Antonio Gramsci – Revolucionários e Eleições

15 de novembro de 1919.

Disponível originalmente no site Marxists.

Tradução por Elita de Medeiros.

O que os revolucionários conscientes esperam das eleições, aqueles trabalhadores e camponeses que consideram o Parlamento de deputados eleitos por sufrágio universal (dos exploradores e explorados) de acordo com constituintes territoriais, a máscara da ditadura burguesa? Eles certamente não esperam a conquista da metade mais uma das cadeiras, e uma legislatura que se caracteriza por uma chuva de decretos e leis que tendem a arredondar os cantos e tornar mais fácil e cômoda a coabitação das duas classes, a dos exploradores e a dos explorados. Eles esperam, em vez disso, que a força eleitoral do proletariado consiga trazer um núcleo sólido de ativistas do Partido Socialista para o Parlamento, e que esse núcleo seja numeroso e forte o suficiente para formar um governo estável e forte para, assim, tirar a burguesia do equívoco democrático, da legalidade, e provocar uma revolta das camadas mais profundas e amplas da classe trabalhadora contra a oligarquia dos exploradores.

Os revolucionários conscientes, os operários e camponeses que agora estão convencidos de que a revolução comunista só acontecerá através da ditadura do proletariado encarnado em um sistema de conselhos operários e camponeses, lutaram para enviar muitos deputados socialistas ao Parlamento, porque eles têm raciocinado desta forma: a revolução comunista não pode ser realizada com um único golpe. Se mesmo uma minoria revolucionária conseguisse assumir o poder pela violência, essa minoria seria derrubada no dia seguinte pelo contragolpe das forças mercenárias do capitalismo, porque a maioria não absorvida permitiria que a flor do poder revolucionário fosse massacrada, permitiria que todas as paixões malignas e barbaridades excitadas pela corrupção e ouro capitalista transbordassem. É necessário, portanto, que a vanguarda proletária organize material e espiritualmente essa maioria indolente e lenta; é necessário que a vanguarda proletária faça acontecer, com seus métodos e sistemas, as condições materiais e espirituais nas quais a classe proprietária não conseguirá mais governar pacificamente as grandes massas dos homens, mas será constrangida pela intransigência dos deputados socialistas controlados e disciplinados pelo partido para aterrorizar as grandes massas, para golpear cegamente e fazê-las se revoltar. Tal fim só pode ser perseguido hoje através da ação parlamentar, entendida como ação que tende a imobilizar o Parlamento, tende a arrancar a máscara democrática da dupla face da ditadura burguesa e mostrá-la em todo o seu horror e sua feiura repugnante.

A revolução comunista é uma necessidade na Itália mais por razões internacionais do que por razões inerentes ao desenvolvimento do aparelho de produção nacional. Os reformistas e toda a gangue de oportunistas têm razão quando dizem que não existem condições objetivas para a revolução na Itália: eles estão certos na medida em que pensam e falam como nacionalistas, na medida em que concebem a Itália como um organismo independente do resto do mundo, e concebem o capitalismo italiano como um fenômeno puramente italiano. Eles não concebem o internacionalismo como uma realidade que vive e funciona tanto na história do capitalismo quanto na do proletariado.

Em vez disso, se a realidade italiana é concebida como inserida em um sistema internacional, como dependente desse sistema internacional, então o julgamento histórico muda e a conclusão prática a que todo socialista consciente deve chegar, todo trabalhador e camponês que sente a responsabilidade da missão revolucionária de sua classe é isto: é preciso estar preparado, é preciso estar armado para a conquista do poder social. O fato de a revolução ser imposta pelas condições do sistema capitalista internacional torna a tarefa da vanguarda revolucionária italiana mais difícil e complicada, mas essas complicações e essas dificuldades devem nos levar a ser mais bem treinados e preparados, não devem levar a ilusões e ceticismo.

Só assim a revolução encontra as grandes massas populares italianas ainda não formadas, ainda pulverizadas em um enxame animal de indivíduos sem disciplina e sem cultura, obedientes apenas aos estímulos do estômago e das paixões bárbaras. Da mesma forma, os revolucionários conscientes aceitaram a luta eleitoral: para criar uma forma e unidade primordial nessa multidão, para uni-la por um elo de ação ao Partido Socialista, para dar um sentido e um vislumbre de consciência política aos seus instintos e suas paixões. Também assim a vanguarda revolucionária não quer que essas multidões se enganem, para fazê-las acreditar que é possível superar a crise atual com a ação parlamentar, com a ação reformista. É necessário endurecer a separação das classes, é necessário que a burguesia demonstre sua absoluta incapacidade de satisfazer as necessidades das multidões, é necessário que sejam persuadidas pela experiência de que existe um dilema claro e bruto: a morte de fome, a escravidão de um calcanhar estrangeiro no pescoço que obriga o trabalhador e o camponês a desabar na máquina ou no gramado, ou um esforço heroico, um esforço sobre-humano dos trabalhadores e camponeses italianos para criar um ordem proletária, para suprimir a classe proprietária e eliminar todas as causas de desperdício, baixa produtividade, indisciplina e desordem.

Foi somente por estas razões revolucionárias que a vanguarda consciente do proletariado italiano desceu às listas eleitorais e plantou-se solidamente no mercado parlamentar. Não foi por uma ilusão democrática, ou por uma ternura reformista: foi para criar as condições para o triunfo do proletariado, para garantir o bom resultado do esforço revolucionário que visa a instalar a ditadura do proletariado encarnada no sistema de conselhos, dentro e fora do Parlamento.

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