Zuleika Alambert: Feminismo – O Ponto de Vista Marxista [PDF]

Edição pela Editora Nobel, lançada em 1985.

A evolução da humanidade e a transformação da sociedade não conseguiram solucionar os problemas vitais do Homem – a fome, a guerra, a destruição do meio ambiente e as desigualdades sociais, entre elas, e a talvez mais radical, a discriminação sofrida pelas mulheres.

Esta obra trata da “questão feminina” e se distingue da vasta literatura existente sobre o assunto, questionando ao mesmo tempo a ideologia burguesa e o sectarismo comunista.

É o resgate crítico das contribuições dos pensamentos marxista e feminista e a síntese das experiências concretas vividas pela autora, abrindo um novo caminho na luta de libertação da mulher.

É a derrubada de preconceitos que circulam nos mais diversos níveis da ideologia dominante e a introdução, com lucidez e criatividade, de novos conceitos e valores adaptados a nossa realidade.

Segue abaixo a Dedicatória e Introdução do livro escrita por Zuleika Alambert.

Dedicatória

Dedico este livro às companheiras e amigas feministas brasileiras junto as quais vivi durante o longo exílio de 10 anos na Europa; às amigas e companheiras que ficaram em nosso país, no mesmo período, tentando – no meio das maiores dificuldades – encontrar um novo caminho para a luta libertadora da mulher. Sem elas, com suas opiniões críticas, ideias e sugestões; sem elas, com suas lutas criadoras, eu jamais teria sido sacudida até os alicerces de minhas concepções dogmáticas e reunido forças suficientes para colocar no papel as reflexões que exponho neste livro.

Introdução

Muitas foram as críticas feitas, até agora, aos marxistas, tanto clássicos como modernos, por partidos políticos, organizações feministas e diferentes personalidades em todo o mundo, sobre a contribuição dada por eles para a elaboração de uma teoria sobre a problemática da mulher.

Tais críticas vão, desde as que afirma que os marxistas nunca deram importância à questão feminina, até as que dizem que, quando deram, deixara de lado a sua especificidade, reduzindo-a apenas a uma questão econômica. Outras, vão além. Avaliam as elaborações teóricas marxistas sobre a mulher assinalando, minuciosamente, suas limitações, suas falhas e seus erros.

A primeira, em seu famoso livro O Segundo Sexo, publicado em 1949, apoia suas críticas numa profunda análise da condição feminina. A obra consumiu-lhe dois anos inteiros de trabalho. No que concerne aos marxistas, Simone de Beauvoir considera que eles sempre negaram a especificidade da luta das mulheres já que atribuem a causa fundamental de sua opressão e exploração à propriedade privada dos meios de produção.

Para ela, a burguesia manteve e mesmo acentuou a opressão da mulher, mas nunca foi a autora dessa opressão. Por isso, ela não aceita as conclusões de Engels em sua obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, tampouco as de Bebel em A Mulher e o Socialismo.

Para Simone de Beauvoir esses autores confundem oposição de sexo e oposição de classes, quando consideram que o regime de propriedade privada é o responsável pelo conflito homem /mulher. “Engels” – diz ela – “não se deu conta do caráter singular da opressão da mulher. Tentou reduzir a oposição dos sexos a um conflito de classes. Sua tese é insustentável. É verdade que a divisão do trabalho por sexo e a opressão que disto resulta recordam, em certos aspectos, a divisão por classes, amas não devemos confundi-las. Na divisão entre as classes não há nenhuma base biológica. No trabalho, o escravo toma consciência de si próprio contra o escravistas. O proletariado sempre sentiu sua condição de revolta, retornando, através dela, ao essencial, constituindo uma ameaça para seus exploradores. E o que ele visa é ao desaparecimento como classe. A situação da mulher é diferente, é singular, por causa da comunidade de vida e interesses que a torna solidária em relação ao homem e por causa da cumplicidade que ele nela encontra. Nenhum desejo de revolução a habita, nem ela poderia suprimir-se enquanto sexo. Ela pede, somente que certas consequências da especificidade sexual sejam abordadas”.

A escritora francesa também critica a tese marxista de matriarcado. Considera que a dependência das mulheres não num belo dia. Que não houve, inicialmente, mulheres livres, que a seguir passaram a ser oprimidas com o aparecimento de novas estruturas. A dominação do macho, para ela, está inscrita na origem dos tempos. E é isto que torna singular a luta das mulheres. O proletariado pode mudar de classe, a mulher não pode mudar de sexo.

Nisso está baseado o radicalismo beauvoiriano. Para ele, a análise marxista das relações de classe não vale para as relações entre os sexos. “Seria má fé considerar a mulher unicamente como trabalhadora, já que, tanto como sua capacidade produtiva, sua função reprodutora é importante, na economia social como na vida individual; há épocas em que é mais útil fazendo filhos do que empurrando a charrua.”

E o capítulo “Destino” de seu famoso livro inclui este trecho: “Reivindicar para a mulher todos os direitos, todas as chances de ser humano não significa absolutamente que devamos ficar cegos sobre sua situação singular. E para conhece-la é preciso ultrapassar o materialismo histórico, que não vê o homem e na mulher mais do que duas entidades econômicas.”

Juliet Mitchell, embora de um lado reconheça que o problema da subordinação da mulher e a necessidade de sua libertação tenham sido reconhecidos por todos os grandes pensadores socialistas do século XX, considera, também, que o problema se converte em algo subsidiário, senão invisível, dentro das preocupações dos socialistas.

“Talvez não exista outra questão tão fundamental relegada ao esquecimento”. “Ao surgir, o movimento de libertação da mulher irrompeu sobre a consciência socialista totalmente inocente (ignorante) desta necessidade”.

Juliet Mitchell, em seu livro, critica minuciosamente Marx, Engels, Bebel e Lênin. Em Marx, destaca sua subestimação pela especificidade da mulher: “O que é digno de chamar a atenção em seus comentários sobre a família, é que o problema da mulher aparece submerso na análise da mesma: a mulher como tal, nem sequer é mencionada. Assim, Marx passa de umas formulações gerais sobre a mulher, em seus primeiros escritos, a comentários históricos sobre a família, em seus textos posteriores. Entre ambos existe uma falta de vinculação. A base comum das duas formulações foi sua análise da economia e a evolução da propriedade.” Sobre Engels, considera que, apesar de suas percepções valiosas, “reduziu o problema da mulher à sua capacidade para o trabalho. Por isso atribuiu à debilidade fisiológica a causa primária de sua opressão. Situa o momento de sua exploração no ponto transitório que vai da propriedade comunal à privada. Se sua capacidade para o trabalho é causa da sua posição inferior, sua capacidade para o trabalho lhe dará sua libertação.”

A partir dessas constatações, Juliet Mitchell considera que “Engels encontrou uma solução esquematicamente apropriada à sua análise da origem da opressão feminina. Assim, a posição da mulher nos trabalhos de Marx e Engels permanece separada ou em dependência de uma discussão da família, que por sua vez se encontra subordinada a uma mera condição prévia da propriedade privada. As soluções destes problemas conservam uma ênfase demasiado economicista.”

Bebel, discípulo de Engels, também merece de sua parte uma especial atenção: “Tentou proporcionar uma explicação programática da opressão da mulher como tal, não simplesmente como uma consequência secundária da evolução da família e da propriedade privada: (…) A mulher foi o primeiro ser humano a sofrer a escravidão, a mulher foi a escrava antes do primeiro ser humano sofrer a escravidão, a mulher foi a escrava antes de existir a escravidão.” Mas ela considera que Bebel, como Marx e Engels, foi também incapaz de ir além da ideia de que a igualdade sexual é impossível sem o socialismo. Quanto a Lênin, considera que ele, “apesar de haver colocado algumas questões específicas, herdou um tradição do pensamento que simplesmente apontava para uma equação a priori do socialismo com a libertação feminina, sem mostrar concretamente a maneira de transformar a condição da mulher.”

Nosso livro, dentro das possibilidades do tempo e nível da reflexão, é uma modesta tentativa no sentido de discutir as seguintes questões:

– Defender a ideia de que tais críticas, embora seja, muitas vezes, total ou parcialmente justas, apresentam falhas, porque fogem à objetividade emanada de diferentes condições histórico-concretas. Pensamos que os marxistas sempre se preocuparam com o tema mulher, e é vasto o material produzido por eles acerca do assunto; e não apenas se preocuparam, mas deram-lhe uma interpretação científica; quando afirmaram que a questão feminina é uma questão social;

– Reconhecendo isso, desejamos, ao mesmo tempo, estar abertos para aceitar a ideia de que os marxistas não resolveram todas as questões; que algumas de suas elaborações teóricas são hoje, diante dos novos conhecimentos, marcadas por contradições, omissões, lacunas e mesmo erros, a exemplo da tese do matriarcado, hoje contestada por muitos antropólogos modernos. Outros erros: a assimilação da luta dos sexos a luta de classes; ou, ainda, a negligência da análise do conjunto das relações entre os sexos num duplo plano, no físico e no afetivo. Outros exemplos podem ser citados.

Boas razões nos levam ao reconhecimento dessas críticas. Citaremos dois exemplos. Primeiro o fato de que todas as interpretações marxistas sobre o tema, todas as teses elaboradas, o foram dentro de um determinado contexto histórico e, por conseguinte, teriam que estar comprometidas com as circunstâncias do momento; segundo, a existência do período marcado pela vigência do stalinismo, que atrasou, em muito, as pesquisas científicas dos marxistas, em geral, e as pesquisas sobre a mulher, em particular. Não podemos, da  mesma forma, esquecer ou passar por alto o fato de que, incapazes muitas vezes de estudar e interpretar criadoramente suas realidades, utilizando para isso marxismo como método de pesquisa e análise a partir de uma concepção materialista do mundo, os marxistas modernos – salvo honrosas exceções – nada mais fizeram do que repetir enfadonhamente a frase “a questão feminina é uma questão social”, como se nela pudessem resumir toda a complexa problemática da mulher em nossa atualidade. Assim, pouco fizeram para promover o avanço da elaboração teórica desta questão, a partir do ponto em que ela foi deixada pelos clássicos marxistas e seus seguidores mais imediatos, como Bebel, Clara Zétkin, Lênin e outros. Só recentemente, as coisas começaram a se modificar neste campo e, certamente, muito mais em virtude das colocações audaciosas e, por vezes agressivas das teóricas feministas em todo o mundo do que por iniciativa dos marxistas. A verdade é que foi o movimento feminista que os fez entender que os tempos são outros e que a libertação da mulher, agora, deve ser enfrentada com novos conceitos e novas práticas.

Esforçaremo-nos para tirar da avaliação feita algumas conclusões que, expressando a síntese de experiências concretas vividas, possam ajudar a luta presente e futura pela libertação da mulher, sem nos perdermos em unilateralidades estéreis, que levariam a ver a questão apenas parcialmente e jamais como um todo.

Por fim um último reparo.

Seria impossível à autora, limitada por seus conhecimentos linguísticos e pelo temo disponível para executar seu trabalho, abarcar neste livro o estudo e análise de todo o universo da literatura teórica produzida no mundo que, em grau maior ou menor, contribuiu de fato para a formação do pensamento marxista sobre a mulher.

Assim, além dos clássicos (Marx e Engels) e de seus discípulos mais próximos (Bebel, Zétkin, Lênin, Kollontai), buscamos nos apoiar em trabalhos produzidos em países da Europa Ocidental (principalmente França e Itália) e no Brasil, onde algumas contribuições de importância começaram a surgir. Isto não quer dizer que não reconheçamos e valorizamos também as obras produzidas em outras partes do mundo, como é o caso dos Estados Unidos, que pelas razões acima apontadas não tivemos condições de analisar.

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