A História e a Organização do Soviete de Petrogrado

O Soviete de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado (Russo: Петроградский Совет рабочих и солдатских депутатов, Petrogradskiy soviet rabochikh i soldatskikh deputatov) foi um conselho da cidade de Petrogrado (São Petersburgo), a capital do Império Russo. Para abreviação, ele é usualmente denominado Soviete de Petrogrado (Russo: Петроградский совет, Petrogradskiy soviet).

O soviete foi estabelecido em Março de 1917 após a Revolução de Fevereiro como uma representação do corpo de trabalhadores e soldados da cidade, enquanto a cidade já tinha seu próprio conselho, a Duma da Cidade de São Petersburgo (Duma Central). Durante o período revolucionário, o conselho tentou estender sua jurisdição nacionalmente como um centro de poder rival ao Governo Provisório, criando o que é chamado na historiografia soviética de Dyoyeylastiye (Duplo poder). Seus comitês eram componentes chaves durante a Revolução Russa e alguns deles lideraram a revolta armada da Revolução de Outubro.

Formação

Antes de 1914, Petrogrado era conhecida como São Petersburgo e em 1905 o soviete dos trabalhadores chamado Soviete de São Petersburgo foi criado. Mas o principal predecessor do Soviete de Petrogrado de 1917 foi o Grupo Central dos Operários (Центральная Рабочая Группа, Tsentral’naya Rabochaya Gruppa), fundado em Novembro de 1915 pelos Mencheviques para a mediação entre os trabalhadores e o novo Comitê Central Militar-Industrial em Petrogrado. Esse grupo acabou ficando cada vez mais radical enquanto a Primeira Guerra Mundial progredia e a situação econômica do país piorava, encorajando demonstrações de rua e fazendo proclamações revolucionárias.

No dia 27 de Janeiro de 1917, toda a liderança do Grupo Central dos Trabalhadores foi presa e levada ao forte de Pedro e Paulo pelas ordens de Alexander Protopopov, o Ministro do Interior do Império Russo. Eles foram soltos por uma massa de soldados insatisfeitos na manhã do dia 27 de Fevereiro, o começo da Revolução de Fevereiro, e o presidente do Grupo convocou uma reunião para organizar e eleger o Soviete de Deputados Operários naquele dia.

Naquela tarde, cerca de 50 a 300 pessoas foram a reunião no Palácio Tauride. Um comitê executivo provisório (Ispolkom) foi escolhido, chamado “Comitê Executivo Provisório do Soviete de Deputados Operários” e presidenciado por Nikolay Chkeidze, com sua maioria formada por deputados mencheviques. (Chkeidze foi substituído por Irakli Tsereteli no fim de março). Izvestia foi escolhido como o jornal oficial pelo grupo. No dia seguinte, dia 28 de Fevereiro, aconteceu a sessão da plenária: representantes eleitos de fabricas e do exército se juntaram ao soviete, e novamente os moderados dominaram. Votos não-representativos e um grande entusiamo deram ao Soviete quase 3 mil deputados em duas semanas, o qual em sua maioria eram soldados. As reuniões eram caóticas, confusas e sem muita disciplina, não muito mais do que um palco para as pessoas que sabiam fazer grandes falas. O Ispolkom que era formado por vários partidos logo tomou o controle de grandes decisões.

1917petrogradsoviet_assembly
Encontro do pleno da Seção de Deputados Soldados do Soviete de Petrogrado.

Presidência

  • Nikolay Chkeidze, 12 de Março – 19 de Setembro de 1917
  • Leon Trotsky, 25 de Setembro [ou 8 de Outubro] de 1917 – 26 de Outubro [ou 8 de Novembro] de 1917
  • Grigory Zinoviev, 13 de Dezembro de 1917 – 26 de Março de 1926

Comitê Executivo

Os membros do Comitê Executivo chamado Ispolkom, vinham somente de grupos políticos, com todo partido socialista tendo direito a 3 cadeiras (acordado em 18 de Março). Isso criava uma cabeça intelectual e radical para o corpo dominado por camponeses, operários e soldados. As reuniões do Comitê Executivo eram mais intensas e quase também mais desordenadas que as reuniões públicas, e eram muitas vezes bastante longas.

Em 1º de Março, o Comitê Executivo resolveu ficar fora de qualquer nova Duma do Estado. Isso permitiu que o grupo pudesse criticar sem responsabilidades perante o Estado, e deixou eles longe de potenciais repercussões negativas. No dia 2 de Março, o Soviete recebeu um programa de 8 pontos do Comitê Provisório da Duma do Estado onde ele nomeou um comitê de supervisão (nabliudatel’nyi komitet) e emitiu uma declaração de apoio decididamente condicional ao Soviete. Além disso, o Soviete minou o Governo Provisório emitindo suas próprias ordens, começando com a Ordem Número 1. de sete artigos. O Soviete não se opôs à guerra – as divisões internas produziram uma ambivalência pública – mas ele estava profundamente preocupado com os movimentos contrarrevolucionários da militares e estava determinado a ter tropas da guarnição firmemente ao seu lado.

Ispolkom.jpg
Imagem do Ispolkom do Soviete de Petrogrado. No seu tamanho máximo teve 72 membros.

Outros Comitês

  • Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado (Milrevkom)
  • Comitê de Defesa Revolucionária

A luta pelo poder com o Governo Provisório

O Soviete de Petrogrado desenvolveu uma fonte alternativa de autoridade ao Governo Provisório que estava sob o controle do príncipe Georgy Lyoy e depois Alexander Kerensky.

Isso criou uma situação descrita como dyoeylastie (duplo poder), no qual o Soviete de Petrogrado competia pela legitimidade da autoridade com o Governo Provisório até a Revolução de Outubro.

O Ispolkom (Comitê Executivo) do Soviete de Petrogrado muitas vezes atacava publicamente o Governo Provisório ao coloca-lo como burguês e se gabava do seu poder de facto sob a autoridade de jure do Governo Provisório (já que o Soviete controlava os correios, telégrafos, imprensa, ferrovias, suprimento de alimentos e outras infra-estruturas). Um “governo paralelo” com uma Comissão de Contato foi criado no dia 8 de Março para “informar… [o Governo Provisório] sobre as demandas das pessoas revolucionárias, para exercer pressão no governo para que atenda todas as demandas e para exercer controle ininterrupto para a implementação dessas demandas.” No dia 19 de Março, o controle se estendeu às linhas de frente militares com comissários nomeados com o apoio do Ministério da Guerra.

Em Março de 1917, o Soviete de Petrogrado estava se opondo a operários, que protestavam as suas deliberações com greves. Em 8 de Março, o jornal Menchevique Rabochaia Gazeta chegou a afirmar que os grevistas estavam desacreditando o soviético ao desobedecê-lo. [2]

O Ispolkom expandiu para 19 membros no dia 8 de Abril, com nove membros representando a Seção dos Soldados e 10 representando a Seção dos Operários. Todos os membros eram socialistas, a maioria era de Mencheviques ou Socialistas Revolucionários: não havia ainda representação bolchevique. Depois do primeiro Congresso de Sovietes de Toda a Russia (Junho e Julho de 1917), o Soviete de Petrogrado começou a adicionar representantes de outras partes da Russia e das linhas de frente, se renomenado para Soviete de Deputados Operários e Soldados de Toda a Russia. O Comite Executivo se tornou o Comite Central Executivo de Toda a Russia (CEC ou VtsIK) com cerca de 70 membros (mas sem representações camponesas).

Manifestações e protestos de rua

Disputas sobre a guerra levaram a protestos de rua nos dias 20-21 de Abril, incluindo protestos de unidades militares ao lado de fora do Palácio de Mariinsky. O Ispolkom emitiu proclamações para conter a manifestações e anulou repetidamente as exigências de Lavr Kornilov de colocar tropas e artilharia nas ruas. Houve tumultos em Petrogrado e também em Moscou, mas grupos anti-bolcheviques e pró-provisórios do governo logo pararam os agitadores.

As manifestações preocupavam profundamente o Governo Provisório. Existiu um grande número de resignações, e no dia 1º de Mario, o Ispolkom votou para permitir que seus membros pudessem tomar postos no Gabinete do Estado em troca de mais concessões as suas demandas. Bolcheviques e os Mencheviques de Esquerda seguidores de Julius Martov se opuseram a isso e qualquer cooperação com o Governo Provisório. Depois de negociações, um novo gabinete foi escolhido no dia 6 de Maio. Alexander Guchkov e Pavel Milvukov, o líder dos Democratas Constitucionais (Cadetes), saíram do governo e Alexander Kerensky foi movido para ser Ministro da Guerra. Seis socialistas tomaram postos no gabinete.

A ascensão dos Bolcheviques

A ascensão dos bolcheviques durante o ano de 1917 é conhecida como a bolchevização dos sovietes. Os bolcheviques rapidamente assumiram o mante de oposição oficial e tomara vantagem da nova presença socialista no Gabinete para atacar eles pelas falhas do Governo Provisório. Os bolcheviques começaram a ter uma forte propaganda. Em Junho, 100 mil cópias do jornal Pravda (incluindo Soldatskaya Pravda, Golos Pravdy, and Okopnaya Pravda) eram imprimidas diariamente. Em Julho, mais de 350 mil panfletos foram distribuídos.

A ascensão de Kerensky, e depois o choque do escândalo de Kornilov, polarizou a cena política. O soviete de Petrogrado se moveu de modo constante par a esquerda, justamente enquanto aqueles mais ao centro e a direita se consolidaram em volta de Kerensky. Apesar dos eventos de Julho, o Ispolkom se moveu para proteger os bolcheviques de sérias consequências, adotado resoluções no dia 4 de Agosto e 18 de Agosto contra a prisão e perseguição de Bolcheviques.

Ainda cauteloso com o Ispolkom, o governo libertou muitos bolcheviques seniores sob fiança ou promessa de bom comportamento.

Nas eleições municipais de 20 de agosto, os bolcheviques obtiveram um terço dos votos, um aumento de 50% em três meses.

Durante o escândalo de Kornilov, o Ispolkom foi forçado a utilizar o exercito Bolchevique como sua maior força afim de impedir a “contrarrevolução”. Kerensky ordenou a distribuição de 40 mil rifles para os trabalhadores de Petrogrado (alguns Guardas Vermelhos), muitos dos quais acabaram caindo nas mãos de grupos bolcheviques.

No dia 25 de Setembro, eles ganharam a maioria na Seção dos Operários e Leon Trotsky foi eleito o presidente do Soviete de Petrogrado. Ele dirigiu a transformação do Soviete em um órgão revolucionário de acordo com as políticas bolcheviques.

Outubro de 1917

Proclamação do Milrevcom sobre a dissolução do Governo Provisório Russo

No dia 6 de Outubro, com o avanço alemão ameaçando a cidade, o governo – depois de um aviso do exército – elaborou planos para a cidade evacuar para Moscou. O Ispolkom atacou esse movimento, e Trotsky conseguiu com que a seção de Deputados dos Soldados, que eram em sua maioria Mencheviques, votassem numa resolução condenando a evacuação da cidade. O Governo Provisório adiou a evacuação por tempo indeterminado. Suas tentativas de despachar as unidades da guarnição de Petrogrado para a frente foram resistidas pelas tropas e pelo Ispolkom.

No dia 9 de Outubro, o Soviete considerou a criação de um Comitê de Defesa Revolucionária. Os bolcheviques e Trotsky fizeram uma emenda a resolução adicionando a segurança de Petrogrado contra ataques alemães e ameaças domésticas. O pleno do Soviete votou para criar um comitê que pudesse “juntar… todas as forças participando na defesa de Petrogrado… para armar os trabalhadores… para garantir a defesa revolucionária de Petrogrado.. contra… os Kornilovistas militares e civis.”

O Ispolkom aprovou a resolução, contra a resistência Menchevique, no dia 12 de Outubro e o Soviete aprovou a sua criação no dia 16 de Outubro (apesar de avisos dos Mencheviques e SRs), criando o Comitê Militar Revolucionário, também chamado de Milrevcom ou Comitê Militar.

O Comitê Militar Revolucionario foi presidido por Pavel Lazimir com Nikolai Podvoisky como seu deputado. Foi uma frente para as atividades da Organização Militar dos Bolcheviques. Podvoisky assumiria o controle oficial do Comitê no dia da revolta, com Vladimir Antonov-Ovseenko como secretário. Ispolkom e o Governo Provisório ficaram fora de controle das forças no distrito militar de Petrogrado, uma vez que muito poucos deles permaneceram leais aos militares.

O militares ficaram de fora na noite do dia 21 de Outubro, quando o Milrevcom assumiu o controle exclusivo da guarnição em nome da Seção de Soldados do Soviete. O comandante do distrito, coronel Polkovnikov, recusou-se a permitir esse controle, e ele e sua equipe foram condenados em uma declaração pública da Milrevcom como “armas diretas das forças contra-revolucionárias”. O comando militar respondeu com um ultimato ao soviete, o que levou ao adiamento das negociações e reuniões nos dias 23 e 24 de outubro.

A revolta popular bolchevique começou em 24 de outubro, quando forças “liberais” tentaram fechar o Pravda e tomar outras medidas para garantir o governo. O Milrevcom enviou grupos armados para tomar os principais escritórios de telégrafo e descer as pontes do outro lado do Neva. Naquela noite, os bolcheviques assumiram o controle de maneira rápida e fácil, já que a grande maioria da guarda e dos trabalhadores ficou do lado deles, participando dos planos do “Milrevcom”.

Na manhã seguinte, às 10 horas, o Milrevcom emitiu um comunicado escrito por Lenin, declarando o fim do Governo Provisório e a transferência de poder para o Soviete de Petrogrado. No início da tarde, Trotsky convocou uma Sessão Extraordinária do Soviete de Petrogrado, para antecipar o Congresso dos Sovietes. Estava lotado de deputados bolcheviques e de Socialistas Revolucionários de esquerda.

Naquela noite, o Segundo Congresso dos Sovietes foi aberto no Salão da Assembleia em Smolnyi. Os cerca de 600 delegados escolheram um Presidium de 3 mencheviques e 21 bolcheviques e Socialistas Revolucionários de esquerda.

No dia seguinte, o Ispolkom rejeitou o funcionamento do Congresso e chamaram os sovietes e o exército a defender a Revolução. Mas, à noite, o Congresso rejeitou o antigo Ispolkom e o substituiu por um novo grupo de 101 membros (62 bolcheviques) sob o comando de Lev Borisovich Kamenev. Também aprovou o Decreto sobre a Paz, o Decreto sobre Terra e a formação de um novo governo – o Conselho de Comissários do Povo (Sovet Narodnykh Komissarov, abreviado para Sovnarkom) – até a reunião da Assembléia Constituinte.


O texto é a tradução de um artigo da Wikipédia em inglês que tem como base a Wikipédia Russa.

Originalmente disponível aqui.

Tradução por Andrey Santiago

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