Capítulo do livro “Dirty Truths”, publicado em 1996 e ainda não lançado no Brasil.
Tradução por Helena Balieiro Dias.
A ciência é algo maior que a busca imparcial pelo conhecimento, como a informação científica é moldada é muitas vezes predeterminada pelo clima ideológico predominante, e durante séculos, os cientistas pagaram caro por manter visões iconoclastas. Seus opressores muitas vezes foram outros cientistas trabalhando em conjunto com os poderes estabelecidos da sociedade. O mesmo acontece, com o estudo da política e da sociedade, as visões já estabelecidas dominam o campo do discurso, empurrando perspectivas alternativas para as margens, permitindo que questões científicas importantes permaneçam sem exame ou sejam resolvidas por injunção, em vez de uma livre troca de evidências e ideias. Obviamente, a ortodoxia não deixou de ser contestada, no campo da ciência política, por exemplo, há muitas janelas, algumas mais fáceis de abrir do que outras, e os cientistas políticos dissidentes que buscaram uma atualização tiveram que lutar.
Hoje na ciência política, existem campos de estudo mais diversificados do que nunca — o que não quer dizer muito, pois se a ortodoxia não for mais contestada, será ela que irá governar. O que se segue, é na minha compreensão uma das principais disputas que surgiram na ciência política, mas também muito do que é dito aqui também se aplica à sociologia, economia, psicologia e outras ciências sociais.
Olhando para trás: do tradicionalismo ao behaviorismo
No período anterior à Segunda Guerra Mundial, a orientação predominante na ciência política e, em menor escala, em outras disciplinas das ciências sociais, pode ser descrita como não teórica e não sistemática, os conceitos eram raramente operacionalizados e os métodos e dados eram tratados de forma bastante aleatória. Com o objetivo da pesquisa muitas vezes não sendo claro. Geralmente, o trabalho da pesquisa era descritivo e informativo, em vez de abstrato e teórico, o foco geralmente estava em instituições específicas, e não em processos que as atravessam. Por esse motivo, os praticantes dessa abordagem às vezes eram descritos como “institucionalistas”.
Os cientistas políticos estudavam determinados líderes políticos, eventos, e questões políticas com pouca atenção para a construção de teorias de liderança, tomada de decisão ou outros assuntos generalizáveis. Da mesma forma, na sociologia e na antropologia, ou na etnologia, geralmente se estudava um grupo ou tribo com a esperança de relatar algo interessante sobre seus costumes, geralmente com pouca atenção dada às relações sociais ou culturais mais amplas. Em suma, o foco principal estava no ideográfico, ou seja, o concreto e particular, em vez do nomotético, os fenômenos generalizáveis, do tipo que a ciência moderna supostamente revela, em busca de avançar nossa compreensão teórica e capacidade de generalizar e fazer previsões.
Certamente, mais de meio século atrás, havia estudiosos como os cientistas políticos Arthur Bentley e Charles Merriam e o sociólogo W. I. Thomas, que exemplificou aos colegas como se poderia ser empírico na abordagem e teórico na intenção. Mas esses sociólogos eram as exceções. Na era do pré-guerra, como os críticos behavioristas mais tarde alegaram, os teóricos eram do tipo de poltrona, sua prática era fazer a “teoria girar” em vez de construção de novas teorias.
Na década de 1950, com Eisenhower, se testemunhou o surgimento e o triunfo bastante rápido do que foi chamado de abordagem “behaviorista” nas ciências políticas e sociais. Agora a ênfase estava na mudança do ideográfico para o nomotético, da descrição para a análise sistemática e construção de teoria. Os fenômenos políticos e sociais deveriam ser estudados não principalmente por seu interesse intrínseco, mas visando extrair hipóteses e teorias científicas que pudessem ser úteis para pesquisas futuras e para uma compreensão geral do fenômeno político. As abordagens interdisciplinares foram incentivadas e os cientistas políticos aprenderam a extrair de outros campos e colocar maior ênfase na quantificação e em testes rigorosos de hipóteses para que as impressões subjetivas pudessem ser minimizadas. Os behavioristas deveriam evitar fazer julgamentos de valor sobre seus sujeitos. Sua tarefa não era julgar ou criticar o mundo, mas estudá-lo.
No entanto, proeminentes cientistas políticos tradicionalistas, como James MacGregor Burns e E.E. Schattschneider, ainda poderiam escrever livros intitulados, respectivamente, Congress on Trial e The Semi-Sovereign People, porém nos estudos comportamentais do Congresso e dos grupos de interesse não teriam essas implicações contundentes e se concentrariam em um delineamento sistemático de um processo como tal. Questões sobre o valor normativo dos fenômenos estudados deveriam ser deixadas para os filósofos morais, os cientistas comportamentais podem até querer desses falar assuntos, mas é melhor deixar para tratar dessas questões em suas vidas privadas e não na qualidade de cientistas.
O impacto do behaviorismo logo seria sentido em toda a profissão, nas revistas acadêmicas, por exemplo, os árduos estudos e interpretações criticas, escritos pacientemente, deram lugar a estudos esquematizados, quantificados, baseados em fórmulas, produzidos por equipes de pesquisa computadorizadas. A mesma tendência pode ser observada na sociologia. Se na década de 1940 um estudo sobre uma gangue de rua de Boston era intitulado — como o livro de William Foote Whyte — Street Corner Society, agora uma investigação sobre gangues de rua era mais apropriada ser chamada de: “Teoria da Rede, Padrões Interacionais, Resolução de Status e Papel”. Conflitos de adesão: o caso da gangue de rua como paradigma de pequenos grupos.
No início dos anos 1960, os behavioristas passaram a ocupar um lugar de destaque na disciplina. Em pouco tempo, parecia que todo departamento de ciência política precisava ter um “quantificador”. Seria errado supor que essa ascensão foi alcançada puramente por meios intelectuais. Muitos fatores que nada têm a ver com o diálogo acadêmico exerceram um efeito decisivo, principalmente o enorme apoio financeiro dado à persuasão comportamental por fundações, governo, corporações e outros interesses que viam as ciências comportamentais como úteis para eles.
No início da década de 1960, só o Pentágono gastava cerca de US$ 25 milhões por ano no que chamava de “pesquisa em ciências sociais”. Cerca de US$ 14 milhões foram para think tanks de defesa como a Rand Corporation, o Institute for Defense Analysis e a Research Analysis Corporation. Outros $10 milhões foram todos os anos para as universidades e suas organizações de pesquisa relacionadas. E aproximadamente $500.000 foram para os setores de “ciências sociais” mantidos por empresas industriais, adicionado a isso foram os milhões
dados pelas fundações e as somas menores, mas ainda substanciais, que vieram diretamente de fontes universitárias, doadores individuais e empresas privadas.
Estimulado por essa generosidade, surgiu uma vasta gama de “centros”, “institutos”, “projetos”, “conselhos” e “programas”, oferecendo o tipo de dinheiro para pesquisa que o solitário acadêmico tradicionalista jamais imaginara. O dinheiro foi para equipes interdisciplinares de behavioristas que produziram estudos elaborados sobre assuntos como o soldado americano, o comportamento eleitoral em casa e no exterior, tomada de decisão da comunidade, as seduções do comunismo, desvio social, manifestações estudantis, distúrbios urbanos, sistemas de gestão, campanhas de venda de títulos de poupança, campanhas de recrutamento militar, técnicas de lobby, sistemas culturais do Sudeste Asiático, insurgência e contra-insurgência no país e no exterior.
Qualquer que fosse a questão, desde desenvolver novas técnicas para tornar a carga tributária menos visível, ou consumidores mais receptivos, a fazer os trabalhadores da linha de montagem, moradores do centro da cidade e imigrantes latino-americanos mais complacentes, as equipes de ciências sociais — com cientistas políticos behavioristas entre eles — estavam lá com ideias brilhantes e muitas vezes impiedosas, nunca desafiando as premissas ideológicas e os interesses de seus patronos, mas sempre servindo aos objetivos almejados por aqueles que tão bem pagaram por seus talentos. Sua tarefa não era mudar o mundo, mas ajudar aqueles que estavam no poder a controlá-lo. Como bem relatou, o Comitê Consultivo sobre Programas Governamentais nas Ciências Comportamentais, em 1968: “As ciências comportamentais são uma importante fonte de informação, análise e explicação sobre o comportamento individual e de grupo, portanto, um instrumento essencial e cada vez mais relevante ao governo moderno.”
Escrevendo no PS (primavera de 1983), um dos jornais da casa da American Political Science Association (APSA), Joseph LaPalombara, um cientista político de Yale, observou que os acadêmicos podem ser úteis para bancos e corporações, ajudando-os a determinar como as condições políticas em terras estrangeiras podem afetar a segurança e a lucratividade de seus investimentos. “Já passou o tempo em que bancos e empresas que operam no exterior possam recorrer aos seus governos nacionais, seus diplomatas e/ou canhoneiras para manter os inquietos nativos na fila”, escreveu.
Agora eles devem lidar com “os nativos inquietos” com uma “base bem informada”, daí o florescente campo da “análise de risco político”. Se os cientistas políticos fossem úteis para aqueles que LaPalombara descreveu com admiração como “banqueiros e gerentes corporativos inteligentes e atormentados”, eles deveriam estar preparados para aplicar suas teorias sobre agitação política, estabilidade e implementação de políticas de maneira que atendessem às necessidades de lucro das transnacionais. Para tais serviços, as grandes empresas estavam dispostas a “gastar dinheiro vivo”. “É um desafio inebriante”, anunciou LaPalombara sem fôlego
Corporações e bancos não eram os únicos interessados nas habilidades técnicas da análise behaviorista. No boletim informativo do serviço de pessoal da APSA de janeiro de 1983, a CIA anunciou “analistas para trabalhar nas áreas de mudança política no Terceiro Mundo… Eles devem ter interesse em mudança social, organizações revolucionárias e capacidade de resposta e capacidade do regime”. Embora compondo menos do que a maioria da profissão, os behavioristas foram os que, com suas pesquisas, financiamento externo, cargos em conselhos consultivos e controle sobre o treinamento de pós-graduação e sobre os escritórios e revistas da APSA, definiram a direção da profissão, seu assunto matéria, limites ideológicos implícitos e padrões de sucesso profissional.
O Desafio “Pós-Behavioristas”
No final dos anos 1960, época de agitação política, na qual cientistas políticos dissidentes começaram a reclamar que acontecimentos importantes estavam sendo ignorados pela disciplina. Os mais ativos dos críticos “pós-behavioristas”, como David Easton os nomeia, organizaram-se para a construção de uma Nova Ciência Política. Alguns deles queriam que as ciências comportamentais fossem usadas como um instrumento dos pobres e impotentes, e não dos ricos e poderosos. Outros eram simplesmente luditas que queriam destruir os sofisticados novos computadores de pesquisa e o jargão estatístico e retornar ao inglês simples. Alguns reclamaram que os cientistas políticos deveriam dar muita atenção às questões de valor, outros achavam que as ciências comportamentais já estavam repletas de valores ocultos, e ainda por cima conservadores. A seguir, estão algumas das críticas que considero mais importantes ao behaviorismo elaboradas pelos pós-behavioristas.
Primeiro, em sua busca pelo nomotético, os behavioristas tendem a colocar ênfase indevida no processo e mostram desconsideração pelo conteúdo dos eventos e sistemas políticos. Processos abstraídos de seu conteúdo tendem a ser tratados de forma reducionista e a-histórica. Portanto, pode ser verdade que tanto Napoleão quanto seu valete se tenham se envolvido no processo de tomada de decisões, um para o Império e outro para a casa do Imperador. Ambos organizaram equipes, estabeleceram prioridades, alocaram recursos escassos e cuidaram para que as coisas fossem feitas. Talvez alguém pudesse apresentar um modelo que pudesse ser aplicado às atividades de ambos, mas, ao fazê-lo, obscureceria as diferenças na substância histórica que tinham um significado muito maior do que os padrões generalizáveis do processo. Uma teoria da tomada de decisão abstrata dessa maneira seria uma realização um tanto sem sentido, ao ponto de, ser interessante saber se o próprio processo está sendo adequadamente compreendido quando tão completamente divorciado do contexto de interesse e poder, propósito e política substantiva.
Em segundo lugar, à medida que as metodologias comportamentais se tornavam cada vez mais elaboradas e complexas, os problemas estudados pareciam cada vez mais estreitos e insignificantes. A própria exigência de precisão de método impunha limites aos tipos de assuntos que poderiam ser tratados. Assim, parecia que a montanha metodológica produziu um rato intelectual, uma proliferação do que na pós-graduação costumávamos chamar de estudos “quanto maior o comparecimento, maior o voto”.
Em terceiro lugar, tendo adotado os apetrechos da ciência, os behavioristas deixam a impressão de que sua abordagem é mais rigorosa do que realmente é, qualquer pessoa que tenha trabalhado com modelos estatísticos e outros materiais semelhantes, deve apreciar a qualidade muitas vezes ambígua, elástica e inconclusiva da maioria dos “dados concretos”. A precisão e objetividade do behaviorismo é mais uma aparência do que uma realidade de neutralizar o investigador, os behavioristas conseguiram neutralizar seu objeto de estudo. O jargão altamente abstrato deixa a impressão de que o observador é distante e neutro quando, na verdade, é o assunto que foi diluído, muitas vezes à custa de seu significado original.
Quarto, em seu desejo de manter a aparência de neutralidade científica, os behavioristas frequentemente selecionam assuntos neutros e não controversos para estudar, como disse Marx, se a política está interessada com “as Fúrias do interesse privado”, nunca adivinharíamos isso, pelos artigos monótonos publicados no que supostamente são os principais jornais acadêmicos. Com jargões altamente abstratos, deixam a impressão de que o observador é distante e neutro, quando, na verdade, é o assunto que fica diluído, muitas vezes as custas de seu significado original, isto é, em vez de neutralizar o pesquisador, os behavioristas conseguiram neutralizar seus objetos.
Quinto, a ênfase no processo faz com que os behavioristas ignorem os efeitos sociais de muitas políticas, frequentemente, eles pensam nos resultados como um convite a julgamentos de valor de um tipo que eles dizem não querer fazer. Mas a maioria de seus críticos não pede avaliações, mas descrições sistemáticas das repercussões das políticas: quem se beneficia e quem paga? Por qual razão e como? O que isso diz sobre a distribuição de poder e o funcionamento da democracia? Qual é a relação do poder econômico com o político, da democracia com o capitalismo e outras questões desse tipo. Existe, afinal, uma diferença entre fazer julgamentos de valor sobre fenômenos empíricos e estudar atividades políticas carregadas de valor de maneira empírica. O desejo de evitar o primeiro não deve nos levar a negligenciar o segundo.
Sexto, existem de fato todos os tipos de julgamentos de valor ocultos na pesquisa behaviorista, grande parte de sua literatura assume que o sistema político geral é benigno. Portanto, presume-se que um sistema funcionando sem problemas seja desejável. A ânsia dos behavioristas de colocar sua ciência a serviço do governo, das forças armadas e dos negócios se baseia nessa suposição não examinada. Assim, qualquer coisa que aumente a capacidade do sistema de prever e controlar o comportamento social problemático para os interesses dominantes torna-se uma vantagem para o próprio sistema. Então, a persuasiva pesquisa social behaviorista, é tudo menos isenta de valores. Essa aceitação não reconhecida das qualidades presumivelmente benéficas de nosso sistema político-econômico permite ao behaviorista descartar tipos importantes de investigações empíricas críticas como desvios ideológicos da ciência.
Radicais contra centristas
Pouco depois, da reunião para uma Nova Ciência Política, ficou claro que a crítica pós-comportamental era realmente radical, dirigida realmente a ideologia ortodoxa compartilhada por muitos behavioristas e tradicionalistas, do que a um modo particular de pesquisa. Logo, não foi a metodologia comportamental que impediu os cientistas políticos de estudar as características antidemocráticas e plutocráticas da política dos EUA (embora, como já observado, certas técnicas behavioristas encorajassem uma abordagem de pesquisa estreita e, de fato, conservadora).
Em vez disso, foi a persuasão política centrista não critica daqueles que aplicaram a metodologia. Os métodos estatísticos não devem ser desacreditados, mas por que eles foram usados apenas para questões que se enquadram nos limites da ideologia centrista? Os estudos de caso foram úteis, mas por que apenas certos tipos de casos foram estudados? Uma abordagem interdisciplinar foi útil, mas por que extrair tanto da psicologia e ignorar a economia? Por que deixar a economia política para os economistas centristas que, no que lhe concerne, relegaram esse assunto ao domínio da política? O efeito líquido foi que questões essenciais tanto na política quanto na economia — especialmente aquelas relacionadas ao poder de classe — permaneceram intocadas.
Hoje, as bases ideológicas centristas ainda prefiguram a agenda de pesquisa das ciências sociais. Na análise da política externa, as suposições sobre a intenção benevolente das intervenções dos EUA permanecem amplamente inquestionáveis. Supõe-se que o “capitalismo democrático” tenha um referente empírico real e não seja um termo ideológico ou de propaganda. A maioria das características da ordem social político-econômica é tomada como um dado neutro, sem nenhuma relação com as realidades do poder de classe.
Quem é de esquerda não reclama que os centristas estão fugindo das importantes questões de valor, mas que seu trabalho está repleto de valores não examinados, tratados como verdades empíricas, enquanto as hipóteses empíricas introduzidas pela esquerda que incomodam tanto os centristas são descartadas como polêmicas ou julgamentos de valor. Os centristas afirmam ser apartidários e apolíticos, mas a determinação do que é apartidário é em si uma questão altamente partidária. A esquerda radical argumenta que os principais cientistas políticos são “apartidários” apenas porque seu compromisso ideológico com o capitalismo liberal e sua própria posição de interesse próprio dentro desse sistema são raramente explicados. De fato, seus interesses ideológicos são melhor atendidos negando a existência de tais interesses.
Já os centristas acusam, a Esquerda de não manterem uma distância adequada dos assuntos políticos e de serem motivados por preocupações partidárias. Na verdade, os próprios centristas têm estado ocupados demais em assuntos partidários. Já observamos o convite sem remorso de LaPalombara a cientistas políticos para ajudar grandes investidores a lidar com situações problemáticas no exterior. Durante anos, membros eminentes da profissão se gabaram de como os cientistas políticos serviam aos interesses dos poderosos.
Nas cerimônias do Prêmio Pi Sigma Alpha — concedido a cientistas políticos que fazem contribuições significativas “para fortalecer a relação entre a ciência política e o serviço público” — é normal ver os palestrantes listarem com orgulho os muitos colegas ocupantes de cargos públicos, que trabalham para campanhas políticas ou com outros cargos semelhantes em posições de poder. Logo, parece não haver nada de errado com o ativismo político, desde que seja do tipo mainstream e não do tipo crítico.
Os centristas nunca se preocuparam em justificar esse padrão duplo, eles também nunca explicam como eles mesmos, conseguem evitar injetar política em sua ciência enquanto injetam sua ciência na política com tanta assiduidade e orgulho. O que eles falham em reconhecer é que trabalhar para manter o status quo é uma posição tão ativista e partidária quanto trabalhar para alterá-lo.
A esquerda radical não nega que querem mudar o mundo, e no que concerne qualquer pesquisa social de alguma importância, essas também raramente são neutras em seus efeitos, ou ela desafia, ou apoia o status quo. É que, na verdade, os acadêmicos centristas também querem estudar o mundo, por isso que eles se tornaram pesquisadores, e não organizadores comunitários. Seja como for, pode-se argumentar que o ativismo pode muitas vezes fornecer percepções e experiências que irão enriquecer o trabalho acadêmico, e que a ideologia em si não é uma coisa ruim, apenas se for uma ideologia não examinada. É importante existir uma pesquisa de maior abrangência ideológica para abrir questões inacabadas e colocar à prova a ortodoxia centrista, de fato, os tempos assim a exigem. Não é preciso ser marxista para saber que há algo muito errado com esta sociedade, nem os economistas convencionais, nem os cientistas políticos apresentarão novas respostas até que se comece a fazer novas perguntas.
Pesquisadores com pontos de vista divergentes podem ter seus pontos cegos, mas também provavelmente estão livres dos pontos cegos convencionais, não é por acaso que são os pesquisadores marxistas que estão nos dando estudos sobre a relação entre o capitalismo e sistema político, um assunto praticamente intocado pelos centristas. Como também, não é aleatório, que as cientistas sociais feministas estão descobrindo as contribuições das mulheres para a cultura, história e estão explorando questões relacionadas a gênero que seus colegas homens nunca imaginaram que fossem assuntos adequados para pesquisa, ou como pesquisadores afro-americanos veem grande parte da história, do poder e da realidade social como definidos a partir de uma perspectiva branca, enquanto seus colegas brancos preferem pensar nesses assuntos como incolores. Em suma, uma ideologia crítica pode nos despertar para perguntas negligenciadas pela ortodoxia estabelecida
Pesquisadores radicais, especialmente os marxistas, têm se interessado intensamente por questões teóricas, principalmente aquelas que lidam com a opressão política e o conflito sistêmico, e com a relação entre riqueza, poder, classe e democracia. Os marxistas estão interessados tanto nas questões políticas atuais quanto nas forças subjacentes que dão coerência e generalidade a fenômenos aparentemente díspares. Esta é certamente uma dedicação científica genuína. No entanto, a maioria dos cientistas políticos dominantes julga o marxismo como além dos limites da erudição científica, tanto que eles se sentem pouco obrigados a soar como estudiosos ao criticar o marxismo. Na literatura acadêmica, resenhas de livros e discussões estão repletas de ataques fáceis a “marxistas” não especificados que supostamente dizem coisas que nunca ouvi marxistas proferirem, incursões que geralmente podem ser aliviadas por qualquer familiaridade de primeira mão com o assunto que está sendo menosprezado.
O marxismo é descartado, mas nem por um momento é esquecido. Declarado “simplista”, “dogmático” e “irrelevante”, permanece na mente dos centristas. Sendo o outro grande paradigma que assombra o mundo acadêmico burguês como um espectro, repetidamente reconhecido em apartes gratuitos que procuram contê-lo sem ter que enfrentá-lo. A competição de ideias entre centristas e esquerdistas, como acontece com a maioria dos conflitos de ideias relacionados à classe, é muito influenciada por fatores materiais subjacentes. São os centristas que controlam a maioria das fundações, fundos, publicações profissionais, bolsas de estudo, programas de pós-graduação, nomeações de professores e promoções.
O resultado é, que há apenas um punhado de faculdades com mais de um ou dois marxistas em seus corpos docentes — se tanto. E é comum que estudiosos de esquerda encontrem sérias dificuldades ao procurar emprego ou estabilidade. Nas últimas duas décadas, as exigências financeiras forneceram uma oportunidade conveniente para expurgar estudiosos mais jovens e heterodoxos, embora eles não tenham sido as únicas vítimas.
Há muitos que preferem o sedativo da ortodoxia ao estimulante da heterodoxia, confiando na posição para resolver questões de ciência. Enquanto isso, além dos limites da torre de marfim, as realidades político-econômicas ameaçam se intrometer rudemente nos paradigmas acadêmicos. Forças virulentas colocam em risco a democracia e o próprio meio ambiente. O tempo está se esgotando. Os pretendentes cientificistas brincam enquanto o planeta queima.
