Frantz Fanon – Carta ao Ministro Residente

Publicado no livro “Em Defesa da Revolução Africana” em 1956.

Originalmente disponível no site Marxists.

A versão publicada no TraduAgindo conta com leves alterações em algumas palavras.


Do Sr. Doutor Frantz FANON
Médico dos Hospitais Psiquiátricos
Médico-Chefe de serviço no Hospital Psiquiátrico de

BLIDA-JOINVILLE

Ao Sr. Ministro Residente,
Governador-Geral da Argélia

ARGEL

Sr. Ministro,

A meu pedido e por portaria datada de 22 de Outubro de 1953, o Sr. Ministro da Saúde Pública e da População quis pôr-me à disposição do Sr. Governador-Geral da Argélia para ser afetado a um hospital psiquiátrico da Argélia.

Colocado no Hospital Psiquiátrico de Blida-Joinville a 23 de Novembro de 1953, desde essa data exerço aí as funções de médico-chefe de serviço.

Embora as condições objetivas da prática psiquiátrica na Argélia constituíssem já um desafio ao bom senso, pareceu-me que se deviam aceitar esforços para tornar menos vicioso um sistema cujas bases doutrinais se opunham cotidianamente a uma perspectiva humana autêntica.

Durante quase três anos dediquei-me totalmente ao serviço deste país e dos homens que o habitam. Não poupei nem os meus esforços nem o meu entusiasmo. Nada houve na minha ação que não exigisse como horizonte a emergência unanimemente desejada de um mundo válido.

Mas que significam o entusiasmo e o cuidado pelo homem, se diariamente a realidade é tecida de mentiras, de covardias, de desprezo pelo homem?

De que servem as intenções, se a sua encarnação é tornada impossível pela indigência do coração, pela esterilidade do espírito, pelo ódio aos nativos deste país?

A Loucura é um dos meios que o homem tem de perder a sua liberdade. E posso dizer que, colocado nesta intersecção, medi com horror a amplitude da alienação dos habitantes deste país.

Se a psiquiatria é a técnica médica que se propõe permitir ao homem deixar de ser estranho ao que o rodeia, devo afirmar que o Árabe, alienado permanente no seu país, vive num estado de despersonalização absoluta.

O estatuto da Argélia? Uma desumanização sistematizada.

Ora, a aposta absurda, era querer, custasse o que custasse, fazer existir certos valores quando o não-direito, a desigual­dade, o assassinato multi-cotidiano do homem eram erigidos em princípios legislativos.

A estrutura social que existia na Argélia opunha-se a qualquer tentativa de voltar a dar ao indivíduo o seu lugar.

Sr. Ministro, chega um momento em que a tenacidade se torna perseverança mórbida. Então, a esperança já não é a porta aberta para o futuro, mas a defesa ilógica de uma atitude subjetiva em ruptura organizada com o real.

Sr. Ministro, os atuais acontecimentos que ensanguentam a Argélia não constituem um escândalo aos olhos do observador. Não são nem um acidente, nem uma avaria do mecanismo.

Os acontecimentos da Argélia são a consequência lógica de uma tentativa abortada de descerebralizar um povo.

Não era preciso ser-se psicólogo para adivinhar sob a aparente bonomia do Argelino, por detrás da sua despojada humildade, uma exigência fundamental de dignidade. E de nada serve, por ocasião de manifestações não simplificáveis, apelar seja para que civismo for.

A função de uma estrutura social é edificar instituições atravessadas pela preocupação pelo homem. Uma sociedade que encurrala os seus membros em soluções desesperadas é uma sociedade inviável, uma sociedade a substituir.

O dever do cidadão é dizê-lo. Nenhuma moral profissional, nenhuma solidariedade de classe, nenhum desejo de lavar a roupa suja em família aqui prevalece. Nenhuma mistificação pseudonacional agrada à exigência do pensamento.

Sr. Ministro, a decisão de sancionar os grevistas de 5 de Julho de 1956 é uma medida que me parece literalmente irracional.

Ou os grevistas e as suas famílias foram aterrorizados na própria carne, e então era preciso compreender a sua atitude, julgá-la normal, resultado do ambiente.

Ou a sua abstenção traduzia uma corrente de opinião unânime, uma convicção inabalável, e então qualquer atitude punitiva era supérflua, gratuita e inoperante.

Devo à verdade dizer que o medo não me pareceu ser o traço dominante dos grevistas. Muito pelo contrário, havia o desejo inelutável de suscitar na calma e no silêncio uma era nova inteiramente de paz e dignidade.

Na cidade, o trabalhador deve colaborar na manifestação social. Mas é preciso que esteja convencido da excelência dessa sociedade vivida. Chega um momento em que o silêncio se torna mentira.

As intenções mestras da existência pessoal acomodam-se mal com atentados permanentes aos valores mais banais.

Há já longos meses que a minha consciência é palco de debates imperdoáveis. E a conclusão a que chego é a vontade de não desesperar do homem, isto é, de mim próprio.

A minha decisão é a de não assegurar, custe o que custar, uma responsabilidade sob o falacioso pretexto de nada mais haver a fazer.

Por todas estas razões, tenho a honra, Sr. Ministro, de lhe pedir que aceite a minha demissão e que dê por finda a minha missão na Argélia, com a certeza de toda a minha consideração.

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