Angela Davis – “Música e Consciência Social”

Capítulo traduzido do livro “O Legado do Blues e o Feminismo Negro” de Angela Davis, ainda não publicado em português.


Strange Fruit – Billie HollidayFruta Estranha – Billie Holliday
Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh
Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop  
Árvores do sul produzem uma fruta estranha,
Sangue nas folhas e sangue nas raízes,
Corpos negros balançando na brisa do sul,
Frutas estranhas penduradas nos álamos.
Cena pastoril do valente sul,
Os olhos inchados e a boca torcida,
Perfume de magnólias, doce e fresca,
Então o repentino cheiro de carne queimando.
Aqui está a fruta para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Para o sol apodrecer, para as árvores derrubarem,
Aqui está a estranha e amarga colheita.
Música com legenda em português.

Esta canção, a qual Billie Holiday chamou de seu “protesto pessoal” [2] contra o racismo, transformou radicalmente o seu status na cultura popular americana. Em momentos anteriores ela foi reconhecida pelos seus contemporâneos na cena do jazz por ser uma cantora brilhante e inovadora, mas a sua performance de “Strange Fruit” firmemente estabeleceu ela como uma figura central em uma nova tendência da cultura musical negra que diretamente encarava as questões de injustiça racial. Embora ela tivesse apenas 24 anos quando gravou está música em 1939 e integrou ela em seu repertório, ela já estava buscando a algum tempo o alcance entre a audiência em massa e então obter o reconhecimento além dos círculos de músicos do jazz que em unanimidade admiravam seu trabalho. [3] Ela não iria – ou talvez não pudesse – performar o material Tin Pan Alley que constituía o seu repertório em um sentido mais comercial, o que poderia fazer ela ganhar o sucesso popular que desejava. John Clinton resgata uma conversa entre Holiday e Dave Dexter, o então editor-associado da revista Down Beat, na qual ela disse que

Ela iria sair do mundo da música caso falhasse em ter um reconhecimento nacional – “com o público e também músicos e fãs de jazz” – até os 26 anos. Ela admitiu que tinha conhecimento do grande respeito que os músicos tinham acerca dela, mas disse que estava cansada “após 9 anos de trabalho duro” e que sentiu “sem chão ao questionar o porquê o grande público falhou em responder” a ela. [4]

A própria autobiografia de Holiday sobre esse momento de sua vida, de modo interessante, traz uma distinção entre o reconhecimento em massa que ela já tinha conquistado e o sucesso financeiro que ela desejava:

Eu estreei na Café Society enquanto uma desconhecida; eu saí dois anos depois de lá como uma estrela. Mas você não iria ver diferença alguma no meu bolso. Eu ainda continuava a ganhar 75 dólares por semana. Eu ganhava mais do que isso no Harlem. Eu certamente precisava do prestigio e da publicidade, mas você não pode pagar seu aluguel com isso. [5]

Billie Holiday. Cafe Society nightclub, NYC, photography by Gjon ...
Café Society na decada de 30.

Foi na Café Society, a mais nova casa noturna inter-racial que abriu no bairro de Greenwich Village, que ela estreou “Strange Fruit”, que em primeira visita, seria quase a antítese de sua jornada pelo sucesso financeiro. Holiday nunca teve uma canção com grande sucesso de vendas – seja em seu tempo de vida, seja após a sua morte. [6] Mas a fama e a fortuna comercial que ela aproveitou se tornaria intrinsicamente ligada, mesmo que de modo ambíguo, com “Strange Fruit”. Antes da decisão de cantar “Strange Fruit”, o seu trabalho era constituído quase exclusivamente de gravações originais ou versões alternativas das convencionais e formulais músicas populares de amor que eram oferecidas a ela pelos seus produtores musicais. Em “Strange Fruit” ela tinha uma música com uma implicação social urgente e ampla – uma música sobre ódio, indignação e a erupção de violência que ameaçava a população negra nos Estados Unidos, uma música que poderia acordar um vasto número de pessoas de diversos aspectos raciais de seu sono apolítico. Ao mesmo tempo não era uma música que poderia se prever que teria um sucesso popular. Na verdade, parecia muito mais propenso a danificar a sua carreira e diminuir ainda mais o seu status enquanto cantora popular. De qualquer modo, uma vez decidindo cantar “Strange Fruit”, ela se tornou obcecada pela música. “Eu trabalhei muito nela”, ela escreveu, “porque eu nunca tive tanta certeza de que poderia ou de que eu conseguiria colocar para a audiência do clube as coisas que importavam para mim.” [7]

Enquanto o trabalho de Holiday parecesse não ter nenhum conteúdo de manifestação social, ela seria aclamada pelos críticos. A insistência deles na desracializada “universalidade” da arte proibia a séria consideração da relação das obras com as lutas coletivas do povo negro.  Já que “Strange Fruit” foi construída sem ambiguidades para atingir a consciência daqueles que estavam contentes em serem alheios ao racismo, ela inevitavelmente seria apenas descartada enquanto propaganda para muito críticos. [8] Mas Holiday se deu conta, ao contrário, que “Strange Fruit” iria proporcionar a ela um modo de expressão que iria fundir a sua própria sensibilidade individual, incluindo o seu ódio pela brutalidade movida pelo racismo, com a ira de uma potencial comunidade de resistência. A arte nunca consegue atingir a grandeza transcendendo a realidade socio-histórica. Pelo contrário, mesmo que transcenda circunstâncias e convenções específicas, a arte continua profundamente enraizada na realidade social. Como Herbert Marcuse apontou, a arte está em seu melhor quando molda novas perspectivas sobre a condição humana, provoca atitudes críticas e encoraja a lealdade “a visão de um mundo melhor, uma visão que continua verdadeira mesmo derrotada.”

Na mimese da transformação, a imagem da libertação é fragmentada pela realidade. Se a arte devesse prometer que no fim o bem venceria o mal, essa promessa seria refutada pela verdade histórica. Na realidade é o mal que triunfa, e há somente ilhas onde o bom pode ser encontrado e pode-se ter um refúgio por um breve período. Autênticos trabalhos de arte têm consciência disto: eles rejeitam promessas fáceis; eles rejeitam um final feliz sem qualquer peso. Eles devem rejeitar isso, dado que o reino da liberdade está além da mimese. [9]

“Strange Fruit” evocava os horrores dos linchamentos em uma época em que a população negra estava clamando com força por aliados na campanha para erradicar essa manifestação homicida e terrorista do racismo. Embora ela nunca tenha cantado “Strange Fruit” do mesmo modo duas vezes, toda vez que Holiday cantava ela implicitamente pedia a sua audiência para que imaginassem a aterrorizante cena de linchamento, e para que apoiassem e se identificassem com a mensagem anti-linchamento da canção. Sua performance fez muito mais. Ela mudou a política da cultura popular americana quase sozinha e colocou os elementos de protesto e resistência no centro da contemporânea cultura musical negra. O impacto da performance de “Strange Fruit” é tão poderoso hoje, quanto foi na década de 40. Ao colocar a música no centro de seu repertório, Holiday firmemente estabeleceu o local do protesto na tradição musical negra. O uso deste trabalho em sua carreira desmantelou a oposição, firmemente enraizada até o momento em que Holiday cantou esta canção, entre a fama e o sucesso comercial de um lado e a consciência social na música de outro lado.

Diana Ross Plays Billie Holiday - Diana Ross's Life In Pictures ...
Diana Ross interpretando Billie Holiday.

As mais comuns caricaturas de Billie Holiday ressaltam o vício em drogas, alcoolismo, a fraqueza feminina, depressão, a falta de educação formal, e outras dificuldades sem conexão com suas contribuições enquanto artista. Em outras palavras, a imagem que ela tem na cultura popular dos EUA se baseia em informações sobre a vida pessoal de Holiday em favor do reconhecimento de seu papel enquanto produtora cultural, isto é, a principal razão pela sua duradoura importância. Essa perspectiva é tomada pelo filme baseado em sua autobiografia chamado “Lady Sings the Blues”. Essa imagem de Lady Day, que é interpretada por Diana Ross, tende a implicar que a música dela não é mais do que um produto passivo e inconsciente das contingências de sua vida. [10] Se as pessoas aceitam essa construção de Holiday, “Strange Fruit’ aparece como apenas uma anomalia. De fato, John Chilton explica o encontro de Holiday com Lewis Allen [11], que escreveu a letra da música, em uma linguagem que enfatiza o papel ativo de Allen, embora Allen nunca tivesse feito isso, enfatiza também o papel dos homens brancos que eram os donos e administravam o Café Society, enquanto menosprezavam a participação de Holiday ao decidir cantar a música:

O poeta Lewis Allen, trabalhando então como um professor, se aproximou de Barney Josephson (o dono do Café Society) e Robert Gordon (que organizava os shows na casa noturna) com letras de músicas que ele tinha adaptado de suas poesias; eles recomendaram a Allen que se encontrasse com Billie para oferecer a ela sua música. Num primeiro momento, Lady demorou para entender a imagem da música, mas seu estranhamento diminuiu assim que Allen pacientemente enfatizou as cadências e seus significados. Depois de algumas leituras, Billie estava “dentro” do trabalho, mas não estava convencida de que o trabalho era adequado para ela. Suas incríveis interpretações de letras aprimoraram muitas músicas, mas essas músicas, por todas os estilos variados de seus compositores, somente tinham lidado com os problemas do amor, correspondidos ou não, céus azuis ou as luas de Junho. Aqui, Billie estava sendo questionada se poderia providenciar um comentário musical sobre uma dura questão que poderia não ser até mencionada em Nova York. [12]

Na própria descrição de Barney Josephson sobre o encontro inicial de Holiday com “Strange Fruit”, ele toma todo o crédito pela decisão de Holiday em cantar:

“Um jovem rapaz veio durante a tarde e mostrou a música para mim. Como eu não sabia ler partituras, li apenas a letra. Eu li a letra e fiquei apenas de boca aberta. Eu falei, “O que você quer fazer com isso?”, ele disse, “Eu gostaria que Billie cantasse essa música.” Então ele canta para ela. Ela olha para mim e diz, depois que ele terminou, “O que você quer que eu faça com isso, cara?” e eu disse, “seria maravilhoso se você pudesse cantar – se você gostaria. Você não precisa se quiser.” “Tu quer eu pra cantar. Eu canto.” [You wants me to sing it. I sings it.] E ela cantou. E essa música era “Strange Fruit”. [13]

Chilton descreve Holiday “estranhada” pela imagem de “Strange Fruit”, implicando que ela não poderia compreender as colocações metafóricas além de questões relacionadas a mulheres apaixonadas ou sendo rejeitadas por amantes. De acordo com interpretação de Chilton, Allen não apenas ofereceu a letra à Holiday como ensinou ela a cantar. Porém é mais plausível argumentar que Holiday traduziu um texto literário antirracista em um trabalho dinâmico de música onde o seu significado duradouro veio do modo em que ela escolheu cantar a música. A descrição de Josephson também não deixar de ter grandes vergonhas. Embora importante figura que ele fosse ao ter aberto o primeiro clube noturno inter-racial de Nova York – onde as pessoas de cor eram bem-vindas como audiência e também no palco – Josephson demonstra Billie Holiday de modo problemático na melhor das hipóteses: ele desenha ela como se fosse uma analfabeta, ignorante, uma mulher passiva, se sujeitando a cantar “Strange Fruit” simplesmente por que ele pediu para ela. A sua tentativa de capturar o modo que Holiday falava – “Tu quer eu pra cantar. Eu canto” – é reminiscente do pior tipo das caricaturas racistas que buscavam imitar o “dialeto” negro.

Pin by Billie Holiday on Billie Holiday | Billie holiday, Lady ...
Jornal da época noticiando Billie Holiday no Cafe Sociery ganhando o mesmo salário por dois anos, mesmo com a enorme fama.

Stuart Nicholson publicou uma biografia em 1995 intitulada “Billie Holiday” [14]. Em seus créditos ele omite essas histórias de que homens brancos eram os participantes responsáveis pela decisão de Billie Holiday ao escolher cantar “Strange Fruit”. Entretanto, Donald Clarke, o biografo mais recente de Holiday, desenvolve ainda mais essa narrativa, enfatizando o suposto analfabetismo dela. “Lady era não-política; quando ela olhou pela primeira vez para “Strange Fruit” ele não sabia o que fazer com a música. Ela nunca tinha lido nada além de histórias em quadrinhos – o promotor de shows Ernie Anderson uma vez lhe trouxe uma caixa de HQs – ela estava acostumada a aprender músicas, não a ler poesia”. [15] Para impulsionar essa interpretação ele cita Josephson, que disse em uma entrevista, “No primeiro momento, eu senti que Billie não sabia o que diabos significava aquela música.” [16] Clarke também cita Arthur Herzog, que em suas memorias do encontro inicial de Holiday com “Strange Fruit” representa ela não entendendo o significado da música, que depois “atingiram” ela – como se sua compreensão fosse inteiramente externa a seu suposto atraso mental: “quando ela começou a cantar a canção, eu realmente não acredito que ela sabia o que ela estava fazendo ou o impacto que atingiu ela… em minha memória a música não teve muito impacto de primeira, mas depois repentinamente atingiu ela, e ela se colocou com firmeza na música.” [17] Compare o relato de Claarke, Chilton, Josephson do encontro de Holiday e Allen com o próprio relato da cantora (enquanto transcrito por William Oufty em Lady Sings the Blues):

Foi durante o meu período no Café Society que uma música nasceu e se tornou o meu protesto pessoal – Strange Fruit. O germe dessa música veio de um poema escrito por Lewis Allen. Eu o encontrei pela primeira vez no Café Society. Quando ele me mostrou poema, eu adorei de cara. Ele parecia colocar para fora todas as coisas que tinham matado Papai. Allen, também, sabia como meu pai morreu e claro estava interessado nas minhas músicas. Ele sugeriu que eu e Sonny White, que era meu acompanhante musical, transformássemos o poema em música. Então nós três nos reunimos e fizemos o trabalho em cerca de três semanas. [18]

Seu pai, o guitarrista de Jazz Clarence Holiday, tinha inalado gases venenosos durante a Primeira Guerra Mundial. Ele desenvolveu problemas de pulmão, e em março de 1937, enquanto estava em tour pelo Texas com a banda de Don Redman, ele contraiu uma gripe que não recebeu nenhum tratamento devido a segregação racial dos hospitais no estado. Pelo tempo em que chegou em Dallas, onde ele poderia receber atenção médica, sua condição piorou para pneumonia, e ele morreu de hemorragia na ala segregada [Jim Crow ward] do Hospital de Veteranos. [19] De acordo com o relato de Holiday, o tema anti-linchamento de “Strange Fruit” ressoou com o ódio acerca da morte de seu pai e o desejo de protestar contra o racismo que matou ele.

Eu considerei esses relatos conflitantes sobre a gênese de “Strange Fruit” por que eles revelam – mesmo nas narrativas daqueles que tiveram relação com ela e conseguiram ter um alcance maior da sua genialidade musical – o tamanho do descrédito que fizeram dela enquanto artista e de sua habilidade para compreender as questões sociais, definindo o resultado de seus planos sendo concebidos por entendidos homens brancos. As histórias de Chilton, Clarke e Joseph capturam Holiday em uma teia de inferioridade de gênero, classe e raça e apresentam ela capaz de produzir grandes obras somente sob a tutela de seus superiores raciais. A importância da própria Holiday é revelada não apenas pelo fato de que ela reconstruiu todo seu repertório em torno da canção, mas também pela sua decisão e nomear sua autobiografia “Bitter Crop”, as duas últimas palavras da letra musical. Lady Sings the Blues foi escolhido como um nome mais comerciável pelos seus editores.

Para entender o contexto histórico e o impacto de “Strange Fruit” e para compreender o caminho em que Holiday comparou a cena metafórica do linchamento evocada pela letra da música com a morte Jim Crow de seu pai, é importante examinar o debate sobre o linchamento que acontecia durante o período. Billie Holiday cantou “Strange Fruit” pela primeira vez em 1939. Durante a década predecessora – os anos da Depressão – a consciência pública sobre os linchamentos crescia ao mesmo tempo que os números de vitimas de linchamento começavam a declinar. Embora fosse verdade que a vida da população negra não fosse mais sistematicamente violada pela violência em massa em números que se amontoavam em milhares – já que este era o caso por décadas após a emancipação – isso não significava que os números contemporâneos de vitimas de linchamento poderiam ser considerados insignificantes. De acordo com um historiador, durante os quatro anos após a quebra do mercado financeiro em 1929, 150 pessoas negras foram linchadas. [21] A feminista negra e historiadora Paula Giddings aponta que

O linchamento de vinte homens negros em 1930 não era nada perto do que havia na virada do século, ou até mesmo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Mas as notícias desses crimes horríveis eram mais vividas graças aos avanços tecnológicos da comunicação e da fotografia, e o sensacionalismo da imprensa marrom. [22]

No outono de 1934, mero cinco anos antes do encontro de Lady Day com o poema “Strange Fruit”, um particular brutal e amplamente noticiado linchamento aconteceu na Florida. Um jornal descreveu o evento:

“Uma testemunha ocular do linchamento… disse que [Claude] Neal foi forçado a se mutilar antes de morrer. A testemunha ocular deu o seguinte testemunho sobre o evento que aconteceu perto do Rio Chaattahoochee:

… Primeiro eles cortaram seu pênis fora. Fizeram-no comer seu pênis. Depois cortaram seus testículos fora e fizeram comer eles, dizer que gostava do sabor.

Eles esfaquearam seus lados e seu estomago com facas, em alguns momentos alguém cortaria fora seu dedo da mão ou do pé. Usavam ferro quente bem vermelho para marcar o crioulo [nigger] de cima abaixo. De tempos em tempos durante a tortura uma corda seria colocada sob o pescoço de Neaal e ele seria puxado enquanto uma ovelha e segurado até que ele começasse a se engasgar próximo da morte, quando ele seria posto no chão e a tortura recomeçaria de volta. Depois de algumas horas dessa punição, eles decidiram matar Neal.

O corpo de Neal foi amarrado a traseira de um carro e ele foi levado pela avenida até a casa de Cannidy. Aqui uma multidão entre 3 mil ou 7 mil pessoas de onze estados do Sul estavam esperando ansiosamente sua chegada… Um mulher saiu da casa de Cannidy e enfiou uma faca em seu coração. Então a multidão veio e alguns chutaram ele e outros passaram seu carro por cima. O que restou do corpo foi levado pela multidão a Marianna, onde ele foi pendurado em uma árvore no lado noroeste da praça do tribunal de justiça.

Fotógrafos disseram que logo irão ter as fotos do corpo para vender por 50 centavos cada. Dedos do corpo de Neal estão sendo exibidos gratuitamente nas ruas aqui. [23]

Black Then | Claude Neal: The Lynching that Caused Some White ...
Jornal noticiando a captura de Neal por moradores da Flórida.

O historiador John Hope Franklin descreve um linchamento em 1934 enquanto ele era um estudante na Universidade de Fisk em Nashville, Tennessee. Cordie Cheek, que vivia em uma casa de Fisk ao lado do campus, foi linchado por uma multidão branca depois que colidiu em uma criança branca enquanto andava de bicicleta. A criança se machucou levemente. “Enquanto presidente do governo estudantil eu estava fazendo um alto barulho e protestos ao prefeito, ao governador e até mesmo o Presidente Franklin D. Roosevelt, mas nada poderia aliviar a nossa dor e angustia, e trazer Cordie Cheek de volta.” [24]

“Strange Fruit” nasceu das circunstâncias socio-históricas que providenciaram a mais ressonante experiência para a recepção de um pedido de justiça racial, desde o breve período da Reconstrução Radical. A Renascença do Harlem na década de 20 tinha estimulado a expansão da consciência da arte e cultura afro-americana para uma maior população, embora essa consciência fosse desfigurada pelas concepções racistas da cultura negra enquanto “primitivas” e “exóticas”. Os anos 30 viram emergir uma importante aliança política multirracial. Organizações que desafiavam os linchamentos datavam à virada do século com os esforços de Ida B. Wells e a campanha anti-linchamento promovida pela NMCP durante seus primeiros anos. Entretanto, a opinião pública branca durante o período da Primeira Guerra Mundial e nos anos 20 era tão envenenada pelo racismo que era difícil atrair um numero substancial de pessoas brancas para as campanhas anti-linchamento. Com o surgimento dos movimentos de massa nos anos trinta, as pessoas brancas começaram a ter uma vida mais ativa nos esforços anti-linchamento. Embora o caso dos Nove Garotos de Scottsboro não envolvesse um linchamento extrajudicial, ele veio a simbolizar a necessidade de resistir a ideologia racistas que tão facilmente justificava o linchamento. Lillian Smith, que se aliou ao Associação das Mulheres do Sul para a Prevenção do Linchamento (AMPSL), se inspirou na música de Billie Holiday para escrever um livro, Strange Fruit, explorando os inflamatórios temas de raça, sexo e violência. Em 1936, a AMSPL era apoiada por cerca de 35 mil mulheres do Sul. [22] Strange Fruit de Billie Holiday ecoou por estes círculos de pessoas que tinham sido sanitizadads tanto pela economia transracial e tragédias sociais da Grande Depressão e pelos movimentos de massa multi-raciais que buscavam buscando reparar as demandas de negros e brancos.

Antes dos grandes movimentos da década de 1930 e da consequente radicalização de grandes setores da população, o fenômeno do “Strange Fruit” teria sido inconcebível. Na verdade, a Cafe Society inter-racial de Nova York, onde a música foi tocada pela primeira vez, não poderia ter existido antes. Barney Josephson, que abriu o clube em uma época em que mesmo no Harlem, negros e brancos não podiam ouvir jazz sob o mesmo teto, disse a Holiday que “este seria um clube onde não haveria segregação, nenhum preconceito racial.” [26] E, de fato, de acordo com o biógrafo de Holiday, John Chilton, “a atmosfera liberal do clube, com sua clientela de ‘New Dealers’, e os princípios humanitários de seu dono, tornaram-no um ambiente receptivo para a apresentação da música letras dramáticas anti-linchamento. ” [27]

Se os brancos desenvolveram uma sensibilidade maior à situação dos afro-americanos, talvez seja porque um grande número deles experimentou de uma forma ou de outra a devastação da Grande Depressão. Os salários dos trabalhadores foram cortados quase pela metade e, no último ano da crise, 17 milhões de pessoas estavam desempregadas. Ainda mais importante para o desenvolvimento dessa sensibilidade foram os grandes movimentos de massa dos anos 1930 – a campanha contra o desemprego e a ampla organização de sindicatos industriais associados ao CIO. O Partido Comunista, a Liga dos Jovens Comunistas e a Liga da Unidade Sindical juntaram forças para estabelecer os Conselhos Nacionais de Desempregados, responsáveis ​​por manifestações espetaculares em todo o país. Em 6 de março de 1930, 11 mais de um milhão de pessoas participaram de marchas contra a fome nos principais centros urbanos – 110.000 em Nova York, 100.000 em Detroit. Em dezembro de 1931 e no início de 1932, as marchas nacionais contra a fome em Washington dramatizaram as demandas por seguro-desemprego e outros meios de levar ajuda aos desempregados. [28]

Essa oposição de massa às políticas anti-operárias da administração Hoover desempenhou um papel central na eleição de Franklin D. Roosevelt e na subsequente inauguração do New Deal. Longe de pacificar aqueles que sofreram os efeitos da Grande Depressão, o New Deal serviu como mais um catalisador para a organização de movimentos multirraciais de massa. Os negros, em particular, estavam insatisfeitos com os sedativos oferecidos pela legislação do New Deal. Uma das organizações de massa mais importantes iniciadas durante os anos de Roosevelt foi o Congresso da Juventude Americana, fundado em 1934. Embora o governo tenha sido responsável pelo início do AYC, os mais de quatro milhões e meio de jovens que se juntaram a ela antes a eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939 a transformou em uma força organizadora além de qualquer coisa imaginada por seus patrocinadores governamentais. Os jovens afro-americanos, especialmente no Sul, desempenharam um papel indispensável no desenvolvimento da direção estratégica desta organização. O Congresso da Juventude Negra do Sul, de acordo com William Z. Foster, foi “o movimento mais importante já conduzido pela Juventude Negra” [29] antes da era do movimento pelos direitos civis. De acordo com Robin D. G. Kelley, em seu notável estudo sobre os comunistas do Alabama durante a Depressão:

Os comunistas negros no SNYC promoveram seu próprio programa de ação Duplo V, apesar da oposição oficial do Partido ao slogan. O Congresso da Juventude combateu a discriminação racial nas forças armadas, expandiu sua campanha de recenseamento eleitoral, continuou a investigar casos de violência policial e violações das liberdades civis, coletou uma montanha de dados sobre discriminação para as audiências do FEPC [Comitê de Práticas Justas de Trabalho] em 1943 e até empreendeu uma campanha em Birmingham para acabar com a segregação nos ônibus. [30]

Como resultado do trabalho de organizações como a NAACP, o Congresso da Juventude Americana e a Associação Nacional de Mulheres de Cor, a questão da legislação federal anti-linchamento foi colocada na agenda política nacional pela primeira vez neste século desde os esforços frustrados de a NAACP para garantir a aprovação de um projeto de lei anti-linchamento em 1921. Embora o projeto Costigan-Wagner, apresentado em 1935, tenha sido aprovado pela Câmara, foi derrotado no Senado dominado pelo sul. No entanto, quando Billie Holiday cantou “Strange Fruit” pela primeira vez em 1939, sua mensagem caiu em muitos ouvidos receptivos por demandas em massa de que o governo Roosevelt apoiasse a promulgação de uma lei contra o linchamento.

Isso não quer dizer que a própria Billie Holiday esteve diretamente envolvida nos desenvolvimentos políticos dos anos 30, que serviram de pano de fundo para suas próprias contribuições culturais. Ela estava entre uma série de artistas que entraram na corrente da radicalização política seguindo caminhos abertos por sua arte, em vez de compromissos políticos explícitos. Os anos trinta, segundo o crítico cultural e organizador socialista Phillip Bonosky, constituíram “um divisor de águas na tradição democrática americana. É um período”, continua ele:

que continuará a servir ao presente e ao futuro como um lembrete e um exemplo de como um povo despertado, liderado e estimulado pela classe trabalhadora, pode mudar toda a tez da cultura de uma nação. Este período, pela primeira vez na história americana, viu o posicionamento fundamental do negro e das questões judaicas, que os trouxe do reino obscuro da ética pessoal e privada para suas raízes reais em uma sociedade de classes … viu uma mudança dramática em todos os aspectos da cultura – sua característica mais elementar sendo a descoberta da relação orgânica entre o intelectual e o povo – os trabalhadores em primeiro lugar. … [31]

Billie Holiday não estava diretamente associada aos movimentos de artistas e trabalhadores culturais relacionados à Works Progress Administration, mas ela estava claramente consciente da necessidade de uma mudança radical na situação dos negros na sociedade dos EUA. Em inúmeras ocasiões, ela própria foi alvo de expressões mordazes de racismo. Como vocalista da banda totalmente branca de Artie Shaw, ela encontrou a grosseria da era Jim Crow diariamente quando a banda fez uma turnê pelos estados do sul. Em Kentucky, por exemplo, um xerife de uma pequena cidade que tentou ao máximo impedi-la de se apresentar finalmente foi até o palco e perguntou a Shaw: “O que negrinha vai cantar?” Em St. Louis, o homem que contratou a banda para tocar em um dos maiores salões de baile da cidade contestou sua presença, dizendo: “O que aquela negra está fazendo lá? Não tenho negras para limpar por aqui.” [33] Desnecessário dizer que houve vários incidentes relacionados com quartos de hotel e restaurantes onde ela tentou jantar. “Chegou ao ponto”, escreveu ela, “em que eu quase nunca comia, dormia ou ia ao banheiro sem ter uma grande produção do tipo NAACP. “

Às vezes, fazíamos uma viagem de 600 milhas e parávamos apenas uma vez. Então seria um lugar onde eu não poderia ser servida, muito menos usar rapidamente o banheiro sem causar uma cena. No início, eu costumava ter vergonha. Então, finalmente, eu disse para o inferno com isso. Quando precisava ir, pedia ao motorista do ônibus que parasse e me deixasse na beira da estrada. Prefiro ir para o mato do que arriscar nos restaurantes e nas cidades. [34]

Billie Holiday experimentou mais do que sua cota de racismo. Embora ela não tendesse a se envolver em análises políticas extensas, ela nunca tentou esconder sua lealdade. “Eu sou uma mulher de raça”, ela proclamou em várias ocasiões. [35] De acordo com Josh White, que se tornou seu amigo após uma colisão inicial por causa de sua performance de “Strange Fruit”, “ela pensava mais na humanidade e era mais preocupada com a raça do que as pessoas pensavam.” [36]

Billie Holiday nunca testemunhou um linchamento em primeira mão. A cena ficcional do filme Lady Sings the Blues, em que ela vê o corpo de um homem negro balançando em uma árvore, é uma simplificação grosseira do seu processo artístico. Esta cena sugere que Holiday só poderia fazer justiça à música se ela tivesse experimentado um linchamento em primeira mão. O filme descarta as conexões entre o linchamento – um extremo do racismo – e as rotinas diárias de discriminação que de alguma forma afetam todos os afro-americanos. A própria descrição de Holiday do processo que a levou a abraçar “Strange Fruit” lembra a perspectiva esboçada por Frantz Fanon quando ele escreve:

Não se pode dizer que um determinado país é racista, mas que não existem linchamentos ou campos de extermínio. A verdade é que tudo isso e ainda outras coisas existem no horizonte. Essas virtualidades, essas latências circulam, carregadas pelo fluxo de vida das relações econômicas, psicoafetivas. [37]

A observação de Fanon também funciona ao contrário: o espectro dos linchamentos evoca inevitavelmente outras formas de racismo. Assim, a letra de “Strange Fruit” levou Holiday a refletir sobre as circunstâncias da morte de seu pai.

O dom da comunicação estética de Billie Holiday não consistia simplesmente em sua capacidade de reproduzir em música as profundas emoções subjacentes a seus próprios infortúnios. Por mais habilidosa que ela possa ser em transmitir musicalmente seu próprio estado de espírito, ela também alcançou um modo de expressão que forjou uma comunidade, embora permanecesse profundamente pessoal. Suas canções agiam como um canal que permitia que outros adquirissem percepções sobre as circunstâncias emocionais e sociais de suas próprias vidas. Para os negros e seus aliados brancos politicamente conscientes, “Strange Fruit” testemunhou publicamente a devastação corporal ocasionada pelo linchamento, bem como o terrível dano psíquico que infligiu a suas vítimas e perpetradores. Sua canção também significava possibilidades de acabar com essa violência e a teia de instituições racistas implicadas na cultura do linchamento. Para aqueles que ainda não haviam entendido o significado do racismo americano, “Strange Fruit” afirmava convincentemente a existência dos linchamentos e contestava apaixonadamente sua permanência cultural. Como disse o crítico Burt Korall de Billie Holiday, ela “iluminou de tal forma as situações humanas que deu ao ouvinte um raro, embora assustador, vislumbre das realidades da experiência. Onde outros temem pisar, ela estendeu a mão e tocou, onde outros mascaram seus olhos, ela desafiadoramente manteve os dela aberta.” [38]

“Strange Fruit” é uma canção que apresenta sérios problemas para sua cantora. Suas metáforas são tão fortes que uma interpretação excessivamente dramática pode ter transformado seu poderoso conteúdo emocional em histriônica. A intenção por trás da música – tanto de Allen quanto de Holiday – era evocar solidariedade em seus ouvintes. Esse tipo de arte às vezes perde seu objetivo e, em vez disso, ocasiona piedade. Se aqueles que foram tocados por “Strange Fruit” sentissem pena das vítimas negras do racismo em vez de compaixão e solidariedade, essa pena teria recapitulado em vez de contestado a dinâmica do racismo. Teria afirmado, em vez de contestado, a posição superior da branquitude. Mas, a menos que alguém seja um racista incurável, é difícil ouvir Billie Holiday cantando “Strange Fruit” sem reconhecer o apelo pela solidariedade humana e, portanto, pela igualdade racial dos negros e brancos no processo de desafiar os horrores e indignidades racistas. Sua canção apela aos ouvintes de todas as origens étnicas para identificar os “corpos negros balançando na brisa do sul” como seres humanos com o direito de viver e amar. Jack Schiffman, filho do proprietário do Apollo Theatre Frank Schiffman, que inicialmente argumentou contra a inclusão de “Strange Fruit” em seu show no Apollo, descreveu seu impacto sobre o público quando ela cantou lá pela primeira vez. Após sua apresentação, houve “um momento de silêncio opressivamente pesado … e então uma espécie de farfalhar que eu nunca tinha ouvido antes. Era o som de quase duas mil pessoas (negras) suspirando”.

Mas, previsivelmente, alguns ouvintes foram impermeáveis ​​à sua mensagem. Em um clube de Los Angeles, uma mulher pediu que Holiday cantasse “Strange Fruit”, dizendo: “Por que você não canta aquela música sexy pela qual você é tão famosa? Sabe, aquela sobre corpos nus balançando nas árvores.” [40] A maioria dos relatos dessa história simplesmente indica que ela se recusou a cantá-la. No entanto, o que é interessante sobre essa anedota que parece permanentemente fixada na história da relação de Holiday com “Strange Fruit” é a forma bizarra e racializada como a mulher relaciona a música com o envolvimento onipresente com a sexualidade no trabalho de Holiday. Na verdade, há uma dialética silenciosa em todo o seu corpo de trabalho entre dor e prazer, amor e morte, destruição e a visão de uma nova ordem: No imaginário popular, o linchamento era a afirmação ideológica da ordem estabelecida e a destruição corporal da hipersexualidade negra. Por causa da ligação histórica entre sexualidade e liberdade na cultura negra, a decisão de Holiday de colocar “Strange Fruit” em primeiro plano em sua obra musical concedeu a suas canções de amor um significado histórico ricamente texturizado.

Embora Billie Holiday tenha tornado “Strange Fruit” uma parte permanente de seu repertório logo após sua decisão de cantá-la no Cafe Society, ela não conseguiu convencer a Columbia, a gravadora com a qual ela tinha contrato, a deixá-la gravar a música. “Não vão comprar no Sul”, foi a desculpa da empresa. “Nós seremos boicotados … É muito inflamatório.” [42] Holiday persistiu, e eventualmente a Columbia a liberou para uma data de gravação no selo Commodore de Milt Gabler.

A gravação de “Strange Fruit” por Billie Holiday alcançou algo muito maior do que a preservação permanente de sua canção mais importante, a peça central estética de sua carreira. Eventualmente, milhões a ouviram cantar este apelo anti-linchamento obsessivo – mais pessoas do que ela mesma jamais teria imaginado. Ela não poderia ter previsto que “Strange Fruit” levaria as pessoas a descobrirem dentro de si uma vocação antes não despertada para o ativismo político, mas aconteceu, e realmente acontece. Ela não poderia ter previsto o papel catalítico que sua música teria no rejuvenescimento da tradição de protesto e resistência nas tradições afro-americanas e americanas de música e cultura popular. No entanto, a gravação de “Strange Fruit” de Billie Holiday persiste como um dos exemplos mais influentes e profundos – e locais contínuos – da interseção da música e da consciência social.

“Strange Fruit” foi um desafio frontal não apenas ao linchamento e ao racismo, mas às políticas de um governo que implicitamente tolerava tais atividades, especialmente por meio de sua recusa em aprovar leis contra o linchamento. A canção foi, portanto, um grito de guerra indisfarçável contra o estado. “A mensagem do poema de Lewis Allen, ” nas palavras do crítico de jazz Leonard Feather:

tinha um significado mais vital do que qualquer uma das canções suflê [Holiday] tinha sido entregue pelos produtores musicais. Este foi o primeiro protesto significativo em palavras e música, o primeiro grito não abafado contra o racismo. Foi radical e desafiador em uma época em que negros e brancos achavam que era perigoso agitar, falar contra um status quo profundamente enraizado. [43]

O crítico de jazz Joachim Berendt chamou de “o testemunho musical mais enfático e apaixonado contra o racismo que se tornou conhecido antes da interpretação de Abbey Lincoln de ‘Freedom Now Suite’ de Max Roach de 1960”. [44]

Billie Holiday: A Singer Beyond Our Understanding : NPR
Billie Holiday faleceu em 1959. Tinha em sua conta bancária apenas 70 centavos.

Ao transformar o poema de Lewis Allen em uma perturbadora canção de protesto e torná-lo tão central em seu repertório que se tornou sua obra-prima, Holiday foi pioneira em uma tradição mais tarde adotada por músicos como Nina Simone, que incorporariam descaradamente em suas criações musicais críticas sociais explícitas. [45] Como estilista, Holiday trouxe para a cultura musical popular uma abordagem nova e original da música; com “Strange Fruit”, suas extraordinárias capacidades interpretativas se misturaram com sua consciência de mulher negra para criar um tipo particularmente desafiador de música popular que seria ecoado por dezenas de cantores e músicos que a seguiram, e em uma variedade de gêneros. “Strange Fruit” destacou-se do restante do repertório de Holiday de uma maneira tão pronunciada que irritou irremediavelmente a consciência coletiva de seus ouvintes, tanto de seus contemporâneos quanto das gerações subsequentes. Ao perturbar a paisagem do material que ela havia apresentado antes de integrar “Strange Fruit” em seu repertório, ela reafirmou entre seus colegas musicais a importância de empregar seu meio na busca por justiça social, perpetuando assim sua voz musical.

Ao mesmo tempo, Holiday estava seguindo os passos de outras artistas negras que vieram antes dela, incluindo Ma Rainey e Bessie Smith, que em graus diferentes – e contra convenções sociais e expectativas da cultura dominante, incluindo da própria indústria musical – incorporaram em sua música a sua própria marca de consciência social crítica. Holiday dificilmente forjou essa tradição – realmente, suas raízes estão nos primeiros dias da escravidão – mas ela decididamente se coloca como uma ponte entre o passado e o presente, com a sua carreira galvanizando a transição entre seus antecessores musicais e seus descendentes. É em Billie Holiday que nós podemos identificar ligações, por exemplo, entre o clássico blues de Bessie Smith e o contemporâneo Rhythm and Blues de artistas como Tracy Chapman e Erykah Badu. Chapman é conhecida primaria e principalmente pelo caráter sociopolítico de suas músicas, enquanto Badu, é também conhecida como uma artista com consciência social, e foi explicitamente comparada a Billie Holiday em sua composição musical. Qual seja o mérito de sua música, a ocasional lembrança da voz de Billie Holiday em Badu é uma muito bem articulada razão para a popularidade entre a população jovem hoje em dia. Tais evocações de Holiday – a emulação de Badu e suas fãs referenciando Lady Day – são um testamento do permanente poder do legado de Billie Holiday, e realmente, do seu impacto na cultura popular negra como um todo.

Erykah Badu cantando uma música de Billie Holiday em que diz “não há nada que eu não possa fazer”.

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