Originalmente publicado no site Viewpoint Magazine.
Tradução por Bruno Bianchi.
Entre outras coisas, a branquitude é um tipo de solipsismo. Da direita à esquerda, os brancos consistentemente e efetivamente redirecionaram toda discussão política à sua identidade. O conteúdo dessa identidade, não surpreendentemente, é sem exame e sem definição. É o falto fundamento do modelo prototípico americano de pseudopolítica.
A forma mais insidiosa de pseudopolítica branca é a culpa branca. Se ela é tão perigosa ou eticamente repreensível quanto o racismo aberto da supremacia branca é uma questão enganosa. Ambas reforçam a ilusão da branquitude.
Em um texto especulativo chamado “O centro caiu e o nacionalismo branco está preenchendo o vácuo”, o autor branco Ned Resnikoff relata com alarme que “membros brancos da autodenominada esquerda radical estão mais próximos do que imaginam do populismo branco de direita”. Considerando que os populistas brancos de direita estão orgulhosamente fazendo saudações nazistas em público e reivindicam Trump como seu herói, isso certamente parece ser motivo de preocupação.
Mas Resnikoff encontra um pouco de dificuldade quando tenta entrar em detalhes sobre essa perigosa “esquerda branca”. O problema, no fim das contas, é que nem todos eles são brancos. A Revista Jacobin, apresentada como o exemplo da esquerda branca, tem como editor fundador Bhaskar Sunkara – eu o vi pessoalmente e ele é mais escuro do que eu. Resnikoff também aponta para uma citação de aprovação feita pelo nacionalista branco Chris Roberts de um artigo da Jacobin escrito por Shuja Haider. Tenho quase certeza de que esse outro Sr. Haider não é branco, pois de fato sou parente dele.
Esses debates, que se intensificaram constantemente desde a eleição de Trump, oferecem aos brancos a oportunidade perfeita para fazer o mundo girar em torno deles. No twitter, os brancos liberais acusam os críticos da política de identidade de ignorar o privilégio dos brancos, enquanto os brancos socialistas respondem apontando quantas pessoas brancas existem nos Estados Unidos.
Nesse meio tempo, ninguém sabe o que fazer com os não-brancos, como eu, que tentam intervir no debate. Até agora, a estratégia dos brancos liberais tem se resumido a uma forma glorificada de enfiar os dedos nos ouvidos e gritar “Não estou ouvindo você!”. Os brancos no twitter continuam a nos acusar resolutamente de sermos brancos, enquanto os conhecidos brancos apontam que não somos. E assim tudo volta ao normal, de volta às pessoas brancas e suas fantasias. Tentamos, por algum tempo, ignorar isso e continuar a discutir as questões substantivas. Mas os brancos tornam nossa vida ainda mais difícil quando afirmam falar em nosso nome. Só posso concluir que o estranho fenômeno chamado branquitude produz uma psicopatologia muito profunda e tenaz, e que é hora de ataca-la abertamente.
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O que Ned Resnikoff demonstra é que a culpa branca tem um lado negro, que eu proponho chamar de “pureza branca”. Ela é um tipo de ideologia de higiene racial que abraça o multiculturalismo e a diversidade, mas tenta eliminar elementos indesejáveis da identidade branca em si mesma.
Da perspectiva da pureza branca, há brancos bons. Eles tem diplomas de ensino superior, escutam a NPR, e possuem muitos amigos racializados[1]. Mas também há brancos ruins. Eles são ruins porque eles provavelmente votaram em Donald Trump. Mas piora. Eles escutam música country e comem carne de criação industrial. Eles estão ofensivamente acima do peso e vão à igreja ao invés do ioga aos domingos. O mais repugnante de tudo é que eles trabalham em empregos manuais sujos e têm uma fixação mesquinha em ganhar mais dinheiro, sem saber que em Harvard um estudante de inglês racializado está sendo forçado a suportar o trauma de ler Huckeberry Finn.
A coisa fica ainda mais complicada porque há alguns brancos ruins que não deveriam ser brancos ruins, como Mark Lilla ou Todd Gitlin. Apesar de sua boa educação e renda, eles não conseguem abraçar a pureza branca. Em vez disso, eles defendem o retorno à política branca das décadas de 1930 e 1940, quando um presidente branco benevolente garantiu um estado de bem-estar social para seus compatriotas brancos.
Como se vê, esses brancos caducos são, na verdade, uma dádiva de Deus para todo o projeto de pureza branca, pois servem para desacreditar qualquer possível ameaça ideológica. Todos os críticos não-brancos da pureza branca podem ser descartados ao se afirmar em alto e bom som que eles são pouco mais do que brancos caducos disfarçados. Seja você negro, árabe, porto-riquenho ou coreano, você precisará ser re-identificado se não cumprir o seu papel.
De fato, para a consternação dos bons brancos, nem todos os não-brancos estão a favor da pureza branca. Muitos estão, com certeza, porque a realidade secreta que a pureza branca espera obscurecer é que os não-brancos são tão capazes de ter uma diversidade de opiniões e perspectivas quanto os brancos. Para que a pureza branca tenha sucesso, os não-brancos precisam ser romantizados como vítimas nobres. Quando eles não se encaixam nessa categoria, a pureza branca parece não ter um fundamento adequado.
Frederik deBoer pergunta, “Será que Resnikoff se importa que as críticas mais ácidas das políticas de identidade que conheço vem de escritores racializados?”. É uma questão que mantém muitos brancos acordados à noite. Mas para o resto de nós, as razões são óbvias. Porque nós vivenciamos o racismo de liberais bem-comportados e bem-educados tanto quanto dos caipiras que eles desprezam; porque nunca nos beneficiamos de atitudes condescendentes e paternalistas dos brancos multiculturalistas; porque reconhecemos no ódio liberal afluente dos brancos pobres o mesmo darwinismo social depravado que em momentos menos públicos é direcionado contra nós.
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“Uma metáfora nunca é inocente”, disse Jacques Derrida. “Ela orienta a pesquisa e fixa resultados”. A metáfora primordial para a branquitude é a mochila, introduzida pela autora branca Peggy McIntosh em seu influente artigo “Privilégio branco: desfazendo a mochila invisível”.
É claro, McIntosh não foi a primeira a tentar descrever as consequências da branquitude. W. E. B. Du Bois famosamente escreveu sobre as vantagens legais e sociais dadas aos brancos em Reconstrução Negra:
Deve ser lembrado que o grupo branco de trabalhadores, ainda que recebam um salário baixo, são compensados em parte por um tipo de salário público e psicológico. Eles recebem deferência pública e títulos de cortesia pelo fato de serem brancos. Eles são admitidos livremente com todas as classes de brancos em funções públicas, parques públicos e nas melhores escolas. A polícia recruta de suas fileiras, e os tribunais, dependentes de seus votos, os tratam com tanta leniência que incentivam a ilegalidade. O seu voto seleciona as autoridades públicas e, embora isso tenha pouco efeito sobre a situação econômica, tem grande efeito sobre o tratamento pessoal e a deferência que lhes é dispensada. As escolas dos brancos são as melhores da comunidade e estão bem localizadas, e custam de duas a dez vezes mais per capita do que as escolas dos negros. Os jornais se especializaram em notícias que elogiavam os pobres brancos e quase que totalmente ignoraram os negros, exceto no que se referia a crimes e ridicularização.
No entanto, o artigo de McIntosh operou em um registro muito diferente da investigação histórica de Du Bois sobre a composição de classe dos Estados Unidos pós-guerra. É provável que McIntosh tenha escrito com a melhor das intenções, com o objetivo de reduzir os comportamentos bárbaros entre brancos. Infelizmente, o efeito de seu artigo foi fornecer aos brancos maneiras novas e aparentemente progressistas de centralizar a política na identidade branca.
Isso porque McIntosh se refere ao longo do seu artigo, de forma intercambiável, a “minha raça”, o “meu grupo racial”, e “minha cor de pele”. O primeiro “privilégio branco” que ela cita é: “Se eu quiser, posso me organizar para estar na companhia de pessoas da minha raça na maior parte do tempo”. Outro é que ela pode “entrar em uma loja de música e contar com a representação de músicas da minha raça”.
Deixemos de lado o que parece ser uma ausência de familiaridade com a história da música popular americana. O que é significativo é a equação de cor de pele, a categoria de “raça” e o agrupamento discreto de seres humanos.
Com essa equação, a culpa branca reproduz a ficção fundadora da raça: de que há um fundamento biológico, expresso em fenótipos físicos, para grupos separados de seres humanos que possuem culturas e formas de vida separadas.
Essa ideia de raça é uma ilusão, que no entanto possui efeitos materiais “reais”. A “raça branca” é uma formação mais específica – uma estrutura política de invenção recente.
Mas a metáfora da mochila serve para obscurecer a realidade da branquitude. McIntosh escreve: “o privilégio branco é como uma mochila invisível sem peso, com provisões especiais, mapas, passaportes, livros de códigos, vistos, roupas, ferramentas e cheques em branco”.
A mochila é carregada por um indivíduo que navega o campo social aberto. Ela contém ferramentas que permitem ao indivíduo navegar nesse campo com maior efetividade do que aqueles que possuem mochilas comparativamente mais vazias. Os recursos contidos na mochila constituem a branquitude como privilégio, porque a mochila é carregada por um indivíduo que pertence à identidade branca.
Se a mochila de privilégios é carregada por um indivíduo já identificado como branco, então a branquitude deve necessariamente ser compreendida como um traço biológico. A falsidade dessa noção é evidente: as pessoas que atualmente são descritas como brancas possuem uma amplitude de linhagens genéticas bastante ampla e completa, muitas das quais anteriormente foram consideradas “raças” separadas (a racialização bem documentada, embora frequentemente esquecida, dos eslavos, italianos, irlandeses, etc.).
Podemos concluir que apenas houve um erro pequeno de descrição: na realidade, a branquitude em si mesma é constituída pelos conteúdos da mochila. A constituição da branquitude como identidade e sua constituição como privilégio são simultâneas: os pertences da mochila conferem não apenas vantagens mas também identidade ao seu portador.
Mas como sabemos, então, que o conteúdo da identidade conferida tem algo a ver com a “branquitude”? Certamente, além dos itens específicos que conferem um privilégio, seria possível encontrar em qualquer mochila de identidade uma infinidade de detalhes arbitrários: comprimento do cabelo, modo de andar, preferência alimentar, habilidades com computadores, etc. Ou seja, para descrever a identidade de um indivíduo, a mochila teria de conter tudo o que constitui o “isso” desse indivíduo particular. Ela não nos ofereceria nenhum insight sobre o princípio organizador que constitui essas características como algo que pode ser chamado de “branco”. Não haveria como distinguir as características “brancas” das humanas, das pessoas da Pensilvânia ou fãs de heavy metal.
Essa é uma falha do pensamento liberal. Uma formação política como a branquitude não pode ser explicada tomando como ponto de partida a identidade do indivíduo – a redução da política à psicologia do eu. O ponto de partida tem que ser a estrutura social e suas relações constitutivas, dentro das quais os indivíduos são compostos. E é muitas vezes esquecido que décadas antes da mochila de McIntosh, o termo “privilégio branco” se originou com tal teoria.
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A teoria do “privilégio da cor branca” foi desenvolvido por membros de um racha anti-revisionista do Partido Comunista dos EUA (o Comitê de Organização Provisória), e teria uma enorme influência na Nova Esquerda e no Novo Movimento Comunista. Uma série de artigos de Theodore Allen e Noel Ignatiev, coletados no panfleto Ponto Cego Branco, ofereceu as formulações iniciais. Os argumentos de Ignatiev e Allen era de que o legado da escravidão era a imposição da supremacia branca pela classe dominante, como um instrumento de divisão de classe. Mas isso era uma teoria política, não cultural ou moral, e sustentava que o “chauvinismo branco” era, na verdade, prejudicial para a classe trabalhadora branca, prevenindo a união com os trabalhadores negros. Então lutar contra o privilégio branco era, de fato, uma parte central do programa político que favorecia a auto-organização de todos os trabalhadores. Vale citar em extensão as considerações iniciais de Ignatiev:
O fim da supremacia branca não é apenas uma demanda da população negra, separada das demandas de classe de toda a classe trabalhadora. Ela não pode ser deixada para a luta isolada da população negra, enquanto os trabalhadores brancos “simpatizam com sua luta”, “apoiam”, “rejeitam ofensas racistas”, etc., mas na verdade lutam por suas “próprias” demandas.
A ideologia do chauvinismo branco é um veneno burguês voltado principalmente para os trabalhadores brancos, utilizado como arma pela classe dominante para subjugar os trabalhadores negros e brancos. Ela tem sua base material na prática da supremacia branca, que é um crime não apenas contra os não-brancos, mas contra todo o proletariado. Portanto, sua eliminação certamente se qualifica como uma das demandas de classe de toda a classe trabalhadora. De fato, considerando o papel que essa prática vil tem desempenhado historicamente para impedir a luta da classe trabalhadora americana, a luta contra a supremacia branca se torna a tarefa imediata central de toda a classe trabalhadora.
Entretanto, à medida que essa linguagem foi adotada pela Nova Esquerda, ela passou por transformações ideológicas consideráveis. O manifesto “você não precisa de um meteorologista para saber para que lado o vento sopra”, que circulou na turbulenta conferência de Estudantes por uma Sociedade Democrática em 1969, propunha uma política centrada na culpa branca em vez da unidade proletária. O Weather Underground[2] usou a linguagem do “privilégio” para rejeitar a classe trabalhadora branca como uma força de mudança revolucionária, e em vez disso associou a luta política com grupos vanguardistas como eles mesmos, que atacavam o próprio privilégio ao adotar um estilo de vida revolucionário. O resultado disso foi a autoflagelação (com explosivos) dos radicais brancos, que se substituíram às massas e, de forma narcisista, concentraram a atenção em si mesmos, em vez de nos movimentos negros e do Terceiro Mundo que diziam apoiar – reduzindo esses movimentos a uma fantasia romântica de insurreição violenta. Em outras palavras, o projeto de autonomia e autolibertação dos negros – que implicava a autolibertação geral dos pobres e da classe trabalhadora – foi efetivamente desativado pela análise da pele do Weather Underground.
Ignatiev impiedosamente atacou a problemática dos Weatherman em um artigo chamado “Sem uma ciência da navegação, não podemos navegar mares tempestuosos”, que hoje é uma descoberta chocante.
A supremacia branca é o verdadeiro segredo do domínio da burguesia e a causa oculta do fracasso do movimento trabalhista nesse país. Os privilégios da pele branca servem apenas à burguesia e, justamente por isso, eles não nos deixam escapar deles, mas nos perseguem com eles em todas as horas de nossa vida, não importa aonde vamos. Eles são uma isca venenosa. Sugerir que a aceitação do privilégio da pele branca é do interesse dos trabalhadores brancos é equivalente a sugerir que engolir a minhoca com o anzol é do interesse do peixe. Argumentar que repudiar esses privilégios é um “sacrifício” é o mesmo que argumentar que o peixe está fazendo um sacrifício quando pula da água, vira a causa, sacode a cabeça furiosamente em todas as direções e descarta a oferta farpada.
A política do privilégio atuais não pode permitir uma posição desse tipo. Em vez disso, ficamos com infinitas variações da posição dos Weatherman, embora sem os apelos à luta armada, aos assaltos a bancos e à teoria do imperialismo de Lênin.
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Os liberais brancos estão sugerindo que uma nova onda de socialistas “pró-brancos” está surgindo para defender a “classe trabalhadora branca”. Isso é uma besteira. Os revolucionários negros ao longo da história americana argumentaram que o projeto de emancipação requer a superação da lógica divisora da identidade. Embora ele caracterize as vantagens materiais da branquitude como “salário psicológico”, W. E. B. Du Bois não reduziu a branquitude ao efeito da psicologia individual. De fato, imediatamente anterior à passagem sobre salário psicológico, Du Bois escreveu:
A teoria da raça foi suplementada por um método cuidadosamente planejado e lentamente desenvolvido, que levou a um distanciamento entre os trabalhadores brancos e negros, a ponto de hoje não existir no mundo dois grupos de trabalhadores com interesses praticamente idênticos e odeiam e temem um ao outro tão profundamente e persistentemente, e que são mantidos tão distanciados a ponto de nenhum deles ver nada do interesse comum.
Se hoje os liberais brancos se recusam a reconhecer esse interesse em comum, e se evadem do programa socialista que Du Bois enfaticamente defendeu, permaneceremos presos dentro do pecado original da branquitude: a aliança dos brancos pobres, abandonados pelas elites do norte, com seu poder reacionário e retrógrado de capital branco.
“O Capitalismo não pode reformar a si mesmo”, escreveu Du Bois. “Ele está fadado à autodestruição. Nenhum egoísmo universal pode trazer um bem social a todos”. Ao contrário dos liberais multiculturalistas de hoje, Du Bois não buscou apenas uma classe dominante mais diversa. Ele reconheceu que a desigualdade persistiria enquanto o capitalismo perseverasse. Só houve uma alternativa à branquitude e sua oferta farpada: a aliança multirracial da classe trabalhadora contra a supremacia branca e a propriedade privada.
[1] No original, “POC [People of Color] friends”. Apesar da tradução literal ser “Pessoas de Cor”, acredito que o termo “racializado” ou “não-brancos” cumprem melhor a função original.
[2] Organização de extrema esquerda fundada em 1969 e que atuou durante os anos 1970 até se desintegrar em 1976.
