Leila Khaled – Educação e Revolução

Capítulo do livro “My people shall live: the autobiography of a revolutionary” (“Meu povo irá viver: a autobiografia de uma revolucionária” em tradução livre), lançado em 1973.

Tradução por Angelo Ardonde.

LISTA DE SIGLAS:

CCA: Clube Cultural Árabe (ACC, Arab Cultural Club).

CIA: Central Intelligence Agency.

MNA: Movimento Nacionalista Árabe (ANM, Arab Nationalist Movement).

ONU: Organização das Nações Unidas (UN, United Nations).

RAU: República Árabe Unida (UAR, United Arab Republic).

UAB: Universidade Americana de Beirute (AUB, American University of Beirut).

UGEP: União Geral dos Estudantes Palestinos (GUPS, General Union of Palestinian Students).


O homem nasce livre e, em todo lugar, ele está acorrentado

Rousseau

Como membra do Movimento Nacionalista Árabe, fui treinada para estar ciente do passado, do presente e do futuro. Geralmente há nos povos e sociedades subdesenvolvidas uma falta de conhecimento sobre o presente e o futuro, mas essa conscientização é imperativa se quisermos ser donos de nossas próprias vidas e do meio que nos envolve. Não conseguimos superar o passado e suas ideologias devastadoras, a não ser conquistando uma consciência livre. Os povos subdesenvolvidos vivem ao deus-dará; veem com nostalgia um “passado glorioso”. Meu povo e eu sofremos dessas debilidades, mas também vivemos o processo histórico em andamento e tentamos determinar o nosso futuro, ao invés de nos amarrarmos a um passado morto.

A conquista da Palestina pelo imperialismo e pelo Sionismo teve como custo ter forçado alguns de nós a reexaminar, por nós mesmos, o fundamento de nossa sociedade. Descobrimos que nossa sociedade estava podre, era tradicional e não progressista. Nossa derrota foi também a nossa salvação, nossos meios de regeneração e renovação. A questão agora não é a restauração, mas a construção de uma nova república socialista que envolva todo o mundo árabe.

Ou aceitamos, ou recusamos esse desafio. Caso aceitemos, devemos nos dirigir às montanhas, às cabanas camponesas e aos barracos urbanos. Caso recusemos, poderíamos levar uma vida de “alegre” servidão sob o jugo sionista e imperialista, comparando o nosso bem-estar econômico no presente ao do ano passado, ou ao do ano anterior a Dayan ter nos “libertado”. Além do mais, poderíamos nos consolar dizendo que “agora temos paz e silêncio”, temos mais “democracia” sob Moshe Dayan e suas escavadeiras do que sob Hussein e seus regimentos beduínos.

Por volta de 1955, comecei a me tornar ciente dos problemas presentes e dos planos futuros. Naquela primavera, obtive meu diploma do ensino básico e planejei ingressar no ensino secundário. Eu tinha onze anos e Israel, sete. No sétimo aniversário do nosso exílio, passamos pelo mesmo e eterno ritual de denunciar o Sionismo, o imperialismo e os reacionários árabes e não fazer nada além disso.

Enquanto isso, Israel usava aqueles sete anos para consolidar o seu front interno e “integrar” a sua população afro-asiática, os judeus sefarditas. Em 1954 propostas de “paz” foram feitas por Moshe Sharett, mas seu governo foi deposto pelos falcões israelenses sob a temível liderança de Ben Gurion. Porém, antes da deposição de Sharett, o governo israelense se envolveu em uma das tramas mais insidiosas na história da diplomacia. O esquema conhecido como caso Lavon envolvia a explosão das embaixadas britânica e dos EUA, assim como certos interesses estratégicos do Ocidente no Egito, a fim de provar a instabilidade do regime egípcio e “persuadir” os protetores de Israel a permanecerem abrigados em Suez e não se retirarem do Sudão. Os israelenses, é claro, esperavam fazer com que o crime parecesse obra dos egípcios. Infelizmente para eles, eles foram desmascarados e pegos em flagrante. O caso Lavon abalou a política israelense pela década seguinte.

O expansionismo israelense teve início, de fato, com a anexação gradual das zonas desmilitarizadas estabelecidas sob o armistício de Rhodes (1949), a expulsão contínua dos árabes e a supressão da minoria árabe remanescente em Israel. O mais importante foi o início da política de represálias massivas. Ela teve início em 15 de outubro de 1953 com um ataque à aldeia de Quibia e culminou em 28 de fevereiro de 1955, quando Israel invadiu a Faixa de Gaza, demoliu fortificações egípcias e matou e feriu mais de cento e cinquenta pessoas. O ataque não teve o efeito pretendido, Nasser não se retirou. Ao invés disso, ele envolveu todo o mundo árabe. Por volta do outono de 1955, ele firmou o famoso acordo armamentício com a Tchecoslováquia, de modo a quebrar o monopólio do Ocidente como único fornecedor de armas aos Estados do Oriente Médio, e começou a avançar no sentido do pan-arabismo.

Tudo cristalizou no início do outono de 1955, pois Allen Dulles, diretor da CIA e irmão de John Foster Dulles, voou ao Cairo em setembro e tentou persuadir o presidente Nasser a não prosseguir com o acordo armamentício tcheco. Esse gesto despótico, denunciado pelos nacionalistas árabes, foi apenas a primeira de uma série de tentativas, por parte dos imperialistas americanos, de minar Nasser.

Dificilmente uma criança, naquele ano, deixou de estudar esses eventos. Ansiosamente eu absorvia os detalhes e dominava a maioria dos argumentos anti-ocidentais. A condição econômica da minha família melhorou e a atmosfera em volta da casa se acalmou. Agora nós tínhamos um apartamento de três cômodos e a fome não era mais uma ameaça. Duas de minhas irmãs trabalhavam e minha mãe fez alguns bons investimentos. Todos achávamos que os árabes estavam dando primeiros passos tardios rumo à recuperação da Palestina e, mesmo assim, nos envolvemos de todo coração com o movimento nacionalista.

1956 foi um ano marcante na história árabe moderna. O regime nasserista, auxiliado por pressões externas e internas, conseguiu extrair dos britânicos um acordo de desocupação em 1954 e, por volta de junho de 1956, a retirada foi concluída. Então Dulles e Eden decidiram derrubar Nasser, pois ele movia-se em sentido não-alinhado, ao invés de seguir a linha ocidental. Eles exerciam pressões econômicas, mas ele não cedia. Nasser começava a sentir o seu poder em potencial e o desejo das massas árabes por um líder forte e carismático. Eden e Dulles, por sua vez, eram incapazes de compreender as transformações profundas que estavam ocorrendo. Eles pensavam que, se não conseguissem derrubar Nasser, poderiam humilhá-lo e causar distúrbios com a retirada dos 70 milhões em crédito prometidos para a Represa Alta de Assuã. Nasser respondeu com a nacionalização do Canal de Suez em 26 de julho de 1956. De repente, o gigante árabe acordou e ele rugia furiosamente para o Ocidente. A adulação massiva a Nasser tornou-se um fenômeno árabe; o nasserismo tornou-se uma doutrina mundial. O Ocidente ficou chocado quando os navegantes árabes provaram que conseguiam operar o Canal com a mesma, se não mais, competência que seus parceiros ocidentais.

O mundo parou e ouviu. Diplomatas do Terceiro Mundo realizaram peregrinações ao Cairo para declarar solidariedade aos árabes. Quando Robert Menzies, o primeiro ministro da Austrália, viajou ao Cairo levando o ultimato da Associação de Usuários do Canal de Suez, Nasser deu a Menzies um enfático “não” e mandou ele fazer as malas. O mundo árabe aplaudiu, o oprimido via uma centelha de esperança. A Europa e a América tremeram de medo quando Nasser se tornou o pardo gigante do Terceiro Mundo. Então aconteceu a infame invasão tripartite do Egito em 29 de outubro de 1956, mas Nasser manteve o Canal de Suez e as rédeas do poder. Israel descaradamente conspirou junto ao Império Britânico e a França para reverter o curso da história árabe e impôs um novo regime imperial ao nosso mundo.

A invasão do Egito em 1956 cessou em 6 de novembro. Naquele dia, nascia um novo bebê na família Khaled. Chamamos ele de Nasser, em honra ao presidente Nasser, para simbolizar a nossa primeira vitória desde a derrota de 1948. Nasser era o número doze e o último dos filhos de Ali Khaled. Agora a família podia formar um time de futebol, ou então enfrentar as “doze tribos” de Israel. A decisão já estava tomada. O outono foi o período mais emocionante da minha infância. Estávamos envolvidos em todo tipo de atividade frenética. Era como se toda a escola fosse uma família, toda Sur[1] fosse uma tribo e todo o mundo árabe fosse um Estado-nação. Foi um tempo para se recordar e apreciar, um tempo de orgulho e autoconfiança. Mas o inimigo ainda estava às portas.

Os anos de 1956 a 1959 foram o meu período de aprendizado político como ativista. Embora eu experienciasse uma intensa atividade e interesse político em nossa casa desde 1954, de alguma forma eu não compreendia o sentido disso tudo e não me envolvia, de fato, nessas discussões. Meu irmão Mohammad era membro do Movimento Nacionalista Árabe e frequentemente nos entregava folhetos para distribuirmos em Sur e cartazes para colarmos. Minhas irmãs Zakiah e Rahaab devem ter integrado o Movimento em 1956 ou 1957, elas eram muito ativas. Eu comecei a me aproximar das pessoas do Movimento em 1957, porém não compreendia como o movimento era mais do que escrever, distribuir panfletos, protestar e discursar. O Movimento era ativo em 1957, quando amplamente circulavam rumores de que a Turquia planejava invadir a Síria e derrubar o regime progressista em benefício dos Estados Unidos. Tínhamos várias discussões, mas não havia um movimento de juventude organizado para agir. Eu estava à margem e pedia informação às minhas irmãs, mas elas se recusavam a dar, pois eu não era uma membra plena do Movimento. Porém o entusiasmo em me associar a um movimento de libertação e o meu compromisso emocional à causa compensavam quaisquer dúvidas que eu tivesse por não ser uma membra participativa.

Em 1958, sob o fogo da artilharia do exército libanês, cessou-se a distinção entre membros e não-membros. Sur estava cercada. Os falsos aliados da Palestina e do Arabismo começaram a mostrar os dentes imediatamente após a formação da República Árabe Unida em fevereiro de 1958. A fim de proteger os seus próprios regimes cambaleantes, os Haxemitas do Iraque e da Jordânia formaram a sua própria federação contrária à nossa, provavelmente sob iniciativa do Ocidente. Todo o mundo árabe estava polarizado: o pan-arabismo e as soberanias provinciais, a revolução e a contrarrevolução, Cairo e Bagdá. Nesse contexto político, o presidente libanês Chamoun, querido dos diplomatas ocidentais, decidiu almejar um segundo mandato presidencial. Assim como outras forças progressistas e reacionárias, o Movimento Nacionalista Árabe buscou barrar a emenda constitucional proposta por seu partido. Por causa do impasse constitucional, do conflito entre as forças sociais antagônicas e de comerciantes e políticos oportunistas de ambos os lados, uma guerra civil irrompeu em 10 de maio, dois dias após o assassinato de Nasib Al-Matni, um renomado editor político árabe.

Em Sur, a oposição local ao Movimento Nacionalista Árabe era pequena. Para nós, era fácil conquistar a cidade e dirigir o governo segundo os interesses do povo e da rebelião. A própria Ilha de Sur estava sob o nosso controle absoluto. Mas o exército mantinha-se às portas no extremo norte da cidade, onde a oposição tinha muitos seguidores, incluindo o membro local do parlamento, sua tribo e seus clientes. O temperamento geral em Sur elevou-se após 2 de abril de 1958, quando os guardas atiraram e mataram Maan Halawah, um proeminente líder nacionalista. Muitos em Sur consideraram o seu assassinato infundado e sem provocação. Já o Clube de Solidariedade de Sur interpretou o assassinato de Halawah como uma declaração de guerra ao Movimento Árabe Nacionalista, uma tentativa das autoridades libanesas de intimidar a cidade e frustrar os nacionalistas. Seus pressentimentos provaram-se corretos.

Impuseram um toque de recolher durante três dias, seguido da prisão de “agitadores políticos”. Quando as pessoas descobriram o que estava ocorrendo, elas quebraram o toque de recolher, invadiram a delegacia e libertaram os prisioneiros. Nesse momento, Mohammad Kassem, outro distinto nacionalista, foi morto e eu tive o meu primeiro contato com a morte, escapando apenas por alguns centímetros. Embora eu tenha participado de praticamente todos os protestos em Sur no decorrer de seis anos (de 1952 a abril de 1958), tudo ainda me parecia uma grande diversão. Eu não via um assassinado desde o homem que morreu em frente à nossa casa em Haifa, quando eu estava escondida em segurança sob a escadaria. Maan Halawah, porém, foi baleado por guardas libaneses enquanto ele bradava palavras de ordem nacionalistas e era levantado à altura dos ombros por camaradas. Mohammad Kassem foi baleado quando os guardas tentaram impor novamente um toque de recolher em Sur. Quando o abateram, eu estava ao seu lado entregando pedras para que ele arremessasse nos guardas. Eu saí gritando por socorro. Ele ainda estava vivo quando vieram nos ajudar, corremos com um carro despedaçado e velho para levá-lo ao hospital. Pensei que ele sobreviveria. O cirurgião saiu da sala de operações depois de alguns minutos. Ele caminhou lentamente em nossa direção e, solenemente, ofereceu-nos as condolências, tentando esconder as próprias lágrimas. Pela primeira vez na vida, eu tomei conhecimento da perda de um camarada em batalha. Chorei durante dias. A cidade lamentou a perda de dois grandes camaradas e a eles, como heróis, foram prestadas as honras fúnebres. Porém isso foi apenas o começo. O verão de 1958 foi uma estação de lamentações. As forças paramilitares e o exército de Chamoun avançaram como um bando de mercenários a assolar nossa cidade e nos trazer as bênçãos do armamento americano. Naquele verão, não me recordo de ter dormido uma noite inteira sem ser interrompida, eu era uma soldada aos treze anos e tinha de cumprir o meu dever de sentinela, assim como outras obrigações políticas e militares. Eu estava ansiosa para ser uma boa soldada.

Conforme os libaneses se dividiram e irmãos matavam irmãos, tornava-se evidente que muitos dedos estrangeiros seguravam aqueles gatilhos. Em 16 de julho de 1958, a Marinha Americana desembarcou no Líbano, dois dias após o povo iraqueano ter derrubado a dinastia Haxemita e executado Nuri al-Said e Abdul-Ilah, os agentes árabes mais fiéis ao Império Britânico. O povo árabe-libanês testemunhou a impressionante majestade da sexta frota americana. Porém, infelizmente para os Estados Unidos, era tarde demais para restaurar o poder de Nuri e cia. Mas eles permaneceram no Líbano, chegaram a um impasse na guerra civil e declararam empate. Comentaristas políticos árabes escreveram livros sobre os “Nem Vitoriosos Nem Vencidos”.

Por sorte, o verão de 1958 em Sur não foi tão devastador como se temia. A destruição foi mitigada por um tácito e desconfortante acordo local com o exército: o Movimento Nacionalista Árabe (MNA) controlaria o centro urbano e o exército ficaria com os arredores da cidade. O bombardeamento contínuo de nossas posições era assustador e muito estressante. Além disso, o exército cortava o abastecimento de alimentos com frequência. Mas improvisamos e conseguimos nos virar. A certa altura, a nossa área estava faminta e a moral de nossos homens, enfraquecida por causa do bombardeamento do exército e da própria fome. Tínhamos cerca de dez quilos de farinha em casa, decidi que poderia assar uma quantidade de pão suficiente para os homens. Mas, ao invés disso, eu sovei todos os dez quilos e fritei a massa em óleo de oliva. Assim eu conseguia suprir um regimento e não apenas algumas dezenas de combatentes. A imagem de um Jesus revolucionário abençoando o peixe e alimentando multidões me veio à mente, mas eu não realizava milagres.

A parte crucial foi quando entreguei os pães às linhas de ação. Fui pega no fogo cruzado de ambos os lados; cada lado pensava que eu era o inimigo, mas nenhum estava preparado para disparar contra mim. Fiquei espantada com a velocidade das balas que zuniam e, de alguma forma, uma cena real de batalha se deflagrando diante dos meus olhos me deixou surpresa, especialmente comigo no meio disso tudo. Até então eu pensava que as batalhas eram como os protestos. Na hora eu aprendi sobre as batalhas, gritei para ambos os lados pararem a luta porque eu apenas levava pão em minha cesta, eu a carregava sobre minha cabeça como convém a uma moça palestina. Por sorte, um dos camaradas me reconheceu e sinalizou aos seus homens o cessar fogo. Ele chamou pelo meu nome, corri em sua direção e alcancei com segurança os homens famintos.

Mais tarde, aprendi outra lição sobre a guerra. Estava disposta a estrangular qualquer soldado libanês em que eu pudesse pôr as mãos, até que certo dia um soldado apareceu em casa pedindo um gole de água. Retruquei dizendo que preferia dar a ele um copo de veneno. Ele pareceu ter ficado surpreso, perguntou-me: “por que você faria tal coisa?” Eu respondi: “pois vocês estão matando os nossos homens”. Ele sorriu e cautelosamente me disse: “senhorita, se estivéssemos mirando o nosso bombardeamento em seus homens e sua cidade, tudo isso teria virado fumaça. Recebemos ordens para atirar e atiramos, mas não estamos mirando. Atiramos apenas para manter os seus homens tensos e no seu devido lugar, torcendo para que eles não tentem nos atacar ou cruzar o nosso lado da cidade. Diga aos seus camaradas que eles permaneçam onde estão, senão seremos forçados a eliminar a área toda”. Minha mãe e eu ouvimos com atenção. Eu disse que ele era um mentiroso e merecia morrer de sede e fome; minha mãe cedeu e disse para eu dar água ao soldado, em troca das boas notícias que ele nos trouxe. Eu o fiz, relutante, insistindo que ele era um soldado inimigo e deveria ser tratado como tal. “Temos que tomá-lo como prisioneiro”, eu declarei. Ele apontou para a sua arma e ficou à porta rindo das minhas ameaças ultrajantes. Ele sugeriu que eu atacasse o seu lado da cidade, já que eu era tão corajosa. Minha mãe implorou para ele dizer aos seus camaradas não atirarem tão impiedosamente contra a cidade e os homens, ele nos assegurou que era um libanês que amava o seu país e não queria vê-lo destruído.

Em 1958, tendo provado a minha coragem em batalha, obtive o direito de candidatar a minha adesão ao Movimento Nacionalista Árabe. Minha mãe desaprovava com firmeza a atividade política das garotas na família. Ela achava que, agora que a guerra civil havia terminado, as garotas deviam ficar em casa e deixar a política aos homens. Minha mãe não fazia objeções ao meu irmão Mohammad cuidar das trincheiras, ficar fora até tarde da noite ou partir para missões políticas desconhecidas, que às vezes duravam semanas. Para ela, Mohammad era um homem e fazia o trabalho dos homens. Assim foi a formação dela. Ela também disse que temia as falas escandalosas da vizinhança sobre mulheres na política. Minha mãe sabia que o ostracismo social seria a consequência se qualquer uma de nós não andasse na linha. Minhas irmãs asseguravam que elas eram maduras e capazes de cuidar de si mesmas. Além disso, diziam que os homens com quem elas se relacionavam eram respeitosos, verdadeiros gentlemen e políticos com princípios elevados. Nenhum deles estava lá para violentar qualquer garota, especialmente as camaradas. Mas nada convencia a minha mãe. Meu pai era um pouco relutante e desconfiado, mas ele era favorável ao nosso posicionamento e, por fim, foram ele e Mohammad que vieram ao nosso auxílio. Eles conseguiram convencer minha mãe a não atrapalhar o trabalho político das minhas irmãs. Eles argumentaram que, quando fomos expulsos da Palestina, os sionistas não distinguiram os homens das mulheres. As mulheres constituíam mais da metade do povo palestino e também estavam exiladas. Os israelenses treinavam suas mulheres para lutar e garantiam a elas liberdades civis. Se nosso desejo era derrotar os israelenses, devíamos vencê-los no seu próprio jogo. Minha mãe calou-se com uma última questão: “você quer ver a Palestina libertada?”, meu pai perguntou. “Sim”, disse ela sem hesitar. Mohammad concluiu: “mãe, então você não pode se opor à participação de suas filhas na vida política, não é mesmo?”. Minha mãe sorriu: “não me importo com a adesão de Zakiah e Rahaab, mas essa menininha política (referindo-se a mim) deve ficar em casa”. Eu fui o bode expiatório do acordo, mas o direito de participação das mulheres foi concedido.

Como havia a permissão para que minhas irmãs participassem da política, eventualmente a minha permissão também seria inevitável. Enquanto isso, decidi continuar as minhas atividades clandestinamente. Porém, em 1959, quando minha mãe descobriu que eu havia me tornado uma membra plena do MNA, ele tentou me proibir de ir às reuniões. Eu não podia ofendê-la ostentando a minha carteirinha de membro. Eu disse a ela que estava apenas fazendo o que sempre havia feito como apoiadora política do Movimento, mas minha mãe não se convencia. Na noite de uma reunião muito importante, de que eu estava determinada a participar, recorri a um subterfúgio. Tomei banho e vesti o meu pijama para convencê-la que eu não sairia para lugar algum naquela noite. Ela deve ter achado que havia vencido a batalha e a sua “menininha política” estava tomando jeito. Ao aproximar da meia noite, realizei a minha jogada e, ainda de pijama, fui até a cozinha e disse de forma casual: “mãe, estou meio triste, vou visitar minha amiga aqui perto”. Ela não levantou objeção alguma. Fui direto ao salão de visitas do Clube de Solidariedade. Minha estreia de pijamas surpreendeu os membros, enquanto eu me dirigia a um assento vazio. Eles se abalaram com um comportamento que consideraram imoral. Fui maldita por violar o decoro árabe e a conduta feminina polida. Estavam quase prestes a aprovar uma moção de censura e, talvez, expulsão. Alguns dos reacionários pensavam que minha aparição de pijamas era um desprezo às tradições e um caso de tentação sexual. Um desprezo às tradições até pode ter sido, mas tentação sexual não. Fiquei terrivelmente perturbada com o machismo e a presunção deles. Fiquei para a reunião e fui embora ainda irritada, pois o meu compromisso com a causa não era valorizado e as dificuldades pessoas que eu enfrentava em casa não foram levadas em consideração. Como podemos libertar a Palestina e o nosso mundo árabe se nós mesmos não nos libertamos? Como podemos defender a igualdade mantendo metade da raça humana — a metade feminina — sob servidão? Essa seria a próxima batalha travada no Clube de Solidariedade de Sur. Minha mãe nunca soube dessa escapada, mas logo ela se reconciliou com minha vocação e acedeu às minhas demandas políticas. Levou quase uma década para o MNA começar a tirar partido, de fato, das mulheres no movimento.

A escola das Igrejas Evangélicas não era capacitada para fornecer os estudos para o diploma do ensino secundário ou além disso. Tive que ir a outro lugar para continuar a minha formação. A Escola para Garotas em Saida seria a minha primeira oportunidade de agir completamente por conta própria. Estava animada com a minha liberdade recém-conquistada como jovem adulta, mas um pouco chateada que as regras da escola exigiam de um estudante dois anos residenciais para se qualificar ao exame de conclusão. Isso significava que eu perderia um dos dois anos que havia ganho quando entrei para a escola. Pensei que repetir a quinta série do secundário não era nenhuma tragédia e racionalizei isso como uma oportunidade esplêndida para realizar um ótimo trabalho político.

Porém não seria um ano de rivalidade entre grandes potências ou guerras regionais, no outono de 1960 estávamos no ano do conselho internacional da ONU. Tudo parecia tranquilo e favorável ao estudo reflexivo e prolongado. O presidente Nasser foi à ONU, ele parecia domado, comparado a 1956. Parecia que a diplomacia tinha substituído a revolução e o Terceiro Mundo havia amadurecido, talvez um pouco cedo demais. O único foco de conflito no mundo árabe era a Algéria. Tive que me adaptar a um novo ambiente social e político após os anos turbulentos em Sur e esperar pela vinda de um messias revolucionário. Ele nunca veio. A Palestina precisava de um, mas a Frente Popular nasceu apenas em novembro de 1967.

Em Saida havia muito tempo de sobra e pouca ação para se engajar. Aqui eu não estava mais em um enclave completamente palestino. Aquela escola era fortemente apolítica — um túmulo para uma revolucionária. Fui colocada em uma casa com outras doze garotas. Algumas eram palestinas, com quem eu pensei que poderia me comunicar. Mas, para elas, a Palestina estava em um passado distante e remoto. Elas queriam receber uma “educação” e arrumar maridos. Que farsa de feminilidade! Porém eu não perdi a esperança e tentei me acomodar ao modo de vida delas. Eu era agradável por natureza e adorava uma companhia, mas me sentia um tanto sozinha em meio àquelas onze garotas. Me animei quando notei que havia outra solitária. Seu nome era Miss McNight, uma americana negra que veio lá dos Estados Unidos para lecionar em uma escola privada em Saida. Eu me espantei a princípio, antes de descobrir o motivo da sua decisão. No Líbano ela era tratada como pessoa, com o respeito que prestamos aos professores no mundo árabe; nos Estados Unidos, ela era vista como uma mulher de cor, uma inferior e talvez até mesmo um objeto sexual.

Miss McNight e eu rapidamente nos tornamos boas amigas. Para duas mulheres negras e desconhecidas em Saida, era natural reunir os nossos recursos e proporcionar ajuda e conforto recíprocos. Miss McNight era uma mulher muito querida — vivaz, sempre sorridente e sagaz — o modelo de irmã mais velha para mim. Mas nossas posições políticas divergiam. Quando expressei meu ódio profundo aos judeus, ela se surpreendeu e me ensinou a não fazer generalizações. Ela ressaltou que nem todos os judeus eram sionistas; na verdade, alguns eram anti-sionistas. Eu refletia sobre as suas distinções e tentava adotá-las ao meu pensamento.

O aniversário da Declaração de Balfour (2 de novembro) e o da Partilha da Palestina (29 de novembro) se aproximavam. Chegava a hora de provar quem ficaria de que lado no meu colégio. Comecei a agitação para uma greve geral das escolas, ao estilo de Sur, para comemorar os aniversários. Em Sur, minha escola estava sempre à frente. Costumávamos dar início às passeatas e forçar as demais escolas a fecharem as portas e se juntarem aos protestos. Isso não seria realizado em Saida. Miss McNight apreciava a minha opinião, mas mesmo ela não gostou da ideia de uma greve geral, com o fechamento forçado das escolas, a realização de protestos massivos e a tomada de assalto a delegacias. Ela era formada na escola Martin Luther King de não-violência, defendia a prece e a educação do inimigo. Eu era uma militante revolucionária, nascida no criol da agitação revolucionária.

Apesar de nossas opiniões divergentes, Miss McNight e eu continuamos amigas. Enquanto membra de uma raça oprimida, ela era solidária à minha causa. Ela usou a sua influência para persuadir o diretor árabe-libanês a permitir que eu realizasse, em solo árabe, um protesto pacífico e estudantil em apoio à causa palestina. O diretor apenas concordou, com relutância, achando que era um favor prestado por ela aos seus irmãos palestinos. Porém o protesto foi adiado de novembro para 15 de maio de 1961, o décimo-terceiro aniversário do estado sionista. Foi quando proferi meu primeiro discurso público sobre a Palestina.

Discursei sobre a história da Palestina e do sionismo e minhas esperanças para o futuro. Como conceito político, o sionismo veio à tona no início do século vinte. No início era uma ideia religiosa: os velhos judeus peregrinavam até Jerusalém para passar os seus últimos dias e morrer na terra sagrada. O termo “sionismo” foi cunhado por Ben Acher, um judeu europeu que nunca esteve na Palestina. Foi Herzl quem deu início ao plano político do sionismo em seu panfleto “O Estado judeu”. Ele era um austríaco assimilado judeu que, até a década de 1880, se importava muito pouco com a comunidade judaica. Como correspondente político, enquanto cobria o julgamento de Dreyfus em Paris, ele se converteu ao sionismo. Espantava-o que a França, a nação mais civilizada da Europa, estava descaradamente perseguindo um companheiro judeu que serviu de bode expiatório para um crime que ele nunca cometeu. Herzl achava que era apenas em um Estado judeu que os judeus poderiam se tornar pessoas “normais” e levar uma vida de paz interior. Ele fez uso de todas as suas energias e contatos capitalistas para mobilizar a comunidade judaica europeia e convocá-la ao primeiro congresso sionista na Basileia em 1897. Seu programa foi adotado e a Organização Sionista Mundial foi formada tendo Herzl como presidente. Para realizar seu sonho, Herzl buscou apoio do Kaiser. Ele viajou até Istambul e buscou apoio da Sublime Porta[2]. Ele disse aos seus prováveis patrões que o conhecimento, as capacidades e o capital judaico estariam à disposição de Berlim e Istambul se a Porta garantisse aos judeus o acesso à parte sul da Arábia, Síria e Palestina. Mas a Porta, temendo a reação de seus súditos árabes, foi incapaz de conferir tal direito.

Herzl foi forçado a procurar por aliados em outro lugar. Encontrou um no Império Britânico, o poder colonial que ocupava o Egito, o Sudão e o Golfo Árabe. Ele repetiu sua oferta aos britânicos e argumentou que um Estado judeu seria um grande baluarte na luta contra a revolução árabe, bem como uma sentinela local para guardar os interesses vitais dos britânicos na área que incluía o Canal de Suez e as rotas comerciais para o extremo oriente. Desde o início a ideia de um Estado israelense foi vendida aos poderes ocidentais como uma cunha para manter os árabes divididos. Os britânicos apreciaram a proferida cooperação da burguesia judaica internacional e ofereceram como território áreas como a Argentina e a Uganda, onde os judeus poderiam se instalar. Apesar de Herzl preferir um Estado judeu na Palestina, ele aceitou a oferta da Uganda e vendeu essa ideia aos seus compatriotas em 1903, no congresso da Organização Mundial Sionista. Pouco depois, Herzl morreu e o projeto de Uganda foi enterrado. O Império Britânico também ofereceu o Alarixe, na costa mediterrânea do Egito, uma área próxima à Palestina, e essa proposta foi rejeitada pelos sionistas obstinados (no outono de 1971, Israel controlaria não apenas toda a Palestina, mas também o Alarixe, o Sinai e as Colinas de Golã na Síria).

Colônias sionistas foram estabelecidas na Palestina e milhares de judeus se infiltraram por causa da incompetência e corrupção da administração otomana. Por volta de 1917, quando os sionistas obtiveram a Declaração Belfour dos britânicos, os judeus constituíam menos de dez por cento da população local, mas a redação do documento teve a audácia de se referir ao nosso povo como a “população não-judaica”, ao invés de se referir aos judeus como uma minoria que poderia ter direitos religiosos na Palestina. Os britânicos eram poderosos e gostavam de ter amigos poderosos com capital. Os sionistas estavam dispostos a pagar qualquer preço, selar qualquer acordo, prestar qualquer sacrifício concebível e cometer qualquer crime para atingir os seus objetivos. Com o apoio diplomático das grandes potências, eles seriam capazes de alcançar logo o seu objetivo, pois o Império Britânico e a França dividiram entre eles mesmos o leste árabe em sete estados e impuseram aos árabes, sob tutela do ocidente, o dito “dever sagrado” da civilização. Então os aliados suprimiram o Movimento Nacionalista Árabe e esmagaram os elementos revolucionários que iniciaram a Grande Revolução Árabe de 1916.

Mais significativamente, o Império Britânico permitiu aos sionistas o estabelecimento de um poder dual na Palestina e negou o mesmo direito aos árabes. As cartas estavam a favor do sionismo. Para desfazer esse complô, nos revoltamos em diversas ocasiões contra o mandato e a colonização sionista, lutando por nossa independência nacional. Mas o inimigo estava em nossas fileiras e, por fim, nossa própria classe dominante foi responsável por nossa traição. Um exemplo clássico foi a Greve Geral de 1936, quando camponeses e trabalhadores dirigiram a revolução e forçaram a classe alta a se unir a eles. Ela assim o fez, mas apenas para abortar e sacrificar a revolução no altar da vantagem pessoal. Quando veio a guerra de 1948, nossa classe dominante nos abandonou ao vento. Ficamos sem liderança, dispersos e por nossa conta própria. O sionismo arrancou a terra de nossos corações com pouco esforço e sem grandes custos.

A falência de nossos líderes feudais e o colapso de nossa estrutura social inaugurou a era dos regimes dos coronéis — regimes progressistas, reformistas e arabistas. Enquanto isso, os sionistas prosseguiram com o estabelecimento de uma sociedade exclusiva e racista onde os sionistas do leste europeu, poloneses e russos dominaram o governo, os partidos políticos, os sindicatos, a burocracia e as empresas. Os judeus afro-asiáticos eram alvo de discriminação, exploração de classe e desprezo europeu. Os habitantes árabes, os legítimos donos da Palestina, foram colocados sob controle militar e eram usados, junto aos judeus árabes, como oferta de mão de obra barata.

Concluí meu discurso com um apelo pela libertação da Palestina. Não se pode continuar um tal estado de coisas, não podemos permitir que se continue assim. Podemos pôr um fim nisso através da união árabe e da libertação da Palestina. Nosso objetivo pode ser alcançado se a República Árabe Unida (RAU) for expandida e todos os Estados árabes se tornarem um Estado-Nação. Temos que lutar por uma nação árabe, por unidade, liberdade e pelo socialismo. Temos que derrotar o inimigo número um, os Estados Unidos, fornecedor de mísseis Hawk à Israel, assim como temos que nos aproveitar dos nossos próprios recursos petrolíferos. Temos que aprender a imitar nossos irmãos argelinos com vista à libertação da Palestina. Viva a Palestina, árabe e revolucionária!

Os estudantes aplaudiram com vontade, pareceu que eles se impressionaram positivamente com meus conhecimentos sobre a história palestina e meu compromisso com a unidade. Naquele momento nem eles, nem eu previmos a dissolução da RAU em 28 de setembro de 1961, quando a Síria se retirou, frustrando assim a esperança árabe por unidade e forçando o povo palestino a reexaminar toda a sua estratégia para libertação. A dissolução da RAU foi um colapso temporário da nossa esperança, mesmo assim isso provocou a ascensão dos revolucionários palestinos. Organizações palestinas de todo tipo brotaram repentinamente por toda parte, multiplicando-se nos próximos três ou quatro anos. Alvorecia uma nova era no leste árabe, enquanto o oeste trilhava lentamente o seu caminho para a independência da Argélia por meio da luta armada.

Naquela primavera, obtive o meu diploma da escola secundária e voltei para Sur durante o verão, esperando ir para a RAU no outono, caso fosse aprovada nos exames de admissão. Naquele verão, Sur era o vórtice do nacionalismo e toda questão concebível a respeito do futuro do arabismo foi levantada e debatida. O Movimento estava desorganizado, mas tínhamos bom ânimo, pois Nasser estava construindo mísseis e navios. Em 23 de julho de 1962, Nasser celebrou a primeira década da revolução egípcia com a exibição de foguetes, navios, tanques e aviões fabricados “no Egito”. Ele anunciou ao mundo que os foguetes egípcios alcançariam mesmo o sul de Beirute. Ele e Amer saudaram a parada, agindo como se eles fossem Stalin, Churchill e Roosevelt todos juntos. Estávamos eufóricos; finalmente toda Israel estava dentro do campo de alcance de mísseis árabes. Nasser também declarou que o Egito tinha a maior frota do Mediterrâneo Oriental, achávamos que seria hora de nos vingarmos até mesmo da Turquia, por causa de sua carnificina na Primeira Guerra Mundial.

No verão de 1962, mais uma vez tive que lidar com o problema de ser uma mulher árabe e palestina. Minhas irmãs no Ocidente falam de dois tipos de opressão: de classe e sexual. Eu tinha que enfrentar quatro tipos de opressão: nacional, social (o peso da tradição e dos costumes), de classe e sexual. Naquele momento eu estava especialmente propensa à opressão por ser mulher. Minha família professava a igualdade, assim como a maioria das famílias modernas, mas não a praticava. Apesar de eu ter sido aprovada no exame final com excelência e meu irmão Khaled ter sido reprovado, minha família insistiu em enviar ele à universidade, ao invés de mim. Em comparação aos meus irmãos, eu era um item de baixíssima prioridade. Finalmente eu pude frequentar a Universidade Americana de Beirute (UAB) entre 1962 e 1963, graças à generosidade do meu irmão Mohammad, que trabalhava como engenheiro no Kuwait. Obtive a segunda maior nota no exame de admissão: oitenta e sete por cento, o que devia ter me concedido uma bolsa de estudos, mas por algum motivo não me deram uma. Porém eu estava encantada com a aprovação e queria me matricular o mais rápido possível, antes de me imporem algum papel fútil como trabalho em escritório ou casamento e produção de bebês.

Quando cheguei em Beirute no final de agosto de 1962, meus bens terrenos consistiam em cinquenta libras libanesas. Pensei que eu poderia pagar a taxa de matrícula a prestação, mas o secretário da UAB não acreditava no princípio básico americano. Fiz tudo o que pude para convencê-lo a deixar eu me matricular antes que outra pessoa pegasse minha vaga; prometi que pagaria minha parte antes do ano letivo começar. Ele não cedia. Mas uma moça no escritório simpatizou comigo. “Como você vai conseguir dinheiro para pagar as parcelas, senhorita?”, ela perguntou. “Tenho um irmão no Kuwait que prometeu enviar-me à universidade se eu passasse no exame e eu passei”, fui rápida ao explicar. “Vá e telegrafe ao seu irmão”, ela me instruiu. Corri até o centro de Beirute e telegrafei a Mohammad. Custou-me doze libras. Agora eu tinha apenas trinta e oito libras libanesas. Notei o quão rápido eu poderia gastar tudo e terminar sem um centavo no bolso e sem minha matrícula.

Esperei e esperei o dia todo até que recebi a resposta de que ele mandaria o dinheiro. Sorri para mim mesma, com prazer. Meu irmão, como todos os bons homens árabes, honrou a sua promessa. Voltei correndo para a UAB e orgulhosamente apresentei ao secretário a minha inscrição. Ele emitiu algumas palavras burocráticas e eu estava matriculada.

Na UAB eu me inscrevi nos quatro cursos obrigatórios aos calouros: química, literatura árabe, inglês e matemática. Apenas um dos meus professores era de origem árabe e eu não sabia dizer a diferença entre ele e seus outros três colegas de docência. Eram todos americanos na aparência, no comportamento e nos modos. Eram pseudo-associados à Ivy League[3] lecionando em uma escola provincial com excelência apenas na produção de espiões da CIA e ministros; não sei qual dos dois era o menos maligno.

Minha educação formal acontecia na UAB; minha educação real estava no auditório do Clube Cultural Árabe (CCA) de Beirute e nas fileiras do MNA. No CCA eu me familiarizei com distintos intelectuais árabes como Joseph Mogheizel, presidente do clube, e Moshen Ibrahim, editor do jornal Al-Hurriyah[4]. que era então a voz oficial do Movimento Nacionalista Árabe. Também me encontrei com Teysier Koubaa, presidente da União Geral dos Estudantes Palestinos (UGEP). O grupo de estudantes e intelectuais que conheci naquele ano letivo ocupam, agora, posições de liderança na Frente Popular e na esquerda árabe.

Para mim, a UAB era um túmulo intelectual. Era uma escola para “dar fim” à formação das crianças ricas do Oriente Médio e um clube social para a elite colonial do mundo árabe. O governo estudantil era proibido e a universidade era gerida como uma corporação americana. Estudantes que não pagavam a mensalidade a tempo geralmente eram proibidos de frequentar as aulas. As únicas atividades permitidas no campus eram danças, festas e jogos. Nenhum clube abertamente político era permitido. Não havia protestos, nenhuma manifestação política, nenhum palestrante convidado.

Eu morava no Jewett Hall, a residência para mulheres, onde tive uma colega de quarto americana chamada Judy Sinninger. Sua vida social sempre me impressionava. Em uma semana ela tinha três encontros diferentes, com três homens diferentes e ela beijava cada um deles com a mesma paixão, no salão da Jewett, em frente a várias outras garotas. Eu perguntei a Judy como ela conseguia fazer isso. Ela brincava: “era tudo uma diversão americana, agradável e pura, sem compromissos”. Eu ria e a admirava por sua amoralidade.

Mas Judy e eu éramos mais que colegas de quarto. Nós éramos companheiras intelectuais. Ela me ensinava sobre o governo, os valores e a ordem social dos Estados Unidos; eu a ensinava sobre os árabes. Ela era uma liberal fã de Kennedy; eu era admiradora de Nasser. A prova de amizade aconteceu em outubro de 1962, um mês decisivo aos Estados Unidos e ao mundo árabe. Em 22 de outubro de 1962, Kennedy ameaçou que, a menos que os mísseis soviéticos fossem desmantelados e removidos de Cuba, ele invadiria a ilha. Em 2 de outubro, a RAU enviou oficialmente as suas tropas ao Iêmen para fortalecer o regime republicano que havia derrubado o regime medieval. Judy e eu travamos longas e calorosas conversas sobre esses eventos. Os diálogos eram mutuamente elucidativos, mas nenhuma de nós convencia a outra.

Judy defendia que era correto os Estados Unidos demandarem a remoção dos mísseis de Cuba. Ela alegava que os mísseis constituíam uma ameaça estratégica à sua segurança nacional. Eu considerava criminoso e bárbaro da parte dos Estados Unidos a ameaça de um holocausto atômico a menos que as coisas fossem do seu jeito.

Judy encarava o envio de tropas da RAU ao Iêmen como uma invasão. Eu via como uma obrigação moral por parte do presidente Nasser, um gesto nobre dele para que a revolução fosse salva de seus inimigos corruptos. Ela afirmava que Nasser era um político ambicioso que procurava se aproveitar do petróleo no Golfo e usá-lo para o seu engrandecimento pessoal, eu a contestava dizendo que tínhamos o direito àquele petróleo e ele deveria ser utilizado em benefício do povo árabe. Ela via as atividades de Nasser como parte de uma conspiração soviética para ocupar o mundo árabe. Eu explicava a Judy que estávamos lutando para expulsar as potências coloniais e neocoloniais de nossa região e não apenas para entregar nossa pátria de bandeja a uma nova superpotência. Judy era uma cidadã do império, por mais liberal e idealista que ela fosse. Eu era uma mulher árabe e palestina apátrida, exilada em uma colônia americana em Ras Beirute[5]. Ela tinha tudo a perder, eu tinha tudo a ganhar. De fato, a consciência social de uma pessoa é determinada por suas condições sociais.

Embora a política fosse banida no campus e as atividades políticas da União Geral dos Estudantes Palestinos (UGEP) fossem discretas, nos engajamos em confrontos políticos na primavera de 1963. A proclamação da República da Palestina, com sede em Nablus, nos proporcionou essa ocasião. Não é preciso dizer que Nablus, antes e depois da proclamação, permaneceu sob forte controle do rei Hussein e seu exército tribal. Porém havia uma boa quantidade de agitações que refletiam a insatisfação dos palestinos com Hussein, os estados árabes e a condição social em geral. Além do mais, novas organizações palestinas apareceram em cena e, pelo outono, os estados árabes foram forçados a se atentar e começar a falar sobre a unidade palestina. Na UAB, realizávamos manifestações em apoio às demandas dos palestinos por um lugar ao sol. A administração inicialmente era cega às nossas atividades e esperava que a ofensiva na primavera fosse um fenômeno passageiro.

Fomos motivados a agir rapidamente pelos rumores difundidos e precisos de que a embaixada da Jordânia havia convocado os estudantes palestinos e ameaçado cancelar os seus passaportes jordanianos caso eles não cessassem a agitação política. Respondemos com mais manifestações, uma ação que logo ganhou impulso, envolvendo praticamente todos os velhos políticos de Beirute e uma proporção significativa de estudantes estrangeiros (essa foi a primeira vez que estudantes estrangeiros na UAB se uniram em apoio à causa palestina desde 1948, quando o presidente Dodge protestou contra a criação do Estado de Israel ao presidente Harry Truman, dos Estados Unidos, e por isso foi cortado do seu cargo).

A administração da universidade preparava-se para a retaliação. Em meio a uma atmosfera tensa, a UGEP propôs que um comitê estudantil fosse formado para representar os estudantes palestinos frente à embaixada da Jordânia. Formaram o comitê e vários estudantes estrangeiros proeminentes foram eleitos; eu me incluía nesse grupo. No mesmo dia, descemos em pleno vigor até a embaixada da Jordânia e, com todas as letras, dissemos ao embaixador que, se ele cancelasse os passaportes, nós cortaríamos o seu pescoço. Fiz a maior parte das falas e meus companheiros estudantes me deram total apoio. Logo após a nossa chegada, os guardas libaneses cercaram a embaixada e todo um contingente do que pareciam ser agentes armados do serviço de inteligência invadiu a sala de reunião. O embaixador parecia saber exatamente o que estava acontecendo, apesar de alegar que ele não havia chamado a polícia. Na presença de todo o comitê, ele teve que engolir suas palavras e informar à polícia que não éramos uma gangue de criminosos, mas apenas um comitê estudantil da UAB em visita à vossa excelência. Os guardas interrogaram cada um de nós e foram embora.

Apresentei um resumo das ameaças violentas e insisti que nos fosse dada uma garantia por escrito de que nossos passaportes não seriam cancelados. O embaixador disse que não era instruído a dar tais garantias, mas ele estava autorizado a rejeitar o relatório e deu-nos palavra de honra que uma ação desse tipo não seria cogitada. Foi um sentimento de vitória, bebi café árabe com o embaixador e o garanti que voltaríamos caso alguma ação fosse tomada contra os estudantes palestinos. Como a conversa foi em inglês e eu falava com muita firmeza, ele acabou presumindo que eu não era árabe. Quando fomos embora, falei com ele em árabe para afirmar que eu era árabe, uma palestina, e que toda mulher árabe seria meu tipo de mulher em um futuro próximo. Ele sorriu paternalmente e se despediu.

Na mesma primavera, mais uma vez tive que lidar com o problema de ser mulher. O MNA decidiu treinar o primeiro contingente paramilitar de estudantes universitários. Eu estava entre os primeiros a se candidatarem e, por causa das minhas credenciais revolucionárias e minha longa experiência como ativista, não podiam me recusar com qualquer desculpa banal. Além disso, como eu compunha o comitê executivo da UGEP e militava na UAB, eles tinham medo de me recusar. Ao invés disso, tentaram me persuadir a não ir por causa da dureza do clima, da fadiga física e do embaraço que minha presença causaria. Assegurei a eles que eu estava disposta a encarar e vencer todas essas dificuldades. Finalmente eles concordaram em permitir a minha ida e me submeteram ao treinamento necessário.

A política era proibida no campus, mas o MNA estava organizado clandestinamente em uma célula de base. Eu era responsável por distribuir folhetos no Jewett Hall e colar cartazes em árvores na região. Eu o fazia às escondidas, em torno das cinco da manhã ou a uma hora, antes de dormir. Uma vez fui flagrada por um vigia que, à primeira vista, parecia severo e ameaçador, mas revelou fazer parte da nossa organização clandestina. Foi uma experiência gratificante encontrar um camarada no meio da madrugada. Desde então ele passou a me fornecer informações de segurança e a me orientar sobre quando era seguro realizar a tarefa. Ser pega significava expulsão sem direito a julgamento.  Eu estava no Jewett Hall por conta própria. Eu depositava um pacote de panfletos na caixa de correios das mulheres e, simultânea e periodicamente, criticava quem nos impunha aqueles panfletos inúteis. Ocasionalmente uma ou outra estudante vinha em defesa da distribuidora, argumentando que nos era essencial saber o que estava acontecendo e ouvir todos os pontos de vista. Essa tática me ajudava na organização, bem como no reconhecimento de quais estudantes tinham inclinações políticas.

Nunca revelaram aos estudantes, no geral, que eu era nacionalista e membra de uma organização clandestina, mas a administração era esperta e suspeitavam que eu era quem portava a tocha do nacionalismo no Jewett. Fui chamada à sala da reitora quando me avistaram, em público, distribuindo panfletos sobre o décimo-quinto aniversário de Israel. A reitora falou comigo, rápida e agressiva, em um inglês americanizado que eu fingi não entender. Ela ficou indignada com uma estudante da UAB que não sabia falar inglês. Ela chamou uma secretária e pediu que ela atuasse como intérprete. Então a reitora demandou: “você leu o manual do estudante?”. “Sim, eu li”, eu respondi por meio da intérprete. “Você sabia que, de acordo com o artigo sexto, você pode ser expulsa por distribuir panfletos políticos sem permissão?”. “Sim”, eu disse. “Então por que você fez isso?”. De forma inocente, disse que aquilo que eu estava distribuindo não eram panfletos políticos, de forma alguma. Ela tomou o panfleto da mão da secretária e leu algumas passagens em voz alta. “Isto não é um panfleto político que se enquadra no artigo sexto?”. Eu disse que não sabia o que era um panfleto, nem do que ela estava falando afinal. A coitada da reitora liberal começou a me explicar que um panfleto político era um comunicado que explicava, defendia e advogava uma posição política. Eu concordei com a definição, disse que era excelente, mas sustentei que ela não se aplicava ao meu caso, pois eu era palestina e essa defesa era natural e essencial para mim. “Para mim, a Palestina não é uma questão política”, eu declarei. “É uma questão de vida ou morte e ninguém, ainda mais uma Yankee que nem sabe falar árabe, pode me dizer como devo me comportar no que diz respeito a essa questão ou como devo lutar pelo meu país”. A reitora me achou uma estudante teimosa que precisava de disciplina e ameaçou me expulsar. “Duvido que você faça isso!”, eu gritei em inglês e declarei guerra a ela, como a uma agente da CIA, e à UAB como uma lacaia do Pentágono e dos cartéis de petróleo. “Reitora Yankee, vai chegar o tempo em que sentarei na sua cadeira e expulsarei todos os que são do seu tipo”. Saí com raiva dali gritando: “viva a Palestina! Viva o MNA! Viva a Revolução”. A reitora ficou em choque e, provavelmente, teve que tomar alguns tranquilizantes antes de se recompor para mais um dia de negócios burocráticos.

Na primavera de 1963, fui aprovada no meu ano de caloura, embora sem me destacar. Eu tinha esperanças de retornar à universidade e continuar minha formação, mas não tinha dinheiro o suficiente e precisava arrumar um emprego. O fim temporário dos meus estudos me fez olhar em retrospectiva para o valor da minha formação, no geral. Minha formação acadêmica não tinha o menor sentido, não me ensinava nada de valor mais duradouro. As poucas centelhas de vida naqueles anos foram em relação à política da revolução e estavam fora do currículo. Nos primeiros três ou quatro anos da minha formação, eu gostava de ler sobre história e literatura. Perto do final da minha carreira estudantil, meus interesses mudaram para matemática e química, e comecei a planejar uma especialização tanto em farmacologia como agricultura. Agricultura era vital, pois quando retornássemos à Palestina, seria necessário cultival a terra segundo bases científicas e provar ao mundo que sabíamos fazer um uso dela melhor que os sionistas.

Nos três primeiros anos da escola secundária eu lia sobre figuras importantes: Lincoln, Napoleão, Hitler, Lenin… no início eu admirava todos eles. Lincoln; como um liberal em seu tempo; Lenin, como “o maior sujeito histórico do mundo”, seguido apenas por Mao, Ho e Guevara. Eu admirava Hitler no início, pois entendia que ele era o inimigo dos judeus. Depois descobri que ele classificava os árabes como sub-humanos, ligeiramente acima dos ciganos e judeus. Eu admirava as conquistas militares de Napoleão e sua habilidade para vencer todos os obstáculos, até descobrir que ele fazia isso tudo por glória pessoal.

Na literatura, eu lia excertos de Dickens e Shaw. Eu adorava a obra deles e, uma vez, tentei imitar Shaw em um ensaio. O professor não gostou do meu esforço e a nota C+ foi um poderoso elemento de dissuasão contra imitações futuras. Eu dispensava Shakespeare como um autor pomposo e de circunlóquios. Em literatura árabe, eu gostava de poemas dos períodos Omíada e Abássida. Essa é toda a “formação” de que eu me recordo. Como eu tinha muito tempo livre entre 1960 e 1961, eu lia Gandhi por conta própria. Eu gostava da sua integridade moral, mas achava que ele nasceu sendo escravo e nunca transcendeu a sua escravidão.

Quanto às relações pessoais e sociais, levei uma vida “normal” para uma garota árabe. Por seis anos, gostei de um colega palestino que era estudante e de origem camponesa. No início, o fato de ele evitar as garotas me causava curiosidade. Depois eu descobri que sua aversão a garotas vinha de quando ele assistiu a mãe ser estuprada por soldados israelenses da região de Safad[6] em 1948. Ele abandonou a mãe partir do momento que se tornou capaz de se sustentar por conta própria. Não vi mais Adel desde que fui para a UAB, imagino se ele esteja entre os combatentes ou então entre um dos mártires. Talvez ele tenha perdido completamente a esperança e esteja vivendo nos barracos em alguma cidade árabe. Tive alguns namorados casuais, mas nunca fui realmente apegada a nenhum homem. Conforme eu crescia, eu me tornava mais e mais apegada à revolução.


[1] Sur (ou Sour; صور‎‎) corresponde ao nome árabe para a cidade de Tiro, no Líbano.

[2] Sublime Porta (ou simplesmente Porta) era a designação corrente dada entre 1718 e 1922 ao governo do Império Otomano. O termo é uma tradução da expressão turco-otomana Bāb-ı Ālī  (باب عالی‎ ; literalmente “grande portão” ou “portão principal”), dada ao monumental portão de entrada no palácio que alojava os principais órgãos do governo imperial.

[3] A Ivy League é um grupo formado pelas universidades consideradas de excelência nos Estados Unidos. Atualmente é composta pelas universidades de Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Yale e Universidade da Pensilvânia.

[4] Inicialmente publicado em Beirute em janeiro de 1960 pelo Movimento Nacionalista Árabe, o “Al-Hurriyah” (الحرية; Liberdade) foi um jornal afiliado à Frente Democrática para a Libertação da Palestina. Sob a direção de Mushin Ibrahim, tornou-se cada vez mais adepto às ideias socialistas, mesmo sob oposição de antigos membros fundadores do MNA.

[5] Ras Beirute (رأس بيروت; A Ponta de Beirute) é um bairro residencial nobre, onde residem algumas das famílias historicamente mais proeminentes de Beirute. Localizam-se na região muitas escolas e universidades internacionais, como a Universidade Americana de Beirute.

[6] O Distrito de Safad (قضاء صفد) localizava-se no Mandato Britânico da Palestina, quando a região esteve sob o domínio colonial britânico, que durou de 1920 a 1948.

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