bell hooks – Parando a violência masculina

Publicado originalmente em:

hooks, bell. Stopping the male violence. In: hooks, bell. The will to change: men, masculinity and love. New York: Atria Books. 2004.

Tradução e revisão por Carla Miranda.


Todo dia na América os homens são violentos. A sua violência é tratada como “natural” pela psicologia do patriarcado, que insiste haver uma conexão biológica entre ter um pênis e a disposição para cometer violência. Esse pensamento continua a moldar noções de hombridade na nossa sociedade, apesar do fato de haver registros de culturas no mundo nas quais homens não são violentos no dia a dia, nas quais estupro e assassinato são ocorrências raras.

Todo dia em nossa nação há homens que evitam a violência. Esses homens não escrevem livros sobre como eles fazem para navegar o terreno da masculinidade patriarcal sem sucumbir às tentações da violência. Enquanto mulheres tem ganhado o direito de ser homens patriarcais em drag, elas tem se engajado em atos de violência semelhantes àqueles dos homens. Isso serve para nos lembrar que o impulso de usar violência não é exatamente conectado à biologia, e sim a um conjunto de expectativas sobre a natureza do poder numa cultura dominadora.

Ao longo de décadas, não importa quantos programas de televisão e filmes temos assistido, onde o herói é o bom homem que usa violência para vencer batalhas com homens maus, muitas pessoas tem sentido que as pensadoras feministas exageram o grau ao qual homens são violentos em suas vidas diárias.

A feminista radical Andrea Dworkin ousou corajosa e consistentemente nomear o largo espectro de violência masculina contra mulheres. Em “Bode Expiatório” ela escreve: “Um relatório recente das Nações Unidas diz que ‘violência contra mulheres é a forma mais persuasiva de abuso dos direitos humanos’. Nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça diz que ‘uma dentre cada doze mulheres será perseguida em algum ponto de sua história de vida’. A Associação Médica Americana concluiu que ‘agressão sexual e violência familiar estão devastando o bem-estar físico e emocional dos Estados Unidos’; em 1995 a AMA relatou que ‘mais de 700.000 mulheres nos Estados Unidos são sexualmente agredidas todo ano, ou uma a cada 45 segundos’.” Esses fatos se referem à agressão fisicamente sexual e não cobrem o vasto abuso emocional que tem praticamente se tornado uma norma aceita em relações entre homens e mulheres, mesmo que sejam entre maridos e esposas, pais e filhas, irmãos e irmãs, namoradas e namorados.

No livro “Como posso chegar até você?”, Terrence Real inclui um capítulo chamado “A Conspiração do Silêncio”, onde ele enfatiza que não somos autorizados nessa cultura a falar a verdade, sobre como realmente são as relações com homens. Esse silêncio representa nossa conivência coletiva e cultural com o patriarcado. Para sermos verdadeiros com o patriarcado, somos todos ensinados que devemos preservar os segredos dos homens.

Real aponta que o segredo fundamental que compartilhamos é que seguiremos em silêncio: “Quando garotas são induzidas à feminilidade, o que exatamente elas tem para dizer deve ser silenciado. As verdades que as mulheres carregam não devem ser faladas. A resposta é simples e assustadora. Garotas, mulheres – e também jovens meninos – todos compartilham disso em comum. Ninguém deve falar a verdade sobre homens.”

Uma das verdades que não podem ser faladas é a violência diária praticada por homens de todas as classes e raças em nossa sociedade – a violência do abuso emocional. Em seu trabalho estrondoso “Abuso Emocional”, Marti Tamm Loring explica que o abuso emocional é “um processo no qual um indivíduo sistematicamente diminui e destrói o eu interior do outro. As ideias essenciais, sentimentos, percepções, e características da personalidade da vítima são constantemente menosprezadas… A característica mais expressiva para identificar o abuso emocional é o seu aspecto padrão… É o esforço para depredar e controlar, que constitui o abuso emocional.”

Significativamente, abuso emocional em famílias não é apenas um componente do vínculo do casal; isso pode determinar a maneira com que todos se relacionam numa família. Se uma mulher é patriarcal, isso pode se apresentar numa moradia de uma só parente sem homens adultos. Em várias casas, o poder patriarcal reside em meninos adolescentes que são abusivos com suas mães solo; essa é a violência masculina contra mulheres.

Quando Real quebra o silêncio, as histórias que ele compartilha são de sessões de terapia familiar onde clientes revelam abertamente as maneiras como os pais fazem rituais de poder, usando humilhação, expulsão, ameaças, e se tudo isso falha, usam violência física para manter sua posição de dominância.

Na minha família de origem, nosso pai, numa voz assustadoramente brava, gritava repetidamente à minha mãe, “Eu vou te matar”. Por anos, meus pesadelos foram preenchidos por um pai enfurecido às vezes matando minha mãe, às vezes me matando por eu tentar protegê-la. Em nossa família, meu pai não era frequentemente feroz, mas o intenso abuso físico e emocional que ele descarregava nessas raras ocasiões, onde ele agia violentamente, mantinha todo mundo assustado, pisando em ovos, vivendo com medo. Geralmente um homem frio, silencioso e reservado, meu pai achava sua voz quando falava com raiva.

Os dois homens que eu tive como meus vínculos primários na vida adulta são ambos quietos e reservados, como meu pai e meu amado avô. Diferente do meu avô, de quem nunca testemunhei expressões de raiva, menos ainda ódio, aqueles dois homens que escolhi como parceiros recorreram, ambos, a exercer dominância aqui e ali com rituais de poder. Um deles era fisicamente violento em algumas ocasiões, um fato que ele sempre sentiu que não importava, e era emocionalmente rude com certa frequência.

Meu segundo parceiro de longa data que escolhi, em parte o foi porque ele era muito engajado em romper a violência contra mulheres, mas conforme o progresso de nosso vínculo, ele começou a ser emocionalmente abusivo de vez em quando. Era como se ele percebesse que eu era muito poderosa, e essa percepção o levou a confrontar esse poder, a me machucar e ferir. Eu fiquei espantada com o passado sendo reencenado no presente.

Nos livros de autoajuda, insistem na noção de que mulheres escolhem homens que vão maltratá-las de novo e de novo, apresentada como uma verdade. Esses livros raramente falam sobre patriarcado ou dominação masculina. Eles raramente reconhecem que relações não são estáticas, que pessoas mudam ao longo do tempo, que elas se ajustam com as circunstâncias. Homens que talvez tenham sementes de negatividade e dominação dentro de si, junto com traços positivos, podem aflorar os negativos em tempos de crises em suas vidas.

Esses dois homens que escolhi como parceiros, como todos os homens que amei, foram vítimas de vários graus de negligência emocional e abandono em suas infâncias. Eles não amavam seus pais ou não os conheciam de verdade. Crescendo da juventude à hombridade, eles simplesmente aceitaram de forma passiva a falta de comunicação com seus pais. Todos eles sentiram que todas as tentativas de reconciliação deveriam vir dos pais para com os filhos. E assim que chegaram à vida adulta, todos esses homens começaram a se comportar não diferentemente dos pais, cujas ações eles condenavam e odiavam.

Observando-os ao longo do tempo, soube que todos eles foram rebeldes e antipatriarcais em seus 20 anos e começo dos 30, mas quando eles foram caminhando pelo mundo do trabalho, começaram a assumir mais dos modos patriarcais que sinalizam o que seria um homem poderoso e bem-sucedido. Apesar de não estarem mais vivendo com seus pais quando eles se tornaram “homens”, os modelos antigos de suas vidas foram inconscientemente retomados. Eles poderiam ter se protegido dessa repetição íntima apenas se trabalhassem conscientemente para serem diferentes, apenas se fossem desleais ao modelo dominador.

Nenhum homem que não escolhe ativamente trabalhar para mudar e confrontar o patriarcado escapa a esse impacto. O homem mais passivo, gentil e quieto pode vir a ser violento se as sementes do pensamento patriarcal forem cultivadas em sua psique. Muito do comportamento que Dr. Jekyll e Mr. Hyde descrevem nos homens que são alternadamente carinhosos e abusivos tem sua raiz nessa alegoria ao pensamento patriarcal. A doutrinação na mentalidade começou na infância, incluindo uma iniciação psicológica, que requer dos meninos que aceitem que a sua disposição para fazer atos violentos é o que lhes torna homens patriarcais.

Uma distinção pode e deve ser feita, entre a disposição para fazer atos violentos e a sua prática. Quando pesquisadores de estupros em flertes entrevistaram uma leva de homens universitários, e descobriram que vários deles não achavam errado forçar uma mulher ao sexo, ficaram chocados. Seus achados pareciam confrontar a noção previamente aceita de que estuprar era um comportamento masculino intolerável. Embora seja difícil que algum dos homens dessa amostra fosse ou tenha se tornado estuprador, era evidente que, dado o que eles concebiam como circunstância apropriada, poderiam se ver sendo sexualmente violentos. Inconscientemente, eles se engajam no pensamento patriarcal, que tolera o estupro mesmo que nunca cheguem a cometê-lo.

Isso é uma retórica patriarcal que a maioria das pessoas em nossa sociedade quer negar. Sempre que pensadoras, especialmente as defensoras do feminismo, falam sobre o vasto problema da violência masculina, pessoas se apressam a responder que a maioria dos homens não é violenta. Eles recusam reconhecer o tanto de garotos e homens que tem sido programados desde o nascimento a acreditar que em algum momento devem ser violentos, seja psicológica ou fisicamente, para provar que são homens. Terrence Real chama essa doutrinação ao pensamento patriarcal de “traumatização normal” dos meninos:

Quando eu comecei a olhar para as questões de gênero, acreditei que a violência era um produto da socialização dos garotos. Mas depois de escutar mais atentamente aos homens e suas famílias, cheguei a acreditar que violência é a socialização masculina. A forma com que “transformamos garotos em homens” é pela injúria: nós os cortamos de suas mães, assim nos mostram as pesquisas, cedo demais. Nós os repelimos de sua expressividade, de seus sentimentos, da sensibilidade aos outros. A própria frase “seja homem” significa engula o choro e siga em frente. Desconexão não é a queda da masculinidade tradicional. Desconexão é a masculinidade.

Essa doutrinação acontece independente de o menino ser criado numa moradia com casal parental ou com mãe solo.

A perpetuação da violência masculina pelo ensinamento de um modelo dominador de relacionamentos chega aos meninos através tanto de homens quanto de mulheres. O patriarcado enseja um sadismo materno em mulheres que acolhem essa lógica. Muitas mulheres defendem e testemunham a brutalização de seus filhos nas mãos de pais, namorados, irmãos em diante, porque sentem que ao fazerem assim, mostram aliança com o patriarcado. Não surpreende então, que o ódio masculino seja frequentemente mais direcionado a mulheres em relações íntimas. Essas relações claramente acionam em muitos homens a raiva e o ódio que eles sentiram na infância, quando suas mães não os protegeram, ou cortaram brutalmente vínculos emocionais em nome do patriarcado.

Ao contrário dos mitos populares, mães solo são, muitas vezes, as mais brutas no que tange a coagir seus filhos para se conformarem aos padrões patriarcais. A mãe solo que insiste para que seu menino “seja homem” não é antipatriarcal; ela está reforçando a prescrição patriarcal.

Pesquisando infâncias de meninos, Olga Silverstein observou: “Em famílias de mãe solo, é comum ver meninos que se tornam os ‘homenzinhos’ das suas mães. Ocasionalmente, esses meninos são crianças autoritárias que menosprezam suas mães, crianças que de fato fazem imitações de um certo tipo de marido, sendo ora possessivos, protetivos e sedutores.”

Em famílias de mãe solo ou casal parental, meninos que são permitidos a assumir o papel do “mini patriarca” são frequentemente violentos contra suas mães. Eles batem e chutam quando seus desejos não são satisfeitos. Obviamente, como meninos pequenos, eles não tem força para se sobrepor às suas mães, mas é claro que eles vêem como aceitável o uso da violência para conseguirem satisfação às suas necessidades. E enquanto mães de meninos que as machucam podem sentir que bater é errado, elas sentem simultaneamente que é seu trabalho atender as necessidades de qualquer homem, especialmente se ele for coercitivo.

Muitos garotos adolescentes tem um desdém violento e ódio pela mãe patriarcal porque entendem que no mundo fora de casa, o sexismo arranca seu poder; eles ficam irritados que ela tenha poder sobre eles em casa. Eles não vêem as regras autocráticas dela em casa como um poder legítimo. Como consequência, eles podem se enfurecer com sua mãe por usar as táticas do terrorismo psicológico para modelá-los, e ainda responder com admiração a colegas homens ou figuras de autoridade que utilizam táticas semelhantes.

Na cultura patriarcal, meninos aprendem cedo que a autoridade da mãe é limitada, que seu poder vem somente da função de cuidadora do patriarcado. Quando ela comunga do abuso masculino ao seu filho, ela (ou depois uma substituta simbólica da mãe) será um alvo de sua violência.

Anos atrás, o programa televisivo O Incrível Hulk era o favorito de muitos meninos. O programa mostrava um discreto cientista que se torna um monstro verde e furioso sempre que sente emoções intensas. Uma socióloga, entrevistando meninos sobre sua paixão pelo programa, perguntou-lhes o que fariam se tivessem o poder de Hulk. Eles responderam que “esmagariam suas mamães”.

Em seu trabalho estrondoso, A Sereia e O Minotauro, a teórica feminista Dorothy Dinnerstein destacou a extensão pela qual os meninos respondiam enfurecidos ao poder autocrático das mães. Como várias pesquisadoras feministas de hoje, ela reforçou que o engajamento masculino na parentalidade precisava quebrar essa projeção na mãe como uma figura toda-poderosa à qual se deve rebelar, e em alguns casos, destruir.

Nitidamente, mães patriarcais que se enfurecem contra homens crescidos projetam nos filhos. Elas podem tanto forçar o filho a entrar numa relação inapropriada onde eles devem provê-las a conexão emocional que os homens as negam, quanto engajar no abuso emocional onde o filho é constantemente desprezado e constrangido. Esses atos de violência patriarcal servem para reforçar na mente dos meninos que sua violência contra mulheres é apropriada. Isso simplesmente faz parecer que a vingança é justificável.

A idealização feminista da maternidade tornou extremamente difícil a chamada de atenção ao sadismo materno, à violência com que mulheres endereçam a crianças, especialmente a meninos. E mesmo que saibamos que isso é tanto uma consequência da dinâmica de poder na cultura dominadora, quanto um reflexo do ódio, há mulheres que são absurdamente violentas com crianças. Esse fato deve levar as pessoas a questionar qualquer teoria das diferenças de gênero que sugira que mulheres são menos violentas que homens.

Na cultura patriarcal, mulheres são tão violentas quanto os homens contra grupos sobre os quais eles tenham mais poder e possam dominar livremente; geralmente esse grupo é de crianças ou mulheres mais vulneráveis. Como sua contraparte masculina, muito da violência feminina contra crianças toma a forma de abuso emocional, especialmente abuso verbal e constrangimento, embora seja difícil documentar.

O sadismo materno deve ser estudado, no entanto, se quisermos entender as raízes da violência adulta masculina contra mulheres. Até certo ponto, pensadoras feministas reformistas que tem focado em propagar mulheres como o sexo mais ético, gentil, generoso tem impedido um estudo aprofundado do sadismo materno, dos modos como mulheres na sociedade patriarcal agem violentamente contra meninos.

Crescendo em nossa casa, era evidente que nossa mãe acreditava totalmente que era o papel do homem ser o disciplinador, no comando. Quando nosso pai usava violência excessiva, ela meramente via isso como seu direito.

Muitas das mulheres que acreditam que é direito de dominação dos homens, sentem que não devem resistir à violência masculina contra elas ou suas crianças. Não sem surpresas, essas mulheres, minha mãe inclusa, usam toda sorte de violência para disciplinar crianças. Tementes de serem objetos do ódio de um homem adulto, elas podem desejar que suas crianças se comportem perfeitamente para não despertarem a ira do Papai.

Em conversas com homens cujas mães foram passivas enquanto seus filhos foram vitimados pelos pais ou outros parentes cuidadores, eu descobri que eles tendiam muito mais que outros homens a idealizar suas mães, vendo-as como vítimas sem escolha. Mesmo não tendo dirigido ódio a suas mães, e sim ficando frequentemente incapazes de considerar que elas poderiam agir para proteger seus direitos, esses homens eram, eles mesmos, violentos em relações íntimas com mulheres.

Seu comportamento corrobora a análise de Terrence Real de que “a coreografia do patriarcado, essa profana fusão entre amor, perda e violência, não perdoa ninguém.” Mães que se aliam ao patriarcado não podem amar devidamente seus filhos, pois sempre virá um momento no qual o patriarcado exigirá que os sacrifiquem. Geralmente, esse momento chega na adolescência, quando muitas mães carinhosas e afetuosas param de nutrir emocionalmente seus filhos, por medo de que isso os desmasculinize. Incapazes de lidar com a perda da conexão emocional, os meninos internalizam a dor e a mascaram com indiferença ou ódio.

Em geral, homens adultos que são incapazes de fazer conexões emocionais com as mulheres que eles escolhem para a intimidade congelam no tempo, incapazes de se permitir ao amor, por medo de que a pessoa amada os abandone. Se a primeira mulher que eles amaram passionalmente, a mãe, não foi verdadeira em seu vínculo de amor, então como eles podem confiar que sua parceria será verdadeira também?

Ocasionalmente, em suas relações adultas, esses homens agem testando e testando o amor de sua parceria. Enquanto o menino adolescente rejeitado imagina que pode não mais receber o amor de sua mãe por não ser digno, como homem adulto pode agir de jeitos que são indignos, e ainda demanda da mulher em sua vida que ela lhe ofereça amor incondicional. Esse teste não cura a ferida do passado, apenas o reencena, pois em última análise a mulher se cansará de ser testada e terminará o relacionamento, reencenando assim o abandono. Esse drama confirma para vários homens que eles não podem confiar no amor. Eles decidem que é melhor apostar sua fé em serem poderosos, dominadores.

Em Homem O Bastante, Frank Pittman diz de homens que “enquanto a maioria de nós quer receber amor, os controladores estão dispostos a renunciar ao amor se isso for o que lhes tornam chefes”. Ser o chefe não requer de qualquer homem que seja emocionalmente saudável, apto a dar e receber amor.

Desde quando comecei a escrever sobre amor, defini isso de uma maneira que conflui a noção de M. Scott Peck do amor como uma disposição de nutrir o próprio crescimento espiritual e emocional e o do outro, com a elaboração de Eric Fromm de que amor é ação, não só um sentimento. Trabalhando com homens que queriam conhecer o amor, eu os incentivei a pensar nisso como uma combinação de cuidado, compromisso, conhecimento, responsabilidade, respeito e confiança. A maioria das nossas relações tem um ou dois desses aspectos.

Homens patriarcais são escolarizados na arte de serem responsáveis a dar um cuidado instrumental. Como adolescente, quando reclamei contra a negligência emocional e abuso de meu pai, e de sua violência esporádica contra Mamãe, ela era sempre ligeira a me lembrar que ele trabalhava muito e provia à sua família, que ele estava em casa quase toda noite, e só por essa razão, já devíamos respeitá-lo e honrá-lo. O fato de que homens frequentemente confundem cuidado e violência dificulta para todos em nossa cultura a reparar a extensão na qual cada violência masculina impede as maneiras dos homens de dar e receber amor.

O primeiro ato de violência que o patriarcado demanda dos homens não é violência contra mulheres. Em vez disso, o patriarcado demanda de todos os homens que engajem em atos de automutilação psíquica, que eles matem todas as partes emocionais de si mesmos. Se um indivíduo não sucede nessa automutilação emocional, ele pode contar com os homens patriarcais para encenar rituais de poder que vão massacrar sua autoestima.

O movimento feminista ofereceu aos homens e mulheres a informação necessária para enfrentar esse massacre psíquico, mas esse enfrentamento nunca virou um amplo aspecto da luta pela equidade de gênero. Mulheres demandam dos homens que eles ofereçam mais emocionalmente, mas a maioria dos homens de fato não pôde entender o que estava sendo demandado deles. Tendo eliminado as partes de si mesmos que poderiam sentir uma grande gama de respostas emocionais, eles ficaram muito desconectados. Eles simplesmente não podiam dar mais emocionalmente ou até compreender o problema sem antes reconectar, reunir as partes eliminadas.

Descrevendo um casal em terapia familiar, Real relembra as qualidades que a esposa queria em seu marido: “Sensibilidade aos outros, a capacidade de identificar e compartilhar seus sentimentos, a disposição de pôr suas necessidades ao lado em serviço à família”. Essas são as mesmas qualidades, assim Real pontua, que “a maioria dos meninos, mesmo em momentos melhores, chutaram para fora de si”. Ele conclui: “Em nossa cultura, meninos e homens não estão sendo, nem sequer foram, educados para a intimidade”. Mulheres procurando intimidade com homens ocasionalmente acabam tendo suas expressões de pertencimento menosprezadas. Muitos homens respondem às vontades femininas por conexão emocional, com retraimento emocional, e, nos piores cenários, com abuso.

Emocionalmente automutilados e desconectados, muitos homens fazem aberturas de conexão emocional apenas para depois miná-las com abuso emocional. Eles simplesmente não assimilam que amor e abuso não podem coincidir. E por que deveriam assimilá-lo, quando programas televisivos, filmes, e tanto mais na cultura popular emite a mensagem de que sempre quando há paixão intensa num casal, a violência pode emergir? Ensinar homens a entender que mulheres e crianças não se sentem amadas quando são abusadas é uma das metas primárias de grupos que trabalham para encerrar a violência masculina.

O ensaio autobiográfico “Um Bom Homem é Difícil de Bater”, de Kay Leigh Hagan, inicia com a história dela flertando com um homem que ela sentiu que foi abusivo e potencialmente disposto à violência física. Ela chama seu melhor amigo para pedir conselho sobre quanto abuso ela deveria suportar, dizendo “Se eu realmente o desejo, e se eu quero que a relação funcione e dure, vai haver altos e baixos. Eu não acho que devo me retirar quando isso se dificultar. Eu devo estar disposta a tolerar um pouco de abuso se eu realmente amá-lo”. O amigo a olha direto no olho e a diz, “Kay, numa relação amorosa o abuso é inaceitável. Você não deve tolerar um abuso sequer para ser amada.”

Com ousadia característica e honestidade radical, Hagan compartilha que seu “entendimento sobre amor e poder mudou para sempre naquele momento.” Ela imaginou que o parceiro amoroso de seu amigo tomaria o lado dele: “Em vez disso, sua reação me encorajou a me amar, a tomar responsabilidade pelo meu próprio bem-estar, e a rejeitar violência mesmo em suas formas mais sutis.” Hagan teve sorte de receber essa sabedoria cedo em sua vida. O destino da maioria das mulheres é dramaticamente diferente, especialmente mulheres que louvam o reinado do patriarcado. Essas mulheres sentem, como Hagan também sentiu, que escolher estar com um homem patriarcal é automaticamente se submeter a algum nível de abuso, por mais relativo que pareça.

Todo dia as mulheres explicam a violência e crueldade masculinas insistindo nas diferenças de gênero que normalizam abuso. Mulheres heterossexuais solteiras que querem estar com homens sentem que elas não podem escapar de ser vitimadas em algum momento, por abuso emocional e/ou físico pelas mãos dos parceiros homens. A aceitação coletiva pelas mulheres da violência masculina nas relações amorosas, mesmo que a aparência da aceitação disfarce o ódio, medo, ou intenso terror, dificulta o enfrentamento e a mudança da violência masculina.

Quando o professor aparentemente razoável com quem vivi passou do abuso emocional à violência física, eu senti que devia ser compreensiva e perdoar. Como eu, ele foi criado numa família disfuncional. No entanto, mesmo que ele fizesse terapia, mesmo que sua violência física tivesse parado, ele nunca realmente acreditou que ele tinha feito algo errado. Ele cultivava a noção, como muitos homens que agem violentamente cultivam, de que eu era responsável pelo seu comportamento ruim. No trabalho de Donald Dutton com homens violentos, ele identifica a visão das mulheres por trás da máscara masculina como um catalisador da violência masculina:

Ele pode se desculpar e sentir vergonha logo depois, mas ele não sustenta aquela emoção; é muito doloroso, muito reminiscente de feridas antigas. Então ele a culpa. Se isso acontece repetidamente com mais de uma mulher, ele passa de culpá-la a “culpá-las”. Seus defeitos pessoais são racionalizados como uma misoginia em evolução… Nesse ponto, a abusividade é internalizada em seu sistema. O homem fica programado para a violência íntima.

De vez em quando, homens que foram negligenciados e abusados emocionalmente quando crianças por mães dominadoras se unem com mulheres assertivas, apenas para terem seus sentimentos infantis engolfados. Enquanto não puderam “esmagar sua mamãe” e ainda assim receber seu amor, eles acham que podem engajar em violência íntima com parcerias que respondem a seus atos tentando ainda mais se conectar emocionalmente com eles, na esperança de que o amor oferecido no presente cure as feridas do passado. Se apenas uma parte da relação está trabalhando para criar amor, para criar o espaço da conexão emocional, o modelo dominador permanece e a relação apenas vira um lugar para luta contínua por poder.

Mulheres que permanecem em relações duradouras com homens que são emocionalmente abusivos ou violentos costumam fechar a porta dos seus corações. Elas param de criar amor. Com frequência, elas ficam nessas relações porque um cinismo básico, enraizado em sua experiência, afirma que a maioria dos homens é emocionalmente retraída, então elas não acreditam que podem encontrar uma relação amorosa com qualquer homem.

Quando eu quis deixar meu primeiro parceiro de longa data, que foi continuamente abusivo e ora fisicamente abusivo, foram outras mulheres (minha mãe, amigas próximas, conhecidas) que me alertaram do término da relação, me fazendo entender que o homem com quem eu estava era melhor que a maioria dos homens, que eu tinha sorte. Deixá-lo foi um gesto de autoamor e autoconfiança do qual eu não me arrependo. No entanto, descobri que as observações das mulheres que me alertaram sobre a maioria dos homens eram bastante precisas.

O homem com quem vivi em parceria por quase quinze anos exibiu uma mistura de masculinidade patriarcal e masculinidade alternativa. Nos conhecemos no apogeu do movimento feminista, e ele estava disposto a trabalhar para criar equidade de gênero. Tal como para a maioria dos homens de hoje, era muito mais fácil para ele aceitar salário igual por trabalho igual, compartilhar trabalho doméstico e direitos reprodutivos, do que era para ele aceitar a necessidade de desenvolvimento emocional compartilhado.

É mais difícil, para os homens, fazer o trabalho do desenvolvimento emocional, porque esse trabalho requer dos indivíduos que estejam emocionalmente conscientes – que sintam. Seja engajados em atos de violência contra mulheres e crianças ou grupos mais vulneráveis, ou na violência socialmente sancionada da guerra, homens são mais aptos a atender as demandas do patriarcado se eles não sentirem.

Homens sensíveis de vez em quando se encontram isolados de outros homens. Esse medo do isolamento, às vezes, age como o mecanismo que previne homens de se tornarem mais conscientes de suas emoções.

Quando altos números de jovens homens nessa nação se rebelaram contra o patriarcado para se oporem à guerra no Vietnã, muitos deles eram preocupados com a justiça, muitos deles não queriam matar, mas vários deles simplesmente não queriam morrer. Se opor à guerra e ao imperialismo que promove a guerra impôs dificuldades a esses homens diante do patriarcado capitalista imperialista branco-supremacista. Eles sofreram ao escolher se posicionar. Foram ridicularizados por outros homens, representados como traidores.

Nos últimos dez anos, a mídia de massa tem produzido um número de filmes projetados para meninos que glorificam guerras (O Resgate do Soldado Ryan, Independence Day, Homens de Preto, Falcão Negro em Perigo, Pearl Harbor, para citar alguns), e mais uma vez fazem parecer heróico morrer sozinho, longe de casa, lutando por uma causa que você pode ou não entender. Esses filmes são parte da reação patriarcal antifeminista. Eles glorificam a masculinidade patriarcal que mulheres e homens iluminados criticam. Eles servem como propaganda, recrutando os corações e imaginações dos meninos. Como o rap gangsta, eles celebram a violência masculina em todas as frentes, incluindo a dominação de mulheres.

A mídia conservadora de massa oferece lições diárias de pedagogia patriarcal; falando aos meninos o que eles devem fazer para serem homens. Nos lares onde pais iluminados trabalham diariamente para repudiar a violência, a televisão reafirma sua importância, tornando o cortejo da morte glamoroso e sexy. Meninos e homens pobres da classe trabalhadora, de vez em quando, incorporam os piores traços da masculinidade patriarcal, agindo violentamente porque é a maneira mais fácil e barata de declarar “hombridade”.

Se você não pode provar que é “tão homem” se tornando presidente, ou se tornando rico, ou se tornando um líder público, ou se tornando um chefe, então a violência é o seu ticket para o concurso da masculinidade patriarcal, e sua habilidade de violentar nivela o campo de jogo. Nesse campo, o campo da violência, qualquer homem pode vencer.

Homens que vencem nos termos patriarcais terminam perdendo em termos de sua qualidade substantiva de vida. Eles escolhem a masculinidade patriarcal acima da conexão amorosa, primeiro renunciando ao amor próprio e então ao amor que eles poderiam dar e receber, que os conectariam aos outros.

Pesquisadoras feministas tem exposto há muito tempo a ampla violência doméstica em nossa sociedade. No entanto, desde essa exposição, a violência contra mulheres não tem diminuído, e em alguns casos, tem sido intensificada.

Gurus antifeministas tem atribuído a intensificação da violência masculina à maior igualdade das mulheres. Mesmo assim, muitos estudos de vida familiar indicam que nessa esfera, relações de gênero não passaram por grandes revoluções. A socióloga Arlie Hochschild tem fornecido dados importantes que mostram como as dinâmicas domésticas de gênero entre homens e mulheres continuam bastante sexistas; mulheres trabalham fora de casa, mas continuam a fazer a maior parte do trabalho doméstico. Lógico que homens, com uma misoginia dissimulada antes do movimento feminista, se sentiam mais autorizados a soltar abertamente seu ódio quando o movimento se fortaleceu, mas o ódio já estava lá.

A violência masculina em geral tem sido intensificada não porque os ganhos feministas oferecem maior liberdade às mulheres, mas porque homens que endossam o patriarcado descobriram no caminho que a promessa patriarcal de poder e dominação não é fácil de cumprir, e nesses raros casos em que é cumprida, deixa esses homens emocionalmente desamparados.

A masculinidade patriarcal que prometia satisfazer, não satisfaz. E quando emerge essa consciência, a maioria dos homens patriarcais é isolada e alienada; eles não podem voltar atrás e resgatar um passado feliz, ou mesmo alegria, nem podem seguir em frente. Para avançar, eles precisariam repudiar o pensamento patriarcal sobre o qual sua identidade foi baseada. Raiva é um caminho fácil de volta ao sentimento. Pode servir como uma cobertura perfeita, mascarando sentimentos de medo e fracasso.

Meu pai e minha mãe foram casados agora por mais de cinquenta anos. Meu pai nunca renunciou à sua posição patriarcal e ela nunca o confrontou. Ao se apegarem ao pensamento patriarcal, eles perderam sua chance de serem felizes juntos. A ameaça da violência, de abuso emocional, está sempre ali, no meio do caminho à intimidade, mantendo-os longe de perdoar um ao outro e recomeçar. Infelizmente, eles estão presos na armadilha do patriarcado. E isso permanece semeando o solo da violência diária, o sutil terrorismo íntimo que intensifica o ressentimento e fecha a possibilidade de conhecer a alegria.

Não é fácil para os homens, jovens e velhos, rejeitar os códigos da masculinidade patriarcal. Homens que se posicionam contra a violência estão simultaneamente se posicionando contra o patriarcado, independente de poderem articular essa escolha ou não. Em seu ensaio sensível “Políticas de Gênero dos Homens”, R. W. Connell chama atenção para o fato de que homens que se opõem ao patriarcado permanecem em apuros com o mundo onde vivem:

Homens que tentam desenvolver políticas de apoio ao feminismo, sejam eles gays ou heteros, não estão num caminho fácil. Eles estão suscetíveis à ridicularização por muitos outros homens, e por algumas mulheres. É quase um clichê jornalístico que mulheres desprezam Caras Sensíveis da Nova Era. Eles não vão necessariamente ganhar apoio caloroso das mulheres feministas.

Em última análise, homens que escolhem estar contra a violência, contra a morte, o fazem porque eles querem viver plenamente e bem, porque eles querem conhecer o amor. Esses homens são os verdadeiros heróis, os homens cujas vidas precisamos conhecer, honrar e lembrar.

2 comentários em “bell hooks – Parando a violência masculina”

  1. texto sensacional

  2. Estou amando ler os textos desse livro da Bell Hooks por aqui. Tragam mais por favor!! Obrigado.

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