Julio Antonio Mella – Novo caminho às/aos estudantes

Original em MELLO, J. A., Los estudiantes y la lucha social, [1927] in: GUANCHE, J. C. (org.), Mella: textos escogidos, tomo I. La Habana: Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau, 2017.

Tradução por Leonardo Godim.

Julio Antonio Mella foi um destacado marxista cubano e latino-americano, dirigente estudantil na Universidade de Havana, fundador do Partido Comunista de Cuba, em 1925, e dirigente do Partido Comunista do México. Novo caminho às/aos estudantes é o segundo texto de uma série de três artigos escritos por Mella entre fins de 1927 e fins de 1928. Todos eles se propõem a debater o sentido do movimento universitário latino-americano em sua relação com a revolução socialista e anti-imperialista na América Latina. Eles serão publicados separadamente em tradução exclusiva para o TraduAgindo.


A luta de classes, que é o motor de toda história, está entrando em um novo e definitivo período: o da luta final entre as duas classes antagônicas do tempo presente.

Trabalhadores e exploradores vêm constituindo suas frentes de batalha internacional. Não há trégua, nem se deseja. Não é somente dentro das grandes nações da Europa onde vemos essa luta, mas em todos os povos do mundo os combatentes lutam até a morte. Pode a reação capitalista chamar-se, na Europa, Estados Unidos e Japão, fascismo, parlamentarismo ou social-democracia, e nas terras que povoamos nós, os amarelos, vermelhos e negros, chama-se “missão civilizatória”. Mas em um e noutro lugar trata-se do mesmo inimigo: o capitalismo chegado a sua última fase: o imperialismo. Itália, Polônia, França, China e Nicarágua confirmam nossas palavras.

E essa luta final, que começou com o suicídio dos civilizados em 1914, transborda todo o mundo e todas as atividades. Ninguém pode negar essa realidade. Não há homens livres, isolados no meio deste combate. A “terra de ninguém” nas frentes de batalha não é um lugar imune nem habitável.

Não se pode em nome da arte, nem da ciência, nem do direito, nem da liberdade individual, ser estranho a essa luta. Quem não luta é aliado do inimigo, já que falta um braço à ação nos momentos em que todos devem lutar. O indiferente carrega o perigo de cair por uma bala perdida. Por isso repetimos, depois de vinte séculos, a frase: “quem não está com nós, está contra nós”. Assim dizem os trabalhadores, não com o sectarismo que os atribuem os iludidos, mas com o claro entendimento da realidade.

Em todo mundo este é o dilema: com os trabalhadores ou com os exploradores.

No México não nos libertamos dessa realidade. Levamos vinte anos vendo como a luta de classes se desenvolve com os lados beligerantes de armas na mão, e todavia os explorados não alcançaram seu objetivo. Uma e outra vez foram traídos pelos elementos que tinham se dito seus redentores e não foram senão seus alucinadores.

No momento presente, talvez melhor que em qualquer outra ocasião, os oprimidos se dão conta exata dessa verdade. Já estão compreendendo que sua emancipação só poderá ser obra deles mesmos. Não mais caudilhos, ora seja militar, civil ou intelectual.

Não!

A massa explorada não irá se libertar nem pelas espadas provinciais, nem pelos licenciados eruditos, nem pelos falsos intelectuais que se dizem profetas…

Essa crise que se apresenta no movimento social mexicano está circunscrita ao campo da política. Em todas as esferas da vida se padece do mesmo mal. Quando se quer falar de reconstrução econômica, o remédio mais fácil é entregar as riquezas da nação aos imperialistas. Quando se fala de “redimir” ao indígena, a forma mais cômoda é submetê-lo à nossa “barbárie” capitalista, tirando-lhe suas virtudes sem conseguir imbuir nesses povos – que a conquista e a república detiveram de seu desenvolvimento normal – nenhum dos progressos que obtivemos. Quando se deseja elevar o nível cultural da nação, não chegamos a fazer mais que fábricas de parasitas profissionais, sem chegar à resolução do pavoroso problema dos milhões de analfabetos, e o mais terrível ainda, do atraso de nossos conhecimentos técnicos, base fundamental para uma cultura nacional sólida. Quando se quer fazer arte, busca-se quem a possa pagar, e então é feita a seu gosto burguês.

Essa crítica dura mas real que fizemos serve para proclamar nossa absoluta independência em relação aos valores consagrados, das normas fossilizadas que dão a patente de “revolucionário”, dos mestres que se tem atribuído neste século vinte a vaidosa pretensão de serem pastores quando já ninguém quer ser rebanho, exceção feita à certos jovenzinhos que com ambições viscerais esperam ser nomeados quando a fortuna política lhes sorrir; dos caciques que monopolizam o poder público como um despojo de bandidos.

Não poderá assumir outra atitude quem saiba compreender o momento histórico e as necessidades sociais de transformação.

Entre os estudantes, como em tantos outros grupos heterogêneos da sociedade, se reflete o fenômeno que anunciamos nos parágrafos anteriores. Entre nós também existem os exploradores e os trabalhadores. Pelo menos, os que aspiram a servir os primeiros, e os que estão dispostos a cooperar com os últimos. Todos aqueles para quem a carreira não seja um ofício, mas uma indústria onde eles serão os empresários, pertencem desde já à burguesia exploradora. Hoje são burgueses por sua ideologia e suas aspirações, amanhã o serão por seus feitos.

Os que creem que a sociedade está bem com sua atual organização; os que afirmam que as reivindicações do proletariado não são justas; os que só pensam em viver explorando, esses que dizem que a arte não tem relação com a luta de classes da sociedade; os que desprezam os estudantes proletários que fazem cursos técnicos para servir à moderna indústria, acreditando-se parte de uma aristocracia intelectual; esses são nossos inimigos. Mobilizaremos contra eles todo o rigor da luta de classes que na sociedade empregam nossos irmãos trabalhadores. Não podemos permitir que junto à nós se misturem os futuros chefes fascistas, os futuros mordomos intelectuais da burguesia e do imperialismo.

Fazemos um chamado a todos estudantes que simpatizam com nossa crítica ao regime presente, para que nos ajudem a cooperar em sua transformação e melhoramento.

Convidamo-los a militar nas fileiras da “Associação de Estudantes Proletários” com o fim de dispor nosso contingente aos trabalhadores e suas organizações, de estudar cientificamente seus problemas, pois são os de todo homem progressista, e colocar em prática nossas convicções cooperando na luta ativa do proletariado industrial e camponês.

Sejamos o posto avançado no campo da cultura e nas instituições de ensino do novo regime socialista. O que os sindicatos são em um sentido: embriões da futura organização econômica socialista, e os partidos do proletariado em outro: embriões da futura estrutura política do estado proletário, seremos nós em nosso campo: iniciadores dos batalhões que lutarão ao lado deles na rebeldia e na construção do novo sistema social.

Técnicos da revolução deve ser nosso papel em seus três períodos: o atual de gestação e organização dos quadros, o próximo de insurreição, e o final, de construção socialista.

Só assim pode ser útil a nossa cultura. Não será criada somente na cátedra e nos livros. Precisamos experimentar para não sermos enganados, e provar os postulados na realidade. Por isso nossa ajuda aos sindicatos, às cooperativas, às organizações camponesas, à toda luta social.

SETEMBRO DE 1928
[Extraído de Mella 10 años…]

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