Louise Patterson – Rumo a um Amanhecer Mais Brilhante

Disponível na Viewpoint Magazine.

Tradução de Luana Ferretti.


Este artigo foi originalmente publicado no jornal Woman Today (abril de 1936), do Partido Comunista dos Estados Unidos, com o slogan “Apertadas e esmagadas pelo preconceito e discriminação, dedos completamente gastos pelo trabalho incessante com salários de coolie, as mulheres negras são o grupo mais explorado nos EUA. Mas elas se uniram para lutar pela liberdade – e elas vencerão.” Ao final do artigo, surge uma nota dos editores: “Você já ouviu falar do ‘mercado de escravos do Bronx’? A maioria dos jornais não publicaria tal história. Muitas dessas histórias, implorando para serem contadas, nunca viram a luz do dia. Queremos imprimir essas histórias – suas histórias. Escreva-nos sobre coisas que o seu jornal local não imprime.”

Segundo encontro do Congresso Nacional do Negro. Filadélfia, 1937.

Amanhecer em qualquer estrada do Sul. Figuras sombrias emergem dos barraquinhos de madeira mal pintados à beira da estrada. Há mulheres negras marchando cidade adentro, em direção à Casa Grande para cozinhar, lavar, limpar, cuidar das crianças – tudo isso por dois, três dólares para a semana inteira. Domingo chega – Dia de folga. Mas que folga há para uma mulher Negra que deve enfiar todos os afazeres de sua própria família em um único dia? Tem a Igreja, claro – onde por algumas poucas horas ela talvez esqueça, escutando a voz sonora do pastor, a harmonia líquida do coro, a fofoca semanal da vizinhança. Mas a segunda-feira vem logo após o domingo, e o trampo da semana começa mais uma vez.

Amanhecer nas plantações do sul. Figuras obscuras se ajoelham nos campos para plantar, cortar, colher o algodão de onde veio a grande riqueza do sul. Meeiros, trabalhando ano após ano, para o grande senhorio, nunca pagando toda sua dívida. A esposa do meeiro – trabalhadora de campo de dia, mãe e dona de casa a noite. Esfregando o piso de madeira da cabana até eles brilharem. Fervendo roupas na grande chaleira de ferro preto no quintal. Cozinhando gordura e milho para boquinhas famintas. Nunca na vida ela precisou se preocupar com problemas de lazer.

Mesmo amanhecer no Bronx Park, Nova Iorque. Ainda não há nenhum movimento nos blocos de apartamentos da proximidade. Do metrô as mulheres vêm, mulheres negras. Elas organizam cuidadosamente as cópias do Daily News ou do Mirror ao longo dos bancos do parque, ainda úmidos de sereno, e então sentam. Por que elas sentam tão pacientemente? Está frio e úmido ao amanhecer.

Aqui estamos, à venda para o dia todo. Pegue nosso trabalho. Dê-nos o que você quiser. Precisamos alimentar nossos filhos e pagar os altos aluguéis de Harlem. Dez centavos, quinze centavos por hora! Isso não vai alimentar nossas famílias nem por um dia, que dirá pagar nosso aluguel. Não pagaria mais? Bem, ainda é melhor do que voltar para Harlem depois de usar sua última moeda para o transporte…

Portanto, “donas de casa” baratas geram pechinchas mais precisas. Há mulheres de sobra para escolher. E cada dólar economizado deixa muito mais para um jogo de bridge ou festa no teatro! O “mercado de escravos” do Bronx é um monumento gráfico à exploração amarga dessa seção mais explorada da população trabalhadora americana – as mulheres negras.

Em todo o território, as mulheres negras enfrentam esta tripla exploração – como trabalhadoras, como mulheres e como negras. Cerca de 85 por cento de todas as trabalhadoras negras são domésticas, dois terços dos dois milhões de trabalhadoras domésticas nos Estados Unidos. Em menor número, elas são encontradas em outras formas de serviço pessoal. Outros empregos abertos para elas se limitam principalmente às lavanderias e às fábricas de tabaco da Virgínia e das Carolinas, onde as condições de trabalho são deploráveis. A pequena fração de mulheres negras nas profissões é prejudicada por práticas discriminatórias e salários desiguais.

A crise econômica colocou as mulheres negras em teste. Representando a maior proporção de trabalhadores desempregados do país, os negros sofrem descriminação nos programas de assistência ao trabalhador. Pessoas negras pagam o aluguel mais caro pelos piores alojamentos de todas as cidades. Vizinhanças negras segregadas possuem um déficit de creches, centros de saúde e escolas. E diante de tais condições adversas, as mulheres negras devem manter e criar suas famílias.

Foi com esse pano de fundo que se reuniram, em Chicago, nos dias 14, 15 e 16 de fevereiro de 1936, mulheres negras de todas as partes do país para o Congresso Nacional do Negro. Elas compuseram um terço dos 800 delegados, homens e mulheres, que juntaram, vindo de igrejas, sindicatos e organizações fraternais, políticas, de mulheres, juvenis, civis, de fazendas, profissionais e educacionais. Líderes de clubes de mulheres da Califórnia se juntaram com mulheres dos sindicatos de Nova Iorque. Professoras fizeram amizades com domésticas. Mulheres dos programas de assistência ao trabalhador falaram sobre problemas de ajuda humanitária com suas clientes. Mulheres de clubes de mães e ligas de donas de casa trocaram experiências na luta contra o alto custo de vida. As mulheres negras deram as boas-vindas às delegadas brancas que vieram ao Congresso como evidência do crescente senso de unidade entre elas.

A Sub-seção Feminina do Congresso dramatizou as condições enfrentadas pelas mulheres negras em todos os lugares. Neva Ryan retratou a situação difícil das trabalhadoras domésticas de Chicago e as medidas tomadas para organizá-las. Rosa Rayside, de Nova York, contou como elas já tinham uma Carta A.F. de L. para um sindicato de trabalhadores domésticos. Tarea Hall Pittman, presidente estadual da Federação de Clubes de Mulheres da Califórnia, enfatizou a necessidade de unir a luta das trabalhadoras com as mulheres profissionais. Marion Cutbert do Conselho Nacional da YWCA e Tesoureira Nacional do Congresso Nacional Negro saudou as delegadas e enfatizou a necessidade de organização em todas as frentes. Uma delegada branca de Detroit, Margaret Dean, contou sobre a valente luta travada em sua cidade por mulheres negras e brancas contra o alto custo de vida. Thyra Edwards, assistente social de Chicago e presidente do Comitê Feminino do Congresso Nacional Negro, enfatizou a necessidade de cooperativas de consumidores. Rosita Talioferro, estudante da Universidade de Wisconsin, pediu às mães que começassem cedo na vida de seus filhos a educação sobre os problemas a serem discutidos. Herbert Wheeldin, do condado de Westchester, Nova York, um dos vários homens delegados que ouviram atentamente, falou da grave exploração das trabalhadoras pelas famílias ricas de Westchester.

A sessão terminou cedo demais, com muitos delegados ainda por serem ouvidos. Os fatos que relataram contavam histórias tristes, mas não havia tristeza nessas delegadas, muitas das quais participavam de um congresso pela primeira vez na vida. Havia um tom de confiança em cada relatório – uma confiança, nascida em muitos casos durante o congresso, de que era possível mudar essas condições insuportáveis. Mulheres negras de todas as esferas da vida, não qualificadas e profissionais, mulheres negras e brancas viram-se unidas, descobriram que gostavam de estar juntas, descobriram que havia esperança de mudança ao estarem juntas.

Organização e unidade foram a tônica da resolução sobre as mulheres aprovada pelo Congresso. A resolução incorporou um programa de três pontos: (1) Organização das trabalhadoras domésticas em sindicatos da Federação Americana do Trabalho; (2) organização de donas de casa em ligas de donas de casa para combater o alto custo de vida e instalações educacionais para suas famílias, e (3) organização de mulheres profissionais. Todas as três devem se unir para trabalhar por uma legislação social adequada, por uma melhor assistência do governo e contra a guerra e o fascismo. Esta resolução foi apresentada à sessão geral do Congresso pela Sra. Nellie Hazell, representando a Liga Democrática Negra da Filadélfia, e foi aprovada por unanimidade.

As delegadas voltaram para suas casas, mas não como vieram. Essas mulheres agora têm um programa em torno do qual reunirão suas irmãs no trabalho e em casa. Elas têm um ano para realizar as declarações de sua resolução, de forma que até maio de 1937, quando o Congresso Nacional Negro se reunir novamente – desta vez na Filadélfia – elas se reunirão mais uma vez em maior número e com uma história diferente para contar, de realização, de uma luta mais perto do objetivo da libertação das mulheres negras de tamanha exploração e opressão.

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