György Lukács – ‘Trabalhadores Intelectuais’ e o Problema da Liderança Intelectual

Texto originalmente publicado em 1919, retirado do livro “György Lukács – Tatics e Politics (1919 – 1929)” lançado pela Verso Books.


Uma das mais comuns provocações levantadas pelos círculos intelectuais burgueses – muitas vezes até os bem-intencionados –  contra a concepção socialista de história e sociedade é a afirmação de que o socialismo não permite quaisquer forças ‘intelectuais’ (geistig), que subestima o papel destas forças no desenvolvimento social, que observa e apreende a sociedade apenas unilateralmente, até de modo exclusivo do ponto de vista do ser material e do trabalho físico. Mesmo quando reconhecem a verdade do socialismo em todas as suas particularidades, tais críticos insistem na força intelectual dos ‘trabalhadores intelectuais’ como complementares ao progresso. Eles tomam por garantido, é claro, que os ‘trabalhadores intelectuais’ irão reter o papel de liderança ao qual eles se sentem intitulados, não para seus próprios fins, mas (como estas pessoas bem-intencionadas imaginam) para os interesses da sociedade como um todo.

Antes de discutir o problema central da liderança intelectual, primeiro devemos considerar quem são aqueles que estão interessados em suscitar essa questão. Estamos lidando com um grupo de indivíduos ou uma classe? Se for uma classe, qual é a base de sua composição e qual a sua posição no processo de produção? (Dado que isso, em uma análise final, determina as diferenças entre classes.) Diretamente neste ponto, o grupo mais largo é eliminado da classe dos chamados trabalhadores intelectuais: aqueles que, como trabalhadores manuais, estão aptos a participar da produção apenas por meio de sua força de trabalho (trabalhadores do colarinho branco, engenheiros, etc.). Este grupo difere nitidamente daqueles que o trabalho intelectual é apenas um acessório para seu status burguês (grandes acionistas, donos de fábricas). Essa distinção de classe entre os dois grupos é tão clara para o observador objetivo que é impossível juntar esses dois grupos como uma classe de ‘trabalhadores intelectuais’. O fato de que a discrepância econômica por um longo período e em várias áreas não encontrou nenhuma expressão ideológica correspondente deve ser atribuída, acima de tudo, ao fato de que para todos os membros destes grupos oprimidos, a possibilidade de avanço pessoal para a classe opressora não pode ser negada por fora e com a mesma certeza da qual os trabalhadores manuais tem sido negados. Por um lado, isto borra as linhas divisórias entre essas transições, por outro lado, ela esconde dos indivíduos a sua verdadeira filiação de classe. Não que apenas a filiação de classe sozinha seja um fator determinante; antes do desaparecimento das guildas existia uma relação similar entre o mestre o artesão que também escondia grandes contrastes. O fator especial é meramente a possibilidade de participar no privilegio da educação, o qual sustenta a possibilidade de avanço para a classe dominante dos filhos do ‘trabalhador intelectual’, mesmo que ele não tenha conquistado esse avanço. Aqueles ‘trabalhadores intelectuais’ que participam na produção pertencem então (com uma obscura consciência de classes, na melhor das hipóteses) a mesma classe dos trabalhadores manuais.

Entretanto, há um considerável número de trabalhadores intelectuais que não estão diretamente envolvidos na produção. O que determina a qual classe pertencem? Uma observação superficial poderia sugerir que aqui está a chave para a ideologia ‘supra-classe’ dos intelectuais pequeno-burgueses. Dado que eles não estão diretamente interessados na luta entre capital e trabalho, é dito, que eles estão aptos a se tornar incomparáveis críticos e líderes do desenvolvimento social. Mas essa teoria se esfacela quando lembramos, primeiro, que esses ‘trabalhadores intelectuais’, mesmo se aparentemente desinteressados na sobrevivência ou decadência da ordem social, estão profundamente e até as raízes de sua existência envolvidos com o destino da superestrutura ideológica da ordem social (servidores públicos, juízes, advogados, etc.); e segundo, que o caminho está aberto para todos os tais indivíduos trabalharem a si mesmos de seu ambiente semiproletário até as classes dominantes capitalistas ao servirem a seus interesses materiais, ideológicos e de poder ou indo de encontro aos seus requisitos luxuosos (escritores, advogados, doutores, etc.).

Não apenas, então, se denota uma observação superficial falar dos ‘trabalhadores intelectuais’ como uma classe homogeneamente estruturada, já que mesmo dentro de suas fileiras existe uma clara divisão que pode ser estabelecida entre opressores e oprimidos, exploradores e explorados; mais do que isso, não há nenhuma boa razão para que um grupo de funcionários de alto escalão e profissionais do direito explorados devam ser competentes para assumir a liderança intelectual daqueles que pertencem a sua mesma classe, particularmente se a única real característica de sua posição é a sua nebulosa consciência de classe.

Deixando de lado essas palavras mistificadoras, então, o que queremos dizer com a liderança ‘intelectual’ da sociedade? A tarefa da velha ideologia conservadora era fácil (por conta de seu entendimento inadequado do escopo dos mecanismos sociais). Ela precisava apenas se referir aos grandes homens que por seus ‘gênios’ tinham liderado criativamente o desenvolvimento da humanidade. Atualmente – ao menos em círculos sociologicamente meio-educados – tais afirmações não são mais levadas a sério. O que está sendo envolvido na questão da ‘liderança intelectual’? Todos sabem e reconhecem que as forças independentes da consciência humana e a sua habilidade de traçar objetivos e realizar avaliações mantém o desenvolvimento da sociedade humana continuando, mesmo se a consciência é incapaz de reconhecer a verdadeira essência da sociedade, da luta de classes e as mudanças nas relações produtivas. As perspectivas ideológicas presentes sob discussão encontram, ainda que numa forma velada, a natureza automática (i.e. a completa independência da consciência) do desenvolvimento social, mas acusam o marxismo de afirmar que esse processo automático é totalmente exclusivo. Eles então se sentem especialmente retirados da contribuição de algo que irá providenciar duplamente um fim e uma direção para o desenvolvimento daquilo que em si é um movimento sem fim. É neste ponto que a questão epistemológica da liderança da sociedade ascende, a qual em nossa visão somente o marxismo se mostrou capaz de responder. Nenhuma outra teoria social conseguiu colocar essa questão sem ambiguidades. A questão em si se desenvolve em duas, mesmo se ambas as partes apontam em uma direção. Primeiro, temos que nos perguntar: qual deve ser a natureza das forças que movem a sociedade e quais leis que a governam para que a consciência possa compreendê-las e a vontade humana e objetivos humanos possam intervir nela significantemente? E segundo: qual deve ser a direção e a composição da consciência humana para que ela possa intervir significantemente e autoritariamente no desenvolvimento social?

Colocada então de modo claro, a questão epistemológica contem certos importantes pressupostos que não podem ser nem provados e nem precisam ser, e ainda assim, constituem a base da existência e a da cognoscibilidade da sociedade – como os princípios fundamentais da geometria para a teoria do espaço. A primeira tese é: que o desenvolvimento da sociedade é determinado exclusivamente pelas forças presentes dentro da sociedade (na perspectiva marxista, pela luta de classes e a transformação das relações de produção). A segunda: que a direção desse desenvolvimento pode ser claramente determinada, mesmo se não estiver inteiramente compreendida. A terceira: que a direção deve estar relacionada em uma certa maneira, ainda que não totalmente compreensível, aos objetivos humanos; tal relação pode ser percebida e feita consciente, e o processo de fazê-la consciente exerce uma influencia positiva no desenvolvimento em si. E finalmente, a quarta tese: que a relação entre a questão é possível porque, embora os motivos da força a sociedade são independentes de qualquer consciência humana individual, ou de suas vontades e objetivos, a sua existência é inconcebível exceto na forma da consciência humana, da vontade humana e dos objetivos humanos. Obviamente as leis que se tornaram efetivas nesta relação são refletidas em grande parte de maneira obscura e distorcida na consciência individual do seres humanos.

Tal método de colocar a questão – o método marxista – providencia imediatamente a única resposta possível, significativa e sem ambiguidades. A ‘liderança intelectual’ só pode ser uma coisa: o processo de tornar o desenvolvimento social consciente, o claro entendimento do que é essencial, oposto as palavras de ordem obscuras e distorcidas; o ‘conhecimento’, em outras palavras, de que as ‘leis’ que governam o desenvolvimento social, sua completa independência da consciência humana, a similaridade com o as forças cegas da natureza, são uma mera aparência que só pode sobreviver até que essas forças cegas da natureza sejam despertadas pela consciência [*] deste conhecimento. Assim, o verdadeiro significado histórico primário da teoria social de Marx é que o desenvolvimento da consciência social é afetado deste modo dentro, e somente dentro, dos confins da sociedade. A teoria social marxista colocou um fim a separação dualística da realidade social e dos objetivos humanos que antes constituíam as teorias dos grandes utópicos (Fourier, Owen) tão esperançosamente inalcançáveis. Todo esquema utópico, mesmo com a penetrante critica a dada situação social que era oferecida, mesmo com o quão desejável parecesse o ideal a ser alcançado, falhou em determinar o modo e os meios necessários para a sua realização e assim, levou ao nada. A utopia sempre se tornou um desejo piedoso, a aceitação ou rejeição da qual necessariamente se tornava uma decisão voluntária sob cada indivíduo humano. Marx, por outro modo – e é isto que o distingue mais claramente dos grandes utópicos que o precedeu – tomou, como era apresentado, o principal legado da filosofia hegeliana: o conceito de desenvolvimento como um significado de que a mente desenvolve homogeneamente de uma forma de completa falta de consciência para uma clara, constantemente crescendo autoconsciência.  Somente a superficialidade e a ignorância filosófica de seus sucessores obscureceram esse conceito crucial. Incapazes de compreender a concepção de história de Hegel, eles transformaram o desenvolvimento histórico em um processo totalmente automático, não apenas independente, massa qualitativamente diferente da consciência. Claramente é impossível então para eles estabelecerem uma relação significativa entre o desenvolvimento por um lado e a consciência e a ação consciente por outro lado. Porém, Marx fez mais do que simplesmente tomar a teoria hegeliana de desenvolvimento: ele também a modificou essencialmente pela sua crítica – não, como um marxista vulgar iria assumir, pela mera substituição do ‘materialismo’ pelo ‘idealismo’ (frases vazias), mas ao contrário, por essencialmente enriquecer e aprofundar o conceito hegeliano. A característica essencial do extraordinário sistema de mundo de Hegel era a sua perspectiva de mundo e história enquanto um grande processo homogêneo, a essencial da qual é o desenvolvimento de suas cada vez mais clara consciência de si (o Espírito). De acordo com a filosofia de Hegel, o Espírito na natureza é ainda totalmente inconsciente. O Homem, por outro lado, em sua chamada vida espiritual, se torna mais consciente, até que finalmente, por meio dos sistemas institucionais, por meio da arte e religião, ele se descobre na filosofia. Marx era um pensador sóbrio e profundo o suficiente para aplicar este método a sua investigação da natureza. Mais – e decisivamente – ele não separou tais fenômenos abstratos e interconectados como a lei, arte, religião e assim por diante, em ordem para a descoberta deles nos estágios do desenvolvimento, mas ele os procurou e os encontrou, no processo de desenvolvimento homogêneo da sociedade, aquela consciência que constantemente procura por e finalmente encontra a si mesma.

Incompreensivelmente não-marxistas tem se perguntado o porquê o marxismo, acima de todas as outras teorias, deveria possuir tal força revolucionária. A resposta, que todos aqueles que compreendem o marxismo tomam por garantido, já é contida no que foi supracitado. Sua força deriva do fato de que Marx reconheceu a luta de classes como a força motor do desenvolvimento da sociedade e as leis que governam tal luta como as leis do desenvolvimento social geral. Ele dessa forma, apreendeu a real força propulsora da história mundial (a qual até aquele momento tinha se movido cegamente e inconscientemente), a luta de classes, em consciência. A consciência de classe do proletariado, desenvolvido com base na teoria marxista, mostrou pela primeira vez na história da humanidade que os reais fatores que movem a história não operam inconscientemente (ou de acordo com motivos imaginários, que se amontoam na mesma coisa) como componentes de uma máquina> apenas depois que eles atingiram a consciência é que eles se tornaram forças motoras. Foi na consciência de classe criada pelo marxismo que o espírito, realmente, o verdadeiro significado do desenvolvimento social, emergiu de seu estado anterior inconsciente. Pelo mesmo código as leis do desenvolvimento social deixaram de ser poderes cegos, catastróficos e fatais: elas despertaram para o auto-reconhecimento, para a consciência. Se, como os historiadores da filosofia corretamente afirmam, que a conquista decisiva da clássica filosofia alemã foi a percepção da consciência do Espírito, então, igualmente, Engels estava correto ao apontar que o proletariado é o único herdeiro legitimo desta filosofia e, podemos acrescentar – seu verdadeiro executor.

Mas a consciência de classe proletária é em si mesma apenas um passo em direção a consciência, pois, como uma mera quantidade dada, ela simplesmente estabelece as relações entre os interesses imediatos do proletariado e as leis governantes do desenvolvimento social. O objetivo final do desenvolvimento continua sendo ideais abstratos, situados em uma nova – utópica – distância. Para a sociedade se tornar totalmente autoconsciente, um passo além é necessário: a consciência de classe do proletariado deve ela mesmo se tornar consciente. Isto significa compreender acima e além da consciência de classe direta, acima e além dos conflitos imediatos dos interesses de classe – o processo histórico-mundial que leva esses interesses de classes e luta de classes para o objetivo final: uma sociedade sem classes e a libertação de toda forma de dependência econômica.

A consciência de classe sozinha (o reconhecimento exclusivo dos interesses econômicos imediatos como é expresso na chamada realpolitik social-democrata) não pode providenciar esse entendimento, mas apenas um critério para a correção das táticas imediatas. As situações histórias surgem, entretanto – os momentos de crises mundiais – na qual até mesmo as táticas demandadas pelos interesses imediatos são perseguidas cegamente (a posição dos partidos social-democratas durante a guerra), na qual até mesmo a consciência de classe, confrontada com a necessidade final, adota uma postura de completa inconsciência, na qual até as ações ditadas pela consciência de classe operam como forças cegas da natureza. A necessidade em momentos assim é, como eu já argumentei, tornar a consciência de classe do proletariado consciente: consciente da missão histórica-mundial do proletariado na luta de classes. Foi essa consciência que levou Marx a criar a sua nova filosofia que iria revolucionar o mundo e reconstruí-lo. É esta consciência que fez Lênin o líder da revolução proletária. Esta consciência – em termos hegelianos, o desenvolvimento em direção a auto-consciência da sociedade, a auto-descoberta do Espírito buscando a si mesmo no curso da história – a consciência que reconhece a sua missão histórico-mundial; essa consciência por si é tomada para se tornar o líder intelectual da sociedade.

Com isso, nós marxistas não apenas acreditamos que o desenvolvimento da sociedade é dirigido pelo tão desacreditado Espírito, mas nós também sabemos que foi somente com o trabalho de Marx que o espírito se tornou consciente e assumiu a missão de liderança. Mas essa missão não pode ser o privilégio de qualquer ‘classe intelectual’ ou o produto de qualquer forma de pensamento ‘supra-classe’. A salvação da sociedade é uma missão da qual somente o proletariado, por sua virtude em seu papel histórico e mundial, pode atingir. E somente através da consciência de classe dos proletários é que é possível conquistar o conhecimento e entendimento deste caminho da humanidade que é essencial para a ‘liderança intelectual’.

[*] O conceito de consciência foi notado e elucidado na clássica filosofia Alemã. A ‘consciência’ se refere ao estágio do conhecimento onde o sujeito e o objeto do conhecimento são substantivamente homogêneos, i.e. onde o conhecimento toma lugar de dentro e não de fora. (O exemplo mais simples é o conhecimento do homem sobre a sua moral, e.g. seu senso de responsabilidade, sua consciência é contrastada com o conhecimento das ciências naturais, onde o objetivo conhecido continua eternamente alienado do sujeito conhecedor por todo seu conhecimento de si.) O principal significado desse tipo de conhecimento é o mero fato de que o conhecimento produz uma modificação essencial no objetivo conhecido: graças ao ato da consciência, do conhecimento, a tendência inerente até agora se torna mais segura e vigorosa do que antes era ou poderia ter sido. Uma implicação além deste modo de conhecimento, entretanto, é de que a distinção entre sujeito e objeto desaparece, e com ela, então, a distinção entre teoria e prática. Sem sacrificar qualquer pureza, imparcialidade ou verdade, a teoria se torna ação, prática. Ao passo que o conhecimento, como a consciência do objeto conhecido, irrompe grande vigor e segurança ao desenvolvimento natural do objeto caso não tivesse sido possível sem este conhecimento, ele já está no modo mais imediato envolvendo a si mesmo na ação prática imediata, na transformação da vida pela ação. [Nota de G. L.]

Tradução por Andrey Santiago

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