A carne se revolta: Akira e a exploração dos corpos sob o capitalismo.

Título original: A carne se revolta: como o horror sci-fi de Akira aborda corpo, artifício e exploração sob o capitalismo

Texto de Meabh Cadigan

Originalmente publicado no site Bloodknife.

Tradução por Giulia Cristiano.


Tornar-se algo além de – ou diferente de – humano, é uma proposta aterrorizante. Não sabemos de onde viemos ou por qual motivo pensamos, por isso nos agarramos a este mistério da identidade humana com mãos apertadas e desesperadas. É esse medo do abandono da santidade envolvendo a identidade humana o cerne de parte significativa do cyberpunk.

Em grande parte da mídia cyberpunk, a perda de humanidade é apresentada como uma escolha. A humanidade pode ser abandonada por poder, físico ou informacional, e os habitantes dos mundos cyberpunks constantemente se deparam com essa fronteira. No jogo de mesa Cyberpunk 2020 original, esse sacrifício da identidade por poder é mecanicamente representado por “cyberpsicopatas”: pessoas que aprimoraram seus corpos de tal maneira que literalmente se esqueceram de como ser humanos. Em O Passageiro do Futuro (1992), o zelador Jobe Smith literalmente deixa seu corpo humano para trás para entrar em um mainframe digital que lhe dará poderes psíquicos imensuráveis. As divisões políticas sobre a ética dos ciborgues e o aprimoramento cibernético também reforçam grande parte do conflito da série de videogame Deu Ex, assim como Deus Ex: Human Revolution (2007), no qual o personagem principal Adam Jensen debate constantemente sua humanidade após ser forçado a receber inúmeras “adições” cibernéticas. O cyberpunk separa o corpo de sua natureza como uma unidade holística e autônoma para explorar a humanidade desumana. O corpo cyberpunk é uma exploração do vale da estranheza, testando os limites do que um “humano” pode ser a conclusões enervantes.

No gênero, entretanto, há um filme em particular que se destaca por sua discussão sobre essa “Theseus’ Ship of the Self,” e por sua abordagem do que significa perder nossa humanidade em um futuro onde poderemos trocar partes de nós por outras melhores e mais eficientes. Na obra-prima de Katsuhiro Otomo Akira (1988), a perda de humanidade não é uma escolha, mas uma nova forma de exploração capitalista no seio de uma sociedade tecnocrática e militarizada. Ao questionar o que acontece quando a humanidade e autonomia nos são retiradas pela força e não pela escolha, o filme questiona a divisão homem-máquina de uma forma mais profunda do que qualquer um de seus homólogos. Também pergunta, e a difícil questão de por que assumimos que as figuras “desumanas” das distopias cyberpunk são assim por escolha.

O filme começa com um desastre: uma explosão nuclear que cria a ruína da qual Tóquio-3 surgirá, uma metrópole microbiana dentro de uma cratera de morte. Após essa morte e renascimento apocalípticos, Akira nos apresenta seus personagens principais e elementos da história em rápida sucessão: os amigos órfãos de longa data Tetsuo (Nozomu Sasaki) e Kaneda (Mitsuo Iwata) são membros de uma gangue indisciplinada de motociclistas que se depara com uma estranha criança com poderes psíquicos sendo recapturada pelas forças militares de Tóquio-3, lideradas pelo Coronel Shikishima (Tarō Ishida). Como resultado desse encontro, Tetsuo acaba hospitalizado, o que o leva a descobrir seus próprios poderes psíquicos recém-despertados, que dois funcionários do governo (Coronel Shikishima e o cientista Dr. Onishi) logo temem que possam rivalizar com os níveis de poder do titular “Akira”, uma ex-cobaia a qual acreditam ter causado a explosão original.

À medida que o poder de Tetsuo cresce, ele o consome, obcecado com a ideia de finalmente sair da sombra de Kaneda. No entanto, ao final de Akira, seus poderes agora totalmente despertados são demais para ele, fazendo com que se transforme em uma horrível massa de carne que muda de forma sem rima ou razão: em um momento é um bebê gritando e no outro uma massa de dedos. A transformação de Tetsuo é o momento decisivo de Akira, a primeira explosão de carne borbulhante e malformada de seu braço, provocando uma gama emocional completa de choque, terror e admiração. À medida que sua mão carnuda cai sob as dobras de sua capa vermelha esfarrapada, Tetsuo revela ser mais que um humano: a fusão entre máquina e homem é rapidamente acelerada até que a forma original de Tetsuo fique irreconhecível. Ele se tornou o não-humano que toda ficção cyberpunk teme. Inicialmente, poderíamos ficar tentados a ler a transformação de Tetsuo da mesma maneira que outras transformações meta-humanas arrogantes no gênero, como um indivíduo cujo alcance de poder excede o que seu corpo suporta, o que os torna desumanos e os priva de sua liberdade. Devemos lembrar, no entanto, que a transformação de Tetsuo não é por escolha – em vez disso, Akira postula sua horrível transformação como o último passo na exploração humana, na qual sua autonomia corporal foi tomada por funcionários de um sistema desumano e até sua própria carne se volta contra ele em um conflito aberto.

É importante notar que Akira não se passa em um futuro distante, como exemplifica sua estética atual-retro-futurista. Da mesma forma que Blade Runner se transformou em passado há dois anos[1], o futuro de Akira é também 2019 – e de fato o filme, com seu sistema educacional subfinanciado, violência policial e protestos nas ruas, militarização aberta da sociedade cotidiana e um governo burocrático que faz vista grossa ao sofrimento do seu povo para encher os próprios bolsos – parece ainda mais recente. Até o mais “progressista” dos funcionários burocráticos de Akira, o Sr. Nezu (Hiroshi Ohtake), tenta escapar da cidade com uma pasta cheia de títulos quando as coisas ficam difíceis demais para ele. O poder individual em Tóquio-3 é algo raro, difícil de encontrar e ainda mais difícil de manter.

Então, quando o poder aparentemente cai em seu colo, não é de admirar que Tetsuo o aceite? Afinal, ele lutou toda a sua vida por comida, abrigo e respeito de seus pares. Porém, como acontece com grande parte da ficção cyberpunk, Tetsuo descobrirá que o poder não é concedido de forma altruísta – assim como o poder em Akira não é uma troca igualitária. Em vez disso, torna-se uma nova forma de exploração, que permite ao Coronel usar Tetsuo da mesma forma que usou Akira: as crianças são ferramentas, não pessoas, e com Tetsuo não é diferente.

Desde a Revolução Industrial, a mecanização e a consequente desumanização do trabalhador são um tema comum tanto na arte como na cultura. Os pintores futuristas do início do século XX criaram obras como Trem Blindado em Ação (1915), de Gino Severini, que mostra soldados em guerra se tornando autômatos sem rosto e a glória do trem blindado usado como ferramenta de guerra, superando a importância de sua identidade individual e personalidade. Severini pinta uma imagem cruelmente comemorativa, ignorando os homens e as vidas no processo de celebrar a máquina da qual eles passaram a ser parte. Marx, por outro lado, alerta para os perigos da mecanização do trabalhador: “O pé é apenas o motor principal da roca de fiar, enquanto a mão, trabalhando com o fuso, puxando e girando, realiza a verdadeira operação de girar. É esta última parte do instrumento do artesão que é primeiramente aproveitada pela revolução industrial, deixando ao operário, além do seu novo trabalho de observar a máquina com os olhos e corrigir os seus erros com as mãos, a parte meramente mecânica do que envolve ser a força motriz.”

Aqui, Marx descreve o horror de ver a própria autonomia ser usurpada pela mecanização, à medida que a mão que trabalha no fuso se transforma de artista em robô, simplesmente fornecendo combustível para a tarefa que lhe foi tirada. Quando o poder dos trabalhadores pode ser explorado por uma sociedade avançada, os humanos tornam-se apenas corpos com os quais operam máquinas; os soldados tornam-se apenas mais uma etapa do mecanismo de disparo; as crianças tornam-se computadores, recipientes a se programar para servir os propósitos daqueles que desejam explorar o seu trabalho.

Em Akira, Tetsuo é um desses trabalhadores – embora não seja o seu trabalho que está sendo usurpado, mas sim seu corpo. O Coronel pretende usar as crianças como armas, para desvendar os seus segredos e voltá-los contra um governo que considera muito frágil e covarde. Essa autonomia roubada é ainda mais reforçada quando Tetsuo finalmente localiza o casulo de Akira abaixo do Estádio Olímpico, apenas para descobrir que Akira não está lá – em vez disso, ele encontra lascas preservadas do cérebro e órgãos vitais de Akira, uma coleção que a certa altura era um corpo humano real, mas agora foi reduzido a pouco mais que um espécime científico.

Mesmo na morte, Akira não está livre das garras do mundo militarizado de Tóquio-3. Seus lenços são guardados até que possam ser usados, como uma arma bruta e limpa, esperando para ser remontada. Seu destino é uma reviravolta com várias camadas, revelando não só a morte de Akira, mas servindo também como uma denúncia à ideia de capitalismo “reformado”. Mesmo em um mundo que supostamente melhorou após as consequências da explosão que destruiu Tóquio, nada mudou. Os poderes constituídos ainda procuram fazer a engenharia reversa da tragédia, mas desta vez, seu trabalho ocorre em locais muito mais secretos, sob condições muito mais sinistras. Não há “reforma” em Akira, apenas punição, como mostram as representações de brutalidade policial aberta que aparecem no pano de fundo da narrativa do filme. Mesmo quando Tetsuo tenta escapar, ele é apenas recapturado e antagonizado, aproximando-o cada vez mais de seu inevitável apocalipse.

Quando esse poder é finalmente liberado – e aquela primeira mão carnuda e malformada cai de trás da capa de Tetsuo – o medo do Coronel não é com a segurança de Tetsuo. A transformação de Tetsuo, o corpo virando-se contra si mesmo e destruindo tudo em seu caminho, sempre foi o objetivo final. O Coronel e o mundo de Tóquio-3 roubam a autonomia de Tetsuo de tal forma, que a arma que ele sempre foi destinado a se tornar, na verdade, se transforma em uma massa de carne que se revolta contra seu suposto mestre. Tetsuo não é um “ciberpsicopata”, como em Cyberpunk 2020, mas sim um símbolo de uma classe explorada, formada de crianças privadas de direitos, transformadas em ferramentas a serem utilizadas para o poder de outra pessoa. Para o Coronel, Tetsuo é apenas um mecanismo de disparo – um mecanismo que irá finalmente enfiar uma bala no crânio da fraca democracia de Tóquio-3. O único problema, do ponto de vista do Coronel, é que o tiro saiu pela culatra. Dessa forma, não é nenhuma surpresa que o final de Akira se incline tanto para o terror corporal. Não há melhor exemplo de um corpo reagindo ao roubo de sua autonomia do que o da carne literalmente se voltando contra si mesma.

O fim de Akira é simultaneamente um prelúdio sobre poder e uma tragédia de um futuro não tão distante em que o corpo não é mais nosso, mas sim uma arma para as guerras daqueles mais ricos e poderosos do que nós. Num sacrifício final, as crianças libertam Tetsuo da massa contorcida de vísceras e sangue à custa de Tóquio, enquanto uma explosão nuclear incandescente destrói novamente grande parte da cidade, espelhando a abertura do filme. A promessa apocalíptica da conclusão não é “reforma”, mas revolução – aquela em que o corpo é reivindicado como um espaço sagrado para o indivíduo.

Assim, a denúncia de Akira à militarização e ao capitalismo é perfeitamente acentuada pelo seu final, em toda a sua glória repugnante e aterrorizante. É um apelo sinfónico, que usa os seus compassos finais de extremismo e hiper violência para nos alertar que o que devemos temer não é a fusão do homem e da máquina, mas sim as pessoas que se beneficiam com tal fusão.

Em última análise, não podemos perder a nossa humanidade a menos que ela nos seja tirada. A ideia de que a humanidade pode – e será – abandonada voluntariamente num futuro cyberpunk é uma distração à qual devemos resistir, pois, se tivermos de escolher entre qual de nós conta como homem e qual de nós conta como máquina, o futuro sombrio de Akira será já aqui.


[1] O texto original foi publicado no ano de 2021.

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