“Nossos exércitos estão aumentando:” Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson

Texto de Morgan Artyukhina.

Originalmente publicado no site Liberation School.

Tradução por Thárin Radin.


Nota da autoria: Por respeito às formas como as pessoas descreviam suas identidades na época, este artigo usa vários termos agora considerados arcaicos pela comunidade LGBTQ.

No panteão de figuras históricas das lutas LGBTQ, poucas estão acima de Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera. Veneradas por seus papéis de destaque na Revolta de Stonewall de 1969 na cidade de Nova York, essas duas mulheres trans e de cor da classe trabalhadora foram ativistas e revolucionárias ao longo da vida. Elas acreditavam que a única maneira de escapar da dura opressão homofóbica, transfóbica e de classe criada pela sociedade capitalista era destruí-la e substituí-la pelo socialismo.

Enquanto lutavam em defesa de suas vidas e meios de subsistência, Marsha e Sylvia se depararam com a parede de tijolos do sistema capitalista e da polícia que o defende. Seu esforço para ganhar aceitação para pessoas trans – e especialmente pessoas trans de cor – nas lutas dos trabalhadores e nações oprimidas as colocou lado a lado de colegas revolucionários dos Panteras Negras e dos Jovens Lordes, estes últimos os quais se juntariam a seu grupo de ajuda mútua Ação Revolucionária das Travestis de Rua (STAR, na sigla em inglês). Até o fim de suas vidas, Marsha e Sylvia nunca cederam em sua luta pela libertação da classe trabalhadora e das pessoas transgênero, mesmo quando companheiros ao seu redor morreram de AIDS, assassinatos cruéis e uma sociedade intolerante que se recusou a reconhecer suas existências, muito menos abraçá-las como seres humanos completos.

Como revolucionárias que assumiram sua luta hoje, podemos aprender com os exemplos de Marsha e Sylvia como revolucionárias de princípios, dedicadas e pacientes, e honrá-las mantendo vivo não apenas um recorte, mas a totalidade de sua vida na luta.

A revolta histórica que lançou o movimento de libertação gay

Na noite de 28 de junho de 1969, uma batida policial no Stonewall Inn, um bar gay no bairro de Greenwich Village, em Nova York, se transformou em um levante de três dias contra a brutalidade policial, a homofobia e a transfobia quando os clientes decidiram que bastava. A polícia há muito extorquia clubes gays – um dos poucos lugares onde as pessoas LGBTQ podiam se sentir seguras – por dinheiro de proteção, mas Stonewall já havia pago naquele mês. Enquanto os gays e trans da classe trabalhadora lutavam com tijolos, coquetéis molotov, seus punhos e até mesmo um parquímetro arrancado, eles perseguiram o Departamento de Polícia de Nova York das ruas e encontraram uma nova força para resistir coletivamente.

Muitos dos líderes dessa revolta, como Sylvia e Marsha, tornaram-se líderes do novo movimento pelos direitos dos homossexuais que Stonewall havia lançado.

“Sempre sentimos que a polícia era o verdadeiro inimigo”, disse Sylvia à revolucionária trans Leslie Feinberg sobre a preparação para Stonewall em uma entrevista muitos anos depois. “Nós não estávamos engolindo mais essa merda. Tínhamos feito tanto por outros movimentos. Já estava na hora… Você cansa de ser empurrado por aí” [1].

Sylvia fugiu de casa na infância, aos 11 anos em 1961, encontrando uma vida com drag queens e profissionais do sexo na rua, o único lugar onde ela tinha liberdade para explorar sua identidade de gênero. Marsha, cerca de seis anos mais velha que Sylvia, tornou-se sua mentora e protetora, ensinando-a a sobreviver em um mundo duramente transfóbico, onde até usar as roupas “erradas” para o sexo atribuído ao nascimento era crime. Marsha veio para Nova York antes de se assumir, escondendo sua identidade de seus pais até se formar no ensino médio.

Antes da Revolta de Stonewall, grupos de gays, lésbicas e transgêneros (que na época se autodenominavam travestis ou transexuais) normalmente defendiam separadamente a inclusão, e um dos aspectos mais transformadores da revolta foi unir muitos desses grupos sob uma bandeira comum.

Uma nova política emerge da Rebelião de Stonewall

Stonewall enviou ondas de choque através de grupos de defesa gay existentes, como a Mattachine Society, que buscava a aceitação gay apresentando uma imagem dos gays como inofensivos e não ameaçadores para a sociedade heterossexual. Tijolos voando pelas janelas e pessoas trans da classe trabalhadora brigando com policiais na rua não se encaixavam bem com essa multidão, e os membros mais radicais – incluindo o fundador comunista de Mattachine, Harry Hay – logo se dividiram para formar a Frente de Libertação Gay (GLF), grupo anticapitalista cujo nome era uma homenagem às Frentes de Libertação Nacional do Vietnã e da Argélia.

“Suaves, fracas, sensíveis! Esse é o papel que a sociedade está forçando essas drag queens a desempenhar”, disse Jim Fouratt, que viria a ser cofundador da GLF, em uma tempestuosa reunião do Mattachine em Nova York, uma semana depois de Stonewall. “Temos que radicalizar. Tenha orgulho de quem você é… e se for preciso manifestações ou até armas para mostrar a eles o que somos, bem, essa é a única linguagem que os porcos (pig é uma expressão em inglês utilizada para designar policiais, de forma pejorativa) entendem” [2]!

O GLF reuniu não apenas gays, lésbicas e transgêneros, mas também marxistas, ativistas antiguerra e feministas radicais, e se aliou ao Partido dos Panteras Negras. No entanto, a Aliança de Ativistas Gays (GAA) logo se separou da GLF para mais uma vez se concentrar exclusivamente na conquista dos direitos dos gays, adotando um estilo “jogar na cara” usando táticas de ação direta como “zaps” que visavam funcionários e instituições, colocando-os nos holofotes para apoiar a igualdade de direitos para pessoas LGBTQ ou por manterem práticas anti-gay.

Marsha foi uma das cofundadoras da GLF e Sylvia logo se juntou à GLF e à GAA. As duas se tornaram suas ativistas mais enérgicas. No entanto, o historiador Martin Duberman descreveu como elas e outras pessoas não brancas e trans nem sempre foram bem-vindas:

“O ser transgressor que representava uma drag queen de rua hispânica produziu alarme automático: Sylvia era do grupo étnico errado, do lado errado dos trilhos, vestindo as roupas erradas – conseguindo sozinha e simultaneamente incorporar várias categorias assustadoras e sobrepostas de alteridade. Por sua mera presença, ela provavelmente infringiria algum roteiro codificado da classe média branca e poderia contar com ser constantemente tolerada, quando não estava sendo sumariamente excluída. Se alguém não estava evitando sua pele mais escura ou zombando de seu inglês apaixonado e fraturado, estava deplorando seu rude anarquismo como inimigo da ordem ou denunciando seus modos despojados como ofensivos à feminilidade. A capacidade de Sylvia de representar a si mesma de forma não convencional permitiu que ela tivesse uma vida, mas também a tornou uma afronta assombrosa para aqueles que habitam formas padronizadas” [3].

De acordo com Duberman, Sylvia foi desafiada em seu gênero por algumas das mulheres cisgênero na GAA, que alegaram que ela tinha “privilégio masculino” e estava “copiando e ostentando alguns dos piores aspectos da opressão feminina”. Essa tensão efervesceu no ano seguinte, durante um confronto na elitizada e privada Universidade de Nova York (NYU), cujo campus de Greenwich Village está localizado a apenas alguns quarteirões do Stonewall Inn.

“Estamos cansados de fugir:” A ocupação da NYU

Em 28 de junho de 1970, no primeiro aniversário da Revolta de Stonewall, o GAA organizou um baile gay no porão da residência Weinstein Hall no campus da NYU em conjunto com o grupo estudantil Gay Student Liberation (GSL). O enorme sucesso do evento levou a bailes subsequentes todas as sextas-feiras à noite, mas a administração da universidade logo proibiu os bailes. Em resposta, os ativistas se uniram à GLF para lançar uma ocupação de protesto no Weinstein Hall em setembro.

Durante os cinco dias da ocupação aberta, liderada por Marsha, Sylvia e várias outras pessoas trans, os ativistas realizaram palestras sobre libertação gay e organizaram eventos de divulgação em massa em todo o campus e na cidade. A ocupação recebeu amplo apoio do corpo estudantil enquanto a administração da universidade tentava forçá-los a sair.

Em 25 de setembro, o Esquadrão de Polícia Tática do Departamento de Polícia de Nova York chegou e ameaçou invadir o salão poucas horas antes de outro baile começar. Enquanto a maioria dos ativistas decidiu desocupar, muitos dos líderes trans ficaram e acabaram sendo arrastados para fora pela polícia. Em uma resposta tempestuosa ao evento, eles condenaram as ações dos outros ativistas como uma traição, e sua polêmica também se tornou o documento fundador do Travestis de Rua pelo Poder Gay, que se concentraria em elevar a causa das pessoas gays e trans da classe trabalhadora. No entanto, seu nome logo mudou para Ação Revolucionária das Travestis de Rua (STAR).

“A questão é: queremos Poder dos Gays ou Poder dos Porcos (referente à polícia)”, escreveram:

“Se você quer poder gay, então você terá que lutar por isso. E você vai ter que lutar até vencer. Porque, uma vez que você começa, você não vai conseguir parar, porque se você parar você vai perder tudo. Você não vai perder apenas essa luta, mas todas as outras lutas em todo o país… tudo pelo que lutamos no Weinstein Hall foi perdido quando saímos a pedido dos porcos… Vocês fogem se quiserem, mas estamos cansados de fugir. Pretendemos lutar por nossos direitos até conquistá-los.” [4]

A formação da STAR

Sylvia e Marsha não abandonaram a GAA e a GLF, mas voltaram sua atenção para a expansão das redes específicas de ajuda mútua há muito estabelecidas entre moradores de rua e outras pessoas trans da classe trabalhadora, para fins de sobrevivência.

“A STAR era para os gays de rua, os moradores de rua e qualquer um que precisasse de ajuda naquele momento”, disse Sylvia a Feinberg. “Marsha e eu sempre enfiamos pessoas em nossos quartos de hotel. Então decidimos comprar um prédio. Estávamos tentando fugir do controle da máfia nos bares” [5].

“Sylvia Lee Rivera merece todo o crédito pela STAR”, Marsha jurou em uma entrevista posterior. “Eu era apenas uma das drag queens que estava por trás dela, como a vice-presidente da STAR. Ela sabia exatamente do que estava falando. Ela estava falando sobre ‘ninguém está representando travestis’, sabe?”

“A STAR fez parte da revolução popular e era hora de mostrarmos ao mundo que somos seres humanos”, disse Sylvia [6].

O grupo, que inicialmente operava fora de um caminhão de reboque aparentemente abandonado em um estacionamento de Greenwich Village, alimentou e vestiu dezenas de jovens. Mas, quando o trailer começou a se afastar, em uma manhã – com nada menos que 20 de quem Sylvia chamou de “crianças da casa STAR” na parte de trás – eles se mudaram para o apartamento de Marsha na East 2nd Street e pagaram o aluguel para que os mais jovens não tivessem que pedir esmolas ou fazer trabalho sexual. Eles organizavam reuniões comunitárias e educação política para a comunidade gay e trans todas as sextas-feiras à noite e ofereciam apoio a pessoas LGBTQ que foram presas, já que várias delas muitas vezes passavam longos períodos na prisão devido à falta de fundos para pagar fianças ou multas.

“A STAR é um grupo muito revolucionário”, disse Marsha ao jornalista e ativista gay Allen Young. “Acreditamos em pegar em armas, em iniciar uma revolução se necessário. Nosso principal objetivo é ver pessoas gays libertadas e ter os direitos livres e igualitários que outras pessoas têm na América” [7].

No entanto, a STAR recebeu pouca ajuda da GAA ou de outros grupos gays, que achavam que seria ruim para sua imagem ajudar a financiar um coletivo de trabalhadores do sexo trans e jovens de habitação instável, muitos dos quais também eram usuários de drogas. Em vez disso, a STAR arrecadou fundos não apenas realizando bailes de caridade e solicitando doações, mas também reunindo os fundos que sua agitação de rua trouxe.

Pouco tempo depois de se formar, a STAR logo filiou-se ao Young Lords Party, um partido socialista revolucionário porto-riquenho que lutava pela libertação de Porto Rico do colonialismo estadunidense e cujas críticas marxistas ao patriarcado capitalista os levaram a defender a causa das mulheres e a libertação LGBTQ.

STAR e Young Lords

Como Sylvia era venezuelana e porto-riquenha e Marsha era negra, a dupla naturalmente buscou inspiração nos revolucionários do Terceiro Mundo. De acordo com Sylvia, a STAR juntou-se aos Young Lords em uma manifestação contra a repressão policial no East Harlem no outono de 1970, apenas alguns meses após os eventos na NYU.

Como Sylvia disse mais tarde: “Acabei conhecendo um dos Young Lords naquele dia. Eu me tornei um deles. Sempre que eles precisavam de ajuda, eu estava sempre lá para os Young Lords. Foi apenas o respeito que eles nos deram como seres humanos. Eles nos deram muito respeito. Foi uma sensação fabulosa para mim, ser eu mesma – fazendo parte dos Young Lords como uma drag queen – e minha organização fazendo parte dos Young Lords” [8].

No ano seguinte, Sylvia conheceu o cofundador do Partido dos Panteras Negras, Huey P. Newton. “Huey decidiu que éramos parte da revolução – que éramos pessoas revolucionárias”, ela lembrou [9]. De fato, Newton recentemente pediu a inclusão total dos movimentos de libertação gay e de libertação das mulheres na luta do Partido dos Panteras Negras contra o capitalismo.

“Não há nada que diga que um homossexual não possa ser também um revolucionário. E talvez eu esteja injetando um pouco do meu preconceito ao dizer que ‘até mesmo um homossexual pode ser um revolucionário’. Muito pelo contrário, talvez um homossexual possa ser o mais revolucionário”, disse Newton [10].

As pessoas trans da STAR encontraram um lar nos Young Lords porque as visões progressistas dos Lords sobre a opressão das mulheres identificaram a opressão LGBTQ como parte da mesma dinâmica. Eles organizaram uma convenção especial de mulheres e depois uma convenção de lésbicas e gays para aguçar e elevar essas lutas.

O Ministro da Informação dos Young Lords, Pablo “Yoruba” Guzman, criticou duramente as atitudes patriarcais que rebaixavam as mulheres e as pessoas LGBTQ, escrevendo no jornal do partido, Pa’lante (Avante), em 1970, que abraçá-los e suas lutas significava “realmente aprimorar uma pessoa.” Guzman escreveu:

“Ser gay não é um problema, o problema é que as pessoas não entendem o que significa gay. Veja, há uma divisão biológica do sexo, certo – no entanto, essa sociedade criou uma falsa divisão baseada em uma coisa chamada gênero. Gênero é uma ideia falsa, porque gênero são meros traços que foram atribuídos ao longo dos anos a um homem ou a uma mulher. Tipo, o homem deve ser forte, nobre, vigoroso, peludo, áspero, e a mulher deve ser leve, terna, bonita, frágil, chorona e fraca… Porque certos traços foram atribuídos às pessoas historicamente pela sociedade, nós efetivamente nos desenvolvemos como meias-pessoas, meio-reais. Estamos dizendo que, para ser totalmente real, também seria saudável para um homem, se ele quisesse chorar, ir em frente e chorar. Também seria saudável para uma mulher pegar uma arma, usar a arma” [11].

Esse artigo foi intitulado “Revolução dentro da Revolução”, após a massiva ofensiva cultural lançada na Cuba socialista que estava desafiando e derrubando as atitudes patriarcais como parte da revolução contínua. Hoje, a “revolução dentro da revolução” de Cuba criou o Centro Nacional Cubano de Educação Sexual (CENESEX), e Cuba se tornou líder em direitos e proteções LGBTQ, enquanto a igualdade de gênero no trabalho doméstico está inscrita na constituição cubana.

O fim da STAR

Infelizmente, a STAR não durou muito. Apenas três anos depois, o grupo se desfez em meio a uma desastrosa perda de solidariedade da comunidade em 1973 no Christopher Street Liberation Day, a primeira articulação do que mais tarde se tornou o Orgulho Gay, do lado de fora do Stonewall Inn.

Quando Sylvia teve que forçar sua entrada no palco depois de ser bloqueada por vários administradores transfóbicos e de ser vaiada pela multidão, ela fez um discurso tempestuoso denunciando os “homens e mulheres que pertencem a um clube branco, de classe média branca” por abandonar pessoas trans e ignorar os esforços da STAR para, não apenas apoiar pessoas LGBTQ sem-teto, mas também fornecer apoio e recursos críticos para pessoas LGBTQ encarceradas.

“Eu tenho tentado chegar aqui em cima o dia todo, para seus irmãos gays e suas irmãs gays presos que me escrevem toda semana e pedem sua ajuda e vocês todos não fazem nada por eles… Eles escrevem [para] STAR porque estamos tentando fazer algo por eles… As pessoas estão tentando fazer algo por todos nós, e não para homens e mulheres que pertencem a um clube branco de classe média. E é a isso que todos vocês pertencem” [12]!

Os últimos anos de luta de Marsha e Sylvia

Sylvia levou a traição para o lado pessoal e depois tentou o suicídio, abandonando a política até a década de 1990. Marsha, no entanto, permaneceu politicamente ativa, continuando a organizar manifestações do Orgulho. Depois de descobrir que era HIV-positiva, Marsha começou a se organizar com a Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação (GLAAD) em 1985 e a Coalizão da AIDS para Liberar Poder (ACT UP) em 1987, que lutaram contra atitudes culturais anti-LGBTQ e contra o estabalecimento de uma intransigência médica que, para muitos, parecia disposto a deixar pessoas LGBTQ morrerem de complicações da AIDS e culpá-las por isso.

Marsha morreu em 1992 e, embora a Polícia de Nova York (NYPD) tenha negligenciado por anos a investigação de sua morte, ativistas trans e historiadores que investigavam o assunto determinaram que ela provavelmente foi morta pela máfia em retaliação por seus esforços para libertar as celebrações do Orgulho LGBT de seu controle. Seus esforços são narrados no documentário “A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson”, de 2017.

Sylvia reinseriu-se na política pouco antes da morte de Marsha, as duas agora veneradas no Orgulho como anciãs do movimento e com um lugar de destaque nas manifestações. Sylvia até liderou a refundação da STAR em 2001, com o T alterado para Transgênero, já que essa palavra passou a abranger muitas identidades não-conformes de gênero, incluindo pessoas que anteriormente se chamavam travestis e transexuais.

Em uma de suas últimas entrevistas antes de sua morte em 2002 de câncer de fígado, Sylvia observou que, apesar de ela e Marsha terem se tornado ícones do Orgulho, a comunidade trans como um todo, naquela época, permanecia em uma posição secundária no protesto.

“Mas, até que seja concedido à minha comunidade o respeito de marchar na frente, eu vou marchar com minha comunidade porque lá é onde eu sou necessária e é lá onde eu pertenço. E sim, vou usar minha grande faixa que diz ‘Stonewall’. E as pessoas vão perguntar. E eu vou dizer o porquê; porque é aqui que a Herança do Orgulho [o grupo que organiza a marcha] quer nos manter. Você vê, eu não dou socos. Não tenho medo de chamar nomes. Você fode com a comunidade transgênero e a STAR estará na sua porta… A comunidade trans permitiu, nós permitimos, que a comunidade gay e lésbica falasse por nós. Os tempos estão mudando. Nossos exércitos estão aumentando e estamos ficando mais fortes. E quando batermos na porta, eles saberão que você não brinca com a comunidade transgênero” [13].

Um legado para abraçar enquanto continuamos a luta

Marsha e Sylvia dedicaram suas vidas a conquistar não apenas direitos iguais para pessoas trans dentro de uma sociedade capitalista, mas também a libertação do sistema capitalista para todas as pessoas trabalhadoras e oprimidas. Por sua dedicação incansável e de tantas outras como elas, nossos movimentos foram capazes de forjar uma unidade de lutas que nos torna imensamente mais fortes. Em um de seus discursos finais, Sylvia insistiu que “devemos continuar lutando contra esse governo porque é esse governo que nos manterá divididos o tempo todo” [14].

Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, assumiu o cargo e empoderou um novo quadro de reacionários de direita, eles abriram um novo ataque massivo contra a classe trabalhadora e usaram os direitos trans como moeda para tentar dividir a classe trabalhadora contra si mesma. Desde a proibição de pessoas trans de servirem nas forças armadas dos EUA até a aprovação de “leis do banheiro” para o esforço massivo de reescrever a linguagem dos Departamentos de Educação, Justiça e Saúde e Serviços Humanos dos EUA para apagar totalmente a existência de pessoas trans e intersexuais, o Estado capitalista dos EUA tentou reverter décadas de vitórias conquistadas pela comunidade LGBTQ.

Uma nova e importante linha de ataque tem sido os direitos das crianças transgênero ao criminalizar os cuidados médicos de afirmação de gênero para crianças trans e buscar proibir meninas trans de competir em esportes femininos. Esses projetos de lei cruéis tentam posicionar a inclusão de mulheres trans como uma violação das proteções antidiscriminação do Título IX às mulheres cisgênero, e fariam com que pessoas trans suspeitas tivessem que provar seu sexo de nascimento por meio de buscas corporais invasivas e fornecimento de registros médicos sob demanda.

Enquanto isso, a epidemia em progresso de violência contra a comunidade trans continua. No momento da redação deste artigo, pelo menos 33 pessoas trans foram assassinadas nos Estados Unidos em 2020, quase todas negras, colocando 2020 no caminho para ser o ano mais violento para pessoas trans desde que os registros começaram.

Ao seguir o exemplo de Marsha e Sylvia, nossa luta pelo socialismo e pela libertação não será enganada pelas tentativas de nos dividir e nos enfraquecer.

Em setembro de 2019, o Partido para o Socialismo e Libertação (PSL) juntou-se a cerca de 4.000 pessoas trans e seus aliados na primeira Marcha Nacional de Visibilidade Transgênero em Washington, uma grande ação militante exigindo a aprovação da Lei da Igualdade e a defesa da Lei de Cuidados Acessíveis, que fornece às pessoas LGBTQ os cuidados médicos necessários, livres de discriminação por parte de médicos, farmacêuticos e profissionais de saúde, que o governo Trump tentou revogar.

Em meio às históricas revoltas negras contra o racismo e a brutalidade policial de junho de 2020, o PSL juntou-se a cerca de 15.000 pessoas em um protesto no Brooklyn, em Nova York, e um segundo em Boston, Massachusetts, contra os assassinatos de pessoas trans negras. A manifestação de Nova York foi a maior já realizada em defesa de vidas trans.

Somente derrubando o sistema capitalista e as várias formas de opressão das quais ele depende e mantém e construindo uma sociedade socialista – onde as necessidades das pessoas vêm em primeiro lugar – essas vitórias podem ser garantidas para sempre e as pessoas trans podem ser verdadeiramente livres para levar uma vida segura e satisfatória, livre da discriminação, do preconceito e da violência.

Referências

[1] Sylvia Rivera (1998). “I’m Glad I Was in the Stonewall Riot,” interview by Leslie Feinberg in Trans Liberation: Beyond Pink or Blue.

[2] Martin Duberman (1993) Stonewall, 211.

[3] Ibid., 235-6.

[4] “Street Transvestites for Gay Power: Statement on the NYU Occupation,” in Street Transvestite Action Revolutionaries: Survival, Revolt and Queer Antagonist Struggle (1970/2013).

[5] Rivera, “I’m Glad I Was in the Stonewall Riot.”

[6] Interviews of Marsha and Sylvia (2017), in David France [director] “The Death and Life of Marsha P. Johnson.”

[7] Marsha P. Johnson (2019). “Rapping With a Street Transvestite Revolutionary,” interview by Allen Young in The Stonewall Reader.

[8] Rivera, “I’m Glad I Was in the Stonewall Riot.”

[9] Ibid.

[10] Huey Newton (2009). “The Women’s Liberation and Gay Liberation Movements,” in To Die for the People.

[11] Pablo Guzman (1971). “Revolution Within the Revolution,” in Palante: Young Lords Party, ed. By Michael Abramson.

[12] Sylvia Rivera (1973). “Y’all Better Quiet Down,” speech at Christopher Street Liberation Day.

[13] Sylvia Rivera (2001). “Bitch on Wheels,” in Street Transvestite Action Revolutionaries.

[14] Undated speech in France, “The Death and Life of Marsha P. Johnson.”

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