Martin Luther King era socialista?

Artigo originalmente escrito por Adam Fairclough.

Traduzido por Andrey Santiago.

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Martin Luther King Jr., raramente é uma figura colocada no panteão de heróis socialistas. Para muito dos seus contemporâneos ele parecia ser o típico produto da “burguesia negra”: um pastor de classe média de uma família de classe média que busca objetivos de classe media. Embora um eloquente e corajoso cruzador pela justiça racial, sua visão final – como expressada no seu famoso discurso “Eu tenho um Sonho” – parecia ser a integração do Negro na estrutura existente da sociedade; o capitalismo não era um problema. Quando ele falava sobre a necessidade de limpeza, divindade e economia, ele parecia com Booker T. Washington, aquela epitome de valores burgueses que, na virada do século, tinha exortado negros para levantarem se por meio de suas próprias pernas. A própria admiração de King por Washington, visto por muitos negros como um arquétipo do “Tio Sam”, era conhecida por muitos e abertamente falada. Na metade dos anos 60, quando sua fama e seu sucesso estavam no máximo, King era visto por muito de seus contemporâneos como uma figura essencialmente conservadora. Ele estava sempre “passível para se comprometer em meio aos dois lados”, escreveu um comentador, “com a burguesia branca, dona da base política e econômica”. Lawrence Reddick, amigo de King e biógrafo do mesmo, tinha antecipado esses vereditos anos antes. “Nem por experiência, nem por meio de leituras King era um político radical”, ele escreveu em 1959. “Não há um osso marxista no seu corpo”. Verdade, King adotou uma postura radical apenas durante os dois últimos anos de vida, mas ele nunca pareceu andar muito longe do espectro político principal. Para os estudantes radicais da “Nova Esquerda”, como também para os irritados defensores do “Poder Negro”, King permaneceu uma figura sem vitalidade, desinteressante, um expoente ineficaz de uma parte fora de moda do liberalismo. [1]

Parece ser escassamente credível, que naquela época, King era, como disse e manteve o FBI, um marxista declarado. Será que as escutas do FBI realmente gravaram o líder do movimento civil dizendo, “Eu sou um marxista” e que ele iria professar isso publicamente para o conhecimento de que isso iria destruir sua posição? Na visão do notório conservadorismo do FBI, que classificava qualquer mínima critica social com subversiva, essa alegação pode ser descartada como uma fantasia paranoica, ou talvez um produto do racismo que permeava o FBI comandado pelo seu chefe, J. Edgar Hoover. A própria aversão de Hoover por King, e sua malevolente campanha para destruir ele, foram amplamente documentadas em investigações congressuais e em um livro recente de David J. Garrow. [2]

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“Chefe do FBI chama Marin Luther King de ‘O maior mentiroso no país’.”

Ainda sim, a percepção do FBI de King com uma ameaça radical contra as instituições americanas não era tão forçada quanto parecia, já que King, de fato, expressou sua admiração por Marx e argumentou que os Estados Unidos deveriam se mover mais para o socialismo. O exterior plácido de King, sua maneira empolada, sua sobriedade clerical tendia a disfarçar seu profundo radicalismo político. Em adição a isso, ele expressou suas opiniões políticas muito mais profundamente em conversas privadas, do que em publico. Somente recentemente, quando a Senhora Corette King admitiu o acesso de pesquisadores aos registros da Conferência de Liderança Cristã do Sul (a organização que seu marido presidia) se teve uma real perspectiva sobre o radicalismo de King, com isso, essa questão ficou aparente. Já em 1966, ele teria se tornado um apaixonado inimigo do capitalismo ocidental e um defensor, de nas suas próprias palavras, um “socialismo democrático”. [3]

A atração intelectual de King pelo socialismo pré-datava sua carreira como um líder dos direitos civis. Em 1949, como um estudante no Seminário Teológico Crozer, ele leu O Capital, O Manifesto Comunista, e algumas obras interpretativas do pensamento de Marx e Lênin. Embora ele tenha rejeitado a concepção materialista da realidade, King claramente enamorou muito do que ele tinha lido. O Manifesto Comunista, ele escreveria depois, “foi escrito por homens inflamados pela paixão de justiça social.” Marx tinha levantado “questões básicas”, e “na medida em que ele apontou para as fraquezas do capitalismo tradicional, contribuiu para o crescimento de uma autoconsciência definida nas massas, e desafiou a consciência social das igrejas cristãs, respondi com um definitivo “sim”. Mais tarde, como estudante de doutorado na Universidade de Boston, King leu e admirava os escritos de Reinhold Neibuhr, que combinava a ética cristã com uma análise marxista da história e da sociedade, e cujo trabalho seminal, Homem Moral e Sociedade Imoral, teve um impacto profundo e contínuo sobre ele. O ponto de vista radical de King enquanto estudante não agradou seu pai conservador: como ‘Papai’ King mais tarde escreveu: ‘‘politicamente, ele… eu senti muito fortemente que ele parecia estar se afastando das bases do capitalismo e a democracia ocidental. Houve algumas discussões afiadas. Eu posso até ter levantado minha voz algumas vezes.” [4]

Em dezembro de 1955, King foi colocado em uma posição de liderança que ele não estava atrás nem queria. Eleito para servir como presidente da Associação de Melhoria de Montgomery, um grupo formado para boicotar os ônibus segregados em Montgomery, Alabama, King logo se tornou internacionalmente reconhecido como um símbolo do emergente movimento pelos direitos civis. Quando os clérigos negros que estavam espelhados ao longo do Sul dos EUA se encontraram para formar uma nova organização pelos direitos civis, a Conferência de Liderança Cristã do Sul (SCLC, sigla em inglês para Southern Christian Leadership Conference), escolheu automaticamente o King para agir como presidente. Interessantemente, eles decidiram incluir a palavra “Cristã” no seu nome em parte para se desviarem da alegação de serem uma organização “Vermelha” (Comunista).

No entanto, os três nova-iorquinos – dois negros e um branco – que organizaram a SCLC ao lado de King estavam todos firmemente à esquerda. Bayard Rustin, Ella Baker e Stanley Levison eram muito mais velhos que King; seu envolvimento político remonta aos anos 1930. Rustin se juntou à Liga da Juventude Comunista antes da guerra, mas, como tantos outros, rompeu com o partido por sua subserviência a Moscou. Posteriormente trabalhou para várias organizações pacifistas e ajudou a organizar a primeira marcha de Londres-a-Aldermaston contra armas nucleares. Ele também tentou, sem muito sucesso, popularizar a desobediência civil de Gandhi como meio de combater a discriminação racial. Ele permaneceu um socialista, no entanto, e tinha o objetivo de a longo prazo mover os negros para um movimento trabalhista radicalizado. Ella Baker não tinha o interesse de Rustin pelo pacifismo, mas, por outro lado, andava também no mesmo meio político. “Eu tinha sido amiga de pessoas que estavam no Partido Comunista e de todas as outras forças da esquerda”, ela recordaria. A lealdade política de Levison era mais ambígua. Ostensivamente um democrata liberal, ele atuara em grupos como o Comitê de Empresários para a reeleição de Roosevelt (1944) e no Congresso Judaico Americano. Mas ele também estava próximo de membros de liderança do Partido Comunista e pode, no início dos anos 1950, oferecer-lhes assessoria e assistência financeira. Baker simplesmente lembrava que ele também “saíra da esquerda de Nova York”. Todos os três reconheceram que a desobediência civil em massa, especialmente no contexto do sul dos Estados Unidos, era uma tática que tinha um potencial de longo alcance. Animados pelo boicote aos ônibus de Montgomery – um protesto inteiramente espontâneo – eles ofereceram ajuda e conselhos inexperientes a King, e construíram a SCLC como um veículo para a ação das massas em todo o sul. Curiosamente, Baker logo se desentendeu com King porque, em parte, ela o considerava insuficientemente radical. Rustin e Levison, por outro lado, trabalharam com ele até sua morte em 1968, atuando como conselheiros não oficiais e organizadores de bastidores. [5]

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Bayard Rustin e Martin Luther King

Por causa da associação de King com esses dois, o FBI retratava King, de 1963 até a sua morte, ou como um consciente “companheiro de viagem” ou, na melhor das hipóteses, um ingênuo. Levison, o FBI afirmava, tinha uma influência particularmente subversiva: um homem que manipulava King para os interesses do Partido Comunista. Anos depois da morte de King, Levison, que era branco, atribuiu essa mentira para o movimento racista que o FBI travava contra o intelecto deste homem negro. “Nenhuma pessoa com o mínimo de senso… poderia concluir que um homem com a força de intelecto e a independência feroz que Martin King tinha poderia ser dominado por outra pessoa… E se houvesse alguma indicação de dominação nessa relação, a maior probabilidade seria a de que ele (King) me dominaria”. Levison arrecadou fundos para a SCLC, ajudou King com seus discursos e seus escritos, e proferiu alguns conselhos senso-comum que continuaram, nas palavras de David Garrow, “totalmente inócuos”. Rustin ajudava King de modo similar, e longe de ser um radical perigoso, ele começou a se mover vagarosamente para a direita, eventualmente, se ligando a corrente de Johson-Humprey do partido Democrata. [6]

Com sua visão mais pautada pela religião, King tendia a rejeitar uma ideologia política. Interessado primeiramente e principalmente no combate ao racismo, ele aceitava a assistência de quem fosse, de qualquer lugar. Quanto à sua equipe, tudo o que ele pedia, era que eles aceitassem a não-violência – como uma tática, se não uma filosofia – e estivessem totalmente comprometidos com o movimento pelos direitos civis. Em raras ocasiões, no entanto, ele sucumbiu à pressão política, e ele se distanciou de Rustin e Levison por um tempo por causa de seus supostos passados políticos “manchados”. No caso de Levison, a pressão veio da própria Casa Branca. Mais tarde, King se censurou pela covardia moral e restabeleceu um relacionamento próximo com ambos. “Não há nada a esconder”, disse ele a Levison. “E se alguém quiser fazer alguma coisa, deixe-os tentar.” Em 1965, King concluiu que o “anti-comunismo” fornecia um manto útil para a oposição ao progresso social. Ao fazer acusações contínuas sobre “infiltração comunista” do movimento dos direitos civis, ele acusou, J. Edgar Hoover auxiliou e incitou os “racistas do sul e o elemento de extrema-direita”. O radicalismo entre os negros cresceu da “impaciência da lentidão em que se estabelecia a justiça.” O medo da América do comunismo, ele concluiu, era “mórbido”, “irracional” e “obsessivo.” [7]

Até 1965, o radicalismo de King era mais intelectual que emocional. Ele tinha se aproximado da luta pela justiça racial por um caminho não-ideológico, esperando superar o preconceito e a discriminação por meio de um apelo ao idealismo e aos princípios cristãos. Talvez porque seus pais o tivessem protegido dos piores efeitos da opressão racial, ele via o racismo como um anacronismo sulista que, no curso de uma década ou duas, desapareceria e morreria. Depois disso, acreditava ele, os negros teriam que “trabalhar desesperadamente para melhorar suas próprias condições e seus próprios padrões”. . . . O negro terá que se envolver em uma espécie de Operação Boot-strap (se levantar sozinho). Em 1966, no entanto, ele rejeitou categoricamente a ideia de reforma gradual dentro da estrutura socioeconômica existente: uma redistribuição massiva de riqueza, não de auto-ajuda, era a necessidade mais urgente. [8]

MLK Poor Peoples Campaign Poster 1968
A campanha contra a pobreza que o líder pelos direitos civis iria apresentar perto do fim de sua vida.

Dois fatores aceleraram esse processo de radicalização: a percepção tardia de King, que entendeu que o racismo era endêmico na sociedade americana; e seu horror ao papel militar dos EUA no Vietnã. Quando ele tomou SCLC North, para Chicago, ele teve que abandonar sua suposição de que o racismo fora do Sul era um fenômeno residual secundário. Quando os negros exigiram o fim da discriminação na questão da moradia, da educação e dos empregos, o apoio branco ao movimento pelos direitos civis desapareceu. A brutalidade policial de rotina empurrou a frustração dos negros para o ponto de ebulição, mas o governo, federal e local, respondeu à erupção de tumultos com repressão, em vez de reforma da raiz e do ramo. No final de 1966, o otimismo de King havia sido destruído. Apenas “uma minoria de brancos”, ele escreveu, “genuinamente quer igualdade autêntica”. Para as audiências negras e para sua equipe, ele disse de maneira mais franca: “a grande maioria dos americanos brancos é racista”. [9]

Mais e mais, King viu o racismo como um instrumento para o privilégio de uma classe, um meio para dividir a classe trabalhadora ao dar aos brancos uma vantagem econômica marginal e encorajar suas pretensões psicológicas de superioridade. Ambos trabalhadores negros e brancos eram então mais facilmente explorados e tinham sua mão-de-obra barateadas. Com seu grande aliado James Bevel, King viu os guetos negros como “colônias internas”, um mercado segregado onde bens e serviços eram deliberadamente restringidos em ordem para o aumento do lucro dos capitalistas que proviam eles. Em um retiro da SCLC em novembro de 1966, ele avisou que exigir o fim do gueto significava “entrar em terreno perigoso porque você está mexendo com gente então. Você está mexendo com Wall Street. Você está mexendo com os capitães da indústria ‘. Ele disse a seu pessoal para não ter medo da palavra “socialismo”, pois “algo está errado com o capitalismo” e “o Movimento deve se dirigir à reestruturação de toda a sociedade americana”. A Suécia, ele apontou, tinha “lutado com o problema da distribuição mais equitativa da riqueza”; tinha cuidados de saúde gratuitos, sem favelas, pobreza ou desemprego. O racismo institucional só poderia ser eliminado através de uma redistribuição radical do poder econômico; ‘grupos privilegiados terão que desistir de alguns dos seus bilhões’. Os Estados Unidos, também argumentou, “deve avançar em direção ao socialismo democrático”. [10]

A guerra no Vietnã reforçou o desencanto de King com o capitalismo americano. Sua oposição à guerra tem sido frequentemente interpretada como uma preocupação puramente moral, uma expressão de seu compromisso dogmático com a não-violência. Não é assim: ele não assumiu uma posição politicamente agnóstica, mas condenou categoricamente os Estados Unidos como o agressor. De tempos em tempos ele insistiu que Ho Chi Minh estava liderando uma revolta nacionalista popular contra uma ditadura corrupta, e que os Estados Unidos estavam do lado errado. Novamente, King expressou suas opiniões de forma mais aberta e franca para suas audiências negras, para amigos e para seus próprios auxiliadores. Durante um retiro da SCLC em maio de 1967, ele deixou sua equipe sem dúvidas sobre sua admiração por Ho Chi Minh – nem seu desprezo pelos governantes do Vietnã do Sul. Desdenhou com força a noção de que o sul estava sendo “invadido” pelo norte: “o Vietcongue surgiu no sul como um movimento para resistir à opressão de Diem”. Além disso, argumentava ele, a divisão do Vietnã fora imposta de fora: “Como alguém pode se invadir? Quando a América apoiou o sul, foi “como se os franceses e os britânicos tivessem vindo aqui durante a guerra de Civil para lutar com a Confederação”. Falando a uma conferência de ministros negros patrocinada pelo SCLC no início de 1968, ele citou a recente ofensiva do Tet como prova conclusiva de que “a grande maioria das pessoas no Vietnã é simpática com os vietcongues. Isso é um fato.” [11]

King não via o envolvimento dos EUA no Vietnam como uma aberração isolada, mas sim como uma parte de um amplo “padrão de supressão” que abraçava a África e a América Latina, em adição ao Sudeste Asiático. A América deu apoio aos regimes racistas na África do Sul e na Rodésia; As armas e o pessoal americano ajudaram a combater rebeldes e guerrilheiros na Venezuela, Guatemala, Colômbia e Peru. Por que, perguntou ele, as “nações ocidentais que iniciaram grande parte do espírito revolucionário do mundo moderno” se tornaram “os antirrevolucionários arcaicos” do século XX? Em última análise, acreditava ele, a resposta estava na própria natureza do capitalismo ocidental: “capitalistas individuais do Ocidente” investiram “enormes somas de dinheiro na Ásia, na África e na América do Sul, apenas para tirar os lucros sem se preocupar com o desenvolvimento social dos países; os cartéis das multinacionais despojaram nações subdesenvolvidas de seus recursos “enquanto entregavam um pequeno desconto a alguns membros de uma aristocracia corrupta”. A liberdade histórica concedida ao capital nos Estados Unidos tornara o governo o servidor do lucro privado:

Uma nação que irá manter pessoas na escravidão por 244 anos irá “coisificar” elas, fazer dela objetos. Logo, irá explorar elas, e as pessoas pobres geralmente, economicamente. E uma nação que explora economicamente terá que ter investimentos estrangeiros… e irá utilizar sua força militar para proteger eles.

Essa necessidade para manter a estabilidade social para os nossos investimentos explicou a aliança com as novas ditaduras na América Latina; o suporte dado a regimes coloniais e colonizadores na África; e o financiamento de ditadores fantoches no Sudeste Asiático. Os Estados Unidos se tornaram o maior poder neo-colonial. [12]

Durante os dois últimos anos de sua vida, King se tornou convencido que o capitalismo era o denominador comum que ligava o racismo, a exploração econômica e o militarismo. Esses “três males” da era moderna eram “incapazes de serem derrubados” enquanto os “objetivos que visam o lucro e os direitos de propriedade são considerados mais importantes que as pessoas”. Se a hostilidade ao capitalismo coloriu seus escritos e discursos tão fortemente, ele poderia, então, ser descrito como um “marxista”? Em particular, King prontamente reconheceu sua dívida intelectual com Marx e elogiou sua crítica ao capitalismo. No entanto, ele sempre juntou esse elogio com qualificações. King, ecoando as definições convencionais da época, associava o marxismo à rejeição de valores espirituais, a um determinismo econômico superficial e à supremacia absoluta do Estado. Tudo isso ele rejeitava enfaticamente. Ele sintetizou seus sentimentos sobre Marx, tanto positivos quanto negativos, em uma conversa com o pessoal da SCLC em 1966:

Eu sempre olhei para Marx com um sim e com um não. E tinham algumas coisas que Karl Marx fez que foram muito boas, Algumas coisas muito boas. Se você ler ele, você poderá ver que este homem tinha uma grande paixão pela justiça social… [Porém] Karl Marx acabou se complicando, primeiro porque ele não continuou com o Jesus que ele tinha lido sobre; mas em segundo porque ele não ficou nem com o aprendizado de Hegel.

Como sempre, King foi então falar sobre jesus como sua inspiração primária:

Agora é quando eu saio do irmão Marx e me movo para o Reino (da Irmandade)… Eu estou simplesmente dizendo que Deus nunca intendia para que alguns de seus filhos vivessem em uma vida de extrema abundância e riqueza enquanto outros viviam e uma pobreza decadente e mortífera.

Que King teria dito “Eu sou marxista”, sem essas qualificações e em termos tão incisivos, é, na opinião desses escritor, dificilmente real ao extremo. Sua hostilidade ao materialismo excessivo, e sua preocupação pelos pobres e pelos oprimidos, deviam mais de sua inspiração ao Gospel Social do que a ideologia marxista. [13]

Independentemente das influências que ajudaram a moldar sua análise política, King não escondeu sua oposição radical ao capitalismo americano. “Por anos”, disse ele a um repórter, “trabalhei com a ideia de reformar as instituições existentes da sociedade, uma pequena mudança aqui, uma pequena mudança ali. Agora me sinto bem diferente. Acho que você precisa reconstruir toda a sociedade. Ele não defendeu abertamente o “socialismo”, mas falou em vez de uma “síntese” entre capitalismo e comunismo; uma “democracia socialmente consciente que reconcilia as verdades do individualismo e do coletivismo”. Como ele admitiu em particular, no entanto, tais definições eram realmente eufemismos para o socialismo democrático. Em público, o melhor que ele poderia esperar era encorajar questionamentos e dúvidas. ‘Por que há 40 milhões de pessoas pobres na América?’ Ele perguntou na convenção do SCLC em agosto de 1967:

Quando você começa a fazer essa pergunta, você está levantando questões sobre o sistema econômico, sobre uma distribuição mais ampla da riqueza. Quando você faz essa pergunta, você começa a questionar a economia capitalista. E eu estou simplesmente economizando isso mais e mais, nós temos que começar a fazer perguntas sobre toda a sociedade. Somos chamados a ajudar os mendigos desanimados no mercado da vida. Mas um dia devemos ver que um edifício que produz mendigos precisa ser reestruturado… Você vê, meus amigos, quando você lida com isso, você começa a fazer a pergunta: ‘Quem é dono do óleo?’ Você começa a fazer a pergunta: “Quem é dono do minério de ferro?.” [14]

King claramente achou a lacuna entre seu próprio radicalismo crescente e a falta de sofisticação política de seus seguidores frustrante. Ele esperava que os clérigos negros pudessem, por meio de educação e treinamento, ser orientados para seus próprios valores radicais, capacitando-os a ocupar a vanguarda em uma luta por justiça econômica, assim como estiveram na linha de frente do movimento dos direitos civis no sul. “Precisamos desenvolver sua psique”, disse ele em uma reunião de planejamento do Programa de Treinamento em Liderança de Ministros da SCLC. “Algo está errado com o capitalismo, como agora está nos Estados Unidos. Nos não estamos interessados em ser integrados nessa estrutura com esse valor… uma redistribuição radical de poder precisa ser feita.” Como Louis Lomax escreveu, essa visão da clerezia, era talvez, “o sonho mais impalpável que ele já teve”. [15]

No final de 1967, King acreditava ter encontrado uma alternativa mais viável; uma aliança inter-racial dos pobres. Seu último grande projeto, a “Campanha dos Pobres”, foi uma tentativa de traduzir esse conceito em realidade política. A América, argumentou ele, já tinha “socialismo para os ricos”; Se o governo pudesse distribuir subsídios maciços a agricultores afluentes, corporações gigantescas e indivíduos ricos, então poderia garantir empregos e uma renda decente para todos. Ele não definiu seu objetivo como “socialismo”; em vez disso, ele chamou de “poder do povo pobre”. King propôs conduzir milhares de pobres a Washington, onde, se necessário, eles se envolveriam em desobediência civil em massa para estimular a ação do governo. “Vamos nos confrontar com o próprio governo e com a máquina federal que muitas vezes vem em nossa ajuda”, alertou sua equipe. Muitos antigos aliados e apoiadores ficaram horrorizados com o plano. Seu velho amigo Bayard Rustin se opôs publicamente a isso. Até mesmo colegas do SCLC tiveram sérias dúvidas. King, no entanto, mostrou toda a intenção de ir em frente. Em meio aos preparativos para a campanha, ele foi a Memphis para apoiar os trabalhadores de saneamento em sua luta pelo reconhecimento dos sindicatos. “Em certo sentido”, disse King a um repórter pouco antes de seu assassinato, “você poderia dizer que estamos engajados na luta de classes, sim.” [16]


Referências

[1] August Meier, ‘On The Role of Martin Luther King’, in Melvin Drimmer (ed.) Black History: A Reappraisal, Garden City, NY, 1968, p. 444; L. D. Reddick, Crusader Without Violence, NY 1959, p. 233. On King’s admiration for Washington, and his praise of thrift and self-help, see Martin Luther King, Jr., Stride Toward Freedom, London, 1959, p. 213; Robert Penn Warren, Who Speaks for the Negro? NY, 1966, pp. 209-10; ‘An Interview With Martin Luther King’, Playboy, January 1965, p. 76. Reddick also wrote, however, that Mam did have an appeal for King – ‘his dialectic, his critique of monopoly capitalism, and his regard for social and economic justice’ (Reddick, p. 22).

[2] ‘Testimony of Charles D. Brennan’, in U.S. Congress, House, Select Commission on Assassinations, Martin Luther King, Jr.: Hearings, 95th Cong., 2d sess., vol. VI, p. 346; David J. Garrow, The FBI and Martin Luther King, Jr., New York, 1981. For briefer summaries of the FBI’s anti-King campaign, see Mark Lane and Dick Gregory, Code Name ‘Zorro:’ The Murder of Martin Luther King, Jr., Englewood Cliffs, NJ, 1977, pp. 60-111; U.S. Congress, Senate, Select Committee to Study Governmental Operations With Respect to Intelligence Activities, Final Report: Book III, 94th Cong., 2d sess., 1976; Report of the House Select Committee on Assassinations: Findings and Recommendations, 95th Cong., 2d sess., March 29, 1979, pp. 432-39.

[3] The SCLC records, which extend to more than 140 linear feet, were opened to researchers in the summer of 1981, in Atlanta, Georgia.

[4] King, Stride Toward Freedom, pp. 86-93; ‘How Should a Christian View Communism?’ in King, Strength To Love, New York, 1963, pp. 114-23; Martin Luther King, Sr., with Clayton Riley, Daddy King: An Autobiography, New York, 1980, pp. 141-42; Garrow, p. 213. King’s widow recalled Martin saying, when still a student, that while ‘I could never be a Communist’, he could not be a ‘thoroughgoing capitalist’ either; ‘I think a society based on making all the money you can and ignoring other people’s needs is wrong’: see Coretta Scott King, My Life with Martin Luther King, Jr., New York 1969, p. 71. In a 1959 speech, King cited Marx (along with Jesus, Einstein and Freud) as outstanding examples of men who creatively used their intellectual and moral freedom; see ‘Address at Meeting of Mississippi Christian Leadership Conference’, 23 September 1959, hand-written manuscript, King Papers, Boston University, file drawer XI, folder8 (collection hereafter cited as BU). In writing Stride Toward Freedom, King resisted suggestions from his editors at Harper and Row that he tone down his criticisms of American capitalism; see Stephen B. Oates, Let The Trumpet Sound: The Life of Martin Luther King, Jr., London, 1982, p. 131.

[5] Ella J. Baker (John H. Britton interview, 19 June, 1968). Civil Rights Documentation Project, Mooiiand-Springarn Research Center, Howard University, pp. l6-23 (collection hereafter cited as HU); Stanley D. Levison (James Mosby interview, 14 February 1970), HU, pp. 16-17; Don Oberdorfer, ‘King adviser says FBI “used” him’, Washington Post, 15 December 1975; Milton Viorst, Fire In The Streets: America in the 1960s, New York, 1979, pp. 119-23, 200-11; Thomas R. Brooks ‘A Strategist Without a Movement’, in August Meier and Elliott Rudwick (eds.), Black Protest In the Sixties, Chicago 1970, pp. 339-41.

[6] Victor Navasky, Kennedy Justice, New York, 1971, pp. 141-49; Garrow, pp. 44-77 and passim; Roger Wilkins, ‘ “King” Disappoints NBC and Some Civil Rights Leaders’. New York Times, 19 February 1978, III, p. 19. FBI memos concerning Levison’s alleged influence over King were legion; for a sample of the more important ones (although Levison’s name is deleted), see House Select Committee on Assassinations, King: Hearings, vol. VI, pp. 131, 143-44, 187, 263-64. Only days before King’s death, the FBI prepared a request to reinstall wiretaps in the SCLC offices, citing Levison as the reason. Levison had been the pretext for installing taps on King’s own phone, as well as SCLC’s offices in Atlanta and New York, in 1963. Unlike Rustin, Levison encouraged King to speak out against the Vietnam war; the evidence that he worked for the Communist Party, however, or succeeded in establishing an irresistible influence over King, is completely absent. Yet in 1978 one of Hoover’s top assistants still insisted that King, by virtue of his friendship with Levison, was a Communist; see ‘Testimony of Cartha D. De Loach’, Assassinations Committee, King Hearings, VII, p. 49.

[7] Navasky, pp. 141-46; M. S. Handler, ‘Negro Rally Aide Rebuts Senator’, New York Times, 16 August 1963, p. 10; ‘Dr. King Hits Communist Charges in Stanford Speech’, SCLC press release, 23 April 1964, SCLC collection, Martin Luther King, Jr. Centre for Nonviolent Social Change, Atlanta (collection hereafter cited as SCLC); King, handwritten notes, n.d. [late March/early April 1965] King papers, King Center; ‘Joint statement of Rev. Dr. Martin Luther King, Jr. . . . and John Lewis’, 30 April 1965, SCLC, box 27, folder 55; James Forman, The Making of Black Revolutionaries, New York, 1972, pp. 367-69; King, Where Do We Go From Here: Chaos or Community! New York, 1968, p. 211 (hereafter cited as Where!); ‘Honoring Dr. Du Bois,’ Freedomways, second quarter 1968, p. 109.

[8] King, ‘No More Room in the Negro’s Soul’, Honolulu Advertiser, 20 February 1964; Warren, pp. 209-10. Stanley Levison, on the other hand, believed that King’s affluent background accentuated his concern for the poor and underprivileged: ‘Martin was always aware that he was privileged . . . and this troubled him. He felt that he didn’t deserve this. One reason he was so determined to be of service was to justify the privileged position he’d been born into’; see Jean Stein and George Plimpton, American Journey: The Times of Robert Kennedy, New York, 1970, pp. 108-9.

[9] King, Where?, p. 13; ‘Dr. King’s speech, Frogmore, November 14, 1966’, SCLC, 28, 26, pp. 5-6; speech to voter registration rally, Louisville, Kentucky, 2 August 1967, pp. 1-3; ‘America’s Chief Moral Dilemma’, speech to Hungry Club, Atlanta, 5 October 1967, pp. 4-5, King Papers.

[10] ‘Dr. King’s speech, Frogmore’, pp. 14-20; King interview by John Herbers, New York Times, 2 April 1967, pp. 1, 76. King first referred to ‘internal colonialism’ in ‘The Chicago Plan’, 7 January 1966, SCLC press release. Earlier hints of a class analysis of racism could be seen in King, Why We Can’t Wait, New York, 1964, p. 138; and in the famous speech King delivered after the Selma-to-Montgomery march in 1965; see ‘Selma to Montgomery speech’, 25 March 1965, TLS, SCLC, 27, 54.

[11] King, ‘Beyond Vietnam’, speech to Clergy and Laymen Concerned About Vietnam, Riverside Church, New York City, 4 April 1967, SCLC recording, Atlanta (reprinted in Freedomways, Spring 1967); ‘Conscience and the Vietnam War’, The Trumpet of Conscience, New York, 1968, pp. 21-34; ‘Speech at staff retreat, Frogmore, SC, May 1967, pp. 10-20; ‘America’s Chief Moral Dilemma’, 5 October 1967, pp. 8-12, King Papers; ‘Speech to Ministers Leadership Training ProgTam’, 18 February 1968, TLS, p. 17, SCLC, 28, 51. See also King’s comments about the lack of popular support for the government of South Vietnam, and his scathing remarks about the performance of the South Vietnamese army, in ‘The Domestic Impact of the War in Vietnam’, speech to National Labor Leadership Assembly for Peace, Chicago, 11 November 1967, SCLC recording. Many of King’s speeches on Vietnam were drafted by Stanley Levison.

[12] King, Where?, pp. 202-19; ‘Beyond Vietnam’, Current, May 1967, p. 38; ‘President’s Address to the Tenth Anniversary Convention of the Southern Christian Leadership Conference’, 16 August 1967, reprinted in Wayne L. Brockriede and Robert L. Scott (eds.), The Rhetoric of Black Power, New York, 1971, p. 163; “The Casualties of the War in Vietnam’, speech at the Nation Institute, Los Angeles, 25 February 1967, King Papers, pp. 5-7; ‘Dr. King Advocates Vietnam’, New York rimes, 26 February 1967, pp. 1, 10. In ‘Honoring Dr. Du Bois’, delivered at Carnegie Hall, New York, on 23 February 1968, King spoke of ‘our brother of the Third World’ being ‘the victim of imperialist exploitation’; see Freedomways, second quarter, 1968, pp. 110-11.

[13] King, Where?, p. 216; ‘Dr. King’s speech: Frogmore, November 14, 1966’, pp. 20- 21, 29; ‘What Is Man?’ in Strength To Love, p. 109. The fullest discussion of King’s thought from a theological point of view is Kenneth L. Smith and Ira G. Zepp, Search for the Beloved Community: The Thinking of Martin Luther King, Jr. Valley Forge, Pa., 1974. David Garrow, on the other hand, believes that King, in certain narrow contexts, might have stated ‘I am a Marxist’ in private conversation (Garrow, p. 213; and correspondence with this writer, 2 February 1982).

[14] David Halberstara, ‘The Second Coming of Martin Luther King’, Harper’s, August 1967, pp. 47-48; King, Where? p. 217; ‘President’s Address’, 16 August 1967, in Brockriede and Scott, pp. 161-62. The ‘synthesis’ idea appeared in his earliest published writings, but it was only in 1965 and after that he began equating this nebulous concept with democratic socialism of the Swedish model.

[15] Minutes of national advisory committee, SCLC training program, 24 November 1967, p. 6, SCLC, 48, 11; Louis Lomax, ‘When “Nonviolence” Meets “Black Power”.’ in C. Eric Lincoln (ed.), Martin Luther King, Jr.: A Profile, New York, 1970, p. 172; ‘King Aide Seeks to Organize Negro Ministers in 15 Cities’, Atlanta Constitution, 23 January 1968, p. 6. The programme was financed by the Ford Foundation. The FBI ‘briefed’ the Vice President of the Ford Motor Company ‘as to the subversive backgrounds of King’s principal advisers’ in an unsuccessful attempt to stop the grant; see G. C. Moore to W. C. Sullivan, 29 November 1967, in Assassinations Committee, King Hearings, VI, pp. 277-78.

[16] King, ‘Speech to Mississippi Leaders on the Washington Campaign’, 15 February 1968, p. 6; King Papers; ‘A Proper Sense of Priorities’, speech to Clergy and Laymen Concerned About Vietnam, 6 February 1968, SCLC recording; ‘Nonviolence and Social Change’, The Trumpet of Conscience, pp. 53-64; ‘Showdown for Nonviolence’, Look, 16 April 1968, pp. 23-35; ‘Why We Must Go To Washington’, talk to SCLC staff meeting, Atlanta, 15 January 1968, pp. 11-17, King papers. For opposition to the Poor People’s Campaign from two of King’s close friends and advisers, see Marian Logan to King, 8 March 1968, TLS memo, SCLC, 40, 3; and Bayard Rustin, ‘Memo on the Spring Protest in Washington, D.C, January 1968, in Bayard Rustin, Down The Line: The Collected Writings of Bayard Rustin, (Chicago 1971), pp. 202-5. For opposition from some of King’s top aides, notably James Bevel and Jesse Jackson, see minutes of executive staff meeting, 27 December 1967, pp. 8-9, SCLC, 49, 13.

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