Como a CIA aprendeu a dançar

Jeet Heer para o site The Nation


James Jesus Angleton, chefe da contra-espionagem da CIA de 1954 a 1975, foi apelidado de “o Poeta”. Antes de ser espião, ele tinha aspirações literárias. Ainda na graduação em Yale, ele escreveu versos e, de forma mais impressionante, coeditou o jornal literário Furioso, que publicou poetas como E.E. Cummings, Ezra Pound e William Carlos Williams.

Angleton era um esteta que se tornou algoz. As duas facetas de sua personalidade se combinaram de maneiras perturbadoras. A sensibilidade literária de Angleton foi nutrida na leitura atenta ensinada pela Neocrítica, com o clássico Seven Types of Ambiguity (1930) de William Empson sendo uma influência especialmente formativa. Empson ensinou a Angleton que nenhuma linha de poesia tinha somente um significado e que o trabalho do leitor era espremer toda a ambiguidade e implicação oculta. Angleton aplicou de forma notável essa metodologia ao interrogatório de desertores soviéticos, nunca tomando suas palavras como verdadeiras de cara, mas constantemente os pressionando a revelar suas intenções secretas, sempre postulando que eles poderiam ser agentes duplos e, às vezes, torturando-os.

Por mais estranho que possa parecer, essa dificilmente foi a única vez que o alto modernismo foi usado para a espionagem. Em suas primeiras décadas, a CIA foi comandada por acadêmicos das universidades da Ivy League. O protegido de Angelton, Cord Meyer, costumava contratar críticos literários da The Kenyon Review, um veículo da Neocrítica, para trabalhar como espiões.

A CIA não tinha só uma ideologia, mas também uma estética. A Guerra Fria foi uma luta cultural e também política. Para demonstrar a superioridade da civilização ocidental e, particularmente, para conquistar intelectuais europeus vacilantes que poderiam ser atraídos pelo comunismo, a agência financiou revistas literárias como a Paris Review – o editor-fundador Peter Matthiesson estava na folha de pagamento da CIA como espião – e patrocinou exibições de Expressionismo abstrato. No fim da década de 1970, o jornalista Richard Elman pesquisou “a estética da CIA” e encontrou documentos que mostravam que a agência considerava seriamente a sugestão de que “Quatro Quartetos de T.S. Eliot fossem traduzidos para o russo e lançados de avião por toda a União Soviética”.

A Guerra Fria cultural foi precursora da corrida espacial. Em ambas as competições, a generosidade do governo foi levada a cabo para mostrar que a América podia superar os vermelhos. Para provar que a América era tão sofisticada quanto seus companheiros de viagem como Jean-Paul Sartre e Pablo Picasso, a CIA abraçou uma arte difícil e experimental. No mesmo espírito, a NASA enviou astronautas à Lua para acabar com a humilhação do Sputnik.

Porém, havia um campo criativo em que a CIA era mais populista: a música. Como o historiador Hugh Wilford observou em seu estudo de 2008, The Mighty Wurlitzer: How the CIA Played America, “ainda assim, surpreendentemente, a CIA parecia relutante em estender seu patrocínio a compositores musicais vanguardistas, experimentais e ‘serialistas’ da América, como Milton Babbitt e John Cage, que compartilhavam muitas das mesmas ideias estéticas e, na verdade, colaboravam frequentemente com expressionistas abstratos”.

Em vez disso, a agência, mesmo na década de 1950, pensava que a força musical da América residia na produção popular. Em 1955, Frank Wisner, então vice-diretor de planos, rejeitou a ideia de enviar o New York Ballet a Moscou. “Nossas apresentações iniciais para o público soviético devem ter como objetivo o apelo de massa”, argumentou Wisner. Ele queria uma música que fosse “expressiva de nosso folclore ou inconfundivelmente típica dos EUA”. Wisner estava particularmente interessado em obras de “artistas negros” que mostrassem sua “capacidade” e “as oportunidades que eles têm na vida artística dos EUA”. Ele acreditava que o “jazz americano de primeira classe serviria para mostrar a amplitude e vitalidade da musicalidade americana”.

O entusiasmo de Wisner pelo jazz é a chave do motivo pelo qual a CIA abraçou a cultura popular na música, ainda que continuasse bem mais pretensiosa na literatura e na pintura. A CIA estava bem ciente de que a União Soviética despertava a atenção para o racismo americano. Esse foi um ponto particularmente vulnerável na competição por apoio entre as nações em descolonização da África e da Ásia. O jazz e a música popular em geral seriam a maneira de mostrar que a América não era racista.

A história do amor da CIA pela música popular é atualizada em um podcast esplêndido chamado Wind of Change, do jornalista nova-iorquino Patrick Radden Keefe. Na série de oito episódios, Keefe investiga o boato de que agentes da CIA compuseram a balada “Wind of Change”, apresentada pela primeira vez em 1989 pelo grupo alemão de heavy metal Scorpions e lançada no ano seguinte. A música foi um grande sucesso em ambos os lados da Cortina de Ferro em 1990, tornando-se uma espécie de hino não-oficial pelo fim do comunismo.

O podcast é muito mais uma história de detetive e, como todos os whodunits, merece ser deixado livre de spoilers. Entretanto, um de seus pontos fortes é que Keefe insere sua investigação totalmente no contexto da história do patrocínio das artes pela CIA.

No terceiro episódio, há uma discussão sobre a relação conturbada que esse patrocínio tinha com músicos negros. Em 1955, o The New York Times escreveu: “A arma secreta da América é uma nota azul em tom menor. No momento, seu embaixador mais eficaz é Louis (Satchmo) Armstrong”. No entanto, Armstrong era um embaixador relutante, desconfortável em fazer propaganda para a América do Jim Crow. Ele participou de excursões pelo Departamento de Estado, mas continuou a se manifestar contra o racismo.

No caso de Nina Simone, a CIA recorreu a um truque. Como Wilford descobriu, Simone foi enviada em uma viagem à Nigéria em 1961 pela Sociedade Americana de Cultura Africana, uma organização de fachada da CIA. Conforme observa Keefe, “uma coisa é o governo pressionar Louis Armstrong para viajar à África em uma missão de propaganda e fazê-lo ir com relutância, mas conscientemente. É uma coisa muito diferente enviar secretamente um artista com pretextos falsos. E Nina Simone não era patriota. Ela acabou renunciando aos EUA e morando no exterior. Ela apelidou o país de ‘Serpentes Unidas da América’”.

Um dos grandes méritos de Wind of Change é que confronta diretamente o que é moralmente preocupante sobre o financiamento de arte por agências de espionagem. Indiscutivelmente, o patrocínio da CIA foi um de seus feitos mais defensáveis, certamente preferível a fomentar golpes ou assassinar líderes estrangeiros. Contudo, mesmo assim, envolveu uma corrupção da arte.

Como observa Keefe, “pensamos na cultura – ou queremos pensar na cultura – como orgânica e espontânea, mais pura do que a política. Nina Simone claramente era isso. Ela sentiu uma conexão profunda com as pessoas que conheceu na Nigéria. Portanto, é, de fato, perturbador saber que a mão oculta do governo estava em ação. É uma sensação de desapropriação, como se alguém tivesse roubado seu bolso”.

Outra virtude do podcast é que ele recupera a ideia de ambiguidade, roubando-a de James Jesus Angleton. Se Angleton corrompeu a ambiguidade ao transformá-la em uma justificativa para a tortura, Keefe mostra que, quando a ambiguidade é utilizada de maneira adequada, é uma ferramenta essencial para análise moral. No decorrer da série, cada evidência, cada novo testemunho ou descoberta histórica, é examinado por seu conteúdo implícito ou possível falsidade. O resultado final não é a escuridão de Angleton, mas a iluminação que vem da confrontação honesto com os limites do conhecimento.

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