José Carlos Mariátegui – Zinoviev e a Terceira Internacional

Originalmente publicado em 1925, no livro La Escena Contemporanea.

Texto traduzido de Política Revolucionaria contribución a la crítica socialista: la escena contemporânea y otros escritos Tomo 1. Caracas: Fundación Editorial El perro y la rana, 2010.

Tradução por Ian Cartaxo.


Periodicamente, um discurso ou uma carta de Gregorio Zinoviev enlouquece a burguesia. Quando Zinoviev não escreve nenhuma proclamação, os burgueses, nostálgicos da sua prosa, se encarregam de inventar alguma. As proclamações de Zinoviev correm o mundo deixando para trás um despertar de terror e pavor. É tão seguro o poder explosivo desses documentos que foi empregado na última campanha eleitoral britânica. Os adversários do trabalhismo descobriram, na véspera das eleições, uma esplêndida comunicação de Zinoviev. E a usaram, de forma sensacionalista, como um estimulo da vontade combativa da burguesia. Que burguês pacífico e honesto não iria se horrorizar com a possibilidade de que Mac Donald continuasse no poder? Mac Donald pretendia que a Grã-Bretanha emprestasse dinheiro a Zinoviev e aos outros comunistas russos. E, entretanto, o que fez Zinoviev? Zinoviev incitava o proletário britânico para a revolução. Para pessoas bem informadas esse descobrimento carecia de importância. Desde há muitos anos Zinoviev não se ocupou de outra coisa que predizer a revolução. Todavia, às vezes se ocupava de algo mais audaz: de organizá-la. O ofício de Zinoviev consiste, precisamente, nisso. E como que é possível querer que um homem não cumpra honrosamente o seu ofício?

Uma parte do público não conhece, mas vê Zinoviev apenas como um formidável fabricante de panfletos revolucionários. É possível, dessa forma, comparar a produção de panfletos de Zinoviev com a produção de automóveis da Ford, por exemplo. A Terceira Internacional deve ser, para essa parte do público, algo assim, com a seguinte denominação: a Zinoviev Co. Lmtd., fabricante de manifestos contra a burguesia.

Efetivamente, Zinoviev é um grande panfletista. Mas o panfleto não mais do que um instrumento político. A político nesses tempos é, necessariamente, panfletária. Mussolini, Poincaré e Lloyd George são também panfletistas, no seu modo. Ameaçam e detratam os revolucionários, mais ou menos como Zinoviev detratava os capitalistas. Eles são primeiros ministros da burguesia como Zinoviev poderia ser o primeiro ministro da revolução. Zinoviev crê que um agitador vale quase sempre mais que um ministro.

Por pensar dessa forma, ele preside a Terceira Internacional, ao invés de ser um comissariado do povo. A presidência da Terceira Internacional elevou sua história e sua qualidade revolucionárias, assim como sua condição enquanto discípulo e colaborador de Lênin.

Zinoviev é um orgânico polemista. Seu pensamento e seu estilo são essencialmente polêmicos. Sua firmeza dantoniana e tribunícia tem uma atitude beligerante permanente. Sua dialética é ágil, agressiva, calorosa, nervosa. Tem matizes irônicos e de humor. Trata, impiedosamente e energicamente o adversário, o contraditor.

Mas Zinoviev é, sobretudo, um herdeiro da doutrina de Lênin, um continuador de sua obra. Sua teoria e sua prática são, invariavelmente, a teoria e a prática de Lênin. Possui uma história absolutamente bolchevique. Pertence à velha guarda do comunismo russo. Trabalhou com Lênin, no estrangeiro, antes da revolução. Sendo um dos professores da escola marxista russa dirigida por Lênin em Paris.

Esteve sempre ao lado de Lênin. No começo da revolução não teve, sem embargo, um instante que sua opinião teve discrepância da de seu mestre. Quando Lênin decidiu pela tomada do poder, Zinoviev julgou prematura sua resolução. A história deu razão a Lênin. Os bolcheviques conquistaram e conservaram o poder. Zinoviev recebeu a tarefa de organizar a Terceira Internacional.

Exploraremos rapidamente a história da Terceira Internacional desde suas origens.

A Primeira Internacional fundada por Marx e Engels em Londres, não foi nada além de um esboço, um germe, um programa. A realidade internacional não estava ainda definida. O socialismo era uma força em formação. Marx acabava de lhe dar concretude histórica. Cumprida sua função de trazer orientações a uma ação internacional dos trabalhadores, a Primeira Internacional submergiu na confusa nebulosa da qual havia emergido. Mas a vontade de articular internacionalmente o movimento socialista se manteve formulada. Alguns anos depois, a Internacional apareceu vigorosamente. O crescimento dos partidos e sindicatos socialistas requeria uma coordenação e articulação internacionais. A função da Segunda Internacional foi quase unicamente uma função organizadora. Os partidos socialistas dessa época efetuavam um trabalho de recrutamento. Sentiam que a flecha revolucionária estava longe de ser lançada. Se propuseram, por conseguinte, a conquistar reformas provisórias. O movimento operário adquiriu assim um ânimo e mentalidade reformistas. O pensamento da social-democracia lassalliana dirigiu a Segunda Internacional. A consequência dessa orientação, foi o socialismo estar embricado na democracia. E por isso a Segunda Internacional não fez nada contra a guerra. Seus líderes e seções se habituaram a uma atitude reformista e democrática. E a resistência à guerra exigia uma atitude revolucionária. O pacifismo da Segunda Internacional era um pacifismo estático, platônico, abstrato. A Segunda Internacional não se encontrava preparada nem espiritual nem materialisticamente para uma ação revolucionária. As minorias socialistas e sindicalistas trabalharam em vão para empurrá-la nessa direção. A guerra fraturou e dissolveu a Segunda Internacional. Unicamente algumas minorias continuaram representando sal tradição e ideário. Essas minorias se reuniram nos congressos de Khiental e de Zimmerwald, onde rascunharam as bases de uma nova organização internacional. A revolução russa impulsionou esse movimento. Em março de 1919 foi fundada a Terceira Internacional. Abaixo de suas bandeiras se agruparam elementos revolucionários do socialismo e do sindicalismo.

A Segunda Internacional reapareceu com a mesma mentalidade, os mesmos homens e o mesmo pacifismo platônico dos tempos pré-guerra. Em seu estado maior se concentraram os líderes clássicos do socialismo: Vandervelde, Kautsky, Bernstein, Turati, etc. Malfadada guerra, esses homens não haviam perdido sua antiga fé no método reformista. Nascidos da democracia, não poderiam renega-la. Não percebem os efeitos históricos da guerra. Operam como se a guerra não tivesse mudado nada, não tivesse fraturado nada, não tivesse interrompido nada. Não admitem nem compreendem a existência de uma nova realidade. Os membros da Segunda Internacional são, em sua maioria, velhos socialistas. A Terceira Internacional, diferentemente, recruta o grosso adeptos entre a juventude. Esse dado indica, melhor que nenhum outro, a diferença histórica de ambos grupos.

As raízes da decadência da Segunda Internacional se confundem com as raízes da decadência da democracia. A Segunda Internacional está totalmente saturada de preocupações democráticas. Corresponde a uma época de apogeu do parlamento e do sufrágio universal. O método revolucionário lhes é absolutamente estranho. Os novos tempos obrigam, portanto, a lhe tratar de forma desrespeitosa e rude. A juventude revolucionária geralmente esquece dos benefícios da Segunda Internacional enquanto organizadora do movimento socialista. Porém, não se pode exigir da juventude, razoavelmente, que seja justiceira. Ortega y Gasset disse que a juventude “poucas vezes tem razão naquilo que nega, mas sempre tem razão naquilo que afirma.” A isso se poderia agregar que a força impulsora da história são as afirmações e não as negações. A juventude revolucionária não nega, ademais, a Segunda Internacional e seus direitos no presente. Se a Segunda Internacional não se obstinou em sobreviver, a juventude revolucionária se contenta em venerar a sua memória. Constatam, honrosamente, que a Segunda Internacional foi uma máquina de organização e que a Terceira Internacional é uma máquina de combate.

Esse conflito entre duas mentalidades, entre duas épocas e entre dois métodos do socialismo, tem em Zinoviev uma de suas dramatis personae.[1] Mais que com a burguesia, Zinoviev polemiza com os socialistas reformistas. É o crítico mais acre e mais contundente da Segunda Internacional. Sua crítica define nitidamente as diferenças histórica das duas internacionais. A guerra, segundo Zinoviev, antecipou, precipitou melhor dizendo, a era socialista. Existem as premissas econômicas da revolução proletária. Mas falta a orientação espiritual da classe trabalhadora. Essa orientação não pode ser dada pela Segunda Internacional, cujos líderes continuam crendo, como há 20 anos, na possibilidade de uma doce transição do capitalismo para o socialismo. Por isso, foi formada a Terceira Internacional. Zinoviev relembra como a Terceira Internacional não atua somente sob os povos do Ocidente. A revolução – diz – não deve ser europeia, mas mundial. “A Segunda Internacional estava limitada aos homens de cor branca; a Terceira não subdivide os homens segundo sua raça.” Lhe interessa o despertar das massas oprimidas na Ásia. “Não é, todavia – observa – uma insurreição das massas proletárias; mas deve sê-lo. A corrente com a qual nós nos dirigimos libertará o mundo todo.”      

Zinoviev polemiza também com os comunistas que discordam eventualmente da teoria e prática leninistas. Seu diálogo com Trotsky, no partido comunista russo, tem tido, não faz muito tempo, uma ressonância mundial. Trotsky e Preobrajenski, etc., atacavam a velha guarda do partido e incitavam contra ela os estudantes de Moscou. Zinoviev acusou Trotsky e Preobrajensky de usar procedimentos demagógicos, de falta de argumentos sérios. E tratou, com um pouco de ironia, para com aqueles estudantes impacientes que “apesar de estudar O Capital de Marx há seis meses, não governavam, todavia, o país.” O debate entre Zinoviev e Trotsky teve resolução favorável à tese de Zinoviev. Sustentado pela velha e pela nova guarda leninista, Zinoviev ganhou esse duelo. Agora dialoga com seus adversários de outros campos. Toda a vida desse grande agitador é uma vida de polêmica.


[1] Protagonista.

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