A delegação de tarefas e poderes como mecanismo para projetar e formar militantes

Jacareí, setembro de 2000.

Texto por Adelar João Pizetta.

Retirado do Caderno de Formação do MST intitulado “Método de Organização: Construindo de um novo jeito”, disponível aqui.

Transcrição por Andrey Santiago.


Retomamos a temática da distribuição de tarefas e responsabilidades, como instrumento formador de militantes para nossa organização, no âmbito da revolução cultural, da mudança de métodos de trabalho e de direção, que possibilitam a ampliação e impulso na qualificação orgânica do movimento.

Portanto, uma reflexão antiga, mas, extremamente atual, pois a sua implementação ainda é um desafio, uma vez que é uma arte e está relacionada com outros princípios organizativos como o planejamento, a direção coletiva, a disciplina consciente, os processos de avaliação, etc, que necessitam serem aprimorados e aplicados com muita eficácia.

1 – O que é uma tarefa?

Normalmente, toda organização é criada para alcançar determinados objetivos. Para tanto, define sua estrutura orgânica, adota princípios organizativos, define táticas e estratégias de ação na sociedade e periodicamente estabelece um plano de atividades, orientado e guiado por aqueles objetivos que pretende alcançar.

Os objetivos podem ser estratégicos – serão atingidos mais a longo prazo, geralmente não são alcançados, em plenitude, com as atividades que estamos desenvolvendo no ato, mas, estas atividades devem estar de acordo com a linha geral dos objetivos estratégicos – e, podem ser táticos (imediatos) – serão alcançados com mais brevidade, pois, cada ação, cada atividade tem que ter definido os objetivos imediatos e, devem contribuir para que se avance em direção à conquista do objetivo estratégico.

Por isso, é extremamente importante ter muito claro esses objetivos, as metas a serem alcançadas num determinado período de tempo. No caso específico do MST, temos os objetivos maiores da organização – Conquistar a Terra, a Reforma Agrária e a Transformação da Sociedade, juntamente com outros setores e organizações políticas e de massas que atuam na sociedade – e os objetivos específicos definidos em cada setor, regional, em uma atividade específica como: uma ocupação, uma marcha, uma festa, um encontro, curso de formação, etc. ou por um certo período: semestre, mês, ano etc. que devem contribuir e estar orientados para a conquista estratégica: a transformação da sociedade.

Dessa maneira, a partir de um programa geral, se elaboram planos de atividades, baseados na análise profunda da realidade objetiva e subjetiva e, na perspectiva de que os objetivos sejam alcançados, tendo em vista o processo de transformação dessa realidade.

Ao elaborar os planos de atividades, é que se determinam as tarefas e responsabilidades individuais e coletivas, que devem ser cumpridas cabalmente num determinado período, para que as metas sejam alcançadas. O que é uma tarefa?

Para Camacho (1984), a tarefa é “uma ação ou conjunto de ações que levam a um resultado imediato passível de avaliação”. Ou seja, para que alguém possa dizer que cumpriu a tarefa que havia recebido, deverá apresentar um resultado concreto, podendo este ser negativo ou positivo; ter alcançado ou não o objetivo estabelecido.

Podemos exemplificar a tarefa de elaborar um documento. Esta tarefa pode conter várias ações: escrever o documento no papel, ler, esclarecer dúvidas, preparar o computador, digitar, corrigir erros, solicitar a assinatura dos responsáveis pelo documento, endereçar e colocar no correio ou, entregar para o destinatário pessoalmente. Percebe-se que essa tarefa possui várias ações que se complementam.

Nesse processo é importante que uma pessoa acompanhe o desenvolvimento de toda a tarefa, do contrário, não se poderá avaliar posteriormente de quem foi a responsabilidade, por exemplo em corrigir os erros, se uma pessoa leu e a outra digitou e no documento final aparecem erros.

Observa-se, portanto, que a tarefa possui dois elementos básicos:

a) As ações concretas (ato de agir, de intervir, de transformar) que se desenvolvem para cumprir a tarefa;

b) O resultado obtido pela execução das ações. Por isso, a avaliação é extremamente importante e necessária para medir o resultado das ações e, reordená-las se necessário for, para que a tarefa seja cumprida de acordo com os objetivos estabelecidos.

2 – O que é delegar?

A delegação de tarefas e poderes é um processo que utilizamos para atingir determinados objetivos, passando esta incumbência para outra pessoa, ao invés de nós desenvolvermos. É distribuir tarefas, mas, se distribui também, poder e responsabilidades.

O importante aqui é perceber que se trata de um processo, ou seja, não se trata de distribuir tarefas “a torto e a direito”, mas assim, preparar quem vai executá-las, dando-lhe informação, orientação e observando aqueles que apresentam melhores condições para o cumprimento de determinada tarefa.

A princípio, delegar não parece ser um processo complicado. No entanto, coloca-lo em prática de forma eficiente não tem sido tão fácil assim, mesmo porque, possuímos uma inclinação natural para não nos desfazermos daquilo que na verdade é uma parte de nosso poder. Além do que, para delegar é preciso sabedoria, domínio do processo para poder tomar decisões acertadas e orientar os militantes, pois, quem delega tem a mesma responsabilidade sobre o resultado a ser alcançado, do que aquele que recebeu a tarefa.

Portanto, para implementar a delegação de tarefas e poderes é necessário compartilhar com outras pessoas conhecimentos profissionais, experiência, poder, informação que normalmente quem deveria delegar (dirigente) concentra. Nesse aspecto, a solidariedade, o companheirismo entre os membros de uma organização é fundamental, pois, a fortaleza, a riqueza não está nos indivíduos em si, mas, no coletivo composto por esses indivíduos.

3 – Por que delegar tarefas e poderes?

É necessário que nos convençamos da importância e da necessidade de delegar tarefas, para que nosso método de trabalho seja eficiente, de maneira que através dele (do método) possamos ir formando e projetando novos militantes e dirigentes. Já dizia um dos nossos Mestres: Se queres ter filhos gigantes, prepara-te para gerá-los. É disso que se trata, devemos pensar em preparar gigantes para a luta de classes e não anões insignificantes.

Reafirmamos novamente a importância do princípio: a prática capacita e forma. Mas, não qualquer prática. Esta deve ser acompanhada da reflexão, do estudo. Deve ser organizada, orientada, disciplinada e passar necessariamente, por um processo de avaliação. A prática não se limita ao mero cumprimento das tarefas. Ela envolve o pensar, o planejar, o refletir, o executar, a responsabilidade, a tomada de decisões. Para visualizar essa importância vejamos alguns elementos:

3.1— O dirigente que delega tarefas tem mais tempo para as atividades específicas de direção

 Elaborar métodos de trabalho, propostas de ação, planos de atividades, refletir sobre o trabalho de organização, formação, etc. pois, o dirigente não é aquele que consegue fazer tudo sozinho, normalmente mergulhado no ativismo desenfreado, mas, aquele que propõe métodos de trabalho, unifica e envolve a militância por intermédio das atividades da organização, na luta.

3.2 — Alivia a tensão

Muitos dirigentes vivem sob uma tensão nervosa muito grande, pois todo o peso da responsabilidade das ações está em suas mãos, e, se algo falhar? Por causa dessa condição, muitos acabam por ter um comportamento agressivo e autoritário, por vezes desnecessário, se transformando em antipáticos perante a militância. Não perde poder o dirigente que sabe delegar, pelo contrário, angaria a confiança e o respeito, principalmente se dá condições para que o militante incumbido da tarefa tenha clareza dos passos a serem dados e onde deseja chegar.

3.3 — Projeta e capacita novos militantes

As pessoas se formam por intermédio do estudo e o desenvolvimento de atividades práticas, aprendem vendo fazendo. Assim pode-se aprimorar os conhecimentos de militantes, dando oportunidade para que demonstrem suas habilidades, potencialidades e cresçam na organização – pessoas “aparecem” fazendo, atuando — para que a organização se qualifique e solidifique.

3.4 — Motiva a militância

Já dissemos que a motivação, a vontade é importante no cumprimento das tarefas. O fato de o militante receber tarefas e poderes faz com que ele se sinta útil, valorizado e se empenhe ao máximo no cumprimento da tarefa, sem desistir, por mais exigente e difícil que ela seja.

3.5 — Eleva o nível dos resultados

Quanto mais pessoas estiverem envolvidas nas tarefas da organização, mais capacidade de desenvolvimento elas atingem. Por isso, delegar é uma arte, faz parte do método de trabalho e direção, que possibilita ampliar e melhorar os resultados das ações e lutas.

3.6—Amplia a organicidade e qualifica a organização

A delegação possibilita aplicar toda a capacidade que existe na militância; possibilita que os dirigentes forjem seus substitutos e progridam em seu próprio trabalho nas diferentes instâncias e níveis da organização. Permite corrigir vícios como o individualismo, personalismo, autoritarismo, etc., que afetam e prejudicam o avanço da organização e multiplicar os militantes. Por isso, é importante que o dirigente preste atenção e leve em consideração os militantes e lideranças que estão miando na organização sob seu comando, pois, deverá no processo de delegação demonstrar e alcançar:

1°) Competência, firmeza, determinação na direção do processo, para que alcance bons resultados políticos e organizativos, que se traduzam em crescimento para a organização;

2°) Ter preparado um, ou mais substitutos com competência e capacidade para, na sua ausência, assumir o seu lugar, sem prejuízos para a organização; isto é, deve preparar e projetar novos dirigentes na prática de direção que delega tarefas e poderes.

4 – É possível delegar tarefas com maior eficácia?

Por vezes, muitos dirigentes e militantes estão dentes da necessidade de distribuir as tarefas, procuram inclusive implementar em seu método de trabalho. Mas, se perdem no caminho e os resultados esperados não são alcançados, frustrando quem delega e quem recebe as tarefas. Portanto, é importante observar algumas orientações:

4.1 — Confie nas capacidades e no potencial que existe nos militantes

É preciso dedicar tempo, atenção para definir claramente o que se espera do militante. Não se desespere se por um acaso o resultado obtido for pior do que se atarefa tivesse sido desenvolvida por você. Tolere algumas deficiências, permitindo que os militantes desenvolvam o trabalho utilizando suas características pessoais, desenvolvendo a capacidade de pensar, de tomar decisão por conta própria, mas, não tolere jamais os vícios e desvios que prejudicam o crescimento do militante e da organização. Ou seja, é importante não anular a iniciativa dos militantes, mas, nunca perder o controle do processo.

4.2 — Delegue a tarefa, as ações, defina os objetivos a serem alcançados, mas nunca o procedimento

Nem sempre se pode definir o procedimento sem saber com profundidade os aspectos da situação, da realidade q envolve a tarefa. Nem sempre se pode dirigir, tomar decisões por telefone, à distância, sem todos os elementos para análise.

Isso não quer dizer que o procedimento não possa, não deva ser discutido, visualizando diferentes possibilidades e alternativas para um determinado problema. É claro que isso deve ser feito, inclusive, como forma de qualificar a prática do militante, de aprofundar as análises e exercitar a prática de tomada de decisões, prevendo as consequências futuras.

4.3 — O dirigente deve conhecer os militantes, não apenas de nome, mas quais são suas virtudes, habilidades, desvios, deficiências, etc

Para tanto é importante conversar com eles, observar o que e como fazem, qual seu temperamento, comportamento nas mais diferentes situações e circunstâncias: festas, futebol, cursos, perigos, etc. Escutar o que tenham a dizer, a reivindicar, quais seus objetivos, intenções, anseios, necessidades pessoais. Veja se desejam realmente assumir responsabilidades e em que áreas possuem mais afinidade?

4.4 — Esclareça ao máximo a tarefa a ser desempenhada

Os militantes necessitam ter clareza daquilo que irão fazer. Sempre deve-se perguntar: você entendeu? Está claro o que irá fazer? Explicar claramente a tarefa é garantia de que ela não será interrompida e o objetivo será mais facilmente alcançado. É bom recordar: “Quem não compreende o que tem a fazer, nunca se sentirá responsável pelo que deve fazer“. Esse momento da “explicação” é extremamente importante para aumentar a confiança do militante nele próprio e no seu desenvolvimento.

4.5 — Além de ser claro é preciso ser objetivo no ato de delegar

Procurar sempre definir: local exato, prazo para execução, pessoas envolvidas, definindo mecanismos de acompanhamento e supervisão da tarefa delegada.

4.6 — A delegação deve ser planificada, preparada e gradual

Delegue as tarefas, mas nunca abandone os militantes no meio do caminho, por outro lado, deixar a liberdade para que o militante atue sozinho não significa abandoná-lo. A avaliação do desempenho e do desenvolvimento da tara deve ser constante, é um requisito do método de distribuição de tarefas.

4.7 — Se uma tarefa não tem necessidade de ser executada, nem faça, nem delegue: elimine-a

Ou seja, nunca delegue tarefas que podem ser eliminadas, você estará economizando dinheiro e esforço outras pessoas eliminando trabalhos improdutivos e tarefas inúteis. Por isso, analise o que é prioritário, o que é imprescindível, daquilo que é desnecessário e secundário.

4.8 — Delegue tarefas importantes e exigentes

Delegar é compartilhar as preocupações, mas também os méritos com os militantes que constroem a organização, preparam e desenvolvem lutas e atividades com o povo. Através das tarefas importantes, significativas, os militantes vão se tornando conhecidos, respeitados, vão adquirindo autoridade política e moral perante a base.

4.9 — Delegue também tarefas agradáveis e gratificantes

Os militantes são pessoas humanas, possuem sentimentos, emoção e auto-estima. Delegue tarefas que você mesmo gostaria de estar desenvolvendo; compartilhe com os militantes tarefas interessantes, criativas, isto os capacita e qualifica. Lembre-se: as tarefas agradáveis para os dirigentes também são agradáveis para os militantes.

4.10 — Se uma tarefe não pode ser delegada e é fundamental para o avanço da organização e consecução de um objetivo, faça-a você mesmo, tão bem e perfeita quanto for possível

Nesses casos, que seu exemplo sirva para que outros militantes possam aprender a fazer. Utilize sempre a “pedagogia do exemplo”.

4.11 — Nunca seja imediatista

Reconheça e saiba que todas as coisas têm seu tempo. Compreenda bem o “tamanho” da tarefa e a capacidade, deficiências dos militantes que irão executá-la. Pense e atue realisticamente, baseado na realidade concreta e não em suas intenções e ambições apenas.

4.12 – Não delegue somente aos militantes mais competentes e aqueles com os quais tem maior afinidade

Já destacamos que a delegação é um mecanismo eficiente para qualificar e projetar novos militantes. Portanto, delegue tarefas a todos os militantes que estejam sob seu comando, para aumentar a força interna e ampliar capacidade de trabalho e combate em diferentes áreas. força está na massa em movimento, mas, esta (a massa) necessita de militantes que façam o trabalho de base e a coloque em movimento.

4.13 — Faça com que os militantes planejem a execução de suas tarefas

Lembre-se que uma tarefa pode ser composta por várias ações e, estas devem ser planejadas. Isso ajuda o militante a ir adquirindo o hábito de planejar e avaliar o seu desempenho. Os planos devem ser simples, concretos e práticos. Devem servir para distribuir os esforços, os recursos, orientar as ações na direção do objetivo estabelecido.

4.14 — Oriente e exercite os militantes para que consigam trazer soluções e não mais problemas

Insista para que os militantes pensem, analisem estudem demoradamente sobre as tarefas que terão que desenvolver, pois, o ato de delegar não pode ser concluído s o militante não estiver em condições de realizar a tarefa. Esse procedimento frustra os indivíduos e a organização.

4.15 — Jamais guie-se por afinidades pessoais e sentimentais

Na organização política, os critérios políticos estão acima das afinidades pessoais. Cada companheiro resulta do contexto s6cio hist6rico e organizativo de seu tempo, mas, deve chegar ao escalão mais alto possível por sua competência teórica e pratica, por suas habilidades e audácia política e, nunca por privilégios de apadrinhamento.

4.16— Implemente a emulação na instância ou na execução das tarefas

Não tenha medo de ceder méritos no momento e hora certa. Não tenha medo de reconhecer publicamente quando um militante teve um excelente desempenho através de seu esforço e determinação pessoal. Porém, esteja atento para não viciá-lo, para não deformá-lo. O mérito deve ser sinônimo de mais responsabilidade, mais compromisso, mais sacrifício e eficiência em favor do coletivo.

É possível que os militantes cometam erros, pois estão em processo de formação. Aí, analise e avalie com o militante o erro, procurando resguardar o companheiro para que continue o seu processo formativo e cada vez erre menos. Quem faz tem o direito de errar, se um dirigente não erra nunca, possivelmente não esteja dirigindo, pois como dirigente, terá que introduzir mudanças, elaborar estratégias de ação, inovar, tomar decisões importantes, etc, o que possibilita cometer erros. Não somos perfeitos, mas, devemos errar o menor número de vezes possível e, quando o erro acontecer, tratar de corrigi-lo imediatamente.

Nossos métodos de trabalho e de direção devem ser forjadores e formadores de militantes conscientes, capazes de assumir funções de direção a qualquer momento. É claro que isso não acontece de uma hora para outra, leva um certo tempo, mas, quem faz o tempo somos nós. Apressemo-nos portanto, enquanto existe tempo para fazer vigorar o novo.

Muitas vezes reclamamos que não dispomos de militantes qualificados e/ou em condições de desenvolverem as tarefas de acordo com as necessidades e nossas intenções. Para essa condição, é importante observar e aplicar o ensinamento do mestre. “Ensine as pessoas comuns durante sete anos e estas também poderão ir para a guerra”.

Se trabalharmos com muito empenho, teremos milhares de militantes com capacidade para dirigir nosso movimento, talvez, para tanto, não necessitemos de sete anos. Mas, nossos desafios são bem maiores, a batalha é muito difícil, pois, na guerra ou se triunfa ou se morre. E, se os ensinamentos não forem permanentes e eficazes para vencer a guerra, possivelmente, sete anos sejam insuficientes para alcançarmos a vitória.

Mas, acreditemos na capacidade de recuperar os recuperáveis; de transformar os bons em ótimos, e estes, em imprescindíveis.

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