Filme de Terror – O declínio do capitalismo através das lentes

Escrito por Mark Rahman

Originalmente publicado no site In Defence of Marxism.

Traduzido e adaptado por Rafaela Fraga.


Num artigo durante a I Guerra Mundial, Lênin comentou que “a sociedade capitalista é e sempre foi um horror sem fim”. Discutindo os primórdios do desenvolvimento capitalista no seu clássico O Capital, Marx disse que, desde sua chegada à história, “o capital vem exalando dos pés à cabeça, por cada poro, sangue e sujeira”. No mesmo livro, Marx declarou que “o capital é trabalho morto, e, como vampiro, só existe sugando trabalho vivo, e quanto mais suga, mais vive”. No mesmo capítulo, Marx compara a busca dos capitalistas por trabalho excedente com uma “fome de lobisomem”.

Armados com o entendimento marxista da sociedade e com um conhecimento do enorme potencial para um mundo melhor, estes indivíduos viram o capitalismo como o que ele era: um terror. Sua identificação entre os contos de vampiros, lobisomens e bichos-papões do folclore antigo e da era vitoriana com crimes, injustiças e com o próprio capitalismo, não é uma surpresa – é um sentimento inconscientemente compartilhado por milhões de pessoas e refletido na popularidade do gênero do terror desde o nascimento do cinema.

Quaisquer que sejam as intenções por trás da produção desses filmes, eles, inevitavelmente, tenderam a funcionar como um espelho refletindo as ansiedades e medos de seu tempo. Os filmes que mais se conectaram com o público, invariavelmente foram os que pareceram mais familiares e correlacionáveis, não importando quão fantásticas fossem suas histórias na superfície. Por conta disso, não é por acidente que você consegue traçar vários pontos em comum entre a prolongada agonia mortal do capitalismo no último século, e os filmes de terror mais populares.

O terror para acabar com todos os horrores

Os mais antigos estúdios cinematográficos já produziam terror, mas somente após o desfecho da I Guerra Mundial o gênero realmente ecoou entre os espectadores. A Guerra representou uma virada histórica no desenvolvimento do capitalismo; enquanto o sistema desenvolvia os meios de produção em níveis enormes, inimagináveis na sociedade pré-capitalista, foi na virada do século que o capitalismo começou a atingir seus limites. Os principais imperialistas exauriram seu mercado nacional e, desesperadamente, buscaram novos mercados para explorar. Grandes potências como a Grã-Bretanha e a França já haviam dividido amplamente o mundo colonial, deixando o capitalismo alemão com poucas opções que não incluíssem atacar seus vizinhos continentais.

Foi nesse período que surgiu o lema “guerra para acabar com todas as guerras” – um terror da vida real que deixou profundos impactos no desenvolvimento humano que se seguiu. O capitalismo provou concretamente para todo o mundo que não era mais um sistema em ascensão, mas um sistema de crise que ameaçava arrastar toda a humanidade com ele. A guerra foi responsável pela destruição de grandes áreas na Europa; pela morte de mais de 16 milhões de pessoas, das quais quase metade eram civis; e deixou milhões de soldados emocional e fisicamente marcados pelo massacre.

Na Rússia, a guerra foi encerrada tendo como base uma exitosa revolução dos trabalhadores, liderada pelo Partido Bolchevique. Na Alemanha, em última análise, ao trazer uma pausa para a I Guerra, a Revolução de 1918 falhou no seu objetivo histórico de estabelecer um governo operário que poderia começar a construir uma nova sociedade e salvar a Revolução Russa do isolamento. Nos anos seguintes, vimos na Alemanha uma explosão cinematográfica, incluindo o gênero do terror.

Marcos do expressionismo alemão no cinema, O Gabinete do Dr. Caligari (1920) e Nosferatu (1922) adentraram na psicologia da inquietação e da insegurança na Alemanha do pós-guerra. Convulsões revolucionárias e respostas contrarrevolucionárias, combinadas a uma economia em crise, são características fortes deste período da história alemã. Entre a contagem de pontos bizarra por matar vampiros durante o sono (Nosferatu) e o sonâmbulo manipulado para cometer assassinatos a mando de um médico louco (O Gabinete do Dr. Caligari), os filmes chamavam a atenção para o sentimento de muitos trabalhadores alemães de que vinham sendo enganados e intimidados pela classe dominante – e até mesmo pelos seus líderes do Partido Social Democrata – a participar do massacre reacionário.

O dano psicológico e físico que a guerra causou em seus participantes é graficamente ilustrado pelo artista Otto Dix, que publicou uma coleção de 50 gravuras intituladas “A Guerra”, retratando as brutalidades que a guerra deixou, principalmente nos muitos soldados que sofreram para colocar suas vidas “de volta ao normal” ao retornarem do fronte da guerra. Esse cenário encontrou sua expressão no número de filmes de terror da década de 1920, que focavam em monstros lutando contra seus próprios demônios interiores. Apenas no ano de 1920, duas adaptações de O Médico e o Monstro foram produzidas nos Estados Unidos, e uma outra adaptação alemã, intitulada de A Cabeça de Janus, foi dirigida por F. W. Murnau, o mesmo diretor de Nosferatu.

A década produziu outros filmes que retratam personagens fisicamente desfigurados e psicologicamente torturados, como O Corcunda de Notre Dame (1923) e O Fantasma da Ópera (1925), ambos estrelados por Lon Chaney, um dos primeiros astros dos filmes de terror.

A Grande Depressão

A quebra da bolsa de valores em 24 de outubro de 1929 inaugurou a mais profunda crise do capitalismo mundial já vista até então. Os problemas subsequentes, que foram sentidos por milhões de trabalhadores, levaram a um cinismo generalizado de um lado, e de outro, a grandes questionamentos da sociedade. Nos Estados Unidos, Hollywood desempenhou um papel nada pequeno em impulsionar a confiança do capitalismo: “nenhum meio contribuiu mais que os filmes para a manutenção da moral nacional num período marcado por revoluções, motins e instabilidade política em outros países”, disse o líder da Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes, William Hays. Mas a popularidade dos filmes de terror na época ainda refletia uma perspectiva sombria que caracterizava o imaginário americano na luta trabalhista em meados dos anos de 1930. Esse contexto também introduziu o terror no circuito comercial, que gerou a produção de muitas e muitas sequências.

Muitos dos filmes da década de 1930 fazem correspondências aos da década de 1920. O Lobisomem de Londres (1935) seguiu os passos de O Médico e o Monstro e Drácula (1931), trazendo referências de Nosferatu. Mesmo Zumbi Branco (1932) – primeiro filme de zumbi notável – foi, de muitas maneiras, um eco de O Gabinete do Dr. Caligari. Béla Lugosi, estrela de Drácula e Zumbi Branco, deu início à sua carreira na atuação na Hungria, onde participou da Revolução Húngara de 1919. Por seu radicalismo, foi forçado a fugir no período contrarrevolucionário e fez sua trajetória em Hollywood, onde estreou sua carreira como bicho-papão ao longo dos anos de 1930 e 1940, ao lado de Boris Karloff.

Frankenstein (1931), estrelando Karloff, e Ilha das Almas Perdidas (1932), estrelando Lugosi, concentraram-se nos horrores que a própria humanidade poderia evocar. Ligeiramente baseado no clássico romance de Mary Shelley Frankenstein, o filme retrata um monstro que ganhou vida pelas mãos de um doutor insano, abandonado e rejeitado por um mundo pelo qual ele clamava por aceitação. Após seu lançamento, o desemprego nos Estados Unidos quase dobrou em um ano, e o fenômeno das emigrações massivas de trabalhadores em busca de sustento era somado ao amplo sentimento de rejeição e alienação.

Em Ilha do Dr. Moreau, uma adaptação do livro homônimo de H. G. Wells, o médico transforma animais em humanos, mas incompletamente, tornando-os metade humanos e metade animais. Abordando as inseguranças da classe trabalhadora no início da década, as criaturas do Dr. Moreau vivenciavam a complexidade emocional e cognitiva dos humanos, mas eram tratados como meros seres experimentais. O filme termina com a morte do Dr. Moreau nas mãos de seus súditos torturados.

Outro filme, Zaroff, o Caçador de Vidas (1932), expressou o antagonismo de classe da época de maneira muito mais evidente, retratando um aristocrata russo que gostava de caçar seres humanos por esporte. O filme termina de forma pungente, com o aristocrata sendo atacado por seus próprios cães de caça enquanto os protagonistas fogem.

Em 1934, a classe trabalhadora americana foi reconquistando sua energia e confiança. Três greves gerais (em Oakland, na Califórnia; Mineápolis, em Minnesota; e Toledo, em Ohio) abriram um novo período de renascimento do movimento sindicalista a partir do Congresso das Organizações Industriais. O clima de melancólico foi substituído por contra-ataques provocativos, o que talvez explique a mudança de Hollywood na direção do exagero e da comercialização do gênero do terror que durou pelas décadas seguintes.

A Noiva de Frankenstein (1935), O Filho de Frankenstein (1939), O Fantasma de Frankenstein (1949), Frankenstein Encontra o Lobisomem (1943) e A Casa de Frankenstein (1944) sintetizam o que se tornou uma marca registrada do gênero do terror: sequências, remakes e spin-offs de menor qualidade. Outros filmes como O Gato e o Canário (1939) e Zombies on Broadway (1945) introduziram a comédia no gênero, numa época em que horrores reais e atrocidades eram novamente experienciados pela humanidade numa escala global através da II Guerra Mundial.

O terror na era nuclear

Embora mantendo muito do exagero e da comercialização dos anos de 1940, a maioria dos filmes de terror da década de 1950 enveredaram para a ficção científica, abordando os medos dos efeitos da radiação, monstros pré-históricos, experimentos científicos que deram errado e invasores do espaço sideral.

Godzilla (1954), que foi produzido no Japão, reflete os impactos psicológicos das bombas atômicas e dos campos minados que foram lançados em muitas cidades japonesas. O monstro pré-histórico Godzilla é ressuscitado por um teste nuclear no Pacífico e causa devastações, destruindo Tóquio. Talvez, em nenhum outro lugar do mundo, a ideia de uma cidade inteira ser destruída da noite para o dia seja mais profundamente compreendida do que no Japão – o filme foi produzido menos de uma década depois do criminoso bombardeio atômico a Hiroshima e Nagasaki, que arrasou ambas as cidades e dizimou cerca de 250.000 pessoas no total. Abordando os medos em torno de uma guerra nuclear, o filme foi um sucesso internacional e deu origem a uma série de sequências e outros filmes similares de “grandes monstros”, como O Mundo em Perigo (1954) e Tarântula (1955).

O Monstro do Ártico (1951) foi um dos primeiros filmes a abordar alienígenas invasores, um tema que se tornaria comum à medida que a corrida espacial se acirrava. Mais tarde, A Bolha Assassina (1958) falou sobre uma criatura alienígena que perturbou e ocasionalmente engoliu uma típica cidade suburbana dos anos de 1950.

Em Vampiros de Almas (1956), chovem esporos de plantas alienígenas no subúrbio da América, criando clones de pessoas, por sua vez, desprovidas de emoção. O filme foi lido por membros da direita política como uma representação da condescendência desalmada que existiria na União Soviética de Stalin; já na esquerda, muitos viam a mesma condescendência sem alma, mas que destruía tudo nos Estados Unidos durante a era McCarthy.

Terror sobrenatural

Com a eclosão do pós-guerra atingindo seu pico na década de 1960, houve uma mudança em direção ao sobrenatural nos filmes de terror. Muitos deles começaram a trazer fantasmas, bruxas, cultos satânicos e possessões demoníacas. Na metade dos anos de 1960, os Estados Unidos atingiram seu ápice histórico da crença religiosa, de modo que a fé em deus era sistematicamente propagandeada pelo país com o propósito de diferenciar os EUA da “ímpia” União Soviética.

Quase prevendo os movimentos de juventude que despontariam nos anos derradeiros da década de 1960, muitos dos filmes começaram a destacar conflitos intergeracionais, um tema que continua presente desde então. Psicose (1960) é, possivelmente, a quintessência para exemplificar isso. O filme começa como um típico thriller de Hitchcock, com uma mulher roubando uma grande quantia de dinheiro do seu patrão e fugindo para a Califórnia. No caminho, ela conhece Norman, o jovem, sensitivo e esquisito mantenedor do Bates Motel. A mãe de Norman, por seu turno – a qual depois descobrimos estar morta, vivendo exclusivamente na cabeça de seu filho – é abusiva e extremamente ciumenta com qualquer pessoa que possa roubar a atenção voltada para ela.

Desafio do Além (1963) apresenta uma jovem que passa a integrar uma equipe de investigadores paranormais numa velha casa mal-assombrada após a morte da sua mãe, doente havia muito tempo, e de quem a protagonista passara a maior parte da vida cuidando de maneira submissa – numa referência ao personagem de Norman Bates.

Alfred Hitchcock arriscou novamente no terror em Os Pássaros (1963). O filme estabelece um clima inquietante com sua completa ausência de música. A obra também é notável como uma das primeiras a afigurar acontecimentos inexplicáveis que parecem implicar em consequências apocalípticas mundo afora, em oposição ao tema já evidente “monstros expostos à irradiação enfurecidos pela cidade” que estava em alta em 1950.

Um pequeno grupo que se coloca na trincheira contra os terrores externos em frente a uma casa, como retratado em Os Pássaros, certamente foi uma inspiração para o clássico A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George Romero. Muitos temas lançados neste filme dão ênfase à polarização política da época. Num aceno ao movimento pelos Direitos Civis, o personagem principal é um homem negro decidido e forte, Ben, que se vê em constante discordância com um homem branco patriarcal, Harry, sobre como podem defender a si mesmos dos zumbis que estão do lado de fora. O filme foi produzido poucos meses após o assassinato de Martin Luther King Jr., e a morte de Ben – não pelas mãos dos zumbis, mas pelas mãos da polícia, que o confunde com uma das criaturas – parece fazer um tributo a isso.

Concomitantemente aos protestos contra a Guerra do Vietnã e do movimento pelos Direitos Civis, o movimento pelos Direitos das Mulheres foi levantando questões ligadas ao direito reprodutivo e à violência doméstica – temas que foram abordados em vários filmes nas décadas seguintes. O Bebê de Rosemary (1968) fala sobre uma jovem dona de casa que engravida a partir de um ritual satânico, organizado por seus vizinhos, para gerar a semente de Satanás. Ela vive sua gestação amedrontada, absorta, submetida aos caprichos de outrem e torturada por dores e problemas de saúde. O filme se destaca, dentre outras razões, por levar o público a se identificar com a situação da protagonista feminina.

Seguindo na mesma linha, Carrie, a Estranha (1976) retrata uma jovem adolescente solitária e excluída, perseguida por seus colegas de escola e abusada pela mãe cristã fundamentalista. Mais tarde, ela descobre que tem poderes telecinéticos e os utiliza para se vingar dos seus algozes. Esse filme também é notável por gerar identificação do público com os problemas de uma garota.

Outros filmes notáveis dos anos 1970 incluem A Profecia (1976), história de um menino que revelou ser o anticristo e acabou sendo adotado pelo Presidente dos Estados Unidos, e O Exorcista (1973), história de uma jovem possuída por um demônio. O Exorcista recebeu apoio da Fordham University (uma escola jesuíta) por reforçar os ensinos supersticiosos da igreja. A Universidade permitiu que filmassem no campus e utilizassem um porão como cenário. Além disso, um número considerável de padres chegou a atuar no filme.

O fim do boom do pós-guerra

Em 1973, o boom do pós-guerra atingiu seus limites, abrindo uma recessão que duraria 2 anos e que foi sentida por grande parte do mundo. Nos Estados Unidos, o período foi caracterizado pela crescente desenfreada do desemprego, pela estagflação e pela recuperação das conquistas geradas pelo movimento sindicalista ao longo do pós-guerra.

A recessão de meados da década deixou sua marca em vários filmes dos anos seguintes, particularmente em Despertar dos Mortos (1978), de George Romero, em que 4 pessoas se abrigam no interior de um shopping abandonado, onde têm ao alcance das mãos tudo o que precisam. Shoppings Centers eram fenômenos recentes na época, e refletiam a nova dependência em crédito e consumismo do capitalismo para manter, artificialmente, a economia viva.

Em 1974, O Massacre da Serra Elétrica, de Tobe Hooper, foi lançado e começou a introduzir uma série de ideias que seriam, posteriormente, adotadas por filmes de terror slasher dos anos 1980. O filme – que, como Psicose anos antes, foi inspirado no serial killer Ed Gein – é focado em um grupo de jovens hippies urbanos que visitavam uma área rural do Texas. Entre eles, há o irmão mais novo do protagonista, Franklin, que é cadeirante e, por essa razão, visto pelos outros personagens como um fardo. Muitos fizeram a leitura de que o personagem de Franklin foi criado com a intenção de representar os soldados mutilados que retornaram para casa após a Guerra do Vietnã.

No caminho, eles conhecem um homem perturbador, que os explica a superioridade de matar vacas com uma marreta ao invés de matá-las com maquinaria, que roubou seu emprego. Mais tarde, revela-se que o homem é membro de uma família inteira de assassinos sádicos, que aparentemente trabalham num matadouro próximo. Um por um, os hippies se defrontam com sua morte trágica, com exceção da final girl – mote que se tornou característico de muitos filmes de 1980 em diante.

Tobe Hooper seguiu com Poltergeist em 1982, retratando desta vez uma família suburbana, de vida simples, que sofre com a abrupta abdução de sua filha pequena por um demônio que veio assombrar sua casa. A razão é revelada depois: o ganancioso incorporador imobiliário – para quem o estereotipado pai yuppie trabalha – construiu o bairro em que moram em cima de um cemitério, removendo as lápides, mas deixando os caixões.

Tubarão (1975), de Steven Spielberg, mostra um novo chefe policial da ilha fictícia Amity Beach tendo que lidar com um enorme tubarão branco assassino, que matou uma série de moradores do lugar. As tensões entre personagens como Hooper, um biólogo de tubarões independente e abastado, e Quint, um durão e ácido caçador de tubarões, jogam luz sobre as tensões de classe da época.

O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, outra adaptação de um romance de Stephen King, é brilhante em sua atemporalidade. O filme fala de uma família que se muda para um hotel assombrado, onde Jack, o pai, tenta escrever um livro. À medida em que espectros rondam os personagens, memórias de violência doméstica e alcoolismo são evocadas em Jack.

O Iluminado é visto por alguns como uma alegoria ao genocídio dos nativos americanos pelas mãos do colonos europeus. Referências à construção do hotel durante os ataques dos nativos, as escolhas de roupa da mãe e uma observação aparentemente improvisada – “o fardo do homem branco” – parecem indicar essa possibilidade, especialmente quando o renomado perfeccionismo de Stanley Kubrick entra na equação.

Terror italiano

O pós-guerra também viu crescer o gênero do terror na Itália, onde a turbulência política assinalou quase uma década de período pré-revolucionário. Diretores como Mario Bava e Dario Argento produziram filmes típicos do gênero giallo, que mesclava assassinatos misteriosos com frequentes elementos sobrenaturais. Outros produziram filmes mais abertamente políticos: um exemplo interessante é Salò ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini, que retrata a brutal exploração e tortura a crianças camponesas em Salò, ocupada pelos nazistas no final da II Guerra Mundial.

Em 1980, o diretor Ruggero Deodato lançou Holocausto Canibal, que se afigura como uma crítica ao imperialismo. O filme conta a história de uma equipe de documentário novaiorquina, que vai para a floresta amazônica filmar uma guerra entre tribos canibais. Mais à frente é revelado que a guerra foi conscientemente provocada pela equipe de filmagem, que assassinou de forma bárbara um membro de uma das tribos para ocasionar o conflito. Após o lançamento, Deodato foi preso e julgado pela produção do que seria um filme snuff, graças a rumores equivocados de que ele estaria distribuindo um filme com assassinos reais!

Slashers

Entre o final da década de 1970 e o início da de 1980, houve um crescimento do gênero slasher nos Estados Unidos, que seguiram os passos dos filmes giallo na Itália e dos filmes americanos anteriores, como Psicose e O Massacre da Serra Elétrica.

Halloween (1978) – de John Carpenter,  Sexta-Feira 13 (1980) – de Sean. S. Cunningham, A Hora do Pesadelo (1984) – de Wes Craven, e até mesmo Alien (1979) e O Exterminador do Futuro (1984), são o ápice do gênero slasher. Cada um desses filmes também inclui uma final girl: uma mulher que sobreviveu às ofensivas e, finalmente, mata sozinha o assassino.

Muitos desses filmes também mostram, de forma estereotipada, jovens adultos sendo mortos por uso de álcool ou drogas, ou por fazerem sexo antes o casamento, cujos assassinos são solitários e geralmente mascarados. Enquanto alguns apontam para a possibilidade de haver uma “agenda conservadora” por trás das produções desses filmes, eles podem ser facilmente lidos como um apelo para os jovens adultos da época, que sentiam a pressão dos seus pais autoritários nos EUA de Ronald Reagan – uma continuação do conflito intergeracional mencionado anteriormente.

Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (1981), de Sam Raimi, pode ser visto quase como uma inversão do gênero slasher, apresentando como protagonista um homem que luta contra seus amigos – a maioria, mulheres –, os quais, um por um, são possuídos por uma força maligna. Esse também foi um dos primeiros filmes a adotar o mote “cabana na floresta”.

Um filme único do início da década de 1990 foi O Mistério de Candyman (1992), que abordou a história de um estudante que pesquisava sobre uma lenda urbana popular nos conjuntos habitacionais de Chicago – o Candyman, que foi linchado por uma multidão racista e cujo espírito revive se seu nome for chamado três vezes em frente ao espelho. O filme delineia uma clara distinção entre as condições do estudante, que mora num prédio de apartamentos luxuosos – por sua vez, sabemos depois, um conjunto habitacional antigo que foi reformado – e das pessoas que vivem no conjunto Cabrini-Green, onde pobreza e criminalidade estão sempre presentes.

O final dos anos 1980 para início dos 1990 foi definido pela produção de muitas sequências, refletindo a notória falta de vontade de Hollywood em investir em novas ideias. Um exemplo excepcionalmente bom disso é O Enigma de Outro Mundo (1982), de John Carpenter, um remake de O Monstro do Ártico (1951). O filme de Carpenter diverge do original: o alien não se corporifica em monstro, mas pode transformar sua aparência na de qualquer membro da tripulação de uma base de pesquisa na Antártica. O afastamento e a desconfiança que fragmentam a equipe talvez seja o aspecto mais assustador do filme, além dos efeitos especiais aterrorizantes.

O mesmo período trouxe à tona a clássica mistura de gêneros em filmes de terror, como em Os Garotos Perdidos (1987), Os Caça-Fantasmas (1984), Os Espíritos (1996), dentre outros. Eles Vivem (1988), também dirigido por John Carpenter, pretendia ser uma crítica intencional ao consumismo e ao conservadorismo da Era Reagan. O filme é famoso por uma cena de luta extremamente longa entre Keith David e o falecido Roddy Piper, cujo personagem está tentando convencer seu amigo de que o mundo é comandado por alienígenas, que só podem ser vistos através de óculos escuros especiais.

Em 1996, o mestre do terror Wes Craven voltou com Pânico, um filme slasher autorreferencial no gênero, onde os assassinos brincavam com muitos dos motes utilizados pelos filmes slasher anteriores. Por Trás da Máscara – O Surgimento de Leslie Vernon (2006) trouxe a essa autorreferência, ainda, uma outra camada. Ele retrata um assassino que é seguido por uma equipe de documentário, num mundo onde assassinos como Freddy Krueger, Jason Voorhees e Michael Myers são reais e se tornaram celebridades. Essa ideia foi levada a um nível ainda maior em 2012, com O Segredo da Cabana, que habilmente faz diversas referências a metáforas presentes em muitos filmes de terror.

Os anos 2000 continuaram produzindo uma cinematografia extremamente comercializada, e mais que nunca, inspirada em produções de terror anteriores. Entretanto, vale mencionar algumas das inovações que foram introduzidas ao gênero. Extermínio (2002) resgatou a popularidade dos filmes de zumbi, que passaram a dominar os filmes de terror e apocalipse.

Jogos Mortais (2004) e suas sequências – que parecem ter sido inspiradas em Seven (1997) – reiteraram insistentemente a ideia de um assassino que coloca suas vítimas em posições horripilantes, impelindo-as a escolher entre matar ou morrer, ou a se arriscarem a uma desfiguração cruel para sobreviver. O que não é diferente da máxima “farinha pouca, meu pirão primeiro”[1] que o capitalismo promove!

O Albergue (2005) conta a história de dois amigos que viajam para a Europa Oriental pós-soviética e acabam numa masmorra em que um opulento homem de negócios paga para torturar e mutilar pessoas a fim de divertimento próprio. Pontypool (2008) retrata um caso inexplicável de histeria coletiva – não muito diferente de um surto de zumbis – através do ponto de vista de uma estação de rádio na zona rural do Canadá.

Nos últimos anos, parece haver um tímido renascimento de filmes de terror bem feitos, como Deixa Ela Entrar (2008), A Casa do Demônio (2009), Hora da Morte (2011), A Entidade (2012), Corrente do Mal (2014), O Babadook (2014) e outros. Resta aguardar e ver quais filmes definirão a década nos próximos anos.

Superando o terror

O gênero cinematográfico do terror se tornou parte do folclore moderno. Na sociedade pré-capitalista, contos mitológicos de fantasmas, espectros, demônios e deuses – ambos bons e maus – eram usados como explicações para as forças da natureza que não podiam ser explicadas e sobre as quais a humanidade não tinha controle.

Avalanches, incêndios florestais, enchentes, secas, vulcões, pragas etc. foram catástrofes que desafiaram a humanidade. É o processo laboral, através do qual remodelamos nosso ambiente para superar essas forças elementares, que nos definem como espécie. No entanto, vivemos numa sociedade em declínio, em que as forças que mais influenciam o destino da humanidade estão fora de controle. O que pode ser mais aterrorizante?

“A sociedade burguesa moderna, com suas relações de produção, de troca e de propriedade, uma sociedade que conjurou meios tão gigantescos de produção e de troca, é como o feiticeiro que não consegue mais controlar os poderes infernais que convocou.”

Esta citação do Manifesto Comunista resume as encruzilhadas em que a humanidade se encontra. Enquanto o capitalismo desenvolveu a produção num nível em que pode proporcionar uma vida confortável para todos e nos oferecer as ferramentas para lidar com praticamente qualquer obstáculo que a natureza lançar sobre nós, (por enquanto) estamos empacados numa situação onde altas e quedas da bolsa de valores determinam o destino de bilhões de pessoas. O único caminho para superar essa contradição é através da transformação revolucionária da sociedade, com a classe trabalhadora organizada no comando, assumindo o controle consciente e democrático sobre as tremendas forças que nós, como espécies, criamos.

Isso levaria a um florescimento da ciência, da técnica e da cultura humanas numa escala inimaginável, nos dando os instrumentos para construir uma sociedade livre de ansiedades, inseguranças e dos horrores que mutilam e aterrorizam psicologicamente milhões de pessoas. Uma sociedade em que somos livres das forças cegas que afetam nossas vidas, provavelmente resultaria no enfraquecimento do gênero cinematográfico que, de certo, passaria a caracterizar a sociedade de classes e, especialmente, os estágios finais do declínio capitalista.


[1] nota ao editor: outra expressão que se aproxima da versão em inglês é “cada um por si”

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