As contribuições de Cuba na luta contra o racismo e a supremacia branca

Texto de Franklin Frederick

Originalmente publicado no site Latin America in Movement


‘O canibal capitalista branco sempre se alimentou dos povos negros do mundo. A sociedade capitalista imperialista branca é profunda e inequivocamente racista.’

Walter Rodney

A supremacia branca e o racismo não podem ser dissociados do capitalismo. Foram o racismo e a supremacia branca que forneceram as justificativas culturais  para a escravidão e o concomitante comércio de escravos, para a expansão colonial europeia e o imperialismo, sem os quais o capitalismo não teria se desenvolvido. Racismo e  supremacia branca também permeiam as diversas hierarquais impostas pelo sistema capitalista e que são fundamentais para a sua manutenção. Esta ligação intrínseca entre capitalismo e racismo se torna mais explícita no colonialismo. Walter Rodney, o importante historiador e ativista político do Caribe, escreveu em seu livro ‘Como a Europa Subdesenvolveu a África’:

‘Foi a economia que determinou que a Europa deveria investir na África e controlar a matéria-prima e a mão-de-obra deste continente. Foi o racismo que confirmou a decisão de que a forma de controle deveria ser o domínio colonial direto.’

O que organiza e instrumentaliza o racismo como projeto de poder político é a supremacia branca. O único país do mundo que, desde as suas origens, foi concebido  como um projeto de poder da supremacia branca são os Estados Unidos da América.

O historiador Afro-Americano Gerald Horne argumenta no livro ‘The Counter-Revolution of 1776: Slave Resistance and the origins of the United States of America’ que o movimento pela independência dos EUA nasceu, por um lado, do receio das classes ricas da colônia de um crescente movimento abolicionista na metrópole, a Inglaterra, que ameaçava acabar com a base de sua riqueza – o trabalho escravo. Por outro lado, a Inglaterra também impedia o avanço dos colonos para o oeste, que deveria permanecer como território indígena. Para Horne, a guerra pela independência dos EUA  foi em parte uma ‘contra-revolução’ liderada pelos chamados ‘pais fundadores’ com o objetivo de preservar o seu direito de escravizar outros povos, sobretudo africanos, bem como de continuar a expandir a jovem nação para o oeste, roubando mais terras de povos indígenas onde implantar mais trabalho escravo.

Em outro livro, ‘The Apocalypse of Settler Colonialism: The Roots of Slavery, White Supremacy and Capitalism in 17th Century North America and the Caribbean’, Horne resumiu assim este processo:

‘(…) em 1776, eles (os pais fundadores ou a elite econômica da colônia) deram o último golpe e exibiram o seu novo patriotismo ao expulsar Londres (o poder colonial) das colônias ao sul do Canadá, convencendo os iludidos e ingênuos – até hoje – de que esta pura manobra para se apossar de terras, escravos e lucro tenha sido de alguma maneira um grande salto adiante para a humanidade.’

Foi dentro deste contexto que nasceram e se desenvolveram as forças armadas dos EUA. O exército dos EUA teve sua origem na guerra pela independência contra os britânicos,ou seja,  em defesa da supremacia branca e de seu projeto escravagista e de conquista de terras. Deste modo, logo após a independência,  o recém criado exército dos EUA  engajou-se em sua nova tarefa: a guerra genocida contra os povos indígenas para garantir a expansão territorial da nova república.

Em ‘The First Way of War: American War Making on the frontier, 1607-1814’ outro historiador, John Grenier, argumenta que as forças armadas dos EUA foram forjadas nas guerras genocidas contras os povos indígenas norte-americanos, onde praticamente todos os meios de destruição eram permitidos, toda a brutalidade era possível e não havia distinções entre populações civis e combatentes. Um dos métodos utilizados pelas forças armadas dos EUA contra os povos indígenas foi  o da destruição de suas plantações e reservas alimentares, levando à derrota pela fome, método muito utilizado e aperfeiçoado décadas depois  na guerra do Vietnã.  Uma linha histórica ininterrupta liga as guerras contra os povos indígenas à guerra do Vietnã e aos embargos econômicos mais recentes contra Cuba e Venezuela, dentre outros. Embargos econômicos são apenas uma variação deste método, os objetivos continuam os mesmos:  provocar a fome, punir as populações civis para submete-las ou eliminá-las. A exterminação dos povos indígenas, justificada e conduzida pela supremacia branca, era algo tão central na política da época que ter participado das campanhas militares contra os indígenas era praticamente um pré-requisito para tornar-se candidato à Presidência do novo país. Ser proprietário de escravos parece ter sido outro pré-requisito para a função de líder da nação, já que oito dentre os primeiros Presidentes eram proprietários de escravos.

Para garantir uma ‘frente única’ entre os colonos brancos contra os povos indígenas, por um lado, e assegurar a prática da escravidão por outro, os ingleses forjaram uma ilusória ‘aliança’ para além das classes sociais entre os ‘brancos’ que legitimava e permitia a exploração, o roubo ou o extermínio de todos os que não eram ‘brancos’. De acordo com Gerald Horne, esta ‘política de identidade militarizada’ – a supremacia branca – estava na base das ocupações coloniais já em 1676, levando à criação de um país do ‘homem branco’, um primeiro Estado apartheid, exemplo a ser seguido pela África do Sul. A violência contra os povos indígenas e a violência inerente à economia escravocrata tornaram-se elementos comuns, ‘normais’ na mentalidade branca dos EUA até os dias de hoje.

O empreendedorismo da supremacia branca não se limitou à exploração do trabalho escravo nas plantações dos EUA. O bloqueio naval e as pressões da Inglaterra contra o tráfico de escravos fez com que o preço destes no mercado aumentasse, tornando-o uma atração irresistível para os capitalistas brancos dos EUA ávidos por lucros. O historiador e ativista afro-americano  W. E. B. Du Bois escreveu o seguinte sobre o tráfico de escravos na primeira metade do século XIX:

‘Como resultado (do aumento do preço dos escravos) o comércio de escravos na América acabou por ser transportado principalmente pelo capital dos Estados Unidos, em navios dos Estados Unidos comandados por cidadãos dos Estados Unidos e sob a bandeira dos Estados Unidos.’ (1)

O Caminho de Cuba

 A uma pergunta de Ignacio Ramonet sobre quando começou de fato a revolução cubana, Fidel respondeu:

‘(…) a revolução cubana começou com a primeira guerra de independência, que começou no leste de Cuba a 10 de Outubro de 1868.’

E em seguida Fidel menciona o seguinte episódio da vida de Simón Bolívar, o Libertador:

‘Depois de realizar uma expedição ao Haiti, (Bolívar) regressou à Venezuela e lá, em 6 de Julho de 1816, lançou o ‘Manifesto de Ocumare’, do qual passo a citar:

“Os nossos irmãos que gemeram sob as misérias da escravatura são agora livres. A natureza, a justiça e a política exigem a emancipação dos escravos; a partir de agora, haverá apenas uma classe de homens na Venezuela, os cidadãos.”

De Isla Margarita, o Libertador desceu então o rio Orinoco, desembarcando em Angostura, onde hoje se encontra Ciudad Bolívar, e foi lá que elaborou as ideias da Constituição de 1819 e decretou a abolição da escravidão. Foi então que José Antonio Páez, um patriota e novo líder dos llaneros, decidiu juntar-se a Bolívar. A partir desse momento, a vitória estava assegurada. Tomei a liberdade de  recordar este episódio para  mostrar que, na história da América Latina, a abolição da escravidão e a independência estão intimamente ligadas.’ (2)

Enquanto a independência dos EUA se consolida com o objetivo de ampliar e expandir a supremacia branca herdada da Europa, em Cuba e na América Latina as lutas pela independência se dão contra a supremacia branca europeia.

Esta distinção foi percebida por um profundo e influente observador da época:  Alexander von Humboldt.

Entre 1799 e 1804, Alexander von Humboldt, acompanhado pelo botânico francês Aimé Bonpland, viajou pelas colônias da América espanhola de então, explorando regiões que pertencem hoje à Venezuela, ao Equador, à Colômbia, ao Peru e à Cuba. De volta à Europa, Humboldt iniciou a publicação de vários livros revelando para um curioso e fascinado publico europeu as riquezas naturais e culturais da América do Sul. Ao mesmo tempo em que escreveu sobre as maravilhas da natureza tropical da América e a riqueza cultural de seus povos originários, Humboldt denunciou, como nenhum outro antes dele, os horrores da escravidão, da opressão dos povos indígenas e da injustiça do sistema colonial.

Humboldt apresentou uma visão dos povos indígenas sul americanos e dos escravos de origem africana completamente diferente das concepções dominantes em sua época, rejeitando o racismo endêmico dominante e a suposta ‘superioridade’ da ‘raça branca’, fundamento da supremacia branca. Humboldt declarou que a cultura dos povos indígenas era tão criativa e diversa quanto a europeia, atacando com veemência um dos principais proponentes do ‘racismo científico’ europeu daquele tempo, o conde de Buffon, expondo o ridículo de suas idéias.

 Em seu retorno da viagem pela América espanhola em 1804, Humboldt passou por um curto período pelos EUA onde encontrou Thomas Jefferson, então celebrado Presidente deste país. Jefferson partilhava dos mesmos interesses que Humboldt pelas ciências naturais e ambos conversaram longamente quando Humboldt foi hóspede da Casa Branca. Mas havia uma questão fundamental irreconciliável entre os dois: a escravidão. Thomas Jefferson, um dos ‘pais fundadores’ da nova república que se anunciava como pátria da liberdade e da igualdade, não só era proprietário de escravos como reconhecia a importância da escravidão para o desenvolvimento econômico dos Estados Unidos. Humboldt denunciou esta hipocrisia e o horror subjacente a uma tal ideia de ‘desenvolvimento econômico’. Jefferson também concordava com as ideias de Buffon sobre a ‘inferioridade’ da ‘raça negra’, o que Humboldt considerava uma idiotice.

Pouco depois de seu retorno à Europa, em Paris, Humboldt foi apresentado a um jovem fidalgo recém-chegado das colônias espanholas da América: Símon Bolívar, o futuro Libertador. Mais tarde Bolívar relatou como o encontro com Humboldt abriu seus olhos para as maravilhas e o potencial de seu próprio país, a futura Venezuela. Foi Humboldt quem, de fato, deu a conhecer a América ao próprio Bolívar, como este menciona em sua famosa ‘Carta da Jamaica’. Os dois voltaram a se encontrar meses depois em Roma – e desta vez Bolívar já falava da necessidade da independência da América espanhola. Neste momento os conselhos e a sabedoria de Humboldt foram fundamentais para o amadurecimento político do jovem Bolívar. Ainda em Roma, Bolívar proferiria o juramento de libertar a América, retornando em seguida para o seu país.

Anos mais tarde,  Humboldt escreveu o seguinte sobre as novas repúblicas da América Latina, fruto das lutas de Símon Bolivar:

‘Não se pode elogiar o bastante a legislação das novas repúblicas da América espanhola que, desde o início, tiveram a séria preocupação de acabar definitivamente com a escravidão. Neste respeito, esta vasta parte da Terra tem uma vantagem imensa sobre o sul dos Estados Unidos (…).’

‘Na América do Norte os homens brancos criaram para si uma República branca com as mais vergonhosas leis de escravidão.’ (3)

Embora Cuba também tivesse escravos e racismo, a demarcação entre brancos e negros não seguia a mesma lógica da supremacia branca dominante nos EUA. A Espanha utilizava em Cuba, por exemplo, batalhões de negros armados, o que aos olhos dos supremacistas brancos era o equivalente a um crime de guerra. As leis espanholas também permitiam aos escravos recursos que seriam impensáveis sob a legislação vigente no sul dos Estados Unidos. Uma prova da diferença no tratamento dos negros em Cuba e nos EUA foi a maciça fuga  de afro-americanos da Flórida para Cuba a partir de 1819 quando esta foi adquirida da Espanha pela República. Os afro-americanos que viviam na Flórida sabiam muito bem o que lhes esperava sob o novo governo e a migração para Cuba era a melhor opção. Estes afro-americanos trouxeram consigo um sentimento anti-Washington que influenciaria  toda a ilha.

Foi a independência de Cuba e sua subsequente queda sob o domínio dos Estados Unidos que marcou definitivamente a atitude desta contra a supremacia branca, gerando uma revolta que não era apenas contra a dominação estrangeira, mas contra uma dominação profundamente racista que tentava impor o mesmo sistema ‘Jim Crow’ à Cuba, tentando transformar uma sociedade com racismo numa sociedade racista segundo o modelo da supremacia branca. O sentimento anti-americano, anti-Jim Crow e contra o projeto de dominação da supremacia branca já estavam presentes na ilha bem antes da revolução. Como escreveu Gerald Horne:

‘Os negros norte-americanos começaram a olhar para Cuba independente como um paraíso, cheio de oportunidades e alívio do racismo.’

E Horne ainda cita o seguinte testemunho de um norte-americano da época:

‘(….) os cubanos de cor veem Cuba como o seu país num sentido muito mais completo do que os negros americanos veem os Estados Unidos como o seu.’ (4)

A Revolução Cubana como Desafio à Supremacia Branca

A revolução cubana libertou Cuba da ditadura de Batista e do domínio dos Estados Unidos que se exercia através desta ditadura. Aos olhos do Império a revolução foi um desafio ao projeto de domínio da supremacia branca. E este desafio se aprofundou quando algumas das primeiras medidas do governo revolucionário foram para  combater o racismo corrigindo as injustiças herdadas do período escravagista da ilha em uma área fundamental: a da saúde.

Don Fitz, em seu excelente livro ‘Cuban Health Care’ escreveu:

‘Na Cuba pré-revolucionária, o racismo afetava todos os aspectos da medicina: havia menos hospitais nas zonas rurais e no leste de Cuba onde predominavam os negros; as clínicas mutualistas tinham muito menos inscrições de negros e era quase impossível que os negros entrassem na escola de medicina.’

‘É difícil exagerar a importância da revolução de 1959, que introduziu as mudanças mais significativas na vida dos cubanos negros desde a abolição da escravatura. Os apelos para servir nas zonas rurais e províncias orientais eram equivalentes a um chamado a combater o racismo estrutural.’

Diante dessas atitudes do governo revolucionário de Cuba em comparação com a atitude prevalente nos Estados Unidos no mesmo período, Don Fitz faz o seguinte comentário:

‘A profusão  de equipes médicas enviadas a comunidades urbanas pobres, zonas rurais e à parte oriental da ilha com coordenação do governo revolucionário ocorreu ao mesmo tempo em que os manifestantes pelos direitos civis dos EUA eram espancados pela polícia e atacados por cães por exigirem o direito de se sentarem nos balcões de almoço ‘só para brancos’. Este contraste não deixou de ser observado por  cubanos e por muitos nos Estados Unidos.’

O governo revolucionário de Cuba também se empenhou nas campanhas de alfabetização de adultos e crianças por todo o país, para corrigir outra distorção herdada dos tempos da escravidão, pois o analfabetismo afetava principalmente e desproporcionalmente a população pobre de origem africana.

Com estas campanhas pela saúde e educação a revolução cubana fez um enorme esforço para  recuperar a dignidade da população pobre, sobretudo dos afrodescendentes. Tais medidas eram intoleráveis para a supremacia branca nos EUA, pois como perguntou Gerald Horne:

‘Será que os africanos nos Estados Unidos poderiam ser explorados de forma tão descarada se os africanos em Cuba fossem empoderados?’ (5)

Diante disso, não é de surpreender a intensa hostilidade dos EUA contra a revolução cubana desde o seu início. E esta hostilidade só aumentou quando Cuba começou a internacionalizar sua luta contra a supremacia branca. Esta internacionalização aconteceu principalmente de duas maneiras, através da medicina e, inevitavelmente, pelo conflito armado.

A Internacionalização da Medicina Cubana

Pouco depois da revolução, enfrentando enormes dificuldades, Cuba foi capaz de enviar ajuda médica ao Chile, que havia sofrido um terremoto em 1960. Brigadas médicas cubanas também foram enviadas à Nicarágua em 1972 e à Honduras em 1974, quando estes países também foram atingidos  por terremotos. Mas é sobretudo na África que a ajuda médica cubana mais se empenhou. Com o apoio da então URSS, Cuba coordenou a primeira campanha de vacinação em massa contra a poliomielite na África, no Congo, vacinando mais de 61 000 crianças. Mais uma vez segundo Don Fitz:

‘No final dos anos 80, a ajuda cubana tinha chegado a mais de uma dúzia de países africanos. Estes incluíam Benim, Burkina Faso, Camarões, Cabo Verde, Gana, Guiné, Líbia, Madagascar, Mali, Mauritânia, Marrocos, Moçambique, Nigéria, São Tomé e Príncipe, Seicheles, Tanzânia, Uganda, Saara Ocidental, Zâmbia e Zimbábue.’

Deste modo, Cuba procurava reparar as distorções e injustiças causadas na África depois de séculos de exploração colonial pela supremacia branca.

A outra contribuição fundamental de Cuba na área da saúde é através de sua Escola Latino Americana de Saúde, a ELAM, onde estudantes pobres de todo o mundo, principalmente da América Latina e da África, sobretudo negros,  podem estudar medicina , desse modo ampliando ainda mais a contribuição cubana no mundo. Segundo Don Fitz, em 2020 a ELAM tinha formado cerca de 30 000 médicos vindos de mais de 100 países.

Em Guerra contra a Supremacia Branca – A Operação Carlota

‘Em Cuba batizamos a operação internacionalista com o nome ‘Carlota’, em homenagem a uma mulher africana excepcional que liderou como escrava  duas revoltas contra a opressão colonial em solo cubano e que – como pretendiam fazer com Angola em 1975 – foi desmembrada pelos carrascos que conseguiram capturá-la na sua segunda tentativa rebelde.’ (Raúl Castro).

A Operação Carlota talvez seja a mais decisiva luta contra a supremacia branca e sua violência na história do século XX.

Cito aqui parte do texto da introdução de uma obra sobre este conflito, o testemunho de um de seus mais importantes participantes, o General de Brigada cubano Harry Villegas ‘Pombo’:

‘Entre 1975 e 1991, cerca de 425.000 voluntários cubanos, organizados pela liderança revolucionária de Cuba, executaram missões em Angola. Foram lá em resposta a um pedido de ajuda do governo angolano. Em 1975, o povo daquele país africano tinha acabado de conquistar a sua liberdade de Portugal após quase cinco séculos de brutal exploração  e domínio colonial. Agora estavam sob ataque do regime supremacista branco da África do Sul e dos seus aliados africanos e internacionais.’

‘O objetivo da missão cubana, que durou 16 anos, era ajudar Angola a defender-se e repelir de forma decisiva esta agressão militar apoiada por Washington. A missão só terminou após uma estrondosa derrota infligida às forças armadas do regime do apartheid em Março de 1988, na Batalha de Cuito Cuanavale no sul de Angola, ao mesmo tempo em que um formidável grupo de combatentes cubanos, angolanos e namibianos se deslocou para o sul, em direção às bases do regime sul-africano na sua colônia, a Namíbia.’ (6)

Stalingrado foi a batalha que iniciou a queda da Alemaha nazista na Segunda Guerra Mundial, infringindo uma espetacular derrota ao seu exército e às pretensões supremacistas brancas dos Nazistas de exterminarem os povos ‘subhumanos’, untermenschen –  eslavos. Cuito Cuanavale foi a Stalingrado da supremacia branca na África. Como declarou Nelson Mandela em sua visita à Cuba em 1991, logo depois de sair da prisão na África do Sul:

‘Os internacionalistas cubanos deram uma contribuição para a independência, a liberdade e a justiça na África sem paralelo pelos princípios e pela abnegação que a caracterizam.  Desde os seus primórdios, a Revolução Cubana tem sido uma fonte de inspiração para todos os povos que amam a liberdade…’

‘Onde está o país que pediu a ajuda de Cuba e foi recusado? Quantos países ameaçados pelo imperialismo ou que lutam pela sua libertação nacional puderam contar com o apoio de Cuba?’

‘Nós na África estamos habituados a ser vítimas de países que querem dilacerar o nosso território ou subverter a nossa soberania. Na história da África não há outro caso de um povo que se tenha erguido em defesa de um de nós.’ (7)

A vitória de Cuba sobre as forças da África do Sul foi fundamental para a queda do regime do apartheid naquele país, além de dar a independência à Namíbia, estão colônia Sul Africana.

Em 1988 Fidel Castro deu a seguinte declaração sobre a participação de Cuba na guerra de Angola:

‘É bem conhecido que os Estados Unidos praticamente perderam o sono por causa da audácia de um pequeno país como Cuba poder levar a cabo uma missão internacionalista desta natureza (em Angola). O fato de um pequeno país do Caribe ter sido capaz de apoiar o povo africano fraterno é algo que está  além de suas concepções.’

‘Sabemos como pensa o povo africano e este é outro problema que pesa sobre a política dos EUA. O povo da África viu os Estados Unidos como um aliado do apartheid, responsável pela sobrevivência do apartheid.’

‘Cuba não tem qualquer interesse econômico em Angola ou na África. Cuba está em Angola porque está cumprindo o seu dever de ajudar o povo.’

‘Como já dissemos antes, ser internacionalista é pagar a nossa própria dívida com a  humanidade. Quem não for capaz de lutar pelos outros, nunca será capaz de lutar por si mesmo.’ (8)

Neoliberalismo, Neocolonialismo e Supremacia Branca na América Latina

O neoliberalismo foi concebido como um projeto de restauração do capitalismo e retomada do poder pela supremacia branca, uma resposta à alternativa colocada pela Revolução Russa de 1917 e pela enorme crise de credibilidade do capitalismo após a Primeira Guerra Mundial.

No recente avanço neoliberal na América Latina foi a  supremacia branca que mobilizou e instrumentalizou o mais retrógrado racismo ainda presente neste continente  para atacar os governos progressistas de países como o Brasil, a Bolívia e a Venezuela, entre outros. Não é por acaso que em todos os países em que a ofensiva neoliberal triunfou, uma das primeiras medidas foi a expulsão dos médicos cubanos, como foi o caso de Honduras quando houve o golpe de estado contra o Presidente Zelaya, do Brasil depois do golpe contra a Presidente Dilma Rousseff ou na Bolívia no golpe conduzido contra o Presidente Evo Morales. O curto governo da golpista Jeanine Áñez na Bolívia exibiu todo o seu racismo desencadeando uma violência inaudita e assassina contra a população indígena, atacando inclusive um dos mais importantes símbolos dos povos indígenas dos Andes, a bandeira wiphala. Os golpistas da Bolívia pretendiam reproduzir neste país as guerras genocidas dos EUA no século XIX contra as populações indígenas, com todo apoio dos supremacistas brancos de Washington.

Também no Brasil o apoio da supremacia branca foi fundamental para a ascensão ao poder do Presidente Jair Bolsonaro. O racismo, o feminícidio, a homofobia, bem como os ataques aos povos indígenas e ao meio ambiente, aumentaram exponencialmente sob o governo do Presidente Bolsonaro, como era de se esperar dado o alinhamento e a subserviência explícitos  de Bolsonaro  aos supremacistas brancos de Washington.

O neoliberalismo na América Latina é sobretudo um projeto neocolonial. Neoliberalismo e neocolonialismo são as duas expressões do mesmo projeto de poder da supremacia branca sediada em Washington. O brutal ataque neoliberal às leis trabalhistas, à educação e à saúde públicas, bem como ao meio ambiente, tem o objetivo explícito de reduzir nações soberanas à condição de colônias. O neoliberalismo pretende instaurar administrações neocoloniais nos países Latino-Americanos. Jeanine Ánez na Bolívia, Maurício Macri na Argentina, Jair Bolsonaro no Brasil, Gullermo Lasso no Equador, dentre outros, são todos exemplos de administrações neocoloniais cuja tarefa é supervisionar a transferência de recursos naturais e bem públicos destes países para a metrópole, impedindo por todos os meios possíveis, inclusive a violência e o terror, toda oposição a este projeto. Exatamente o que a supremacia branca sempre fez onde conseguiu se impor.

Cuba segue sob o intenso ataque do Império justamente porque nenhum outro país do mundo contribuiu tanto e de tantas maneiras na luta contra a supremacia branca e o que ela representa. Frente à crescente ameaça da supremacia branca que se reorganiza sob a ordem neoliberal e seu projeto neocolonial, Cuba dá o exemplo a seguir.

Referências

  1.  W.E.B. Du Bois – The Suppression of the African Slave-Trade
  2.  Ignacio Ramonet – Fidel Castro,  Biografia a Duas vozes
  3.  Andrea Wulf – ‘A Invenção da Natureza’
  4.  Gerald Horne – Race to Revolution
  5.  Gerald Horne – Race to Revolution
  6.  Harry Villegas ‘Pombo’ – Cuba y Angola La Guerra por la libertad
  7.  Cuba y Angola La Guerra por la Libertad
  8. Cuba y Angola La Guerra por la Libertad

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