José Carlos Mariátegui – O Artista e a Época

Texto traduzido de Política Revolucionaria contribución a la crítica socialista: la escena contemporânea y otros escritos Tomo 3. Caracas: Fundación Editorial El perro y la rana, 2010.

Tradução por Felipe Andrei.

Arte da capa de Mar Ned – Enfoque Rojo.


O artista e a época[1]

I

O artista contemporâneo se queixa frequentemente que esta sociedade ou esta civilização não lhe fazem justiça. Sua queixa não é arbitrária. A conquista do bem-estar e da fama realmente resulta ser muito dura nestes tempos. A burguesia quer do artista uma arte que corteje e bajule seu gosto medíocre. Quer, de qualquer modo, uma arte consagrada por seus peritos e avaliadores. A obra de arte não tem no mercado burguês um valor intrínseco, mas um valor fiduciário. Os artistas mais puros quase nunca são os mais bem cotados. O sucesso de um pintor depende, mais ou menos, das mesmas condições que o sucesso de um negócio. Sua pintura precisa de um ou vários empresários para administrá-la de forma hábil e sagaz. O renome é fabricado à base de publicidade. Tem um preço inacessível para o pecúlio do artista pobre. Às vezes, o artista nem sequer exige que lhe permitam fazer fortuna. Modestamente, se contenta com que lhe permitam fazer sua obra. Não ambiciona nada além de expressar sua personalidade, embora também sinta que esta lícita ambição é contrariada. O artista deve sacrificar sua personalidade, seu temperamento, seu estilo, se não quiser, heroicamente, morrer de fome.

Por este tratamento injusto, o artista se vinga detratando genericamente a burguesia. Em oposição a sua esqualidez, ou por uma limitação de sua fantasia, o artista representa o burguês invariavelmente gordo, sensual, porcino. Na graça real ou imaginária deste ser, o artista busca as raivosas ferroadas de suas sátiras e suas ironias.

Entre os descontentes com a ordem capitalista, o pintor, o escultor, o literato, não são os mais ativos e ostensivos; mas, sim, intimamente, os mais acérrimos e inflamados. O operário sente seu trabalho explorado. O artista sente sua genialidade oprimida, sua criação coactada, seu direito à gloria e à felicidade sufocado. A injustiça sofrida lhe parece tripla, quádrupla, múltipla. Seu protesto é proporcional à sua vaidade geralmente descomedida, ao seu orgulho quase sempre exorbitante.

II

Porém, em muitos casos, este protesto é, em suas conclusões, ou em sua consequência, um protesto reacionário. Descontente com a ordem burguesa, o artista se declara, em tais casos, cético ou desconfiado a respeito do esforço proletário para criar uma nova ordem. Prefere adotar a opinião romântica dos que repudiam o presente em nome da nostalgia do passado. Desqualifica a burguesia para reivindicar a aristocracia. Renega os mitos da democracia para aceitar os mitos do feudalismo. Pensa que o artista da Idade Média, do Renascimento etc., encontrava na classe dominante daquele tempo uma classe mais inteligente, mais compreensiva, mais generosa. Confronta a figura do Papa, do cardeal ou do príncipe, com a do novo rico. Dessa comparação, o novo rico acaba, naturalmente, saindo muito malvisto. Assim, o artista chega à conclusão de que os tempos da aristocracia e da Igreja eram melhores que os atuais tempos da democracia e burguesia.

III

Os artistas da sociedade feudal eram realmente mais livres e mais felizes que os artistas da sociedade capitalista? Vamos analisar as razões dos defensores dessa tese.

Primeira: A elite[2] da sociedade aristocrática tinha mais educação artística e mais aptidão estética que a elite da sociedade burguesa. Sua função, seus hábitos, seus gostos, a aproximavam muito mais da arte. Os Papas e os príncipes se deleitavam rodeando-se de pintores, escultores e literatos. Em sua tertúlia, escutava-se elegante discursos sobre a arte e as letras. A criação artística constituía uma das finalidades humanas fundamentais, na teoria e na prática da época. Diante de um quadro de Rafael, um senhor do Renascimento não se comportava como um burguês dos nossos dias, ou diante de uma estátua de Archipenko ou um quadro de Franz Marc. A elite aristocrática era composta por finos apreciadores e amantes da arte e das letras. A elite burguesa é composta de banqueiros, de industriais, de técnicos. A atividade prática exclui da vida dessas pessoas toda atividade estética.

Segunda: Naquele tempo, a crítica não era como hoje, uma profissão ou um ofício. Era exercida digna e eruditamente pela própria classe dominante. O senhor feudal que contratava Ticiano sabia muito bem por si mesmo o que Ticiano valia. Entre a arte e seus compradores ou mecenas não havia intermediários, não havia corretores.

Terceira: Não existia, sobretudo, a imprensa. A base da fama de um artista era exclusivamente, grande ou modesta, sua própria obra. Não se inseria, como agora, sobre um bloco de papel impresso. As rotativas não julgavam o mérito de um quadro, de uma estátua ou de um poema.

IV

A imprensa é particularmente acusada. A maioria dos artistas se sentem contrastados e oprimidos por esse poder. Um romântico, Théophile Gautier escrevia há muitos anos: “Os jornais são espécies de corredores que se interpõem entre os artistas e o público. A leitura dos jornais impede que haja verdadeiros sábios e verdadeiros artistas”. Todos os românticos atuais concordam, sem reservas e sem atenuações, com este juízo.

Sobre a sorte dos artistas contemporâneos, pesa excessivamente a ditadura da imprensa. Os jornais podem levar ao primeiro lugar um artista medíocre, e podem relegar ao último um artista excelente. A crítica jornalística conhece sua influência e a usa arbitrariamente. Consagra todos os sucessos mundanos. Incensa todas as reputações oficiais. Leva sempre muito em conta o gosto de sua alta clientela.

Mas a imprensa não é nada além de um dos instrumentos da indústria da celebridade. A imprensa é apenas responsável por executar o que os grandes interesses dessa indústria decretam. Os managers[3] da arte e da literatura têm em suas mãos todos os recursos para a fama. Em uma época em que a celebridade é uma questão de reclame, uma questão de propaganda, também, não se pode pretender que seja equitativa e imparcialmente concedida.

A publicidade, o reclame, em geral, são no nosso tempo, onipotentes. Consequentemente, a fortuna de um artista depende, muitas vezes, só de um bom empresário. Os comerciantes de livros e os comerciantes de quadros e estátuas decidem o destino da maioria dos artistas. Um artista é lançado, mais ou menos, pelos mesmos meios que um produto ou um negócio qualquer. E esse sistema, que por um lado concede renome e bem-estar para um Beltran Masses, por outro lado, condena à miséria e ao suicídio alguém como Modigliani. O bairro de Montmartre e o bairro de Montparnasse, em Paris, conhecem muitas dessas histórias.

V

A civilização capitalista tem sido definida como a civilização da Potência. Por tanto, é natural que não esteja organizada espiritual e materialmente para a atividade estética, mas sim para a atividade prática. Os homens representativos desta civilização são seus Hugo Stinnes e seus Pierpont Morgan.

Mas essas coisas da realidade presente não devem ser constatadas pelo artista moderno com uma nostalgia romântica da realidade pretérita. A posição justa nesse tema é a de Oscar Wilde, que em seu ensaio sobre A alma do homem sob o socialismo, via na libertação do trabalho, a libertação da arte. A imagem de uma aristocracia benévola e magnífica com os artistas constitui uma miragem, uma ilusão. É absolutamente falso que a sociedade aristocrática era uma sociedade de mecenas gentis. Basta relembrar a vida atormentada de tantas nobres figuras da arte daquele tempo. Também não é verdade que o mérito dos grandes artistas era muito mais reconhecido e recompensado do que agora. Naquela época, também prosperaram artistas exorbitantemente prosaicos, por exemplo, o mediocríssimo Cavalier D’Arpino gozou de honras e favores que sua época recusou ou privou a Caravaggio. Hoje, a arte depende de dinheiro, mas ontem dependia de uma casta. O artista de hoje é um cortesão da burguesia, mas o de ontem foi um cortesão da aristocracia. E, em todo caso, uma servidão vale o mesmo que a outra.


[1] Publicado no Mundial: Lima, 14 de outubro de 1925.

[2] Para alguns escritores a elite é a “aristocracia”, para outros, “classe dirigente”. Para seu significado social e espiritual, leia o artigo “O problema das elites”, no capítulo “A emoção do nosso tempo”, no presente tomo.

[3] Empresários.

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