Ana Montenegro – Aconteceu na África

Artigo de Ana Montenegro para a revista Novos Rumos, ano 1, nº 40.

27 de novembro a 3 de dezembro de 1959.

Transcrição por Ian Cartaxo.


Dizem as notícias que foi deportada de Huguenot para Vryhurg, nos extremos do Cabo Setentrional, a líder africana Elizabeth Mafekeng, que tem 42 anos e é mãe de 11 filhos. Mas os racistas foram bondosos: consentiram que levasse para o degredo o seu filho mais novo, de poucos anos de idade, como se no coração de uma mãe houvesse limite de tempo para o amor dos filhos.

Li, faz algum tempo, um relatório apresentado a uma assembleia de mulheres africanas, sobre as miseráveis condições de trabalho de suas irmãs negras, agravadas pelo preconceito racial. E foi na escola da crueldade dos colonizadores e dos racistas que ela aprendeu a defender os direitos do povo. Onze filhos! Imagino como lutou e sofreu para criá-los, na difícil conciliação do trabalho doméstico e das atividades sociais. É esse o grande problema com que se defrontam aquelas mulheres que não consideram os seus lares como ilhas perdidas numa sociedade carecida de modificações, em benefício de todos os lares. E Elizabeth conseguiu isso mesmo entre as asperezas da sociedade africana onde impera a segregação racial e onde os brancos de além-mar, ainda hoje e de todas as formas, escravizavam os negros. Penso que minhas histórias de heroísmo poderiam ser escritas com a simplicidade das ações corajosas de mulheres como Elizabeth Mafekeng. A história das mães que não cuidam, apenas, afetivamente dos filhos, mas desejam para eles e para todas as crianças, no futuro, uma vida sem ameaças. Para essas mães, para Elizabeth, que importa a distância: em toda parte, na África do Sul ou do Norte, existirá sempre algo de bom para alcançar. E isso os racistas não podem impedir, porque a violência não destrói nem a consciência de luta dos homens, nem os sonhos da humanidade. É verdade que Elizabeth Mafekeng não poderá enquanto durar a deportação abençoar de perto dez de seus onze filhos, mas será abençoada, de longe, por milhões de mulheres no continente africano e nos outros continentes.

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