Sundiata Acoli – Breve História dos Panteras Negras e Seu Lugar no Movimento de Libertação Negra

Uma Breve História do Partido dos Panteras Negras e Seu Lugar no Movimento de Libertação Negra (2008)

Originalmente publicado em inglês no site Red Sails.

Tradução por Guilherme Henrique.

Sundiata Acoli é um prisioneiro de guerra Nova-Afrikano, matemático e analista de computadores.

Ele foi preso em 1973 no mesmo incidente que envolveu Assata Shakur, o “New Jersey Turnpike Shooting” no qual ambos reivindicam sua inocência. Ao contrário de Assata, ele não escapou da prisão e ao invés disso, o estado norte-americano negou-lhe todas as audiências de liberdade condicional a que normalmente teria direito. Ele completará 94 anos na época da sua próxima oportunidade em 2032.

Decisões estilísticas do texto original, como usar maiúsculas para “Nós”, são deixadas intocadas.


O Partido dos Panteras Negras para Autodefesa foi fundado em outubro de 1966 em Oakland (California), por Huey P. Newton e Bobby Seale. O nome foi encurtado para Partido dos Panteras Negras (BPP na sigla original) e começou a se espalhar para o Leste através das colônias de guetos negros urbanos em todo país.

No verão de 68 os irmãos David abriram uma filial do BPP no Brooklyn (New York) e alguns meses depois Lumumba Shakur abriu outra no Harlem (New York). Eu me juntei à filial do Harlem no outono de 68 e servi como secretário de Finanças até ser preso em 2 de abril de 69 no “Panther 21 Conspiracy case”, que foi o tiro inaugural do ataque do governo ao BPP em nível nacional. No Oeste, os departamentos de polícia de cada cidade fizeram batidas em escritórios e residências do BPP em Filadélfia, Chicago, Newark, Omaha, Denver, New Haven, San Diego, Los Angeles e outras cidades, assassinando alguns membros do partido e prendendo outros.

Após eu e a maioria dos outros membros pegos no “Panther 21 Conspiracy case” sermos detidos na cadeia e esperarmos o julgamento por 2 anos, Nós fomos todos absolvidos das acusações e liberados. A maioria de nós voltou para a comunidade e para o BPP, mas nessa altura a COINTELPRO já tinha cobrado seu preço. O BPP estava cheio de divergências, tanto internas como externas. A luta interna, a divisão, a intriga e a paranoia tornaram-se tão arraigadas que, eventualmente, a maioria dos membros se afastou ou foram expulsos. Alguns continuaram na luta em outras frentes e outros esfriaram completamente. O BPP se arrastou por mais alguns anos, e então morreu no que parecia ser uma morte natural.

A história será a juíza final do lugar do BPP no Movimento de Libertação Negra (BLM na sigla original). Mas nesses tempos difíceis, a população negra norte-americana¹ precisa investigar os pontos positivos e negativos da história do BPP afim de aprender com essas duras lições já pagas com sangue. Nós em particular precisamos estudar as razões para a rápida ascensão e proeminência do BPP, a razão para a capacidade de mover tantos negros norte-americanos e pessoas de outras nacionalidades, e a razão para sua morte durante a breve permanência no cenário norte-americanos. Não é possível, neste breve artigo, em curto prazo, fornecer muito do que é necessário, então ele se limitará a apontar alguns dos aspectos mais amplos das contribuições positivas e negativas do BPP para o Movimento de Libertação Negra.

Aspectos positivos das contribuições do BPP

1. Defesa Pessoal: Essa é uma das áreas fundamentais em que o BPP contribuiu para o Movimento de Libertação Negra. É também umas das coisas fundamentais que diferenciam o BPP de outras organizações Negras e que atraiu membros (particularmente os jovens), apoio popular e seguidores em massa. O conceito não é só balela, é também senso comum. Mas deve ser implementado corretamente, do contrário pode se provar mais prejudicial do que benéfico. A políticas de autodefesa do BPP precisam ser analisadas sob essa perspectiva pelas atuais organizações do nacionalismo negro. Toda história mostrou que este governo usará do seu poder policial e militar para lidar com qualquer grupo que realmente busque a libertação do povo negro nos EUA. Qualquer organização pela “libertação” negra que ignora a defesa pessoal faz isso por sua conta e risco.

2. Ideologia Nacionalista Revolucionária: O BPP foi uma organização nacionalista. Seu principal objetivo era a libertação dos negros dos EUA, restringindo sua adesão apenas aos negros. E isso também foi revolucionário. A teoria e as práticas do BPP foram baseadas em princípios socialistas. Eram anticapitalistas e lutavam pela Revolução Socialista na sociedade norte-americana. A nível nacional, o BPP divulgou amplamente programas de base socialista para as massas negras. Internacionalmente, forneceu aos negros norte-americanos uma compreensão mais ampla de nossa relação com o continente africano, as emergentes nações Africanas independentes, nações do Terceiro Mundo, nações Socialistas, e todos os Movimentos de Libertação associados a essas nações. No geral, a ideologia forneceu aos negros norte-americanos uma forma mais concreta de olhar e analisar o mundo. Até agora, grande parte da análise Negra do mundo e da sociedade em que Nós vivemos, baseava-se em nos tornarmos aceitáveis para a sociedade Branca, provando aos Brancos que Nós éramos humanos, provando aos brancos que Nós estávamos prontos para a igualdade, provando que Nós éramos iguais aos brancos, refutando ideias racistas mantidas por Brancos, lutando pela integração ou status igual aos Brancos, teorias sobre “amar o inimigo”, “odiar o inimigo”, “todos eles são demônios”, são fantasmagorias e imagens difusas de como funciona o mundo real.

3. Técnicas de Organização de Massa: Outra coisa fundamental que atraiu membros e apoio das massas ao BPP foi sua política de “servir o povo”. Esta era uma política de ir até as massas, viver entre elas, compartilhar seus fardos e organizar as massas para implementar suas próprias soluções para os problemas do dia-a-dia, que eram de grande preocupação para elas. Ao organizar e implementar os desejos das massas, o BPP organizou programas comunitários que vão desde café da manhã gratuito para crianças, clínicas de saúde gratuitas, greves pelo aluguel – resultando na tomada de posse de seus prédios pelos inquilinos -, à Escola de Libertação para alunos do ensino fundamental, campanhas de roupas gratuitas , campanhas pelo controle comunitário das escolas, controle comunitário da polícia e campanhas para acabar com as drogas, o crime e os assassinatos e brutalidades cometidas pela polícia nas várias colônias negras em toda a América. Por essas e outras razões, a influência do BPP se estendeu muito além de seus membros reais. Os programas do BPP não apenas ensinaram a autossuficiência, mas anos depois o governo estabeleceu programas semelhantes, como merenda escolar gratuita, ampliou as instalações de assistência médica e creches e procedimentos judiciais para inquilinos adquirirem moradias mal conservadas; em parte, se não principalmente, para apagar a memória de programas anteriores semelhantes do BPP e o princípio da autossuficiência.

4. Prática da Igualdade das Mulheres: Outra contribuição positiva do BPP foi a sua defesa e prática da igualdade para as mulheres em todos os níveis da organização e na própria sociedade. Isso ocorreu em um momento em que a maioria das organizações nacionalistas negras exigiam que o papel da mulher fosse o de ficar em casa e/ou um passo atrás do homem negro, e em um momento em que todo o país passava por um grande debate sobre a questão da libertação da mulher.

5. Técnicas de Propaganda: O BPP fez contribuições significativas para a arte da propaganda. Eram muito hábeis em espalhar sua mensagem e ideias através de seu jornal “The Black Panther”, em comícios em massa, palestras, slogans, cartazes, folhetos, caricaturas, botões, símbolos (ou seja, o punho cerrado), grafite, julgamentos políticos e até funerais. O BPP também difundiu suas ideias por meio do uso habilidoso da TV, rádio e mídia impressa do establishment. Uma indicação singular, embora existam outras, da eficácia das técnicas de propaganda do BPP é que ainda hoje, mais de uma década depois, grande parte dos programas exibidos na TV ainda são “histórias policiais” e muitos dos papéis disponíveis para atores negros são limitados a papéis policiais. Muito disso tem a ver com o processo geral de ainda tentar reabilitar a imagem da polícia de sua exposição devastadora durante a era dos Panteras e impedir que o verdadeiro papel da polícia nessa sociedade seja exposto novamente.

Aspectos negativos das contribuições do BPP

1. Liderança Corrompida: A COINTELPRO eventualmente intimidou e corrompeu todos os três principais líderes do BPP: Huey P. Newton, Bobby Seale e Eldridge Cleaver. Cada um, à sua maneira, cedeu às pressões e começou a agir de uma maneira que foi deliberadamente projetada para destruir o BPP e desiludir não apenas os membros do Partido, mas o povo negro norte-americano nos anos seguintes. As esperanças da COINTELPRO eram que os negros norte-americanos ficassem tão desiludidos que nunca mais confiariam ou seguiriam qualquer líder ou organização nacionalista negra que defendesse soluções reais para a opressão dos negros.

2. Superfície e Subterrâneo Interligados: Esta foi a falha estrutural mais séria do BPP. Os membros do partido que trabalhavam abertamente nos escritórios do BPP, ou se organizavam abertamente na comunidade, durante o dia poderiam muito bem ser as mesmas pessoas que realizavam operações armadas à noite. Isso forneceu à polícia uma desculpa conveniente para fazer batidas em todos e quaisquer escritórios do BPP ou residências de membros, sob o pretexto de que eles estavam procurando por suspeitos, fugitivos, armas e/ou explosivos. Também induziu o BPP a assumir a posição, sem chance de vitória, de fazer defesas estacionárias dos escritórios do BPP. Deveria haver uma separação clara entre o partido na superfície e o aparato armado subterrâneo. Também as pequenas forças militares nunca devem adotar, como tática geral, a posição de fazer defesas estacionárias de escritórios, residências, prédios, etc.

3. Capacidades Retóricas Ultrapassadas: Embora o BPP fosse adepto da arte da propaganda e fizesse muito bom uso de sua própria mídia e da mídia do establishment, ainda assim muitos Panteras adquiriram o hábito de fazer reivindicações chamativas na mídia pública ou vender “bilhetes de lobo” que eles não podiam garantir. Eventualmente, eles não foram mais levados a sério. A imprensa, alguns dos quais eram agentes da polícia, muitas vezes só precisava enfiar um microfone debaixo do nariz de um/uma Pantera para fazer ele/ela cuspir a mesma retórica. Isso muitas vezes foi jogado nas mãos daqueles que estavam simplesmente procurando material calunioso para ir ao ar ou forneceu possíveis informações de inteligência à polícia.

4. Tendências de Lumpemproletariado: Pode-se dizer, com segurança, que o maior segmento dos membros do BPP da cidade de Nova York (e provavelmente em todo o país) eram trabalhadores que ocupavam empregos fixos. Outros segmentos dos filiados eram semiproletários, estudantes, jovens e lumpemproletariados. As tendências lumpemproletárias no interior de alguns membros foram as que a mídia do establishment (e alguns membros do partido) mais enfatizou. As tendências Lumpemproletárias estão associadas à falta de disciplina; uso liberal de álcool, maconha e palavrões; moral sexual frouxa; uma mentalidade criminosa e ações precipitadas. Essas tendências em alguns membros do Partido proporcionaram à mídia melhores oportunidades do que teriam para enfatizar esse aspecto e caluniar o Partido, o que desviou a atenção do público de grande parte do trabalho positivo feito pelo BPP.

5. Dogmatismo: Os sucessos iniciais fizeram alguns Panteras sentirem que eram os únicos possuidores de verdades absolutas. Alguns se tornaram arrogantes e dogmáticos em suas relações com membros do Partido, outras organizações e até mesmo a comunidade. Isso afastou as pessoas.

6. Falha em Organizar Bases Econômicas na Comunidade: O BPP pregou a política socialista. Eles eram anticapitalistas e isso distorcia o conceito de construir bases econômicas na comunidade. Muitas vezes davam a impressão de que se engajar em qualquer empreendimento comercial era engajar-se no capitalismo e muitas vezes olhavam com desdém os pequenos empresários da comunidade. Como resultado, o BPP construiu poucos negócios que gerassem renda além do jornal “The Black Panther”, ou que pudessem fornecer empregos próprios para seus membros e para as pessoas da comunidade. O BPP falhou em encorajar a comunidade negra a estabelecer seus próprios negócios como um meio de construir uma base econômica independente que pudesse ajudar a quebrar o controle “de fora” da economia da comunidade negra e movê-la para a autossuficiência econômica.

7. Mentalidade de TV: Os anos 60 foram tempos de grandes acontecimentos. Um segmento significativo da população dos EUA se engajou na luta de massas. Os movimentos de libertação negra, nativos americanos, porto-riquenhos, asiáticos, chicanos, anti-guerra, revolucionários brancos e de libertação da mulher estavam ocorrendo mais ou menos simultaneamente durante essa época. Parece que esse fluxo considerável fez com que alguns Panteras pensassem que uma tomada do poder estatal era iminente ou que uma luta revolucionária é como um programa de TV de ritmo acelerado. Ou seja, começa às 21h, cresce até às 21h45 e às 21h55: Vitória! tudo a tempo do jornal das 22h00. Quando isso não aconteceu depois de alguns anos, isto é, os negros norte-americanos ainda não eram livres, nenhuma revolução ocorreu e, pior, o BPP estava em toda parte na defensiva, sofrendo perdas e crivado de dissensões, muitos membros ficaram desmoralizados, desiludidos, e foram embora ou voltaram ao velho estilo de vida. Eles não estavam psicologicamente preparados para uma luta longa. Em retrospectiva, parece que o BPP não fez o suficiente para erradicar essa mentalidade de TV em alguns membros, mas o fez em outros, o que é um aspecto a ser refletido.

Embora o BPP tenha cometido erros graves, também obteve uma considerável quantidade de sucesso e fez várias novas contribuições significativas para o Movimento de Libertação Negra. O julgamento final da história pode muito bem mostrar que, à sua maneira, o BPP acrescentou o ingrediente final à Agenda Negra necessário para alcançar a liberdade real: a luta armada. E que este foi o grande ponto de virada que finalmente colocou o Movimento de Libertação Negra no caminho final para a vitória.

Notas da tradução:

¹ “Afrikan people in the U.S”. Sundiata Acoli se refere a população negra destacando sua africanidade, comum a movimentos negros nacionalistas como a República da Nova Afrika, a qual forneceu seu apoio.

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