O Líder e a Ciência da Guerra

Trecho retirado do livro “The First Red Clausewitz”: Friedrich Engels and Early Socialist Military Theory, 1848 – 1870”, editora Tannenberg Publishing, escrito por Michael A. Boden.

Tradução por Iago Braga.


A Ciência Militar

A nova ciência da guerra deve ser um produto necessário das novas relações sociais como a ciência da guerra criada pela revolução e por Napoleão foi o resultado necessário das novas relações criadas pela revolução.[i]

É preciso lembrar que, ao longo de sua vida, Engels, assim como Marx, acreditava que o movimento do proletariado era uma potência beligerante e precisava estar preparado, mental e fisicamente, para o conflito.[ii] Embora não fosse um especialista militar treinado, Engels prestou atenção especial ao estado contemporâneo da profissão das armas em termos de técnicas e procedimentos. Seu serviço militar inspirou o desejo de contribuir ainda mais para o desenvolvimento do pensamento militar marxista para se preparar para a revolução proletária que se aproximava.[iii] A ciência militar era um elemento crítico, para Engels, do progresso de qualquer missão revolucionária, e ele não considerava um desperdício se esforçar no desenvolvimento de uma teoria militar marxista: “O objetivo mais importante de todos os estudos de Engels em ciência militar era o fornecimento de uma base para estratégias e táticas revolucionárias”.[iv] Embora certamente reconhecesse o papel do comandante e da dedução na busca e prática da arte militar, Engels também viu muitas características diretamente relacionadas à abordagem científica da guerra. Sucessos e fracassos no campo de batalha, bem como falhas e deficiências nos procedimentos de treinamento antes do conflito, podiam ser atribuídos diretamente à adesão de um exército a uma abordagem científica de combate. Em nenhum lugar de seus escritos Engels dedicou um corpo consistente de trabalho ao assunto. No entanto, ele frequentemente incluía essa discussão em seus escritos sobre a guerra do período, com particular atenção ao papel e à aplicação da ciência militar às Revoluções de Meados do Século XIX e às guerras coloniais. Nestes últimos conflitos, Engels viu que as leis da ciência militar no contexto de uma guerra social revolucionária não permaneceram constantes, mas sim em um estado de fluxo contínuo. Foi nessas situações que os exércitos regulares da Europa descobriram muitos problemas na busca e condução da guerra.

Engels permaneceu bastante consistente ao longo de sua vida na definição dos parâmetros em que ele comentou sobre a ciência militar. Um dos principais elementos que ele considerou ao se aproximar da batalha foi o precedente histórico; e no estudo profissional da história militar, Engels percebeu muitas deficiências. O reconhecimento de tais deficiências foi um dos principais motivadores que o incitaram a escrever seus comentários “The Armies of Europe” [Os Exércitos da Europa] no verão de 1885.[v] Nesse ensaio, afirmava que “a história militar, como ciência em que a correta apreciação dos fatos é a única consideração primordial, é de data muito recente e ainda se orgulha de uma literatura muito limitada”.[vi] Seguindo esta observação, Engels fez comentários frequentes sobre eventos passados e de sua época. Como parte de seu comentário, uma das principais épocas no desenvolvimento da ciência militar ocorreu no século anterior à Revolução Francesa, quando grandes capitães como Turenne e Frederico, o Grande, revolucionaram a condução da guerra por meio da fusão de novas armas e novas táticas em toda a Europa.[vii]

Além de reconhecer a utilidade da história militar para a ciência militar contemporânea, Engels também se mostrou perspicaz em outra arena da guerra científica que figuraria com destaque no século XX. Já em seus escritos sobre as revoluções de meados do século na avaliação da capacidade da França e da Grã-Bretanha de conduzir a guerra, Engels chegou a certas conclusões usando uma fórmula numérica que incorporava população nacional, viabilidade econômica e rendimento produtivo para determinar o tamanho e as capacidades não apenas dos exércitos adversários, mas também de esquemas de mobilização. Engels permaneceu cético quanto ao tamanho dos exércitos em massa que seriam capazes de entrar em campo. Criar um exército que incorporasse mais de 12% da população de uma nação acarretou em um aumento no programa econômico e na base tecnológica/industrial de um país a um grau que a produção mecânica superaria excepcionalmente o trabalho humano. Em 1851, esse recurso não existia.[viii]

De uma maneira economicamente malthusiana, isso atrelou o crescimento de um estado às estatísticas econômicas, industriais, agrícolas e populacionais. Certamente, essas discussões não eram comuns em meados do século XIX. Cinquenta anos depois, no entanto, teóricos como Jean de Bloch elaboraram um pensamento semelhante em suas análises das forças armadas europeias nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.[ix] Na época em que a Primeira Guerra Mundial começou, considerações comparáveis figuravam de forma proeminente no pensamento de todos os combatentes e impactavam significativamente a capacidade nacional de travar guerra com a conclusão das hostilidades em 1918. Particularmente na situação da Alemanha, os problemas de mão de obra, combinados com a condição industrial, causaram problemas que não se solucionaram com Versalhes, continuando nas próximas décadas.

Engels também viu a importância de manter objetivos claros em tempo de guerra. Embora isso pareça quase uma segunda natureza para um profissional militar, para Engels e seus comentários sobre os movimentos de guerrilha e a guerra irregular, tais considerações não eram dadas. Na Índia, durante a Revolta dos Cipaios, os amotinados indianos ganharam vantagens limitadas sobre as forças britânicas e conduziram operações que tinham pelo menos o potencial de uma vitória significativa. Infelizmente, os insurgentes “careciam totalmente do elemento científico sem o qual um exército hoje em dia está indefeso”.[x] Nos campos multifacetados de conflito durante sua vida, Engels raramente fazia distinções entre a guerra regular e a guerra irregular em relação às abordagens científicas da guerra. A aplicação e utilização dos princípios científicos da guerra não cessaram com o início da guerra não convencional, mas continuaram a ser de suma importância para a progressão das operações.[xi]

Um meio pelo qual Engels expressou suas opiniões sobre a guerra científica foi o The New American Cyclopaedia. Durante os mais de três anos de suas apresentações, de julho de 1857 a novembro de 1860, Engels contribuiu com muitos artigos diferentes que incorporaram a discussão, direta ou indiretamente, sobre as relações das considerações científicas com a condução da guerra. Nos artigos intitulados “Attack”, “Army” e “Artillery”, Engels incorporou o impacto do conhecimento científico não apenas nas operações reais, mas também nos conceitos e princípios gerais que orientaram a organização e o desenvolvimento doutrinário das forças armadas nacionais. Nesse sentido, a história militar figurou com destaque como a base para tal desenvolvimento.[xii] Além disso, Engels teve o cuidado de citar exemplos específicos de comandantes militares que, de maneira adequada ou, em alguns casos, indevidamente, aplicaram práticas científicas em suas campanhas. Engels citou líderes como o Bem na Hungria e o Marechal de campo prussiano Gebhard Leberecht von Blücher durante as guerras napoleônicas como exemplos de oficiais que alcançaram sucesso dessa maneira.[xiii] Outras pessoas, como o Barão Menno van Coehoorn e o Visconde William Carr Beresford contribuíram significativamente para o desenvolvimento da profissão militar por meio de seus trabalhos teóricos.[xiv] Imediatamente após esses ensaios, estava a série de Engels para o The Volunteer Journal na Inglaterra, onde ele abordou as mesmas questões. Citando o general francês Thomas Robert de la Piconnerie Bugeaud, Engels expôs o que considerava princípios úteis e perspicazes da guerra. Ele construiu sua justificativa para essa conclusão na maneira como Bugeaud fundamentou seus princípios em “táticas científicas”, ao invés do apelo emocional abstrato a seus subordinados.[xv] Como pode ser visto, a compreensão dos conceitos da ciência militar dependia muito da educação e da habilidade dos indivíduos. Portanto, Engels gastou uma quantidade considerável de tempo abordando a maneira e o método pelos quais a ciência militar era aprendida e aplicada na guerra.

Liderança

Engels passou um tempo considerável avaliando e abordando diferentes traços de liderança e diferentes habilidades dos líderes na busca de objetivos militares. Nessa discussão, certos conceitos aparecem com frequência, sugerindo elementos-chave que Engels considerava decisivos e criticamente importantes para uma liderança bem-sucedida em combate. Embora a maioria de seus exemplos específicos se referisse a generais ou líderes sêniores, todas essas observações poderiam ser aplicadas igualmente às ações de oficiais subalternos mais jovens. De fato, muitas das deficiências que Engels viu entre os líderes sêniores de sua época eram problemas que se baseavam em questões não resolvidas de juventude e educação desses oficiais em particular. Pessoalmente, Engels teve resultados mistos quando foi colocado em posições de responsabilidade. Embora ele certamente estivesse orgulhoso de seu serviço na cidade de Elberfeld em maio de 1849, o fato é que ele foi “de certa maneira ejetado sem cerimônia” de seu cargo depois de alguns dias. Ele se recuperou, no entanto, para servir com distinção durante a revolta do Palatinado no final daquele ano.[xvi] Hammen, em sua avaliação de Engels durante as revoluções de meados do século, diz que ele era “um líder entre os homens, com um gosto pela ação e um gênio para o discurso espirituoso e o ridículo”.[xvii] Esta seção abordará a análise de Engels dos traços de liderança, tanto bons quanto ruins, enfatizando os aspectos críticos para uma boa liderança.

O Moral e a Motivação

Durante as revoluções de meados do século, Engels comentou com frequência sobre a importância e a natureza crítica do moral e da capacidade de um líder de inspirar seus subordinados na batalha. Um dos elementos-chave que Engels considerou importante para um líder eficaz realizar foi transmitir às suas tropas uma ideia de elã e espírito. Um bom líder garantiu que as tropas sob seu comando tivessem moral superior e usasse essa motivação para obter sucesso no campo de batalha, mesmo quando contra um inimigo tecnologicamente superior e bem fornecido.[xviii] Um dos primeiros indivíduos que Engels identificou como possuindo essa habilidade única de inspirar tropas e imbuir nelas o entusiasmo por uma causa é o líder húngaro Kossuth. Nesse sentido, Engels via Kossuth como uma reencarnação dos grandes revolucionários franceses Carnot e Danton em sua capacidade de criar as condições em um exército sitiado que facilitaram a vitória.[xix] Ao longo da campanha na Hungria, Engels citou o amor do povo húngaro por Kossuth e sua disposição de se unir em torno de seus apelos à ação.[xx] Kossuth, no entanto, não foi o único líder húngaro elogiado por Engels por sua habilidade nesse aspecto. Engels também citou o general húngaro Mór Perczel como um comandante que foi capaz de realizar façanhas de motivação com suas incursões na região eslovaca.[xxi]

Engels contrastou isso com o fracasso total dos comandantes austríacos que se opunham a eles em realizar atos semelhantes. Mesmo generais austríacos como Radetzky, que Engels considerou bastante dignos de elogio por algumas de suas operações na Itália, falharam, na mente de Engels, em inspirar qualquer tipo de aumento motivacional entre seus próprios soldados, quanto mais a população local. Da mesma forma, Engels reprovou o príncipe Windisch-Gratz por sua incapacidade de reprimir a rebelião húngara, bem como por suas lamentáveis missivas a respeito da força e habilidade húngara.[xxii] Na verdade, Engels quase pareceu perplexo ao comparar os procedimentos de luta dos húngaros e dos austríacos. Embora reconhecendo a superioridade dos austríacos em número, organização e armamento, ele ficou surpreso com o grau em que os húngaros foram capazes de obter sucesso contra eles. Na mente de Engels, devia haver algum outro fator em ação, e a razão mais evidente ali era o espírito do exército que dava às forças magiares a vantagem final.[xxiii]

A Hungria não foi a única região em que Engels encontrou exemplos de liderança vigorosa sendo essenciais para o sucesso durante as revoluções de meados do século. O próprio Engels participou da abortada campanha Palatina de 1849 contra as forças prussianas e, em geral, foi muito crítico de todos os aspectos do desempenho dos insurgentes. Houve, no entanto, alguns pontos positivos neste desastre revolucionário. Um desses pontos brilhantes foi um comandante insurgente de Baden, o polonês Ludwik Mierosławski. Mesmo que Mierosławski não tenha sido capaz de reverter os elementos que fizeram com que o exército insurgente fosse “desorganizado, derrotado, desanimado [e] mal provido”, ele era pelo menos, na mente de Engels, capaz de reviver o exército o suficiente para lutar algumas batalhas finais em Waghäusel e Ubstadt e afastar com alguma aparência de ordem para além do terreno montanhoso e através do rio Murg em direção à fronteira com a Suíça no verão de 1849.[xxiv]  Embora sem sucesso, Engels creditou a Mierosławski, ao menos, a inspiração dos insurgentes com a capacidade de realizar alguma ação progressiva.

Após as revoluções de meados do século, Engels não comentou com tanta frequência sobre a importância de um líder para manter o moral neste sentido genérico da palavra. O único caso significativo de Engels comentando sobre tal ocorrência foi durante a Guerra da Crimeia, quando as tropas aliadas na península estavam levando muito tempo para derrotar as forças russas que se opunham a eles. Engels, certamente nenhum crítico fácil dos Aliados durante essa ocasião, encontrou um general francês que ele citou como excelente em suas habilidades – Jean-Jacques Pélissier. Dado o estado decrépito (na opinião de Engels) do exército aliado e das fortificações durante a campanha, as ações de Pélissier ao assumir o comando foram planejadas apropriadamente “não com a intenção de realmente invadir o local no momento, mas para manter o moral dos homens”.[xxv] Esta atividade da parte de Pélissier foi particularmente notável dada a falta de consideração do seu antecessor, o general Fraçois Canrobert, pelo moral dos seus subordinados e pela sua incapacidade de os inspirar.[xxvi]

Disciplina e Organização

Após as revoluções, as análises de Engels dos atributos de liderança desenvolveram-se das concepções mais simplistas de mera “elevação do moral” para a incorporação de qualidades mais especializadas de que os líderes precisavam para ter sucesso. Dois dos elementos mais importantes nessa concepção eram as ideias de incutir disciplina nas tropas e de organizá-las da maneira mais eficaz para o combate. Embora Engels tenha visto tais considerações presentes nas ações dos generais no início de seus escritos, ele nunca desenvolveu esses temas como entidades separadas por direito próprio, como fez em anos posteriores. Certamente, líderes como Kossuth e Bem mostraram-se bastante hábeis em utilizar os recursos necessários à sua disposição para lutar contra os austríacos com sucesso em muitas ocasiões.[xxvii] Mas as reflexões sobre as ações desses líderes permaneceram relativamente raras e em nenhum lugar exibiram qualquer profundidade de traços analíticos. Como testemunha e avaliador de vários movimentos insurgentes ao longo de sua vida, no entanto, Engels tinha pouca paciência para qualquer tipo de desordem em uma força revolucionária.[xxviii]

Assim que Engels começou a escrever sobre as atividades da Guerra da Crimeia, no entanto, conceitos como disciplina e organização desempenharam um papel cada vez mais importante em seu exame da liderança em combate. Embora seus comentários sobre disciplina durante a Guerra da Crimeia fossem poucos (ele viu muitos outros problemas com os exércitos além da simples disciplina), pode-se começar a ter uma visão das ideias que moldariam seus escritos futuros. A mais importante dessas concepções era a ideia de que a disciplina era decisiva e um requisito absoluto para qualquer operação militar bem-sucedida. Um dos motivos da duração da campanha da Crimeia, na opinião de Engels, foi a disciplina das tropas envolvidas na luta, independentemente da habilidade geral dos comandantes envolvidos. As tropas disciplinadas poderiam suportar muito mais adversidades do que as tropas indisciplinadas.[xxix] Na Guerra da Crimeia, essa observação refletiu em ambas as direções, quase igualando-se entre os russos e os aliados.

Nos últimos anos da década, entretanto, Engels comentou sobre a luta onde a disciplina não era tão equilibrada entre as partes em combate e onde desempenhou um papel definitivo na determinação do resultado da luta. Durante os esforços de socorro do General Campbell para aliviar a guarnição sitiada em Lucknow, Engels atribuiu a forte disciplina como uma das principais razões para o sucesso da operação. A operação de Campbell demonstrou que “um ataque por tropas europeias bem disciplinadas e bem administradas, preparadas para a guerra e de coragem mediana, contra uma ralé asiática, sem disciplina, nem ofício, nem hábitos de guerra”, inevitavelmente levará ao sucesso dos europeus.[xxx] Depois que um exército perdia essa disciplina, como era comum durante o século XIX, quando os exércitos europeus divagavam para saque e pilhagem após as batalhas, era difícil, senão impossível, se recuperar em tais situações.[xxxi] Essas características, e o fracasso das tropas inglesas em divergir em tal estado de indisciplina como Engels citou, levaram ao sucesso da missão de Campbell, independentemente da progressão futura da campanha. Os insurgentes, que em várias ocasiões falharam em manter a ordem necessária para combater os ingleses, sofreram a derrota inevitável.[xxxii]

Da mesma forma, Engels guarda muitos elogios pela capacidade de Garibaldi, o revolucionário italiano, de alcançar o sucesso contra probabilidades aparentemente enormes. Engels observou a capacidade de Garibaldi de manter a ordem e a disciplina dentro das fileiras já em maio de 1859, quando chamou o italiano de “um disciplinador estrito [que] manteve a maior parte de seus homens sob suas mãos por quatro meses”.[xxxiii] Tal competência e destreza eram necessárias para enfrentar as forças mais regulares que ele enfrentaria em suas campanhas nos próximos anos.[xxxiv]

Quando Engels usou o fórum da The New American Cyclopaedia para destacar alguns de seus pontos de vista na década de 1850, além de enfatizar o elemento social nas organizações militares, ele escreveu sobre várias figuras militares diferentes.[xxxv] Destes, ele concentrou grande parte de sua escrita em cada um dos aspectos da habilidade de disciplinar ou de organizar efetivamente uma força de combate. Por exemplo, Barclay de Tolly, o general napoleônico russo, era um “disciplinador severo”, que mantinha suas tropas firmemente sob controle.[xxxvi] O húngaro Bem “mostrou-se mestre na arte de criar e disciplinar repentinamente um exército”.[xxxvii] Finalmente, o general Beresford era digno de inclusão na Cyclopaedia à luz de sua “reorganização bem-sucedida” e do disciplinamento das tropas portuguesas durante as décadas de 1810 e 1820.[xxxviii] Certamente, essas características de liderança bem-sucedida se tornaram mais importantes para Engels, à medida que ele dedicou cada vez mais tempo e espaço limitados para comentar sobre esses atributos entre figuras militares.

Competência Técnica e Tática

Claro, um dos atributos mais importantes que qualquer líder militar deve possuir é o conhecimento de sua profissão. Engels certamente não deixou de lado essa qualidade, mas seu apreço por ela certamente se desenvolveu e se expandiu ao longo de seus anos de escrita.

Engels encontrou suas primeiras oportunidades para escrever sobre a elementar competência militar durante a campanha italiana de 1848. Durante essa campanha, Engels escreveu severamente sobre Carlos Alberto, o rei da Sardenha, que cometeu muitos fracassos significativos como líder. Mesmo assim, Engels escreveu antes do término da campanha que “apesar de todas as más qualidades desta ‘espada da Itália’, ainda existia a possibilidade de que pelo menos um de seus generais [Carlos Alberto], favorecido por tais posições de vantagens incomuns, poderia ter possuído a habilidade militar para reivindicar a vitória para as cores italianas”.[xxxix] Infelizmente para os sardos, o próprio Carlos Alberto cometeu muitas faltas imperdoáveis, na opinião de Engels, levando ao fracasso final da campanha. Algumas dessas falhas incluíam a ampla dispersão de forças diante do inimigo, a negligência em se formar uma reserva, a falta ou inadequação de itens logísticos para seu exército, como alimentos e munições corretas para as armas expedidas.[xl]

Do lado austríaco, Engels achou as ações de Radetzky bastante louváveis, independentemente da aparente antipatia que Engels mantinha neste ponto de sua vida pelo general. Engels chama as operações de Radetzky na Itália de “magistrais”, citando a capacidade do austríaco de usar as posições defensivas dentro do quadrilátero italiano de maneira extremamente eficaz e de aproveitar as múltiplas falhas (mencionadas no parágrafo acima) da liderança italiana.[xli]

Durante as revoluções de meados do século, os comentários mais contundentes de Engels caíram sobre as cabeças dos insurgentes com quem ele lutou durante o levante palatino de 1849. Até Mierosławski, que Engels considerou um líder melhor do que a maioria, sofreu de falta de habilidade em certos exemplos, principalmente após a batalha de Waghäusel, onde suas ordens pouco claras (juntamente com a incompetência de seus subordinados) permitiram que os prussianos cruzassem o Reno e ganhassem uma vantagem tática, forçando os insurgentes ao sul, sem qualquer oposição.[xlii] Engels observou que Mierosławski assumiu o comando de Herr Joseph M. Reichardt, um advogado que possuía pouca inteligência em assuntos militares profissionais, e tinha como segundo em comando o oficial polonês Franz Sznayde, que Engels descreveu como pessimista de “total incompetência”.[xliii] Além disso, antes do mandato de Mierosławski, as façanhas do comandante-chefe vurtemberguês treinado profissionalmente, Franz Sigel, levaram a resultados desastrosos para a insurgência. Durante o comando de Sigel, “tudo se confundiu, todas as boas oportunidades foram perdidas, todos os momentos preciosos foram desperdiçados com o planejamento de projetos colossais, mas impraticáveis”.[xliv] Embora Engels pessoalmente não gostasse de Sigel, e embora sua crítica fosse bastante geral e carecesse de detalhes, Engels não estava muito errado em sua avaliação da situação desesperadora do exército sob esses comandantes nenhum um pouco fora de série. O desempenho de Sigel doze anos depois, na Guerra Civil Americana, também não faria nada para provar que Engels estava errado.

Durante a Guerra da Crimeia, Engels encontrou muito pouco a ser aplaudido em qualquer exército, fosse britânico, francês, turco ou russo. Mesmo nas ocasiões em que um líder fez uma ação perspicaz, como a seleção do Príncipe Alexander Menshikov e localização de suas posições na Batalha de Alma, Engels notou a incapacidade do oficial em exercício de utilizar plenamente todos os recursos disponíveis e funções necessárias à sua disposição.[xlv] Em geral, os exércitos que operam na Crimeia receberam muito poucos aplausos de Engels por suas ações nos níveis mais altos. O generalato aliado, nas palavras de Engels, “tem sido pior do que indiferente”.[xlvi]  Os russos receberam um tratamento pouco melhor, principalmente porque Engels acreditava que “os russos em geral não são formidáveis”.[xlvii] Com um pouco de humor que Engels incutia de vez em quando em seus escritos, ele comentou mais tarde que “nenhum general russo jamais teve um pensamento original, nem mesmo [marechal-de-campo Príncipe Alexander, 1729-1800] Suvorov, cujo único original foi o da vantagem direta”.[xlviii]

A maior parte dos elogios que Engels ditou nesta situação pertenceu aos oficiais de escalão inferior que alcançaram algo digno de nota. Isso é particularmente significativo, pois demonstrou um maior desenvolvimento no processo de pensamento de Engels, onde ele começou a notar os tomadores de decisão de nível inferior e as decisões que eram críticas para uma operação, bem como a importância dos oficiais subalternos. Três exemplos em particular se destacam. Primeiro, o engenheiro inglês, coronel Sir Harry David Jones, que supervisionou as fortificações inglesas nos teatros do Báltico e da Crimeia, foi adepto de perceber e compreender as capacidades e limitações das forças inglesas disponíveis para ele.[xlix] Da mesma forma, um dos principais engenheiros russos, o coronel Conde Eduard I. Todtleben, um “homem comparativamente obscuro a serviço da Rússia”, provou ser adepto do desenvolvimento de fortificações dentro de Sebastopol.[l] Finalmente, Engels deu atenção suficiente às astutas observações de um jovem major prussiano em 1836, quando aquele oficial escreveu sobre as particularidades e detalhes da defesa da Silistra. O fato de Engels ter prestado atenção tão cedo às observações do major Helmuth von Moltke reflete muito positivamente em suas habilidades de observação.[li]

Nas batalhas que ocorreram durante os doze anos que se seguiram à campanha da Crimeia, Engels testemunhou e examinou vários generais diferentes e suas ações. O general inglês Campbell recebeu notas bastante altas de Engels por sua habilidade tática diante de Lucknow, em uma posição extremamente incômoda, como Engels admitiu. Engels elogiou Campbell por seu julgamento e uso de armas combinadas para derrotar um inimigo numericamente superior em um ambiente hostil, e deu-lhe “o maior elogio por sua habilidade tática”.[lii] Por outro lado, poucos generais desse período sofrem mais críticas de Engels do que o general Gyulai, comandante austríaco na Itália em 1959 e oficial que Engels uma vez admirou, que cometeu vários erros táticos que levaram à derrota final em mais de uma ocasião. Em seu artigo, “A Chapter of History”, publicado em junho de 1859, Engels citou várias razões-chave para a derrota de Gyulai, como sua lentidão de movimento, preguiça e ampla dispersão de tropas.[liii]

No sul da Itália, Garibaldi demonstrou uma série de qualidades que o fizeram parecer altamente favorável na opinião de Engels. Em particular, ele possuía a habilidade de se mover rapidamente contra uma força inimiga de uma posição de flanco. Ataques de velocidade e flanco foram muito importantes para a concepção militar de Engels.[liv] Essas mesmas qualidades apareceram na entrada de Bennigsen no relato de Engels para a New American Cyclopaedia. O uso de “fogo, audácia e rapidez” por Bennigsen foram os elementos-chave para o sucesso de sua campanha polonesa de 1793-1794.[lv] O general da União, George B. McClellan, refletiu a opinião oposta. McClellan manteve a duvidosa distinção de ser um dos poucos generais da Guerra Civil Americana a respeito dos quais Engels comentou, e seus comentários estavam longe de ser favoráveis. Engels descartou McClellan de forma um tanto petulante em maio de 1862, como um “incompetente militar”, que era incapaz de vencer batalhas por medo de perdê-las.[lvi]

“Os Grandes Homens do Exílio”

Em 1852, após o fracasso dos movimentos revolucionários de meados do século, Engels escreveu um breve manuscrito com Karl Marx discutindo as características necessárias de um líder partidário. Este artigo é particularmente útil porque foi escrito no início da carreira de Engels, enquanto as experiências de seu único envolvimento direto em combate ainda estavam frescas em sua mente. O histórico de Engels durante as lutas dessa época foi bastante louvável. Embora não demonstrando habilidade militar notável, Engels demonstrou um grau de competência notável para seu exército, bem como para a época em geral.[lvii]

No artigo, Engels enfocou o conceito relativamente novo de um líder partidário. O líder nessa situação se deparou com um dilema relativamente novo para a profissão militar. Ele dependia de seus homens para seu próprio sustento, embora os homens em seu comando devam sua lealdade total e completamente a ele, não a uma nação ou estado. Com isso em mente, o líder deve se esforçar para desenvolver algo que vincule todo o grupo a ele. Engels foi pragmático em sua abordagem: “As qualidades militares normais são de pouca utilidade aqui e a ousadia deve ser complementada por outras características se o líder deseja manter o respeito de seus subordinados. Se ele não for nobre, deve ter pelo menos uma consciência magnânima, a ser complementado, como sempre, por astúcia, astuta maquinação e infâmia prática dissimulada”.[lviii] A solução para esse dilema poderia ser encontrada na descoberta de alguma ideia elevada que uniria todos os homens e “os exaltasse muito acima do nível da coragem irrefletida comum” a fim de realizar os atos necessários do conflito.[lix]

Como isso se relaciona com o andamento da guerra? Engels permaneceu um tanto confuso quanto aos detalhes desse aspecto do papel do líder partidário. Pois, ao chamar a atenção para a importância da disciplina, organização e adesão às “regras normais da guerra”, ele aludiu correspondentemente aos problemas de alcançar o sucesso seguindo estas dimensões. Por exemplo, embora o líder partidário deva aderir ao mesmo conjunto de regras na guerra e na paz, ele deve preservar constantemente o arranjo das forças em tempo de guerra e se concentrar no recrutamento de novas forças, mantendo-as todas em alto estado de alerta.[lx] Além disso, enquanto o fracasso resultou da ignorância das regras da guerra, o “quartel comunista não está mais sujeito aos artigos de guerra, mas apenas à autoridade moral e aos ditames do auto-sacrifício”.[lxi] E, finalmente, Engels notou a predileção para o líder partidário bem-sucedido de se deslocar de um partido para o outro conforme a situação exigir.[lxii]

Mesmo com todas essas opiniões conflitantes, no entanto, o importante a notar é que Engels começa a pelo menos pensar e abordar vários conceitos novos e importantes que desempenharão um papel não apenas em seus escritos futuros, mas também em sua avaliação e desenvolvimento de conceituação de unidades e formações militares. Ele reconhece que os líderes insurgentes serão forçados a operar em dimensões diferentes de outros movimentos, especialmente os movimentos nacionalistas que foram a principal força motivadora até este artigo. Ele também reconhece a natureza problemática dos “quartéis comunistas” neste estágio inicial de desenvolvimento, antes mesmo que o pensamento de uma revolução puramente comunista fosse um termo que estivesse em voga. Na mente de Engels, as rodas giravam.

A Educação de um Líder

Como um homem autodidata em assuntos militares, talvez não seja surpreendente que Engels despendesse uma quantidade considerável de tempo enfatizando a necessidade de uma educação substantiva e completa para oficiais e futuros líderes militares. Da mesma forma que Clausewitz, Engels reconheceu a importância de tal educação para os líderes em todos os níveis da hierarquia militar.[lxiii] A educação de líderes foi um tópico ao qual ele retornou com frequência em seus escritos posteriores, dando-lhe atenção especial em vários artigos. Na década de 1850, Engels examinou o sistema educacional da maioria dos exércitos europeus em sua série “The Armies of Europe” no Putnam’s Monthly. No início da década de 1860, ele dedicou uma série de artigos para o The Volunteer Journal aos problemas da educação entre o corpo de voluntários ingleses. Todo o processo de preparação bem-sucedida de um exército por meio da introdução de líderes eficazes foi um desafio que teve lugar de destaque em sua formulação de corpos de combate eficazes.

O assunto da educação militar, entretanto, não foi um assunto ao qual Engels devotou muita atenção até depois das revoluções de meados do século. Antes dessa época, suas principais considerações e comentários sobre o valor e a finalidade da educação diziam respeito principalmente a generalidades vagas, como as que ele discutiu em The Condition of the Working Class in England de 1845, por exemplo, a necessidade de educação geral às custas do estado para todas as crianças ou a função das greves e atividades sindicais como a “escola militar” da classe trabalhadora.[lxiv] Esses exemplos refletem um desejo genuíno e uma compreensão dos benefícios do conhecimento, mas não indicam nenhuma necessidade militar ou predileção particular de sua parte.

Essa tendência começou a mudar após as revoluções de meados do século. Não apenas pelos resultados das revoluções fracassadas, mas também pelo espelho da condição das forças combatentes que perderam, Engels obteve alguns insights sobre a importância de uma força regular, bem dirigida e treinada. Em janeiro de 1849, ele criticou o Conselho Federal Suíço por nomear Herr Rudolf Lohbauer para dar palestras sobre ciência militar, embora não possuísse nenhum dos pré-requisitos de habilidade ou experiência para fazê-lo.[lxv] A mesma falta de experiência e conhecimento foi a causa, embora talvez não a principal, para as revoluções fracassadas. Engels evidenciou com frequência que o exército magiar não foi treinado ou dirigido por pessoas com qualquer escolaridade militar específica. Às vezes, ele achava incrível que os húngaros fossem tão bem-sucedidos quanto recebessem a falta de educação que seus líderes possuíam.[lxvi] Talvez a maior deficiência dessa experiência tenha ocorrido durante a revolta do Palatinado, da qual Engels participou. Certamente sua opinião e apego pessoal próximo, mas novamente um tema comum era a má qualidade dos líderes do movimento. O primeiro líder, Joseph M. Reichardt, foi criticado principalmente por falta de “conhecimento profissional”.[lxvii] Após essas experiências, quando Engels escreveu seu famoso manuscrito “The Peasant War in Germany” em 1850, ele fez uma série de referências à falta de habilidade por parte de Thomas Müntzer, um líder-chave da insurgência. A posse de Müntzer de “nenhum conhecimento militar” foi um elemento-chave na derrota final dessas primeiras forças.[lxviii]

Foi a partir dessas experiências que Engels passou a dedicar mais atenção à importância da educação. Durante a década de 1850, ele começou a desenvolver algumas de suas concepções não tanto sobre as histórias positivas da educação em circunstâncias militares, mas sim sobre a forma como a educação, ou sua correspondente falta, era de importância central para o sucesso ou fracasso de uma operação militar. Comparando o sucesso dos militares que se opuseram às forças do socialismo inicial, o papel da educação teve grande significado. A importância da educação nas mãos de um líder motivado e vigoroso mostrou-se importante para o sucesso contínuo desses movimentos reacionários, não apenas no serviço público, mas também em outras arenas, como a Igreja, também.[lxix] Durante a Guerra da Crimeia, onde Engels viu muito pouco a ser admirado em qualquer um dos exércitos regulares em operação, ele determinou que a falta de treinamento adequado de líderes era uma das principais razões para essas deficiências. Em última análise, os russos não tiveram sucesso porque os homens encarregados de suas operações não tinham capacidade de conduzir uma guerra de cerco. A falta de treinamento adequado para seus oficiais de artilharia e engenheiros, habilidades nas quais uma educação superior era fundamental no século XIX para empreendimentos bem-sucedidos, foi uma causa importante dessa deficiência.[lxx] Engels concluiu que parte da razão para essa falta de destreza e conhecimento entre o corpo de oficiais europeu comunal era a maneira pela qual todos os exércitos europeus promoviam e selecionavam oficiais com base em conexões sociais e de riqueza, em oposição à habilidade. Embora certamente não seja o motivo principal dos fracassos na Crimeia, Engels viu uma correlação definitiva entre a educação e a seleção de oficiais e os sucessos ou fracassos durante a guerra. Tão impressionado com a liderança defeituosa deste conflito, Engels baseou-se nessas observações para desenvolver uma conexão entre a guerra moderna e os movimentos revolucionários. Como escreve Berger, Engels viu na Guerra da Crimeia uma situação em que “uma guerra pode ser travada de forma tão incompetente a ponto de incomodar as pessoas, levando-as a se livrar de um regime impopular”.[lxxi]

Essas observações desempenharam um papel crítico nos comentários de Engels de 1855 sobre os exércitos da Europa, escritos para Putnam’s Monthly. Nesta série de artigos, Engels apresentou esses exércitos ao leitor. Em todos os seus comentários, o papel da educação de oficiais teve destaque. Por exemplo, Engels classificou as escolas militares na França como “modelos de seu tipo”.[lxxii] Ele também reconheceu Piemonte e os países escandinavos pela alta qualidade da educação e caráter dos oficiais em seus exércitos.[lxxiii] Já na Áustria, por outro lado, a “instrução teórica dos oficiais é extremamente deficiente”.[lxxiv] A Rússia também sofreu as duras críticas de Engels, sendo considerada uma das forças armadas mais corruptas da Europa em termos de uso de conexões para garantir a obtenção de comissões e seleções para cargos mais elevados.[lxxv]

De todos os militares, no entanto, a Prússia teve a melhor classificação em termos de educação, de acordo com Engels. Henderson observa que, na Prússia, Engels viu duas instituições excelentes na universalidade do serviço militar e da educação obrigatória.[lxxvi] Esses elementos trabalharam a favor da Alemanha no desenvolvimento de capacidades militares. Em termos de avaliação, Engels se mostrou particularmente perspicaz quanto às tendências futuras, e muitas de suas observações seriam comprovadas na década seguinte, quando a Alemanha iniciou suas guerras de unificação. Por exemplo, nem todo o sistema educacional prussiano deveria ser emulado, como os programas científicos defeituosos projetados para o serviço de artilharia, que Engels chamou de “antiquados e de forma alguma à altura das exigências dos tempos atuais”.[lxxvii] Dadas as dificuldades prussianas com este braço da Força em sua guerra de 1866 contra a Áustria, tais observações são bastante dignas de nota. Engels também elogiou as atividades prussianas de promover o uso não só de Clausewitz, mas também do general francês Barão Antoine-Henri de Jomini, em suas aulas educacionais.[lxxviii]

Nos escritos de Engels da década de 1860, dois exércitos figuram de maneira mais proeminente na maneira como são educados – os da França e da Inglaterra. Engels retratou os franceses sob uma luz particularmente favorável por uma série de razões. Em primeiro lugar, Engels citou a importância da experiência real em diferentes situações de combate como um fator importante em seu sistema de ensino de oficiais subordinados. Até o léxico usado por Engels refletia essa opinião. Por exemplo, Engels frequentemente citou a Argélia como uma “escola de guerra” francesa, onde “oficiais franceses que ganharam louros na guerra da Crimeia receberam seu treinamento militar e educação”.[lxxix] Mais tarde, em 1860, ao escrever para o The Volunteer Journal, Engels chamou a Argélia de “uma esplêndida escola para sua infantaria leve”.[lxxx] Os caçadores franceses até introduziram a “moderna escola de mosquete” na ciência da guerra por meio de suas ações na luta durante a vida de Engels.[lxxxi] A luta na Argélia, para os franceses, provou ser muito instrutiva e crucial para o desenvolvimento das capacidades de combate francesas nos níveis individual e de pequenas unidades que figuravam com destaque na luta de guerrilha e na luta de pequenas guerras do período.[lxxxii]

Com relação aos ingleses, Engels se concentrou muito mais nas especificidades da formação de oficiais e no que isso significava para as habilidades futuras da força de combate inglesa. Nos primeiros três anos da década de 1860, Engels contribuiu com uma série de artigos para o The Volunteer Journal e o Allgemeine Militär-Zeitung, nos quais criticava a progressão do treinamento dos oficiais e líderes juniores ingleses. Nesse projeto, ele citou consistentemente vários problemas dentro do sistema inglês que degradaram a capacidade geral dos exércitos ingleses de lutar com sucesso. Ao fazer essa censura, Engels definiu uma coisa que considerou definitivamente ausente no exército inglês – o papel de um “Time Vermelho”, ou agência crítica externa. A função de ter um observador externo se encaixava bem no papel auto posicionado de Engels como um comentarista militar da época, e que ele considerava crítico para a avaliação correta da capacidade de combate de qualquer força. Era justamente esse elemento que faltava ao exército inglês da década de 1860, como estava há séculos.[lxxxiii] Além disso, a maneira como os oficiais ingleses eram treinados parecia a Engels “divertida” e defeituosa.[lxxxiv] Engels criticou particularmente a incapacidade dos oficiais voluntários ingleses de conduzir qualquer tipo de exercício de rifle adequado, quando esses oficiais nunca foram examinados criticamente por qualquer sistema para garantir a competência.[lxxxv] Dois problemas apareceram com essa carga específica de treinamento insuficiente. Em primeiro lugar, os oficiais nunca compreenderam o método apropriado de conduzir o exercício para melhor treinar seus subordinados. Em segundo lugar, e para Engels o mais importante, essa falha provou ser um indicativo dos problemas que resultavam quando um exército selecionava oficiais para posições e promoções com base apenas em conexões sociais e de riqueza e não por meio de qualquer tipo de critério subjetivo. Engels comentou negativamente sobre essa tendência em seus comentários sobre os “Armies of Europe”, e em anos posteriores ele citou especificamente as forças inglesas por deficiências a este respeito. Embora os ingleses nunca tenham obtido o grau necessário de promoção por habilidade que Engels desejava, na época do conflito austro-prussiano eles tinham, pelo menos, aos seus olhos, obtido alguns pequenos ganhos. Ele escreveu em 1864 que, embora “oficiais sejam recrutados de todas as classes educadas da nação… esforços crescentes estão sendo feitos para trazer jovens da escola militar de Sandhurst para o exército, em particular dando comissões como insígnias sem valor para os que se destacam nos exames”.


[i] Engels, “Conditions and Prospects”, 10:553-4.

[ii] Mayer, 332.

[iii] Neumann and von Hagen,265.

[iv] Berger, 63, 153.

[v] Engels, “The Armies of Europe”, Putnam’s Monthly #32, August 1855,14:403.

[vi] Ibid., 14:404.

[vii] Engels, “Conditions and Prospects”, 10:556.

[viii] Ibid., 10:554.

[ix] M. Jean de Bloch, Selected Articles (Fort Leavenworth, KS: U.S. Army Command and General Staff College, 1993), 2, 22.

[x] Friedrich Engels, “The Capture of Delhi”, New York Daily Tribune #5188, 5 December 1857, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 15:392.

[xi] Ibid., 15:399.

[xii] Friedrich Engels, “Attack”, The New American Cyclopaedia, vol. 2, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18:34-7; Engels, “Army”, 18:85-125; Friedrich Engels, “Artillery”, The New Cyclopaedia, vol. 2, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18:195, 207.

[xiii] Friedrich Engels, “Bem”, The New American Cyclopaedia, vol. 3, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18:132; Engels, “Blücher”, 18:187.

[xiv] Friedrich Engels, “Coehorn”, The New American Cyclopaedia, vol. 5, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18: 132; Friedrich Engels, “Beresford”, The New American Cyclopaedia, vol. 3, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18:290.

[xv] Friedrich Engels, “On the Moral Element in Fighting. By Marshal Bugeaud”, The Volunteer Journal #23, 9 February 1861, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18:469.

[xvi] Henderson, vol. 1, 134. Engels afirmou que o motivo de sua demissão de Elberfeld foi o medo da cidade de repercussões políticas. Veja Engels, “Elberfeld”, 9:448-9.

[xvii] Hammen, 36-7.

[xviii] Semmel, 11.

[xix] Engels, “The Magyar Struggle”, 8:227-8.

[xx] Friedrich Engels, “The War in Hungary”, Neue Rheinische Zeitung #219 (2nd edition), 11 February 1849, 8:351.

[xxi] Friedrich Engels, “From the Theater of War”, Neue Rheinische Zeitung #259, 30 March 1849, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 9:162.

[xxii] Friedrich Engels, “Military Art of the Royal Imperial Army”, Neue Rheinische Zeitung #226, 18 February 1849, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 8:412-3; Engels, “The Russians in Transylvania”, 8:432-3.

[xxiii] Engels, “The War in Hungary”, Neue Rheinische Zeitung #265, 6 April 1849, 9:231-2; Engels, “From the Theater of War”, Neue Rheinische Zeitung #289, 28 April 1849, 9:351.

[xxiv] Friedrich Engels, “Karlsruhe”, The Campaign for the German Imperial Constitution, August 1849 – February 1850, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 10:184; Friedrich Engels, “Petty Traders”, Revolution and Counter-revolution in Germany, New York Daily Tribune #3576, 2 October 1852, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 11:91.

[xxv] Friedrich Engels, “From the Crimea”, New York Daily Tribune #4424, 23 June 1855, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 14:250.

[xxvi] Friedrich Engels, “The New French Commander”, New York Daily Tribune #4414, 12 June 1855, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 14:215.

[xxvii] Engels, “The Magyar Struggle”, 8:227-8; Engels, “From the Theater of War”, Neue Rheinische Zeitung #259, 30 March 1849, 9:159.

[xxviii] Berger, 55.

[xxix] Friedrich Engels, “Movements of the Armies in Turkey”, New York Daily Tribune #3919, 8 November 1853, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 12:426; Engels, “Progress of the Turkish War”, New York Daily Tribune #3934, 25 November 1853, 12:452.

[xxx] Engels, “The Relief of Lucknow”, 15:436.

[xxxi] Friedrich Engels, “The British Army in India”, New York Daily Tribune #5361, 26 June 1858, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 15:557.

[xxxii] Engels, “The Relief of Lucknow”, 15:435-6.

[xxxiii] Friedrich Engels, “Strategy of the War”, New York Daily Tribune #5663, 15 June 1859, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 16:352.

[xxxiv] Engels, “Garibaldi in Sicily”, 17:388.

[xxxv] Neumann and von Hagen, 277. Os indivíduos específicos eram: Príncipe Barclay de Tolly, Conde Levin A. T. Bennigsen, General Josef Bem, Marechal-de-Campo Gebhard L. von Blücher, Barão Menno van Coehoorn e Visconde William Carr Beresford.

[xxxvi] Friedrich Engels, “Barclay de Tolly”, The New American Cyclopaedia, vol. 2, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18:52.

[xxxvii] Engels, “Bem”, 18:132.

[xxxviii] Engels, “Beresford”, 18:290.

[xxxix] Friedrich Engels, “The Milan Bulletin”, Neue Rheinische Zeitung #62, 2 August 1848, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 7:306.

[xl] Friedrich Engels, “Charles Albert’s Betrayal”, Neue Rheinische Zeitung #77-78, 17 August 1848, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 7:388-9.

[xli] Engels, “Conditions and Prospects”, 10:547.

[xlii] Engels, “To Die for the Republic!”, 10:218.

[xliii] Engels, “The Palatinate”, 10:195; Engels, “To Die for the Republic!”, 10:218.

[xliv] Engels, “Petty Traders”, 11:91.

[xlv] Engels, “The Battle of the Alma”, 13:495.

[xlvi] Friedrich Engels, “Aspects of the War”, New York Daily Tribune #4543, 10 November 1855, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 14:571.

[xlvii] Friedrich Engels, “The European War”, New York Daily Tribune #3992, 8 January 1854, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 12:557.

[xlviii] Engels, “The Battle of Inkerman”, 13:533.

[xlix] Friedrich Engels, “The Capture of Bomarsund (Article I)”, New York Daily Tribune #4174, 4 September 1854, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 13:382.

[l] Friedrich Engels, “Progress of the War”, New York Daily Tribune #4366, 17 April 1855, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 14:135.

[li] Engels, “The Siege of Silistria”, New York Daily Tribune #4115, 26 June 1854, 13:241.

[lii] Friedrich Engels, “The Siege and Storming of Lucknow”, New York Daily Tribune #5235, 30 January 1858, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 15:424; Engels, “The Relief of Lucknow”, 15:435-6, 437.

[liii] Engels, “A Chapter of History”, 16:378.

[liv] Engels, “Garibaldi in Sicily”, 17:389.

[lv] Friedrich Engels, “Bennigsen”, The New American Cyclopaedia, vol. 2, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18:767-7.

[lvi] Friedrich Engels, “The Situation in the American Theater of War”, Die Presse #148, 30 May 1862, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 19:205.

[lvii] Veja Schreiner.

[lviii] Friedrich Engels and Karl Marx, “The Great Men of the Exile”, June 1852, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 11:312.

[lix] Ibid., 11:313.

[lx] Ibid., 11:314.

[lxi] Ibid.

[lxii] Ibid., 11:315.

[lxiii] Clausewitz, 111.

[lxiv] Friedrich Engels, The Condition of the Working Class in England, ed. Victor Kiernan (London: Penguin Books, 1987), 232-3.

[lxv] Friedrich Engels, “Herr Muller – Radetzky’s Chicanery Towards Tessin – The Federal Council – Lohbauer”, Neue Rheinische Zeitung #194, 13 January 1849, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 8:240.

[lxvi] Friedrich Engels, “From the Theater of War”, Neue Rheinische Zeitung #261 (2nd edition), 1 April 1849, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 9:182; Engels, “The War in Hungary”, 5 April 1849, 9:232.

[lxvii] Engels, “The Palatinate”, 10:195.

[lxviii] Engels, “The Peasant War”, 10:472.

[lxix] Friedrich Engels, “Austria”, Revolution and Counter-revolution in Germany, September 1851, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 11:27-8.

[lxx] Engels, “The Russians in Turkey”, 12:338-9.

[lxxi] Berger, 94.

[lxxii] Engels, “The Armies of Europe”, Putnam’s Monthly #32, August 1855, 14:415.

[lxxiii] Friedrich Engels, “The Armies of Europe”, Putnam’s Monthly #36, December 1855, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 14:459, 465.

[lxxiv] Engels, “The Armies of Europe”, Putnam’s Monthly #32, August 1855, 14:426.

[lxxv] Engels, “The Armies of Europe”, Putnam’s Monthly #33, September 1855, 14:443-4.

[lxxvi] Henderson, vol. 2, 607.

[lxxvii] Engels, “The Armies of Europe”, Putnam’s Monthly #33, September 1855, 14:435.

[lxxviii] Ibid., Veja também Antoine Henri de Jomini, The Art of War, intro. By Charles Messenger (London: Greenhill Books, 1992).

[lxxix] Friedrich Engels, “Algeria”, The American Cyclopaedia, vol. 1, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18:67.

[lxxx] Engels, “The French Light Infantry”, 18:426.

[lxxxi] Ibid., 18:428.

[lxxxii] Ibid., 18:426.

[lxxxiii] Friedrich Engels, “Volunteer Generals”, The Volunteer Journal #28, 16 March 1861, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18:479.

[lxxxiv] Friedrich Engels, “A Review of English Volunteer Riflemen”, The Volunteer Journal #2, 14 September 1860, in Marx and Engels Collected Works (New York: International Publichers, 1975), 18:479.

[lxxxv] Ibid., 18:415-6.

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