Marighella, Racismo e o Caso da Baronesa

Matéria originalmente publicada no jornal Tribuna Popular.

27 de dezembro de 1947.

Transcrição por Andrey Santiago

Em 1947, o vice-presidente da Câmara de Deputados, Altamirando Requião (Partido Social Trabalhista – BA) levou uma mulher para uma viagem privada com um carro do Estado sem avisar ninguém, quando descoberto, atacou a todos que questionaram o acontecimento. Em determinado momento, o deputado profere um ataque racista a Carlos Marighella pela cor de sua pele, em seguida é confrontado pelo comunista do PCB.


O Caso da Baronesa

“Não temo escândalos”, exclama o sr. Requião – uma conspiração misteriosa, racismo e o caso do dominó preto – afinal, onde ficou a “baronesa”?

O sr. Altamirando Requião é um cidadão que fala difícil, com palavras que pouca gente entende. Seu mau gosto literário vem do principio do século. Magro, pálido, vaidoso, escondendo a idade sob a pele escorregadia, muda de partido como quem muda de camisa. Suas ideias políticas são estas: estar sempre com o governo, colocar-se sempre no lado da reação. Na Bahia, dirigia um jornal que vendeu aos nazistas, e seus artigos eram feitos com um dicionário ao lado… Não gosta que relembre seu titulo de professor primário, o que, aliás, deveria ser honroso.

De sua “defesa” apenas vamos registrar alguns aspectos.

Logo de início, disse que não temia escândalos, e que ainda não era de distribuir responsabilidades… Estava ali, na tribuna, para denunciar a “conspiração” que se fizera contra ele. Tal conspiração vinha de longe. Pois um ilustre democrata (não citou o nome) chegou até a dizer-lhe que ele havia assaltado a vice-presidência da Câmara, a “curul presidencial”.

Diante da denuncia da “conspiração”, os deputados deixaram as cadeiras e foram para perto do microfone. O sr. Carlos Marighella, em aparte, pergunta se a “Baronesa” já se acha no Rio. O sr. Requião, reacionário, racista, responde, como se estivesse na Alemanha hitlerista:

– Não permito que elementos de cor, como Vossa Excelência, se intrometam no meu discurso.

E cuspiu calunias antidemocráticas contra os comunistas. O sr. Carlos Marighella responde que a Nação ficará estarrecida diante das palavras do orador, e protesta veementemente contra o racismo fascista e anti-brasileiro do cassador Requião. Este fica ainda mais pálido e possesso. Insiste que há contra ele uma conspiração, que o atacaram pelas costas.

O sr. Soares Filho, aparteia, chamando a atenção do orador para o fato de que as acusações partidas contra ele, no caso da “Baronesa”, foram, de primeiro, de deputados não comunistas. O sr. Requião ataca todo mundo, faz graves alusões aos deputados em geral, porta-se com muita “dignidade”, demonstra ser um racista, não gostar de negros, esquecido, talvez, de que, na Bhia, no dia em que sua mãe faleceu, foi a um baile de carnaval, vestindo um dominó preto. O homem do dominó preto – é como lhe chamam na Bahia.

Diante da agressividade do orador, vários deputados responderam energicamente aos seus ataques. Os srs. Osmar d’Aquino, Antonio Maria Correa, Segadas Viana, José Candido Ferraz e outros gritaram estas verdades:

– Vossa Excelência é um trânsfuga! Vossa Excelência não tem honorabilidade, levou mesmo o automóvel! Vossa Excelência, talvez, ache que tem direito a levar até mesas, cadeiras e outras coisas, somente porque é vice-presidente da Câmara!

O sr. Requião afirma que não tinha que comunica a Mesa que iria viajar com a “Baronesa”, pois não é lacaio da Mesa.

O sr. Segundas Viana responde:

– Se um funcionário da Câmara levasse a “Baronesa” estaria sendo processado!”

O sr. Altamirando diz que tem representação política, mas é preciso manter sua representação social. Esta, sem automóvel não é possível. Cada vez mais se afunda, cai no ridículo, a Câmara se divide em dois campos: os que ruim e os que dão apartes, indignados.

Por fim, desce da tribuna. Cita a “Nova Floresta”, do padre Manuel Bernardes, onde é descrito um milagre. E comparando-se ao santo milagroso diz:

– Vou percorrer as águas do oceano! [1]

– De automóvel? – pergunta o sr. Carlos Marighella.

Três Perguntas

O sr. Carlos Marighella fez um requerimento a Mesa da Camara renovando seu anterior pedido de informações sobre o caso da “Baronesa”. Queria saber: a) onde se encontrava a “Baronesa”; b) se já estivesse no Rio, como tinha vindo; por via marítima ou por estrada de rodagem; c) em que estado de conservação se encontrava.

O presidente, no momento o sr. José Augusto, respondeu que não tinha dados para informar ao sr. Carlos Marighella. Teria, assim, que encaminhar o requerimento a Secretaria.

O sr. Carlos Marighela, durante o discurso do sr. Requião, insistiu inúmeras vezes com este para que dissesse onde se encontrava a “Baronesa”. Tudo em vão. O orador ficava possesso quando se tocava no já famoso automóvel.

[1] Nota da Transcrição: no original está escrito “Singrararei as águas do oceano”, o termo foi modificado levemente para mais fácil entendimento atual.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close