Huey P. Newton [217].

Contudo, devemos conceder grande ênfase à última parte daquela definição – interpretada… pelo nosso Ministro da Defesa. O mundo do marxismo-­leninismo tem se tornado uma selva de opiniões na qual interpretações conflitantes, desde o revisionismo de direita até o dogmatismo de esquerda, fazem suas filosofias reacionárias e cegas passar por um marxismo-­leninismo revolucionário. Ao redor do mundo e em cada nação, pessoas, todas as quais denominam a si mesmas marxista-­leninistas, estão nas gargantas umas das outras. Tal situação apresenta sérios problemas para um jovem partido como o nosso, que ainda está no processo de refinar sua ideologia.

Quando dizemos que somos marxista­-leninistas, queremos dizer que estudamos e compreendemos os princípios clássicos do socialismo científico, e que adaptamos esses princípios à nossa própria situação para nós mesmos. Todavia, nós não agimos com mente fechada para novas ideias ou informação. Ao mesmo tempo, sabemos que devemos contar com nossos próprios cérebros para resolver problemas ideológicos que têm relação conosco.

Por tempo demais, o povo preto tem confiado nas análises e perspectivas ideológicas dos outros. Nossa luta, agora, chegou a um ponto em que seria absolutamente suicida para nós continuar nessa postura de dependência. Nenhum outro povo no mundo está na mesma posição em que estamos, e nenhum outro povo no mundo pode nos tirar dela, a não ser nós mesmos. Há aqueles que estão muito dispostos a pensar por nós, mesmo se isso nos matar. Contudo, eles não estão dispostos a seguir adiante e morrer em nosso lugar. Se os pensamentos contribuem para as nossas mortes, que pelo menos sejam nossos próprios pensamentos, de modo que tenhamos rompido, de uma vez por todas, com o servilismo de morrer por qualquer causa e por qualquer erro – exceto pelos nossos.

Uma das grandes contribuições de Huey P. Newton é que ele deu ao Partido Pantera Negra um fundamento ideológico sólido, que nos livra do servilismo ideológico e nos abre o caminho para o futuro – um futuro para o qual devemos prover novas formulações ideológicas, para adequar nossa situação sempre em mudança.

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Huey P. Newton

Muito – a maior parte – dos ensinamentos de Huey P. Newton são desconhecidos para o povo, porque Huey tem sido colocado em uma posição na qual é impossível para ele se comunicar realmente conosco. E muito do que ele ensinou enquanto estava livre foi distorcido e diluído, precisamente porque o Partido Pantera Negra tem estado muito preocupado em se relacionar com os tribunais e em tentar se apresentar com uma bela face, a fim de ajudar os advogados a convencerem os júris sobre a justiça da nossa causa. Toda essa preocupação com tribunais tem criado muita confusão.

Por exemplo, muitas pessoas confundem o Partido Pantera Negra com o movimento Libertem Huey [218], ou com as muitas outras atividades de massa às quais temos sido forçados a nos entregar, a fim de construir apoio em massa para nossos camaradas que têm sido capturados pelos porcos. Nós estamos absolutamente corretos sem nos entregar a tais atividades de massa. Mas estamos errados quando confundimos nosso trabalho com as massas com nossa orientação partidária. Essencialmente, o que Huey fez foi prover a ideologia e a metologia para organizar o lumpemproletariado preto urbano. Armado com essa perspectiva ideológica e com um método, Huey transformou o lumpemproletariado preto, as pessoas esquecidas na parte mais baixa da sociedade, na vanguarda do proletariado.

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Libertem Huey.

Há muita confusão sobre se nós somos membros da classe trabalhadora ou se somos o lumpemproletariado. É necessário enfrontar essa confusão, porque isso tem muito a ver com a estratégia e com as táticas que seguimos e com nossas tensas relações com os brancos radicais da seção opressora da Babilônia.

Alguns assim chamados marxista­-leninistas nos atacarão pelo que temos a dizer, mas isso é algo bom, não algo ruim, porque algumas pessoas que chamam a si mesmas marxista­-leninistas são, francamente, inimigas do povo preto. Esses ficarão para mais tarde. Queremos que eles audaciosamente deem um passo à frente, como eles farão – cegos por sua própria estupidez e arrogância racista –, de modo que será mais fácil para nós lidar com eles no futuro.

Fazemos essas críticas, em um espírito fraternal, de como alguns marxista-­leninistas aplicam os princípios clássicos à situação específica que existe nos Estados Unidos, porque acreditamos na necessidade de um movimento revolucionário unificado nos Estados Unidos, um movimento que seja informado pelos princípios revolucionários do socialismo científico. Huey P. Newton diz que “o poder é a habilidade de definir fenômenos e fazê-los agir sob a forma desejada”. E nós precisamos de poder, desesperadamente, para conter o poder dos porcos que agora pesa tanto sobre nós.

A ideologia é uma definição abrangente de um status quo que leva em consideração tanto a história quanto o futuro daquele status quo; e que serve como a cola social que mantém um povo unido, através da qual o povo se relaciona com o mundo e com os outros grupos de pessoas no mundo. A ideologia correta é uma arma invencível contra o opressor em nossa luta por liberdade e libertação.

Marx definiu a época da burguesia e pôs a nu a direção do futuro proletário. Ele analisou o Capitalismo e definiu o método de sua destruição: A REVOLUÇÃO VIOLENTA DO PROLETARIADO CONTRA O APARATO DE OPRESSÃO E REPRESSÃO DE CLASSE DO ESTADO BURGUÊS. A VIOLÊNCIA REVOLUCIONÁRIA CONTRA A VIOLÊNCIA DE CLASSE CONTRARREVOLUCIONÁRIA PERPETRADA PELA FORÇA REPRESSIVA ESPECIAL DOS TENTÁCULOS ARMADOS DO ESTADO.

Essa grande definição de Marx e Engels se tornou a mais poderosa arma nas mãos dos povos oprimidos na história da ideologia. Ela marca um avanço gigantesco para toda a humanidade. E, desde os tempos de Marx, essa definição tem sido fortalecida, mais elaborada, iluminada e mais refinada.

Mas o marxismo nunca lidou realmente com os Estados Unidos da América. Houve algumas boas tentativas. As pessoas têm feito o melhor que sabem fazer. Contudo, no passado, os marxista-leninistas nos Estados Unidos se apoiaram demais sobre análises estrangeiras, importadas, e distorceram seriamente as realidades do cenário norte-americano. Podemos dizer que o marxismo-leninismo do passado pertence ao período de gestação do marxismo­leninismo nos Estados Unidos, e que agora é o momento em que uma nova síntese ideológica, estritamente norte­americana, surgirá, brotando dos corações e das almas das pessoas oprimidas dentro da Babilônia, unindo essas pessoas e arremessando­as poderosamente, desde a força de sua luta, no futuro. A revolução que rapidamente se desenvolve na América é como a concentração de uma poderosa tempestade, e nada pode impedir aquela tempestade de finalmente irromper, dentro da América, arrastando os porcos da estrutura de poder e todos os seus trabalhos sujos e opressivos. Os filhos e as filhas dos porcos e os povos oprimidos dançarão e cuspirão sobre as valas comuns desses porcos.

Há algumas pessoas pretas nos Estados Unidos que estão absolutamente felizes, que não sentem a si mesmas oprimidas, e que pensam que são livres. Algumas até mesmo acreditam que o presidente não mentiria, e que ele é um homem mais ou menos honesto; que as decisões da Suprema Corte são quase que escritas por deus em pessoa; que os policiais são guardiões da lei; e que as pessoas que não têm trabalhos são simplesmente preguiçosas e imprestáveis, e deveriam ser severamente punidas. Essas pessoas são como caranguejos que devem ser deixados para cozinhar por um pouco mais de tempo na panela da opressão, antes que estejam prontas e dispostas a estabelecer uma relação conosco. Mas a maioria esmagadora das pessoas pretas está irritada; sabem que são oprimidas, não livres; e elas não acreditariam em Nixon, se ele confessasse ser um porco; elas não se sentem identificadas com a Suprema Corte, ou com qualquer outra corte; e elas sabem que os porcos policiais racistas são seus inimigos jurados. Quanto à pobreza, elas sabem o que é isso.

Esses milhões de pessoas pretas não têm representação política, estão desorganizados, e não possuem nem controlam quaisquer recursos naturais; eles não possuem ou controlam nada da maquinaria industrial, e sua vida cotidiana é uma confusão para manter­se, por todos meios necessários, na luta pela sobrevivência.

Cada pessoa preta sabe que o vento pode mudar a qualquer momento, e que a multidão mobilizada para o linchamento, criado pelos membros brancos da “classe trabalhadora”, pode vir respirando em seu pescoço, se não derrubando aos chutes sua porta. É por causa desses fatores que, quando começamos a falar sobre sermos marxista-­leninistas, devemos ser muito cuidadosos em deixar absolutamente evidente sobre o que nós estamos falando.

No que diz respeito ao racismo, o marxismo­-leninismo nos oferece pouquíssima ajuda. De fato, há muita evidência de que Marx e Engels eram, eles mesmos, racistas – assim como seus irmãos e irmãs brancas de seu tempo, e assim como muitos marxista­-leninistas de nosso próprio tempo são também racistas. Historicamente, o marxismo­leninismo tem sido uma consequência de problemas europeus, e tem primariamente se preocupado em encontrar soluções para problemas europeus.

Com a fundação da República Popular Democrática da Coreia, em 1948, e da República Popular da China, em 1949, algo novo foi introduzido no marxismo-­leninismo, e ele deixou de ser um fenômeno estreito, exclusivamente europeu. O camarada Kim Il Sung [220] e o camarada Mao Tsé­-Tung aplicaram os princípios clássicos do marxismo­leninismo às condições de seus próprios países, e assim transformaram a ideologia em algo útil para o seu povo. Mas eles rejeitaram aquela parte da análise que não lhes era benéfica e que só tinha relação com o bem-­estar da Europa.

Dada a história racista dos Estados Unidos, é muito difícil para pessoas pretas denominarem confortavelmente a si mesmas marxistas-­leninistas, ou qualquer outra coisa que tire seu nome de pessoas brancas. É como rezar para Jesus, um homem branco. Devemos enfatizar o fato de que Marx e Lênin não inventaram o socialismo. Eles apenas adicionaram suas contribuições, enriqueceram a doutrina, assim como muitos outros fizeram antes e depois deles. E devemos lembrar que Marx e Lênin não organizaram o Partido Pantera Negra. Huey P. Newton e Bobby Seale [222] o fizeram.

Não até que cheguemos a Fanon [223] nós encontramos um grande teórico marxista­leninista primariamente preocupado com os problemas do povo preto, onde quer que possam ser encontrados. E mesmo Fanon, em seus trabalhos publicados, tinha como foco principal a África. Apenas indiretamente seus trabalhos são úteis para os afro­americanos. É apenas mais fácil se identificar com Fanon, porque ele está nitidamente livre daquele viés racista que bloqueia tanto sobre o homem preto nas mãos de brancos, que estão primariamente interessados em si mesmos e nos problemas do seu próprio povo. Mas, mesmo que estejamos aptos a estabelecer uma relação profunda com Fanon, ele não nos deu a última palavra sobre aplicar a análise marxista-­leninista aos nossos problemas, dentro dos Estados Unidos. Ninguém fará isso para nós, porque ninguém pode fazê­-lo. Temos que fazer isso nós mesmos e, até que o façamos, ficaremos irritados.

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Frantz Fanon, nascido na Martinica em 1925 e morto com apenas 36 anos, em 1961, foi um pensador e revolucionário negro.

Nós devemos tomar os ensinamentos de Huey P. Newton como nosso fundamento e partir daí. Qualquer outra opção nos levará a um fim triste e lamentável.

Fanon desferiu um ataque devastador ao marxismo-­leninismo por sua preocupação restrita à Europa e aos assuntos e à salvação dos brancos, enquanto aglomerava todos os povos do terceiro mundo na categoria do lumpemproletariado e então os esquecia lá; Fanon desenterrou a categoria do lumpemproletariado e começou a lidar com ela, reconhecendo que a vasta maioria dos povos colonizados pertence àquela categoria. É pelo fato de que as pessoas pretas nos Estados Unidos também são colonizadas que a análise de Fanon é tão relevante para nós.

Depois de estudar Fanon, Huey P. Newton e Bobby Seale começaram a aplicar suas análises dos povos colonizados às pessoas pretas nos Estados Unidos. Eles adotaram a perspectiva fanoniana, mas deram a ela um conteúdo unicamente afro­americano.

Assim como nós devemos fazer a distinção entre a pátria mãe e a colônia quando lidamos com o povo preto e o povo branco como um todo, também devemos fazer essa distinção quando lidamos com as categorias da classe trabalhadora e do lumpemproletariado.

Nós temos, nos Estados Unidos, uma “classe trabalhadora da mãe­-pátria” e uma “classe trabalhadora da colônia preta”. Nós também temos um lumpemproletariado da mãe­pátria e um lumpemproletariado da colônia preta. Dentro da mãe­-pátria, essas categorias são bastante estáveis; mas, quando nós olhamos para a colônia preta, descobrimos que as distinções rígidas e rápidas se derretem. Isso ocorre por causa do efeito nivelador do processo colonial e pelo fato de que todas as pessoas pretas são colonizadas, mesmo se algumas delas ocupam posições privilegiadas nos esquemas dos exploradores colonizadores da mãe­-pátria. Há uma diferença entre os problemas da classe trabalhadora da mãe-pátria e a classe trabalhadora da colônia preta.

Há também uma diferença entre o lúmpen da mãe­-pátria e o lúmpen da colônia preta. Nós nada temos a ganhar tentando suavizar essas diferenças como se elas não existissem, porque elas são fatos objetivos com os quais devemos lidar. Para elucidar esse ponto, apenas temos de olhar para a longa e amarga história das lutas dos Trabalhadores da Colônia Preta, lutando por democracia dentro dos Sindicatos da mãe­pátria.

Historicamente, nós caímos na armadilha decriticar os sindicatos e trabalhadores da mãe­pátria pelo racismo como uma explicação para o modo como eles tratam os trabalhadores pretos. Com certeza eles são racistas, mas essa não é a explicação completa.

Os trabalhadores brancos pertencem a um mundo totalmente diferente daquele a que pertencem os trabalhadores pretos. Eles estão envolvidos em uma realidade econômica, política e social totalmente diferente e, com base nessa realidade distinta, para os porcos da estrutura de poder e para os traiçoeiros líderes trabalhistas é muito fácil manipulá­los com o racismo babilônico.

Essa realidade complexa nos apresenta muitos problemas, e apenas através de uma análise adequada esses problemas podem ser resolvidos. A falta de uma análise adequada é responsável pela ridícula abordagem para esses problemas que nós encontramos entre os marxistas-­leninistas da mãe­pátria. E sua análise inadequada os leva a advogar soluções que estão previamente condenadas ao fracasso. O domínio­chave da confusão tem a ver com a falsa admissão da existência de um Proletariado norte­americano; de uma classe trabalhadora norte­americana; e de um lumpemproletariado norte-­americano.

Ok, nós somos o lúmpen. É isso mesmo. O lumpemproletariado são todos aqueles que não têm uma relação segura ou interesse declarado nos meios de produção e nas instituições da sociedade capitalista. Aquela parte do “exército industrial de reserva” mantida perpetuamente em reserva; que nunca trabalhou, e nunca o fará; que não pode encontrar um emprego; que é inábil e incapaz; que foi substituída por máquinas, pela automação e pela cibernetização, que nunca foi mantida ou recebeu investimento para desenvolvimento de novas habilidades; todos aqueles que dependem da seguridade social ou que recebem auxílio estatal.

Também o assim chamado “elemento criminoso”, aqueles que vivem da sua esperteza, subsistindo daquilo que conseguem roubar, que enfiam armas nas caras dos homens de negócios e dizem “mãos ao alto” ou “entregue tudo”! Aqueles que nem mesmo querem um emprego, que odeiam trabalhar e não podem bater o ponto para algum porco, que prefeririam bater na boca do porco e roubá­lo a bater o ponto para aquele mesmo porco e trabalhar para ele, aqueles a quem Huey P. Newton chama “os capitalistas ilegítimos”. Em síntese, todos aqueles que simplesmente foram excluídos da economia e privados de sua legítima herança social.

Mas embora sejamos o lúmpen, nós ainda somos membros do Proletariado, uma categoria que teoricamente ultrapassa fronteiras nacionais, mas que na prática deixa algo a desejar.

CONTRADIÇÕES NO ÂMBITO DO PROLETARIADO DOS EUA

Tanto na mãe­pátria quanto na colônia preta, a classe trabalhadora é a ala à direita do proletariado e o lumpemproletariado é a ala à esquerda. No âmbito da classe trabalhadora em si mesma, nós temos uma grande contradição entre os desempregados e os empregados. E nós definitivamente temos uma grande contradição entre a classe trabalhadora e o lúmpen.

Alguns assim chamados marxista-­leninistas, cegos, acusam o lúmpen de ser o parasita da classe trabalhadora. Essa é uma acusação estúpida, derivada de uma leitura excessiva das notas de rodapé de Marx e da atitude de quem toma algumas de suas observações grosseiras, feitas de improviso, como escrituras sagradas. Em realidade, é acurado dizer que a classe trabalhadora, particularmente a classe trabalhadora norte­-americana, é uma parasita da herança da humanidade, da qual o lúmpen tem sido totalmente roubado pelo manipulado sistema capitalista que, por sua vez, arremessou a maior parte da humanidade sobre uma pilha de lixo, enquanto suborna um percentual dela com empregos e seguridade.

A classe trabalhadora com a qual devemos lidar hoje mostra pouca semelhança com a classe trabalhadora dos dias de Marx. Nos dias de sua infância, incerteza e instabilidade, a classe trabalhadora foi muito revolucionária e levou adiante a luta contra a burguesia. Mas, em meio a lutas longas e amargas, a classe trabalhadora fez algumas incursões no sistema capitalista, construindo um nicho confortável para si mesma. O advento dos sindicatos, da negociação coletiva, da empresa sindicalizada, da seguridade social e outras legislações protetivas especiais castraram a classe trabalhadora, transformando­a no comprado movimento trabalhista – um movimento não-­revolucionário, de inclinação reformista, que só está interessado em salários mais altos e mais segurança no emprego. O movimento trabalhista abandonou toda a crítica básica ao sistema capitalista de exploração em si mesmo. Os George Meanys, Walter Reuthers e A. Phillip Randolphs [224] podem corretamente receber o rótulo de traidores do proletariado como um todo, mas eles refletem e incorporam acuradamente a visão e as aspirações da classe trabalhadora. O Partido Comunista dos Estados Unidos da América, em suas pouco frequentadas reuniões, pode fazer barulho ao se proclamar a vanguarda da classe trabalhadora, mas a classe trabalhadora em si mesma olha para o Partido Democrata como o veículo legítimo para a sua salvação política.

Na verdade, a classe trabalhadora do nosso tempo se tornou uma nova elite industrial, mais se parecendo com as elites chauvinistas das egoístas guildas de artesãos do tempo de Marx do que com as massas trabalhadoras surradas na pobreza abjeta. Cada emprego no mercado da economia norte­-americana, hoje, demanda uma complexidade de habilidades tão elevada quanto os empregos nas elitistas guildas de artesãos do tempo de Marx.

Em uma economia altamente mecanizada, não pode ser dito que a fantasticamente alta produtividade seja produto apenas da classe trabalhadora. Máquinas e computadores não são membros da classe trabalhadora, embora alguns porta­vozes da classe trabalhadora, particularmente alguns marxista-­leninistas, pareçam pensar como máquinas e computadores.

As chamas da revolução, que um dia queimaram como um inferno no coração da classe trabalhadora, nos nossos dias se reduziram à oscilante luz de uma vela, poderosas o bastante apenas para fazer a classe trabalhadora quicar para trás e para frente, como uma bola de pingue­pongue, entre o Partido Democrata e o Partido Republicano, a cada quatro anos, nunca uma vez sequer olhando de relance para as alternativas à esquerda.

QUEM FALA PELO LUMPEMPROLETARIADO?

Alguns marxista-­leninistas são culpados daquele egotismo e daquela hipocrisia de classe muitas vezes exibidas pelas classes superiores em relação àqueles que lhes são inferiores na escala social. Por um lado, eles frequentemente admitem que suas organizações são especificamente elaboradas para representar os interesses da classe trabalhadora. Mas então eles vão além e dizem que, representando os interesses da classe trabalhadora, eles representam o interesse do proletariado como um todo. Isso, nitidamente, não é verdade. Essa é uma suposição falaciosa, baseada no egotismo dessas organizações, e é parcialmente responsável por seu enorme fracasso em fazer uma revolução na Babilônia.

E, uma vez que há nitidamente uma contradição entre a ala à direita e a ala à esquerda do proletariado, assim como a ala à direita criou suas próprias organizações, é necessário que a ala à esquerda tenha sua forma de organização, para representar seus interesses contra todas as classes hostis – incluindo a classe trabalhadora.

A contradição entre o lúmpen e a classe trabalhadora é muito séria, porque ela determina uma diferente estratégia e um conjunto de táticas. Os estudantes concentram suas rebeliões nos campi, e a classe trabalhadora concentra suas rebeliões nas fábricas e nos piquetes. Mas o lúmpen se vê na posição peculiar de estar impossibilitado de encontrar um emprego e, por isso, está impossibilitado de frequentar as universidades. O lúmpen não tem escolha, a não ser manifestar sua rebelião na Universidade das Ruas.

É muito importante reconhecer que as ruas pertencem ao lúmpen, e que é nas ruas que o lúmpen fará sua rebelião.

Uma característica notável da luta pela libertação do povo preto nos Estados Unidos tem sido que a maior parte das atividades tem acontecido nas ruas. Isso ocorre porque, de um modo geral, as rebeliões têm sido lideradas pelo lúmpen preto.

É por causa da relação do lúmpen do povo preto com os meios de produção e com as instituições da sociedade que eles são impossibilitados de manifestar sua rebelião em torno daqueles meios de produção e daquelas instituições. Mas issonão significa que as rebeliões que têm lugar nas ruas não sejam expressões legítimas de um povo oprimido. Esses são os meios de rebelião que restam em aberto para o lúmpen.

O lúmpen tem sido trancado do lado de fora da economia. E, quando o lúmpen se engaja em ação direta contra o sistema de opressão, ele é muitas vezes recebido com vaias e gritos pelos porta­vozes da classe trabalhadora, em coro com os representantes da burguesia. Esses faladores gostam de rebaixar as lutas do lúmpen como sendo “espontâneas” (talvez porque eles mesmos não ordenem as ações!), “desorganizadas”, “caóticas e sem direção”. Mas essas são apenas análises preconceituosas, feitas desde a perspectiva estreita da classe trabalhadora. Mas o lúmpen age de qualquer modo, recusando­se a ser preso em uma camisa de força ou controlado pelas táticas ditadas pelas condições de vida e pela relação para com os meios de produção da classe trabalhadora.

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Todo poder ao povo, morte aos porcos

O lúmpen se encontra numa posição que torna muito difícil manifestar suas queixas contra o sistema. A classe trabalhadora tem a possibilidade de convocar uma greve contra a fábrica e o empregador e, através do mecanismo dos sindicados, pode ter alguma mediação ou algum processo por meio do qual manifestar suas queixas. A negociação coletiva é o caminho para fora do poço da opressão e da exploração descoberto pela classe trabalhadora, mas o lúmpen não tem oportunidades para fazer qualquer negociação coletiva. O lúmpen não tem um foco institucionalizado na sociedade capitalista. Ele não tem um opressor imediato, exceto talvez pela polícia porca com o qual se confronta diariamente.

Desse modo, as próprias condições de vida do lúmpen determinam as assim chamadas reações espontâneas contra o sistema; e porque o lúmpen está nessa condição extremamente oprimida, ele tem uma reação extrema contra o sistema como um todo. Ele se vê como sendo ignorado por todas as organizações, mesmo pelos Sindicatos, e mesmo pelos Partidos Comunistas que o desprezam, o menosprezam e consideram que ele é, nas palavras de Karl Marx, o pai dos Partidos Comunistas, “a camada da escória da sociedade” [225]. O lúmpen é forçado a criar suas próprias formas de rebelião, consistentes com sua condição devida e com sua relação com os meios de produção e com as instituições da sociedade. Isso é, atacar todas as estruturas ao seu redor, incluindo a reacionária ala à direita do proletariado, quando ela se intromete no caminho da revolução.

A análise falha que as ideologias da classe trabalhadora têm feito sobre a verdadeira natureza do lúmpen são largamente responsáveis pelo atraso no desenvolvimento da revolução em situações urbanas. Pode­se dizer que os verdadeiros revolucionários nos centros urbanos do mundo têm sido analisados como estando fora da revolução por alguns marxista-­leninistas.

Notas de rodapé:

[215] Cidade­estado historicamente situada na região de mesmo nome, na Mesopotâmia. Na tradição bíblica, a Babilônia simboliza o mal que se opõe aos desígnios divinos; os rastafáris a converteram em um símbolo dos valores e instituições que oprimem os africanos em diáspora. No discurso dos Panteras Negras, a Babilônia é inevitavelmente associada ao imperialismo.

[218] O movimento “Libertem Huey!” (“Free Huey!”) tinha como propósito central mobilizar os Panteras Negras e exercer pressão sobre o sistema judiciário para libertar o fundador do Partido, preso desde outubro de 1967 sob acusação de assassinar o policial John Frey.

[220] Kim Il Sung foi o líder da Coréia do Norte desde sua fundação, em 1948, até 1994, ano em que morreu. Uma foto sua foi utilizada no cabeçalho da seção de notícias internacionais, em The Black Panther.

[224] Os três nomes citados são de líderes sindicais estadunidenses. George Meany e Walter Reuther eram anticomunistas. Asa Phillip Randolph fundou o primeiro sindicato predominantemente afro­americano e participou ativamente do Movimento pelos Direitos Civis.

[225] Cleaver parece parafrasear a definição de lumpemproletariado que Marx oferece no Manifesto do Partido Comunista, como “putrefação passiva das camadas mais baixas da velha sociedade”. Neste trecho, contudo, Marx admite que o lumpemproletariado “pode, às vezes, ser arrastado ao movimento por uma revolução proletária”, embora “suas condições de vida” mais o predisponham para a reação. Cito de: Marx, K.; Engels, F.; Lênin, V. Manifesto Comunista / Teses de abril. Rio de Janeiro: Boitempo Editorial, 2017.


 

Texto retirado do livro “Por uma revolução antirracista: uma antologia de textos dos Panteras Negras (1968 – 1971)”, disponível neste link.

Todos os direitos reservados ao seu autor e tradutor original.

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