Hollywood e o Messias Negro: o legado de Fred Hampton

por Andrey Santiago e Geovane Rocha.

Publicado originalmente no site da União da Juventude Comunista.

O longo processo de criação e produção

Mesmo tendo um longo romance com o gênero das biografias, Hollywood historicamente não dá atenção ou prioridade para biografia de pessoas negras. São poucos os casos de obras com protagonismo e produção negra em relação às inúmeras outras biografias realizadas. A indústria sempre opta por histórias de “superação” com um “final feliz” que reafirme a sociedade de classes e menospreza produções biográficas de figuras anticapitalistas que contestam radicalmente a ordem vigente.

No ano de 2014, a dupla de comediantes Keith e Kenneth Lucas, conhecidos como os Irmãos Lucas, lançaram a proposta de fazer um filme biográfico sobre Fred Hampton para várias empresas com o título “O Inconformista de Bernardo Bertolucci encontra Os Infiltrados de Martin Scorsese”, mas encontraram apenas respostas negativas ou condescendência de executivos. Mesmo empresas como A24 (Moonlight e Minari) e Netflix (13ª Emenda e Destacamento Blood), que poderiam dar passos mais ousados, não financiaram esta obra. Cresciam os relatos de executivos declarando que a obra não faria sucesso, que caso houvesse um filme sobre Hampton, ele teria que ser voltado ao seu período escolar, com “uma cena dele falando pela primeira vez para uma plateia, nervoso e gaguejando”. Hampton, que sempre se destacou por sua oratória, pela sua capacidade de inspirar e mobilizar o povo, se tornando líder de um associação estudantil para lidar com conflitos inter-raciais em sua escola, não seria rebaixado a um “Discurso do Rei”.

Dois anos depois, em 2016, os irmãos Lucas apresentaram a ideia para Shaka King (um dos alunos do cineasta Spike Lee), com a proposta do filme ser “Os Infiltrados no mundo do COINTELPRO”. Seria a maneira, com uma história de impacto para audiência de massa, de explorar como o FBI fomentou a desestabilização dos Panteras tendo Fred Hampton como figura histórica central. Após três anos de pesquisa e contatos com produtoras de cinema, o filme encontrou grande apoio do diretor e produtor Ryan Coogler, que estava sendo aclamado na indústria por conta de seu filme Pantera Negra, produzido pela Marvel. Através de sua recém-criada produtora Proximity, Coogler levou a proposta para Charles D. King e sua produtora Macro que então financiou 50% do orçamento de 26 milhões de dólares. Por fim, graças ao auxílio de Niija Kuykendall, uma executiva negra dentro da Warner Bros que reivindicava um filme sobre os Panteras Negras desde o início da última década, a parte final da produção e orçamento foi concluída.

Ainda que a obra dirigida por Shaka King, que também co-escreveu o longa-metragem, não tenha sido negada por Hollywood (caso contrário nem teria sido feita), ela recebeu pouco suporte, a onda da representatividade negra nas telas de cinema veio sem uma representação de histórias negras e incentivo para suas produções. Como disse King em uma entrevista cedida a Variety, “Não vejo uma tremenda diferença sobre como Hollywood interage com os narradores negros e com a arte negra como um mercado.” [1]

Judas e o Messias Negro comprova que a produção de narrativas com mensagens que não alimentam a ideologia dominante sempre trilhará um doloroso caminho. É notável que esse filme tenha metade de seu orçamento financiado por uma pessoa negra, que executivos de Hollywood em maioria não apostavam em seu sucesso — a comprovação de que a indústria do cinema ainda tem muito o que avançar. Contudo, somente outra lógica de produção poderia dar sustentação e o devido apoio para a realização de registros cinematográficos revolucionários.

Ao mesmo tempo que a lógica do cinema atual deve ser denunciada, o caminho trilhado pelas produtoras independentes do circuito dominante deve ser destacado. A frase “quem paga a banda, escolhe a música” também se aplica ao meio da indústria cinematográfica, nos EUA principalmente, filmes que retratam as forças armadas normalmente tem que passar por uma consulta com membros da CIA ou FBI [2]. Atualmente existem poucas ferramentas para a realização de obras revolucionárias de modo profissional no mundo do cinema, porém, assim que houver uma inserção qualificada nesta categoria, que demande mudanças estruturais e se alie a movimentos populares na construção de outra sociedade, inúmeras obras com enorme capacidade de ressoar nas mentes e corações do povo deixarão de ficar engavetadas por decisões de engravatados que buscam apenas o lucro.

Judas e o Messias Negro conta história dos últimos anos de vida de Fred Hampton, Presidente do Partido dos Panteras Negras em Chicago e a traição de William O’Neal, um informante do FBI que se infiltrou no Partido para desestabilizar e neutralizar as suas ações. A trama perpassa o recrutamento de O’Neal, sua inserção na organização e encontros com o agente Roy Mitchell, seu responsável.

O filme conta com um talentoso elenco premiado: Daniel Kaluuya (Fred Hampton), LaKeith Stanfield (William “Bill” O’Neal), Jesse Plemons (Roy Mitchell), Dominique Fishback (Deborah Johnson), Martin Sheen (J. Edgar Hoover), Darrell Britt-Gibson (Bobby Rush) e outros. A direção é de Shaka King, sendo este seu primeiro longa-metragem, com roteiro de King e Will Berson, produção de King, Charles D. King e Ryan Coogler, fotografia de Sean Bobbitt, trilha sonora dos músicos de jazz Mark Isham e Craig Harris e distribuição pela Warner Bros.

Por que Fred Hampton?

O nacionalismo cultural exercia uma gigantesca influência nas diversas organizações negras dos EUA nos anos 60 e 70. Organizações como a Student Nonviolent Coodinating Comite (SNCC) e a Us Organization (US) eram algumas das mais expressivas e também defensoras dessa linha. Além de se colocarem como grandes opositores do marxismo, por o considerarem uma teoria branca, defendiam a necessidade de uma nova cultura, novos valores e um estilo de vida diferente para pessoas negras. Haviam ainda facções com posições mais radicais que falavam em eliminação de pessoas brancas para que o povo negro pudesse viver livre do racismo, construir uma nação negra independente nos Estados Unidos ou um retorno a terra ancestral.

Ostentando seus bubas e dashiki, não permitiam que as mulheres fizessem trabalhos que, segundo eles, eram destinados aos homens. Dentro dessa escancarada defesa de um patriarcalismo tosco, as mulheres tinham um papel secundário, sua principal função era a do cuidado com o homem negro. Linda Harrison, membro do Partido dos panteras negras, diz que “O nacionalismo Cultural se manifesta em várias formas, mas todas as manifestações são essencialmente fundamentadas em um fato: uma negação universal e uma ignorância das atuais realidades políticas, sociais, econômicas e uma concentração no passado como referência (…) Em outras palavras, o nacionalismo cultural ignora as questões políticas concretas, e se concentra em um mito e em uma fantasia”. [3]

Enquanto figuras como Ron Karenga, principal dirigente da Us organization (US), defendia a não união entre brancos e negros, estimulava o conflito entre organizações negras [4] e transformava sua organização em uma seita. Fred Hampton, dirigente dos panteras em Illinois, negociou a trégua entre as gangues mais violentas e notórias de Chicago e foi o principal responsável pela organização da Rainbow Coalition (Coalizão Arco-íris).

Fundada nos finais de 1968 por Fred Hampton e Bobby Rush, a seção dos Panteras Negras no estado de Illinois rapidamente se tornou uma das mais organizadas, produtivas e ativas no país. A seção iniciou o programa de café da manhã gratuito para crianças e operou uma clínica de atendimento médico gratuito. Ainda em 68, Bob Lee, membro do Panteras, foi convidado por uma igreja metodista para falar, junto com os Jovens Patriotas, sobre o trabalho de organização. Após alguns desentendimentos do público com um representante dos Jovens Patriotas, Lee parte na defesa do companheiro e logo em seguida propõe uma aliança entre as organizações [5]. Ao apresentar a ideia ao Fred Hampton, o mesmo se empolga com a proposta e começa a trabalhar para organizar uma coalizão.

Em 4 de abril de 1969, na cidade de Chicago, Illinois, é criada Coalizão Arco-Íris. Uma frente multirracial revolucionária articulada principalmente pelo Partido dos Panteras Negras na figura de um jovem militante Fred Hampton, junto de William “Preacherman” Fesperman dos Jovens Patriotas, representando a população branca pobre de Chicago e José “Cha Cha” Jiménez dos Jovens Lordes, representando a comunidade latina de Porto Rico. A Coalizão Arco-Íris cresceu englobando várias outras organizações políticas da cidade com respaldo até de várias gangues de rua que atuavam naquele período, promovendo então atividades de apoio nas suas comunidades.

Em 4 de dezembro de 1969, Hampton teve sua casa invadida de madrugada e foi executado ao lado de sua esposa grávida de oito meses, Deborah Johnson. Durante a incursão organizada pelo FBI e efetuada pela polícia da cidade, 99 tiros foram disparados na residência, ferindo vários militantes que estavam no local, entre eles Mark Clark, um dirigente nacional dos Panteras que estava acompanhando a situação e que deu o único tiro em contraposição aos policiais: um tiro de escopeta lançado ao teto por movimentos reflexivos inconscientes após ele ter sido atingido no peito e morrido.

Após o incidente, a imprensa declarou que houve uma troca de tiros entre os Panteras e a polícia, havendo justificativa para a invasão pois os policiais estariam “atrás de armas escondidas”. Com o passar dos anos, a história de Hampton e dos Panteras Negras foi sendo mistificada principalmente pelas acusações infundadas de terrorismo e ódio racial. Foi também, em certa medida, enublada pela recente revitalização liberal da organização enquanto uma estética radical desprovida de conteúdo revolucionário. Dentro da comunidade negra norte-americana, muitos crescem sabendo mais sobre a morte de Fred Hampton do que sobre sua vida, suas ações, seu propósito, sua política.

Como vimos, o jovem pantera dedicou os seus últimos 3 anos de vida à militância organizada. Demonstrou, por meio de sua prática militante e em seus discursos que havia uma alternativa para os trabalhadores norte-americanos e que a saída para resolver seus males era a revolução socialista. As mudanças concretas só viriam quando o povo tomasse o poder para si. Em um discurso feito em fevereiro de 1969, na Igreja de Olivet, Hampton faz uma crítica voraz as alternativas individualistas pautadas na ideia do capitalismo negro ou no racialismo, afirma que “temos que entender alto e claro que tem um homem em nossa comunidade chamado capitalista. Algumas vezes ele é negro e algumas vezes ele é branco. Mas este homem tem que ser expulso de nossa comunidade, porque qualquer um que vem para a comunidade lucrar com o povo, explorando-o, pode ser definido como capitalista. E não ligamos para quantos programas ele tenha, quão longa sua dashiki seja; o poder político não nasce das mangas de um dashiki (…)” [6].

Em outro discurso esclarecendo o conteúdo do poder defendido pelos Panteras, Fred Hampton diz “(…) Não falamos mais Poder Pantera porque não acreditamos que os Panteras deveriam ter todo o poder. Não defendemos a ditadura dos panteras. Não defendemos a ditadura do povo negro. Defendemos a ditadura do povo [trabalhadores negros, brancos etc.]”.

Muitas das questões apontadas a cima são apresentadas rapidamente e as vezes de forma sutil no filme “Judas e o Messias Negro”. Não se trata de por má-fé, não haveria como desenvolver tudo isso em um longa-metragem que está contando a história de dois personagens. Aqueles que estiverem familiarizados com os discursos do Fred Hampton, vão perceber que o roteiro muitas vezes se desenvolve a partir deles dando o tom a narrativa em determinados momentos.

No filme, quando Fred Hampton (Daniel Kaluuya) nos é apresentado, é por meio de J. Edigar Hoover (Martin Sheen) discursando para um conjunto de agentes federais que participam de uma reunião do programa de contrainteligência do FBI conhecido como COINTELPRO. Hoover afirma que os Panteras negras devem ser considerados inimigos número 1 dos Estados Unidos, pois eles possuem alguém com capacidade de unificar a Nova Esquerda (New Left), o movimento anti-guerra e os comunistas. É necessário “evitar a ascensão de um Messias Negro”. Ao fundo, em um grande telão, aparece Fred Hampton que afirma o seguinte “(…) Temos que encarar o fato que algumas pessoas dizem que se combate fogo contra fogo, mas dizemos que se combate fogo melhor com água. Dizemos que não se combate racismo com racismo. Iremos combater o racismo com solidariedade. Dizemos que não se combate capitalismo com capitalismo negro; se combate capitalismo com socialismo” [7].

O programa de contrainteligência do FBI, COINTELPRO, criado em 1967, direcionou suas atenções para os Panteras Negras sabotando, provocando, atacando e se infiltrando na organização para assim causar a sua desestabilização. A incursão realizada na casa de Hampton com todos os detalhes sobre a localização dos cômodos, só foi exitosa por conta da participação de um jovem membro do Partido que também era informante do FBI: William O’Neal.

COINTELPRO e o papel de William O’ Neal

Não são motins, são rebeliões. As pessoas estão se rebelando por causa das condições e não por causa de indivíduos. Nenhum indivíduo cria uma rebelião. É criada a partir das condições.” diz um militante do Partido dos Panteras Negras logo no início do filme. A montagem inicial feita com imagens reais dos Panteras estabelece um dos principais pontos políticos da organização, se trata da contrariedade ao sistema capitalista e a afirmação do socialismo. Antes dessa montagem, entretanto, temos LaKeith Stanfiled interpretando William O’Neal em sua única entrevista pública sobre o seu papel de auxílio ao FBI.

Ao fim da montagem inicial com arquivos reais, o filme inicia sua trama em 1968 com O’Neal (LaKeith Stanfiled) tentando se passar por um agente do FBI para roubar um veículo. Após o roubo, ele é preso, espancado e interrogado por Roy Mitchell (Jesse Plemons), um agente do FBI. Quando questionado sobre o por quê roubar usando um distintivo e não uma arma como um “ladrão de carro normal”, O’Neal responde que “um distintivo é mais assustador que uma arma (…) Um distintivo é como se você tivesse todo o maldito exército atrás de você.” Por fim, quando perguntado sobre o que pensava a respeito do assassinato de Martin Luther King e Malcolm X demonstra apatia e certa indiferença.

Esta primeira cena intensa do filme dá algumas pistas sobre a consciência do diretor em relação a obra que estava realizando. Não se trata de transformar o informante do FBI em um herói, nem de tornar Fred Hampton um vilão, se trata de uma tentativa de encontrar as motivações pelas quais tais pessoas viveram suas vidas. De um lado um corajoso militante que buscava viver pelo coletivo, de outro lado um covarde egoísta buscando apenas alcançar o seu próprio interesse.

A história prossegue de maneira linear, desenvolvendo Hampton através da atuação marcante de Kaluuya que transporta o espectador para aquela época, inclusive conseguindo vários elogios da crítica especializada pela maneira que o ator lidou com o modo de falar do jovem líder revolucionário. A perspectiva que olha de modo mais humano para Fred, não vem por O’Neal, mas sim por Deborah Johnson, a militante do Partido que se tornaria também companheira de Hampton e mãe de seu único filho.

É inegável que O’Neal não é retratado como um vilão caricato na história de Hampton, sua escalada dentro do Partido acontece em meio a uma complexidade de sentimentos que ele sente ao realizar ações de sabotagem. Na vida real, O’Neal realmente se tornou próximo de Hampton, sendo segurança pessoal do dirigente e acabou tendo uma tortuosa relação com peso das decisões que tomou quando atuou neste período, então com 17 anos de idade. Ao fim de sua vida deu a sua única entrevista pública sobre o acontecimento. No mesmo dia em que a reportagem foi exibida, com 40 anos de idade, O’Neal andou em uma rodovia movimentada e faleceu atingido por um carro. Sua morte foi declarada enquanto suicídio.

A busca de validação e propósito de O’Neal encontrados em um agente do FBI são o amálgama dos perigos da apatia política, da alienação e do individualismo. Aliados à promessa de ascensão social rápida ou encurralados pela falta de condições cotidianas, muitas pessoas são cooptadas para servir interesses contrários ao do povo. Não é coincidência que o FBI recrutou mais de 7 mil informantes negros para se infiltrarem nos movimentos negros do EUA e neutralizarem suas ações até o fim do COINTELPRO em 1971 [8]. Mesmo antes, o primeiro agente negro do FBI, James Wormley Jones, foi recrutado para espionar e garantir a deportação de Marcus Garvey, já hoje em dia existem documentos evidenciando a atuação do FBI na prevenção de “Extremistas da Identidade Negra” com relatos de monitoramento constante a militantes negros e comunistas [9], é flagrante como essa movimentação não existe em relação aos supremacistas brancos que atuam organizadamente nos EUA há décadas.

No filme uma das táticas de sabotagem do período é demonstrada visivelmente: a construção de declarações em nome dos Panteras atacando outras organizações para que suas relações fossem estremecidas e rompidas, a desinformação era uma tática recorrente. Porém, a prática dita o critério da verdade e a atuação dos Panteras com Fred Hampton conseguia superar em vários momentos essa discórdia causada pelo FBI. Suas atitudes buscavam dialogar com o avanço de suas comunidades, construindo o poder popular, formando politicamente os militantes para que atuassem com seriedade e disciplina no cotidiano.

Enquanto Fred Hampton estava preso, houve um confronto com a polícia que cercava a sede dos Panteras, vários importantes militantes continuaram ativos e foram alvos dessa perseguição e da destruição da sede. Pouco tempo depois a comunidade estava prestes a auxiliá-los na reconstrução do espaço, outras organizações também vieram em apoio, o respeito que os Panteras tinham era enorme e isso não é de modo algum escondido no filme.

Em paralelo a história de Fred Hampton também são mostradas as discussões que o FBI tinha sobre o Partido, aqui reside o cavalo de Tróia que o Shaka King mencionou em entrevistas após o lançamento da obra, o filme também é uma maneira de evidenciar o programa governamental dos EUA feito para destruir movimentos radicais. Dentre as organizações que ficaram na mira da contra inteligência, destacam-se a Southern Christian Leadership conference (SCLC), Revolutionary Action Moviment (RAM) e a Nation of Islam (NOI). Os Panteras Negras foram vítimas de 80% das 295 ações do FBI contra organizações identificadas como “Black Nationalist Hate Group’s” [10].

Um filme anticomunista?

Judas e o Messias Negro não se trata de uma explícita propaganda comunista, apesar das breves citações de nomes de autores revolucionários com Mao, Ho Chi Minh e Fanon. Pouco é mostrado sobre os acúmulos teóricos do Partido, vários detalhes importantes, figuras e acontecimentos históricos tiveram sua apresentação diminuída ou não foram exibidas. Contudo, o diretor tem consciência plena sobre essas limitações, seu propósito maior é fazer o espectador compreender os polos opostos expressos em Hampton e O’Neal. Shaka King consultou a família do Pantera para conquistar a sua benção para o projeto, visitou a casa que o revolucionário cresceu e conversou com ex-membros do Partido. Todo esse processo foi fundamental para a construção da obra e determinou a forma sensível que o filme trata a trajetória de Hampton.

Nas cenas em que o dirigente dialoga e convive com a sua companheira há uma compreensão da figura humana que estava por trás daqueles grandiosas e inspiradoras falas. É destacável como a morte do revolucionário não é exibida de forma gráfica e glorificada como geralmente acontece em Hollywood, são tiros que põem fim a uma vida muito curta, tiros que silenciaram um comunista, mas que como diz o próprio Presidente em um de seus discursos: “Você pode matar um revolucionário, mas nunca poderá matar a revolução.”

No começo de novembro de 1969 Hampton foi convidado para falar em um evento realizado na Califórnia, durante sua estadia ele conheceu pessoalmente as lideranças nacionais dos Panteras e se tornaria o Ministro-Chefe e o Porta-Voz Nacional da organização. Possivelmente, pela sua capacidade de mobilização e articulação, Hampton poderia ter lidado de melhor forma com as disputas intra-organizacionais dos Panteras que começavam a se evidenciar nacionalmente, entre as tendências que buscavam focar na guerrilha armada e outras que seguiam a linha nacional aumentando a inserção nas comunidades.

Judas e o Messias Negro não é um filme anticomunista. É o resultado de uma direção consciente, de uma produção negra, de um contato que buscou respeitar os antigos membros dos Panteras e suas famílias (Fred Hampton Jr. acompanhou todos os dias de filmagens), é o resultado daqueles que lutaram fora das telas para a concretização de uma narrativa que mostrasse para o mundo um pouco de quem realmente foi Fred Hampton e o que o movia, a luta do povo pelo povo, a luta pelo fim do racismo, do machismo, do imperialismo, a luta pelo socialismo e pela revolução.

Sabendo de suas limitações, a escolha pelo foco dado também a O’Neal serve para fazer o espectador se engajar ainda mais com a obra e questionar qual a sua posição em relação ao que acontece na tela, acompanhar um informante do FBI é incômodo, assim como é a política e seus conflitos.

É um filme que te faz perguntar de que lado você está?

E conhecendo a história e o legado de Fred Hampton, devemos saber a resposta correta.

NOTAS:

1. Citação retirada da entrevista de Shaka King para a Variety, disponível em: https://variety.com/2020/film/features/judas-and-the-black-messiah-shaka-king-1234871984/

2. https://theconversation.com/washington-dcs-role-behind-the-scenes-in-hollywood-goes-deeper-than-you-think-80587

3. Raça, classe e revolução: a luta pelo poder popular nos Estados Unidos / Partido dos Panteras Negras [et al]; organizadores Jones Manoel, Gabriel Landi – São Paulo, SP; Autonomia Literária, 2020.

4. Na sua autobiografia, Angela Davis relata que, em Novembro de 1967, na a Black Youth Conference (Conferência da Juventude Negra), as organizações United Front (Frente unificada) e a Us Organization (do Ron Karenga) protagonizam uma troca de tiros por motivos desconhecidos. O mesmo Ron Karenga responsável pelo assassinato de Alprentice “Bunchy” Carter, membro do BPP.

5. MCANNE, Michael. Os Panteras Negras, os Jovens Patriotas e a Coalizão Arco-íris. Tradução: Victor Marques. Jacobin Brasil, 2019. Disponível em: https://jacobin.com.br/2019/12/os-panteras-negras-os-jovens-patriotas-e-a-coalizao-arco-iris/

6. Todo poder ao Povo! Artigos, discursos e documentos do Partido dos Panteras Negras. Poder onde quer que esteja o povo. Tradução: Gabriel Duccini. 1ª edição, 2017. p. 75.

7. No filme, esse trecho do discurso “Poder onde quer que esteja o povo” aparece recortado. Colocamos na citação o trecho completo.

8. Informação retirada dos arquivos públicos sobre o COINTELPRO, disponíveis em: https://sites.google.com/site/cointelprodocs/the-use-of-informants-in-fbi-intelligence-investigations

9. Informação retirada da reportagem da The Atlantic, disponível em: https://www.theatlantic.com/culture/archive/2021/02/what-judas-and-the-black-messiah-reveals-about-black-lives-matter/618024/

10. Caderno CRH n. 1 (1987); JOHNSON, Ollie A. Explicando a extinção do Partido dos Panteras Negras: o papel dos fatores internos; Tradução: Elizabeth S. Ramos. Salvador, Centro de Recursos Humanos/UFBa, 2001. p. 102.

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