Originalmente publicado no livro Claudia Jones: Beyond Containment, ed. Carole Boyce Davies (Banbury, Reino Unido: Ayebia Clarke Publishing Ltd., 2011).
Tradução por Guilherme Henrique
Introdução de Carole Boyce Davies: Nós (ainda) buscamos plena igualdade!
Na comemoração do 100º aniversário de Claudia Jones este ano, é conveniente retomar um de seus ensaios mais influentes, “Buscamos plena igualdade para as mulheres” (We Seek Full Equality for Women) (1949). Considerando os discursos atuais e recorrentes sobre a persistente desigualdade de vários grupos marginalizados nos Estados Unidos e na Europa, a palavra de ordem “ainda buscamos plena igualdade” ressoa em gritos como “Vidas Negras Importam” (Black Lives Matter) e na mobilização de grupos LGBTQ. E, de fato, as mulheres ainda estão buscando plena igualdade em todos os campos e esferas da vida.
A jornalista, editora, intelectual-ativista, teórica comunista, líder comunitária e defensora dos direitos humanos Claudia Vera Cumberbatch Jones (1915-1964) nasceu em 21 de fevereiro de 1915 em Trinidad e Tobago. Após anos de militância, desde a adolescência, tornou-se a única mulher negra no comitê central do Partido Comunista dos EUA e secretária da Comissão de Mulheres em 1947. Nessa tarefa, organizou grupos de mulheres nos Estados Unidos e escreveu uma coluna sobre direitos das mulheres intitulada “Metade do Mundo” para o The Daily Worker. Um discurso intitulado “Dia Internacional da Mulher e a Luta pela Paz”(International Women’s Day and the Struggle for Peace), proferido no Dia Internacional da Mulher em 1950, foi citado como o “ato manifesto” que levou à sua detenção, julgamento, condenação e prisão pelo fato de ser comunista nos Estados Unidos. Em dezembro de 1955, ela foi deportada para a Inglaterra porque ainda era uma “subordinada” da Commonwealth. Lá, tornou-se a fundadora do primeiro jornal negro de Londres, o West Indian Gazette and Afro-Asian Caribbean News (WIG), em 1958, e desenvolveu uma práxis que unia os Estados Unidos e o Reino Unido, com base na perspectiva mundial da descolonização. Ela organizou uma marcha paralela a Washington em 1963 e conheceu grandes líderes mundiais como Martin Luther King Jr., Mao Zedong, Norman Manley, Cheddi Jagan e Jomo Kenyatta, do Quênia.
Para Claudia Jones, o comunismo forneceu uma explicação teórica para o tratamento dado aos homens e mulheres negros e da classe trabalhadora oprimidos. Claudia Jones é reconhecida por colocar de forma consistente na plataforma do Partido Comunista a tripla opressão das mulheres negras com base em sua raça, classe e gênero e por popularizar a reivindicação dos três direitos em nome dos trabalhadores, das mulheres e dos negros nos Estados Unidos durante a década de 1940 e até meados da década de 1950. (Ver Carole Boyce Davies, Left of Karl Marx: The Political Life of Black Communist Claudia Jones, Durham, N.C.: Duke University Press, 2008, para uma discussão mais aprofundada).
“Buscamos plena igualdade para as mulheres” (1949) foi publicado no mesmo ano que seu ensaio mais conhecido e divulgado, “Um basta à negligência dos problemas das mulheres negras” (An End to the Neglect of the Problems of Negro Women) (1949). Descrevo esse ensaio como o que melhor expressa a arte do feminismo negro de esquerda de Claudia Jones. Nele, ela identifica o lugar da mulher negra na teorização marxista-leninista do modo de produção. Embora comece com a ideia de retomar a história de luta das sufragistas, ela se apressa em descrever como os comunistas estavam buscando promover os direitos das mulheres. Ela resume os fundamentos do feminismo marxista-leninista, delineando o trabalho que estava sendo realizado na aplicação dessa teoria. Ela descreve a organização das seções estaduais da Comissão de Mulheres e descreve o Partido Comunista dos EUA como líder no desenvolvimento de um movimento progressista de mulheres. O ensaio explica as causas da desigualdade das mulheres sob o capitalismo e indica que a conquista da igualdade é determinada pela medida com que os “problemas, necessidades e aspirações particulares das mulheres – como mulheres” são abordados.
Talvez a frase mais famosa do ensaio, frequentemente citada por Angela Davis, seja a de que “a condição tríplice da opressão às mulheres [negras] é um barômetro da condição de todas as mulheres, e que a luta pela plena igualdade econômica, política e social da mulher [negra] é de vital interesse para os trabalhadores brancos, de vital interesse para a luta pela igualdade de todas as mulheres”.
Em 2015, uns bons 65 anos depois que esse ensaio foi escrito, a desigualdade permanece. Portanto, “Buscamos plena igualdade para as mulheres” deve ser lido novamente e incluído como parte da bibliografia comum sobre esse assunto.
– Carole Boyce Davies (@Ca_Rule)
Buscamos plena igualdade para as mulheres (1949)
Retomando a luta das sufragistas, os comunistas estabeleceram novas tarefas e novos objetivos na luta por um novo status para as mulheres. O grande mérito da contribuição de Foster:
“O papel de liderança do Partido Comunista na luta para emancipar as mulheres da opressão masculina é uma das orgulhosas contribuições que nosso Partido Marxista-Leninista, o Partido Comunista dos EUA, celebra em seu trigésimo aniversário.”
O marxismo-leninismo expõe o cerne da questão da mulher e mostra que a posição da mulher na sociedade não é sempre e em toda parte a mesma, mas deriva da relação da mulher com o modo de produção.
No capitalismo, a desigualdade das mulheres decorre da exploração da classe trabalhadora pela classe capitalista. Mas a exploração das mulheres ultrapassa as linhas de classe e afeta todas as mulheres. O marxismo-leninismo vê a questão da mulher como uma questão particular que deriva da dependência econômica das mulheres em relação aos homens. Essa dependência econômica, como Engels escreveu há mais de 100 anos, traz consigo a exploração sexual das mulheres, a inserção da mulher na família burguesa moderna, como a “proletária” do homem, que assume o papel de “burguês”.
Por isso, os marxistas-leninistas lutam para libertar a mulher do trabalho doméstico, lutam para conquistar a igualdade para as mulheres em todas as esferas; reconhecem que não é possível lidar adequadamente com a questão da mulher ou conquistá-la para a participação progressiva a menos que se lide com os problemas, necessidades e aspirações particulares das mulheres – como mulheres.
É esse princípio básico que tem orientado a teoria e a prática do Partido Comunista nas últimas três décadas.
Como resultado, nosso partido tem um orgulhoso histórico de luta pelos direitos das mulheres. A literatura americana foi aprimorada pelos trabalhos dos marxistas que investigaram a situação das mulheres nos EUA nos anos 1930. Esse histórico é personificado na vida de destacadas mulheres comunistas como Ella Reeve Bloor e Anita Whitney e outras que estão associadas à luta pelo sufrágio feminino, pelos direitos dos negros e pela emancipação da classe trabalhadora.
Nosso Partido e sua liderança ajudaram a estimular a organização das mulheres nos sindicatos e ajudaram a engajar as esposas dos trabalhadores nos grandes esforços de mobilização trabalhista; criaram conselhos de donas de casa para lutar contra o alto custo de vida; ensinaram às mulheres, por meio do boicote e de outras ações militantes, a lutar pelas necessidades da família; ajudaram a treinar e formar mulheres líderes comunistas em todos os âmbitos, mulheres da classe trabalhadora inspiradas pelas convicções e ideais de sua classe – a classe trabalhadora.
Pioneiro na luta pela organização das mulheres da classe trabalhadora, nosso Partido foi o primeiro a demonstrar às mulheres brancas e à classe trabalhadora que a condição tríplice da opressão às mulheres negras é um barômetro da condição de todas as mulheres, e que a luta pela plena igualdade econômica, política e social da mulher negra é de vital interesse para os trabalhadores brancos, de vital interesse para a luta pela igualdade de todas as mulheres.
Mas ainda resta a contribuição de William Z. Foster, Presidente Nacional de nosso Partido, para aprimorar o pensamento do Partido Comunista Americano sobre a questão da mulher. O camarada Foster projetou de forma mais profunda a necessidade básica de a classe trabalhadora e seu partido de vanguarda lutarem contra os obstáculos à igualdade das mulheres, evidenciados em muitos preconceitos contra as mulheres, na ideologia dominante da supremacia masculina promovida pelos monopolistas e absorvida pelos homens da classe trabalhadora.
A essência da contribuição de Foster é a de que é necessário conquistar as massas de mulheres norte-americanas para a luta global contra a guerra imperialista e o fascismo, dando atenção especial aos seus problemas e desenvolvendo lutas particulares pelas suas necessidades econômicas, políticas e sociais. Baseando-se no princípio marxista-leninista de que a desigualdade das mulheres está intrinsecamente ligada à exploração da classe trabalhadora, Foster conclamou o Partido e a classe trabalhadora a se apropriarem da teoria marxista-leninista sobre a questão da mulher, a aprimorar nosso trabalho prático sobre essa questão e a corrigir erros anteriores, erros de comissão e omissão com relação a essa questão fundamental.
A grande contribuição de Foster está em sua exposição única da máscara colocada pelo imperialismo americano sobre o status da mulher em todas as esferas nos EUA. O camarada Foster expôs a mentira burguesa de que as mulheres nos EUA alcançaram a igualdade total e que não há mais direitos a serem conquistados. Ele mostra que o suporte ideológico usado pelos propagandistas reacionários para perpetuar as falsas ideias de “inferioridade” das mulheres é basear seus argumentos antissociais em relação às mulheres em todos os tipos de suposições pseudocientíficas, especialmente no campo da biologia.
Portanto, qualquer subestimação da necessidade de uma luta ideológica persistente contra todas as manifestações de supremacia masculina deve ser eliminada. Se a biologia é falsamente utilizada pelos ideólogos burgueses para perpetuar suas falsas noções sobre as mulheres, os comunistas e os progressistas devem se aventurar corajosamente nas ciências biológicas e aprimorar nossa luta ideológica contra as ideias e práticas burguesas de supremacia masculina.
Para cumprir as tarefas projetadas para uma compreensão e um domínio mais profundos da abordagem marxista-leninista da questão da mulher, foi criada uma Comissão Especial do Partido sobre Aspectos Teóricos do Trabalho das Mulheres.
Refletindo a grande demanda por teoria sobre a questão da mulher por parte dos comunistas e progressistas, foi realizada a Conferência sobre Marxismo e a Questão da Mulher, com duração de um dia, sob os auspícios da Jefferson School of Social Science, em junho deste ano. Cerca de 600 mulheres e homens compareceram. Outro indicativo de como o Partido está cumprindo suas tarefas nessa esfera são as inúmeras escolas de quadros que foram organizadas para facilitar o preparo de mulheres para o trabalho entre as massas e o preparo de homens comunistas sobre a questão da mulher.
Atualmente, existem cerca de 10 comissões de mulheres do Partido que, sob a liderança e orientação das organizações distritais do Partido, dão atenção ao trabalho entre as mulheres no Partido e nas organizações de massa. É necessário utilizar o 30º aniversário de nosso partido para fortalecer nosso trabalho de massas e do partido e voltar o foco de todo o partido para essa questão.
Isso é necessário, em primeiro lugar, porque sem a mobilização das massas de mulheres, especialmente da classe trabalhadora e das mulheres negras, a luta pela paz contra uma terceira guerra mundial não será bem-sucedida. As mulheres norte-americanas e suas organizações têm dado sinais, de várias maneiras, de que se opõem ao Pacto do Atlântico e temem as implicações do pacto armamentista.
Esse entendimento é necessário, em segundo lugar, por conta da crescente ofensiva reacionária contra os direitos civis do povo norte-americano, cujo exemplo mais notável é a acusação e o julgamento dos 12 líderes do nosso partido perante um júri com maioria de mulheres.
Por fim, essa compreensão é necessária porque, sem nos enraizarmos entre as massas de mulheres, sem construirmos as organizações progressistas de mulheres, como o Congresso de Mulheres Norte-Americanas, a Seção de Mulheres do Partido Progressista, as organizações de mulheres negras, etc., e sem organizarmos lutas particulares pelas reivindicações das mulheres, não poderemos conquistá-las no combate às influências reacionárias da hierarquia católica romana e dos ideólogos burgueses.
Ao desenvolver com sucesso nossa teoria sobre a questão da mulher, organizando massas de mulheres norte-americanas e concentrando a atenção principalmente sobre os problemas e as necessidades das mulheres da classe trabalhadora, nosso partido pode ajudar a dar início a um novo status para as mulheres norte-americanas.
Para atingir esse objetivo, precisamos conquistar as mulheres para uma luta ativa contra a guerra imperialista e o fascismo. Pois, nas palavras do grande Dimitrov, em seu famoso relatório, “A Frente Única Contra o Fascismo”:
Enquanto o fascismo exige o máximo da juventude, ele escraviza as mulheres com particular crueldade e cinismo, brincando com os sentimentos mais dolorosos da mãe, da dona de casa, da trabalhadora solteira, incerta quanto ao futuro. O fascismo, fingindo ser um benfeitor, joga para a família faminta algumas migalhas, tentando assim abafar a amargura despertada especialmente entre as mulheres trabalhadoras, pela escravidão sem precedentes que o fascismo lhes traz.
Não devemos poupar esforços para garantir que as trabalhadoras e os trabalhadores lutem ombro a ombro com seus irmãos de classe nas fileiras da frente única da classe trabalhadora e da frente popular antifascista.
No espírito dos heróis antifascistas de Leipzig, vamos nos dedicar novamente à luta pela plena igualdade das mulheres.
