Du Bois e a Jefferson School of Social Sciences

Escrito por Denise Lynn.

Originalmente publicado no site Marxist Sociology.

Tradução por Thalles Graciano.


“Era esperado dos estudantes que levassem sua educação às ruas em ações coletivas incluindo protestos e organização política”

Em maio de 1954, W.E.B Du Bois escreveu um memorando em defesa da sua empregadora, a Jefferson School of Social Sciences. A Jefferson School se dedicava a uma educação marxista e filiada ao Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA) e, logo, tornou-se alvo das agências de inteligência americanas durante a Guerra Fria.

Du Bois observou, sendo um educador por toda a sua vida, que nenhuma instituição, incluindo a Jefferson School, nunca ditou o que ele ensinava. Ele também apontou que as aulas que lecionava na Jefferson School não se diferenciavam em nada das que lecionava em muitas outras instituições de renome que tinha dado aula até então. Ele também não escondeu seu interesse na “filosofia de Karl Marx” ou que era um “Socialista”. Du Bois corajosamente afirmou que acompanhava o desenvolvimento da União Soviética e da China com a “maior das simpatias e interesse”. Embora a aproximação com os comunistas fosse um convite para a perseguição legal das autoridades, Du Bois se manteve dedicado à teoria marxista e a sua prática. Dar aula na Jefferson School possibilitou a ele a oportunidade de unir teoria marxista e pan-africanismo e articular um ethos libertário para as lutas antirracistas e anti-coloniais globalmente.

Prover educação para trabalhadores era um objetivo central para sindicatos e organizações radicais, incluindo o CPUSA, no início dos anos 1910. As escolas para trabalhadores eram geralmente criadas para educar os operários para aumentar sua consciência de classe e engrossar as fileiras de quadros. Diferente das instituições burguesas de educação, que enfatizavam a mobilidade de classe, as escolas de trabalhadores procuravam nutrir a solidariedade entre a classe trabalhadora. Escolas do Partido, depois da Segunda Guerra Mundial, geralmente abriam suas portas ao público para aumentar seu alcance. Uma consequência infeliz dessa política de abertura foi que muitos dos estudantes, especialmente na Jefferson School, eram agentes do FBI, embora a escola tenha feito o seu melhor para barrar “conhecidos inimigos da classe trabalhadora” de frequentá-la. Du Bois compartilhava da missão da Jefferson School de transmitir a teoria marxista para uma audiência maior e de mobilizar para o movimento socialista.

“Dar aula na Jefferson School possibilitou a ele a oportunidade de unir teoria marxista e pan-africanismo”

O amigo e colega de Du Bois, Doxey Wilkerson, foi quem recrutou Du Bois para ensinar na instituição, pedindo a ele que ajudasse a preencher uma lacuna nas ofertas do curso ministrando aulas sobre África e anti-colonialismo. Em 1952, ele ofereceu seu primeiro curso, dividido em duas partes e 23 semanas sobre África e Imperialismo Global. Em 1952, Du Bois estava se movendo em direção ao comunismo. Sem ser membro do CPUSA até 1961, Du Bois foi expulso do NAACP (Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor) em 1948 por suas associações radicais. Mesmo enquanto ele e seus amigos eram monitorados e perseguidos pelo FBI e o Departamento do Estado, Du Bois se tornou mais vocal em sua defesa do Marxismo. Há muito dedicado ao pan-africanismo, Du Bois vislumbrava uma África socialista nos Estados recém descolonizados e movimentos revolucionários no modelo da União Soviética e China. Mas uma vez que os movimentos nacionalistas da África surgiram, ele veio a abraçar o “internacionalismo nacionalista”, que combinava anti-imperialismo e socialismo com movimentos nacionais. Suas aulas na Jefferson School refletiam esse casamento entre pan africanismo e marxismo.

As aulas de Du Bois na Jefferson School eram vigorosamente aguardadas e havia “competição” para se inscrever. Sua primeira turma incluía seu amigo Doxey Wilkerson e a autora e amiga da família, Lorraine Hansberry. As listas de leitura de Du Bois eram extensas e continham diversos ativistas radicais, incluindo o colega pan africanista George Padmore. Padmore, ex-membro do CPUSA, continuava comprometido com uma África socialista e os dois trabalhavam juntos na Federação Pan-Africana. Eles compartilhavam da mesma preocupação de que a política de contenção americana representava um entrave para o movimento nacionalista africano e para o desenvolvimento de uma consciência socialista entre africanos e americanos. Ademais, enquanto os Estados Unidos se posicionavam enquanto uma força policial global, seu compromisso com a promoção da democracia não parecia ser nada além do neocolonialismo corporativo que criou relações de dependência entre Estados recém independentes e potências industriais. A política americana da Guerra Fria se comprometeu em perpetuar a guerra em prol dos interesses capitalistas. A lista de leituras do curso de Du Bois reflete seu compromisso com a elevação de uma consciência socialista e, mesmo sendo creditado por introduzir os afro americanos na política diaspórica, seu trabalho na Jefferson School prova que ele levou o marxismo e a consciência diaspórica para um grupo multiracial.

“Du Bois foi expulso do NAACP em 1948 por causa de suas afiliações radicais”

As aulas de Du Bois fixaram com firmeza nos afro americanos a sua história diaspórica e uma visão para um futuro socialista. Ele ofereceu um curso sobre Reconstrução baseado em seu famoso texto “Black Reconstruction” que analisava o período do pós guerra civil americana pela lente do marxismo. Nele, argumentava que a Reconstrução foi uma oportunidade perdida, porque foi a primeira instância em que trabalhadores negros e brancos trabalharam em solidariedade para desafiar as classes dominantes. Seu curso analisava a Reconstrução Radical como uma “revolução democrática” que foi minada pelo “capitalismo monopolista” e pela aliança dos interesses capitalistas do Norte com a elite do Sul. Du Bois trouxe essa visão de solidariedade multiracial para os seus estudantes como uma ação necessária para o futuro Estado socialista. Ele, assim como outros negros americanos, era cético em relação aos comunistas por conta da sua ênfase nos trabalhadores industriais enquanto vanguarda revolucionária, um grupo majoritariamente branco, e a falha dos radicais brancos em enfrentar o próprio racismo. Ao contrário, Du Bois argumentava que a revolução socialista demandava solidariedade multiracial contra os interesses capitalistas. Du Bois insistia que a teoria econômica marxista tradicional necessitava integrar um componente social que reconhecesse que o socialismo não poderia ser alcançado pela classe trabalhadora branca, nem poderia por si só erradicar as sensibilidades racistas. Para fomentar a revolução socialista, uma consciência antirracista era um pré-requisito.

“Du Bois argumentava que a revolução socialista demandava solidariedade multi-racial contra os interesses capitalistas”

Enquanto uma instituição declaradamente marxista, a Jefferson School se tornou alvo da legislação anti-comunista. Em 1953, a organização foi registrada como uma organização subversiva de acordo com o McCarren Internal Security Act. Os funcionários da escola recorreram imediatamente a decisão ao Subversive Activity Control Board (SACB). Em 1954, perderam o recurso e o número já reduzido de alunos despencou ainda mais. Du Bois deu seu último curso na Jefferson School no outono de 1956. O curso, intitulado A História da Escravidão Africana, examinava a instituição da escravidão como um baluarte do capitalismo da dominação global capitalista. As folhas de respostas das suas provas revelam a predominância da interpretação marxista de Du Bois na academia e como professor. As perguntas do exame focavam no uso da guerra enquanto ferramenta capitalista para garantir a supremacia branca globalmente, no serviço militar obrigatório para os trabalhadores pobres, e a exploração da população não-branca. Os estudantes deveriam chegar à conclusão de que somente sob o comunismo a emancipação e a liberdade poderiam ser alcançadas pelos trabalhadores, pelas mulheres e pelos povos colonizados. As taxas legais da Jefferson School e o declínio das matrículas forçou que esta fechasse ao fim do semestre de outono. Sua missão original não era somente educar quadros na teoria marxista, era esperado dos estudantes levassem a sua educação às ruas em movimentos de massa, como protestos e organizações políticas. Essa missão ressoava com o objetivo de Du Bois de criar solidariedade interracial para um futuro igualitário. A Jefferson School proporcionou a ele a possibilidade de levar este sentimento às massas e, mais importante, colocar a África e os negros americanos em uma visão de um futuro socialista baseada na unidade dos oprimidos.

Um comentário em “Du Bois e a Jefferson School of Social Sciences

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close