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Depois de um término de relacionamento, algum amigo seu inevitavelmente irá olhar para você depois de algum drinque, olhar nos seus olhos e declarar, “é hora de superar isso”. Outros se juntarão nesse suporte. Seus crescentes pedidos para ser deixado sozinho vão encontrar ouvidos que não te escutam e a sua desculpa dizendo que nunca mais vai encontrar alguém não vai ter tanta base. “É fácil encontrar alguém,” eles podem dizer, “quero dizer, você já tentou algum aplicativo de relacionamento?”

Marx argumentou que o capitalismo supera sua tendência a estagnação por meio da mercantilização – a “transformação dos relacionamentos, antes não tocados pelo comércio, virarão relações comerciais, relações de troca, de compra e venda.” Essa extensão do mercado dá novos caminhos para investimentos e lucros que auxiliam o capital a contornar recessões e depressões.

Essa transformação de relações sociais em relações comerciais tem um caráter duplo. O mercado, particularmente, nos primeiros tempos do capitalismo, foi expandido fisicamente – limites foram expandidos geograficamente por navios, veleiros e outras grandes embarcações; mas o mercado também se estendeu por meio de uma reconfiguração de relações e praticas culturas em prol da extração de valor e lucro.

Aplicativos de relacionamentos podem ser facilmente lidos como o exemplo mais atual dessa mercantilização. É uma indústria que já cresceu a ponto de valer 2 bilhões de euros ao essencialmente extrair mais-valia das práticas sociais de encontrar potenciais amores ou parceiros.

Sob essa perspectiva, Slavoj Zizek lamentou que os aplicativos de relacionamento podem ser vistos como uma “extensão da mercantilização”, a revista n+1 recentemente colocou que os “aplicativos de hacks da vida… são como programas de auto-taylorização” centrais para a auto-mercantilização.

Mas quando foi que ideias, práticas, e conceitos sobre o amor se separaram das condições materiais?

Pegue qualquer obra de Jane Austen e veja a relação entre o sistema econômico e as práticas de cortejo e romance, como elas mudavam em relação as outras com o tempo, é de grande modo claro. Estamos meramente numa nova fase de Mr. Darcy vs Mr. Collins?

Mercantilize Tudo

As novas fronteiras da mercantilização e da acumulação de capital são sempre desiguais, obscuras e difíceis de se reconhecer em seu nascimento. O aumento das finanças – a financeirização – não é uma exceção.

Um recorte através das noções difusas de “algo estrutural” tem mudado, dois acadêmicos australianos – Mike Rafferty e Dick Bryan – oferecem uma análise de olhos abertos sobre as fronteiras da inovação financeira e a acumulação que a acompanha, com os mecânicos e instrumentos de mudança, particularmente as manifestações e as implicações macro e micro do que os autores chamam de “deslocamento de risco.”

No coração do argumento de Rafferty e Bryan está a ideia de que a fronteira para a inovação financeira e a sua acumulação está sendo formado e expandida por riscos e incertezas – especificamente, como os mercados financeiros tem conseguido desenvolver produtos para negociar riscos e incertezas.

A emergência de produtos negociáveis como derivativos – incluindo coisas como opções, swaps, contratos de futuro, títulos lastreados em ativos – e processos como os de securitização tem sido centrais não somente para a explosão de novos mercados financeiros como de seus negócios associados, também abrindo questões sobre quem fica segurando os ricos do sistema como um todo.

E enquanto esses produtos e processos podem aparecer mistificados, eles contem algumas importantes características unificadoras. Muitos derivativos oferecem a possibilidade de bloquear preços futuros como um meio para administrar riscos. Pegue por exemplo um produtor de leite que precisa comprar comida suficiente para alimentar as vacas. Já que o preço do feno no mercado pode flutuar numa base diária, ele pode aumentar muito e colocar o produtor no risco de falência. Aqui é onde o contrato derivativo aparece, nesse caso como uma opção. Ele dá ao fazendeiro o direito a comprar uma determinada quantidade de comida por um determinado preço em uma determinada data futura, seguro com o conhecimento que ele tem esse produto com seu determinado preço bloqueado.

O ponto chave aqui é que o valor da opção é “derivativo” do ativo referencial; nesse caso, a alimentação das vacas, enquanto o ativo em si continua não sendo negociado. E crescentemente, para toda mercadoria que a vaca produz ou entra em contato (leite, o trator do produtor, o aluguel da própria fazenda, etc.) o mesmo processo de decompor e reconfigurar está em jogo. Desse modo, derivativos, “estabelecem relações de preço que facilmente se convertem entre formas de ativos. Derivativos misturam diferentes formas de capital em uma singular unidade de medida.”

Inovação financeira, permite que todo processo de produção seja separado até seus elementos constituintes, convertidos então em um fluxo de ativos, reconstituídos em um produto financeiro, e feitos co-mensuráveis (e negociáveis) com qualquer coisa.

Pegue um outro exemplo. Imagine andar até a sua mais próxima operadora de telefone – Verizon por exemplo – e se cadastrar para um contrato de 24 meses. Você não paga nada agora, mas durante a vida do seu contrato você pode esperar pagar, podemos dizer, 1000 dólares. Os novos instrumentos financeiros (títulos lastreados em ativos nesse caso) permite que a Verizon (ou Vodafone, ou AT&T) venda sua futura fatura mensal para outra empresa no mercado de futuros por menos de 1000 dólares, vamos dizer, por 900 dólares. Porque uma operadora de telefone iria querer a menor quantia no seu bolso agora e e o golpe subsequente aos seus resultados?

A resposta, simplesmente, é risco. Por 900 dólares no aqui e agora, a Verizon não tem mais o risco de você, cliente, não devolver os 1000 dólares no contrato de 24 meses. A empresa que comprou o acesso aos seus pagamentos agora assume o risco de seu padrão. Se você não efetuar um pagamento, a Verizon ainda possui os 900 dólares no banco.

Em ambos os exemplos, as mercadorias são separadas em seus elementos constituintes que são então convertidos para um fluxo de ativos. Isso significa duas coisas interligadas: Primeiro, a coisa sendo negociada – a moeda principal que determina cada transação – é o risco. Por que meus pagamentos futuros por telefone celular custam 900 dólares agora? Porque esse é o preço que o mercado determinou que vale a pena. O agricultor e a Verizon estão tentando gerenciar seus riscos, para não serem expostos ao padrão e ao fracasso – para ter uma posição segura no mercado. A maneira de conseguir isso é negociar com os novos produtos financeiros.

Segundo, não há como “ficar de fora” desse novo mercado de riscos. Nenhuma companhia, produto, ou processo fica sem ser tocada por isso. Empresas que produzem mercadorias que aparentemente não tem relação com as finanças (como a General Motors) estou envolvidas em uma admnistração de planilhas complicada, criando ativos liquidos, seguros de mercadorias físicas, comprando e vendendo riscos em mercados financeiros. Esse processo produtivo inteiro se implica no sistema financeiro de caminhos que ainda estão sendo criados e entendidos.

A empresa de construções não negocia simplesmente com tijolos e cimento, ela deve ter uma posição sobre flutuações de moeda estrangeira, pagamentos de hipotecas e até o clima. Rafferty e Bryan argumentam que os trabalhadores podem facilmente perder neste jogo de risco. Onde os empregadores ou o Estado gerenciavam riscos de doenças ou aposentadoria, cada vez mais cabe aos indivíduos “gerenciar” esses riscos.

Gerenciamento de Riscos Pessoais

Quais outros aspectos de nossas vidas estão sendo retrabalhados pelas práticas de gerenciamento de riscos?

O tardio, Randy Martin, acadêmico e autor do livro “A Financeirização da Vida Cotidiana”, tem colocado em evidencia “a lógica social dos derivativos”, argumentando que “o que nos chamamos de identidade é certamente um atributo do eu que é agrupado, valorizado e circulado além de uma pessoa individual.” Aqui não é o ativo referencial/pessoa que está sendo considerado, mas seus elementos constituintes.

Para Deleuze essa relação entre o capital (financeirizado) e o controle social é capturada pela noção de “dividuação” – ao contrário de uma identidade singular, articulada pelo processo de individuação, Deleuze ve a separação de um ser humano e seus vários atributos, análogo a um derivativo financeiro.

As categorias na quais as pessoas se articulam são aquelas que tem atributos utilizáveis pelo capital – suas referencias de livros na Amazon, sua pontuação em seu cartão de crédito, etc. Dividuação “define e mede o atributo de um indivíduo, e discretamente sai do individual do qual se é derivativo… Dividuação serve ao propósito do controle ao ser mensuráveis em categorias que são funcionais ao capital”. Para Deleuze, cada vez mais somos simplesmente pontos de buscas de mineração de dados e perfis de computadores, divorciados de qualquer todo unitário.

E com certeza sites e aplicativos de relacionamentos são proponentes de dividuação par excellence. Quando voce procura por amor (ou sexo ou companhia) online, seus atributos físicos são divididos em seus elementos constituintes (cor do cabelo, cor da pele, formato corporal), seus interesses declarados e diferenciados (basquete, andar, romances de Balzac), sua orientação sexual e seus interesses (hetero, gay, poliamoroso, BDSM, etc.)

De fato a própria escolha de veiculo de encontros pode determinar quais elementos você quer negociar: Grindr por sua orientação sexual, Tinder por atributos físicos, Ashley Madison por relações extra-matrimoniais, Guardian Soulmantes para companhias casuais. Enquanto isso, na eHarmony, todo o edifício é alegremente revelado: “nós associamos as pessoas a seus comportamentos, valores, características e você conhece as coisas que importam”.

E aqui é onde o potencial da correspondência [match] entre a oferta e a demanda se encontra em si mesmo. Você submete esses elementos constitutivos em um algoritmo patenteado para ser “correspondido” [matched].” E, assim como os mercados financeiros contemporâneos, a sofisticação do algoritmo de marca registrada é um ponto de venda em si também – com a Eharmony oferecendo “29 dimensões-chave que são cruciais para o sucesso do relacionamento” em comparação com a mágica do algoritmo da OKCupid: “Algoritmos, fórmulas, heurísticas – fazemos muitas coisas loucas com a matemática para ajudar as pessoas a se conectarem mais rapidamente.” Qualquer que seja a marca, a veneração de um algoritmo ou método específico acontece de igual forma.

E também como o mercado de derivativos, a única maneira de garantir um resultado “bem-sucedido” é participar continuamente; negociar, assumir várias posições no mercado, proteger seu risco, estar constantemente ativo. Iniciar apenas uma conversa com um único pretendente em potencial é um jogo perigoso. E assim você senta e desliza, e senta e desliza, envolvido em um sistema elaborado de correspondência, risco e cobertura. E como resultado de toda essa negociação, o algoritmo melhora; suas chances de uma melhor correspondência improvam: “Então quando voce se encaminha para um encontro pelo Tinder, voce sabe que ele ira te dar borboletas no estômago e não silencios vergonhosos.”

E como os pagamentos da Verizon, a promessa dos aplicativos de relacionamentno é que é realmente possível remover riscos, e por consequência, segurar em certezas – conhecer e ter certeza.

A perversidade da lógica aqui é que a única maneira de ter o maior risco possível (mais bons resultados possíveis do que ruins) é voltar continuamente ao poço. A ideia de hedge tão prevalecente na retórica financeira é adequada aqui – para remover o maior risco possível, para abrir ao futuro apenas a bons resultados.

E, assim como um operador de câmbios de futuro, você se envolve em uma lógica sistêmica que promove o desmonte das coisas em seus elementos constituintes, exige uma agenda calculada de comensurabilidade e recompensa o gerenciamento individual de riscos.

De quem é a culpa, senão sua, se você falhar em encontros pela internet? Você deve ter feito errado. E assim, em nossa busca on-line de amor, somos involuntariamente lançados no que Bryan e Rafferty apelidaram de “projeto de risco de capital”, segundo o qual “a incorporação de maneiras financeiras de pensar e agir – muitas vezes sem que nós saibamos – vê a concorrência e os preços dos produtos em tudo, se normalizando. ”

Amor em tempos de Big Data

Voltando para um olhar no nível industrial, sites e aplicativos de relacionamentos são também grandes jogadores no campo da “big data” – eles coletam enormes quantidades de informações de seus usuários. A Big data está crescentemente sendo mercantilizada e disseminada de modos bastante úteis ao capital.

A coleção digital de informações de lugares como match.com acontece automaticamente, com plataformas gravando informações não apenas oferecidas pelos seus usuários, mas também sobre seus comportamentos no site em si. Christian do site OKCupid reivindica que ele pode “revelar vaidades e vulnerabilidades  que talvez até agora fossem apenas sombras da verdade”, enquanto na EHarmony eles dizem que mais de 19 milhões de pessoas preencheram seu questionário online.

Porém além de arrepiante e conspiracionista (ou não) essas reivindicações sobre big data, com sua lógica de derivativos que unifica os indivíduos, indústrias e a economia como um todo: Quando suas informações pessoais ou informações sobre seu comportamento são vendidas para marketing ou para outros fins, não é a pessoa individual que está sendo vendida, mas seus elementos constituintes; seus interesses, características, comunicações, comportamentos e hábitos.

Perfis individuais podem ser construídos, mas os pontos de dados superam os indivíduos reais; seus interesses e tendências são empacotadas e vendidas como fluxos de ativos em mais de um mercado que cada vez mais se assemelha às particularidades dos mercados financeiros.

E aqui chegamos ao cerne da questão. Por que tudo isso importa?

Os fãs de encontros pela internet apontarão para o casal feliz no final da mesa e o desafiarão a dizer algo mal da coisa que os uniu. Mas o ponto não é lançar uma aversão ao amor gerado pelos aplicativos de namoro na internet ou por smartphones, mas ver o namoro na internet como parte de um projeto mais amplo do ser humano financeirizado.

Assim como o capital desenvolveu os produtos financeiros para negociar e lucrar com o risco, ele também tem interesse em medir e gerenciar riscos em toda a totalidade do sistema que é criado para ser composto por indivíduos.

Não apenas há uma questão de empresas vendendo big data, mas também delas estudando isso. Nosso risco individual é constantemente avaliado por meio de nossos insumos (mídia social, namoro na internet, dados do censo) para determinar a probabilidade de nossas inadimplências em pagamentos de empréstimos, nossas perspectivas de emprego, nossas tendências políticas etc. Pense Fitbits e suas informações de saúde, coletadas e disseminadas.

Aplicativos de relacionamento transformaram relacionamentos sociais – que antes eram vistos como parte do bem comum e definidos pelo seu valor de uso (encontrar com pessoas, achar parceiros, compartilhar fotos, etc.) – em mercadorias financeirizadas. E o projeto de riscos do capital é central para esses relacionamentos, tanto e termos de dar informações quantitativas de gerenciamento de riscos sistêmicos e de ativos, quando de simultaneamente promover um discurso de participação individual em comportamentos que promovem riscos.

Esse quadrado é circulado quando nos realizamos que para os bancos, também, nosso “feliz para sempre” significa bons negócios.

Economistas em trabalhos acadêmicos para o Conselho da Reserva Federal tem examinado “o papel que pontuações de crédito tem em prever a estabilidade e a potencial de longevidade que esta começando a ficar séria.” Eles descobriram que aqueles que tem maiores avaliações em seus créditos tem mais propensão a ter uma relação estável, que “as pontuações de crédito são indicativas de confiabilidade em geral, e os casais com uma incompatibilidade nas pontuações de crédito têm mais probabilidade de ver seus relacionamentos terminarem por razões não diretamente relacionadas ao uso do crédito.”

Esse tipo de informação é crucial para os bancos e rentistas, onde eles fazem decisões sobre para quem emprestar dinheiro analisando sua própria exposição para potenciais riscos. Casais de diferentes perfis socioeconômicos tem mais proposições de risco segundo essa pesquisa. Será que seu próximo aplicativo de relacionamento terá um filtro com um ranking de crédito?

Estamos felizes em ter as palpitações do nosso coração reduzidas a uma estratégia de gerenciamento de riscos e negociadas de acordo com um algoritmo cada vez mais sofisticado que também colhe nossos dados?

Como argumenta o filósofo croata Srecko Horvat em A Radicalidade do Amor, o amor ocorre nesse plano revolucionário da imaginação: o amor torna a capacidade “de ver outra pessoa, de se relacionar com outro ser e vice-versa, de se relacionar significativamente com outra pessoa.”

Um amor financeirizado parece desprovido do poder do amor – sua inexplicabilidade, riscos inerentes e inevitáveis, sua incomensurabilidade em um mundo cada vez mais dependente sistemicamente de mensurabilidades.

A resposta, com certeza, como sempre, é imaginar algo radicalmente diferente. Para, por assim dizer, deslizar para a esquerda.


Artigo originalmente escrito por Barnaby Lewer para a Revista Jacobin.

Disponível neste link.

Tradução por Andrey Santiago

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