György Lukács – Por que a burguesia precisa do desespero?

Escrito em 1948 e publicado originalmente em Schicksalswende: beiträge zu einer neuen deutschen Ideologie, 1956.

Disponível no Kathársis.

Tradução por Bruno Bianchi.


A ideologia tradicional, habitual, de defesa da burguesa é a idealização: sob uma forma ideal e artística, devem desaparecer as oposições brutais, os horrores criados pela sociedade capitalista. É assim que, após mais de um século, toda a ciência e a arte são baseadas na apologia, a começar pela filosofia acadêmica. Esta orientação atingiu a sua forma mais grosseira nos filmes hollywoodianos, mas muitas vezes a filosofia professoral nada mais é do que um filme com um happy end, sob uma forma conceitual.

Diante da assustadora realidade das últimas décadas, a idealização pura revelou-se, portanto, demasiada fraca, ineficaz. Ao menos nas esferas da reflexão da intelligentsia burguesa; esconder os fatos chocantes da vida social, apagando-os mesmo com os meios mais simples, havia se tornado impossível.

No consiste então, em tais circunstâncias, a dificuldade para a ideologia apologética burguesa? É a pressão dos fatos sobre o pensamento. Este mundo, que a ideologia burguesa ordinária tende a representar como um todo harmonioso, apresenta-se aos homens como um caos assustador e absurdo. Uma tentativa é feita para que eles engulam um mal-estar, presente neles, de sentimentos intrusivos, às vezes, como o início de uma contradição, como o início de uma revolta contra o mundo imperialista. Há então um perigo ameaçador, o da fração pensante da intelligentsia aderente ao socialismo.

Uma nova linha de defesa torna-se então necessária. A filosofia de Nietzsche a forneceu no início dos anos 1890, a de Spengler e de seus acólitos durante a Primeira Guerra Mundial, assim como o existencialismo moderno, a semântica, etc., após a Segunda Guerra Mundial.

Seria superficial pensar que foi a própria burguesia que produziu esta filosofia para sua própria defesa. Não, se trata aqui de uma concepção de mundo nascida espontaneamente, de uma imagem que reflete diretamente a situação na qual vive a intelligentsia na era do imperialismo. Consideramos esta situação! O ponto de partida é a insatisfação em relação ao sujeito do mundo circundante e o mal-estar, a indignação, o desespero, o niilismo, a falta de perspectivas que surgem dessa insatisfação. Neste mundo distorcido, o indivíduo desesperado busca por uma saída individual, mas não a encontra. Não pode encontra-la porque as questões sociais não podem ser resolvidas individualmente. Nestas ideias se reflete, consequentemente, um mundo vazio, sem propósito, desumano e absurdo. É a partir daqui que ele tira suas conclusões, no cinismo ou no desespero honesto.

Estas concepções de mundo parecem, portanto, à primeira vista, expressar uma revolta, ou ao menos uma rejeição resoluta do mundo existente. Para que servem, então, essas concepções de mundo para a burguesia imperialista? Como ela pode explorá-las para seus objetivos? Como pode influenciá-las?

A utilidade se manifesta, antes de tudo, no fato de que esta indignação, enquanto vagueia tateando em círculos e buscando uma saída individual, não pode ser direcionada em direção à transformação da sociedade. Já o primeiro clássico do pessimismo, Schopenhauer, rejeitava antecipadamente todas as aspirações — desprezíveis aos seus olhos — que estavam orientadas em direção a uma transformação da sociedade. E à sombra do princípio superior da filosofia heideggeriana e sartreana, o nada, ao lado da “superioridade” do niilismo que muda o mundo inteiro, toda reforma social “mesquinha”, “medíocre”, é reduzida aos olhos dos mais jovens a uma total ausência de sentido. Absurdamente, aquele que se revolta contra o destino é na vida um filisteu passivo e paciente.

Também isso é uma aquisição para a burguesia imperialista. A coisa vai, porém, ainda mais longe. O pessimismo logo se torna uma autossatisfação. O pessimismo e o desespero aparecem como um comportamento “diferente” em relação ao otimismo “banal”, o mesmo que uma atitude reservada e “ofendida” em relação à ação “superficial”. No coração da crise social, à beira do abismo que ameaça engolir a sociedade burguesa, esta intelligentsia autossatisfeita em si mesma, persegue sua vida filisteia sobre uma base moral do pessimismo e do desespero. E como o imperialismo tolera este comportamento “revolucionário”, e mesmo o apoia, ele suscita uma forte antipatia para com a sociedade democrática ou mesmo socialista nascente, que exige dos homens uma participação ativa. Ela gera a concepção de mundo, segundo a qual, para a “civilização” — isto é, para a atitude pessimista de autossatisfação — esta sociedade, que lhe é subjacente, será mais favorável que a sociedade progressista, que exige uma participação ativa no trabalho da humanidade.

Este não é, no entanto, mais que um ponto de acesso. O niilismo e a falta de perspectiva não querem e não podem dar à ação humana uma medida concreta, uma orientação resoluta. A concepção de mundo, que subtrai o comportamento individual da relação com a sociedade, considera as resoluções individuais como perfeitamente injustificáveis e busca as relações em caminhos errôneos, por vias falsas, onde não pode encontra-las. A busca de relações “cósmicas” é, naturalmente, a estufa onde florescem a credulidade e a superstição. É assim que se tornam moda os novos destinos de novas superstições: o novo misticismo, a yoga, a astrologia. E ali, nestas aspirações modernas em matéria de concepção de mundo, a política imperialista se implica ativamente. E na propaganda do fascismo isto é visto mais claramente. Ela é dirigida à credulidade, endurecida na expectativa de um milagre, ao desespero pronto para tudo. Se a suposta concepção nacional-socialista do mundo conseguiu conquistar uma parte significativa da intelligentsia, é apenas porque Nietzsche e Spengler, Heidegger, Jaspers e Klages haviam preparado o terreno para esta credulidade na intelligentsia, na qual esta ideologia, apesar de sua mediocridade, poderia exercer irresistivelmente a sua eficácia, onde a passividade desesperada poderia ser transformada em uma atividade fundada sobre a credulidade, em uma cega obediência a toda ordem do Führer. Hitler foi derrotado. Mas as tentativas do imperialismo agressivo de reviver o fascismo são hoje ainda mais vívidas do que nunca. Não é de modo algum surpreendente que nada tenha sido feito por parte da burguesia para liquidar ideologicamente esta concepção de mundo que precederam o fascismo e que o prepararam. Pelo contrário, vemos que estas concepções de mundo se difundem imperturbavelmente em escala mundial, que elas gozam do apoio total, pode-se dizer, de todas as camadas da burguesia. O sucesso mundial do existencialismo prova que este ponto de vista não produziu nenhuma mudança essencial na sociedade burguesa. E a política da “terceira via”, que os existencialistas seguiram no início, em relação ao De Gaulle, mostra claramente que o papel social atribuído ao novo niilismo não se diferencia essencialmente do antigo.

Esta situação, com razão, exige de nós conduzirmos a luta mais aberta contra estas concepções de mundo, mesmo que provisoriamente elas não manifestem tendências explicitamente reacionárias. Em nossos dias, de fato, uma virada decisiva se iniciou, mesmo no campo das concepções de mundo. A política do imperialismo conduz sempre mais a humanidade em direção ao novo abismo da guerra mundial. Não é por acaso que a reação a esta política da intelligentsia pensante, uma reação imediata, continua sendo o primeiro passo, ou seja, o niilismo, a ausência de perspectiva. Pelo contrário, a política do povo trabalhador mostra aos povos, assim como aos indivíduos, a perspectiva da paz, do trabalho e da libertação. A consequência desta política da nova ordem social emergente deve ser, evidentemente, mesmo no seio da intelligentsia, a saudável conexão da concepção de mundo com a realidade. O movimento popular não apela à passividade, à credulidade, ao desespero dos homens, mas espera que, ao contrário, eles esclareçam, sobriamente e conscientemente, a sua própria situação, os seus objetivos e aspirações, e as transformem em realidade pela via da ação consciente.

A realidade não é, portanto, aos homens um caos alheio e hostil, mas, pelo contrário, uma casa a ser construída.

As duas concepções de mundo se encontram, uma em relação à outra, em uma oposição irreconciliável. Tanto mais úteis à burguesia imperialista são a falta de perspectiva, o niilismo, a ideologia do desespero das modernas concepções de mundo, tanto mais elas tem um efeito danoso sobre as concepções de mundo dos povos que se libertam. É, portanto, uma tarefa ideológica urgente liquidar radicalmente do plano das ideias as concepções de mundo da burguesia. Não apenas para aniquilar a arma ideológica de reserva, a quinta coluna do fascismo, que pode eventualmente aparecer, mas também para colocar a intelligentsia perdida no imperialismo de volta ao seu posto: ao lado da classe operária e dos partidários que estão edificando o mundo novo.

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