Friedrich Engels sobre a importância de ler Hegel

Conrad Schmidt foi um economista e intelectual alemão, um seguidor do marxismo desde cedo que trocava cartas com Engels durante a década de 1890. Ele também era o irmão mais velho da famosa artista Kathe Kollwitz. Neo-kantiano por convicção, Schmidt perguntava a Engels quais eram as bases filosóficas do pensamento de Marx. Engels já tinha escrito um livro sobre o tópico, Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã (1885), mas aparentemente as implicações desse trabalho ainda não estavam claras o bastante. Então ele escreveu essa carta como resposta a seu colega.

Infelizmente, Schmidt não aceitou o conselho de Engels. Como Eduard Bernstein, ele deplorou as supostas “armadilhas hegelianas” do método dialético de Marx, e logo sucumbiu para o revisionismo. Georg Plekhanov teve uma boa polêmica contra Schmidt sobre esse ponto. Eu posso expandir sobre isso em outra postagem, mas a influencia de Hegel foi crucial para quadro estratégico do marxismo (e, portanto, sua rejeição das doutrinas empiristas). Independentemente disso, aproveite este post por enquanto e esperamos que haja mais atualizações a seguir.


Carta para Conrad Schimdt

1 de Novembro de 1891.

Collected Works 49, páginas 286 – 287.

Você não pode, claro, avançar sem ler Hegel. Ele é mais um indivíduo que irá tirar um bom tempo seu para digeri-lo. O pequeno texto sobre a lógica no livro “Encyklopadie” seria um bom começo, mas a edição que você deveria ter é a do Volume 6 de Werke – não a edição separada de [Karl] Rosenkranz (1845) – já que a primeira tem muito mais notas explicativas sobre as aulas, mesmo que o idiota Henning frequentemente falhe em entender as últimas.

Na introdução, no parágrafo 26, etc., você tem a primeira crítica a versão de Wolf sobre Leibniz (da metafísica em um sentido histórico), então depois há a dos empiristas ingleses e franceses no parágrafo 37, etc., então a de Kant, no parágrafo 40 et sequ, e finalmente, a do misticismo de Jacobi no parágrafo 61. Na primeira seção (Ser), você não deve prolongar-se muito sobre o ser e o nada. Os últimos parágrafos sobre a qualidade seguidos pelos que comentam sobre quantidade e medidas são muito melhores, mas a teoria da essência constitui a seção principal: a dissolução de opostos abstratos em sua insubstancialidade quando, logo que alguém tenta compreender somente um aspecto, ela muda imperceptivelmente para outro, etc. Ao mesmo tempo você pode sempre deixar claro as coisas por meio de exemplos concretos.

E. g. Você, como um noivo, e sua noiva apresentam um grande exemplo da indivisibilidade da identidade e da diferença. É completamente impossível verificar se o amor sexual é o prazer derivado da identidade na diferença ou aquele derivado da diferença na identidade. Remova a diferença (neste caso do sexo) ou a identidade (a humanidade de ambos), e o que resta? Lembro-me de como eu costumava ser atormentado por essa indivisibilidade de identidade e diferença, embora não possamos dar um passo sem tropeçar nela.

De modo nenhum, entretanto, você deveria ler Hegel como fez [Paul] Barth, ou seja, somente para descobrir paralogismos e pobres meios que serviriam a ele como ferramentas para construir seu sistema. Isso é tarefa de sala de aula, nada mais. O que é muito mais importante é descobrir a verdade e a genialidade abaixo da falsidade da forma e do contexto factício. Por exemplo, as transições de uma categoria ou oposto para um outro são quase sempre arbitrárias – e são muitas vezes alcançadas por meio de alguma piada, como no parágrafo 120, quando positivo e negativo “caem ao fundamento [Grund]”  para que então Hegel consiga prosseguir a categoria “fundamento”. Pensar demais sobre isso é uma perda de tempo.

Já que, em Hegel, cada categoria representa um estágio na história da filosofia (como, realmente, ele usualmente indica), você seria muito bem recomendado a ler Vorlesungen über Geschichte der Philosophie [Preleções sobre a História da Filosofia]um de seus trabalhos mais brilhantes – por meio de comparação. Para recreação eu recomendaria o livro Asthetik [Estética]. Quando você alcançar um pouco de familiaridade com o texto você irá ficar maravilhado.

A inversão da dialética de Hegel é baseada na suposição de que ela é o “autodesenvolvimento da ideia” da qual, a dialética dos fatos é apenas a imagem, enquanto a dialética nas nossas mentes é tão somente a reflexão do desenvolvimento real que toma lugar no mundo natural e na história humana em obediência às formas dialéticas.

Você deveria tentar comparar a progressão marxiana da mercadoria ao capital com a progressão hegeliana do ser a essência; isso pode te dar um bom paralelo – em uma mão, o desenvolvimento concreto que segue dos fatos, na outra mão, a construção abstrata, na qual ideias extremamente brilhantes e, em certos casos, muito justas transformações como as da qualidade em quantidade e vice-versa, são elaboradas para produzir o que parece ser o autodesenvolvimento de uma noção a partir de outra, da qual, de fato, seria possível inventar uma dúzia do mesmo tipo.


Carta para Conrad Schmidt

4 de fevereiro de 1892

Se você ficar atolado com Hegel, não pare; seis meses depois, você encontrará no mesmo pântano um caminho firme e poderá atravessá-lo sem dificuldade.

Se você traduzir a sucessão da Teoria da Essência para outro idioma, a maioria das transições se tornará impossível. Não é aqui que reside a essência; reside no método, no princípio do movimento universal e da interação universal, em uma abordagem correspondente ao estudo do objeto que não deixa o pensamento em paz, forçando-o a expressar a realidade em seu movimento e em sua complexidade da maneira mais exata.


Texto originalmente disponibilizado pelo blog The Charnel House.

Disponível neste link.

Tradução por Andrey Santiago

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